sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A moça desassistida


Ele chegou à oficina em que agendou o serviço no carro com meia hora de atraso, e o gerente, sisudo e resmungão, grunhiu algo como: “é melhor o senhor deixar o carro e voltar mais tarde”. Sabia que era uma possibilidade e, com antecedência, tinha resolvido bancar a aposta, levando consigo dois livros (leitura atrasada àquela altura de sua vida): Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e Ortodoxia, de Chesterton. Porque morava longe, preferia esperar o orçamento e, se fosse o caso, a realização do serviço. E, então, perguntou se haveria um lugar sossegado para ler.

A oficina ficava no limite de dois municípios, um lugar afastado, aparentemente interiorano, e ali havia uma praça, para a qual o resmungão apontou:

— Pode ser ali na praça. É sossegado e seguro.

Ele se encaminhou para lá. Deu uma rápida olhada no local, que estava praticamente vazio, à exceção de duas senhoras com roupas de ginástica, e dois senhores que jogavam damas. Sentou no banco mais próximo, e mal folheava a primeira página, surgiu, sabe-se lá vinda de onde, uma cracuda, falando com os dentes trincados:

— O que o senhor está lendo?

— Um livro para um trabalho que preciso terminar – respondeu, tentando encerrar o assunto.

— Pensei que fosse a Bíblia...

— Não é não.

Ele estava desconfortável, pois há muito tempo não conversava com alguém sob o efeito de drogas — sem contar que nunca havia interagido com um viciado em crack.

E veio a pergunta incômoda:

— O senhor não quer fazer um programa?

Ele vinha evitando o contato visual, e pela primeira vez resolveu se dirigir à interlocutora como de costume, olhando firme nos olhos. Não viu nada; não havia um ser humano ali.

— Não! Muito obrigado pela oferta, mas eu vou recusar, porque realmente preciso trabalhar.

Momentaneamente, suas palavras deram resultado. Ela saiu. Nada pediu. Não se revoltou. Apenas saiu. Ele estava sossegado, achando que não a veria mais, quando ela surgiu, perguntando ostensivamente se ainda estava trabalhando. Ele respondeu que sim, e indagou o motivo de sua preocupação. Ela disse que ele estava atrapalhando, pois queria dormir.

— Aqui? Nesse banco? — Perguntou, olhando ao redor, como que a mostrar a grande quantidade de bancos da praça.

Ao receber como resposta um sim, ele resolveu sair. Não seria possível uma conversa, e ela não o deixaria em paz. Pensou em ir para casa, mas a distância novamente o desencorajou. Então, seguiu em direção a um bar em frente à praça, receoso de que aparecesse outro noiado, com um caco de vidro, exigindo dinheiro. Ele ainda reparou que um idoso, que estava sentado nesse bar, de olho na praça e tomando refrigerante, levantou imediatamente.

Sentiu vontade de um gole, mas lembrou que deveria dirigir. Decidiu por uma garrafa de água com gás e, após pagar, sentou onde antes estava o idoso, que àquela altura estava na praça, fazendo o “cerca Lourenço” na cracuda. Ele ainda reparou que havia chegado outro noiado. Estava deitado num banco. Dois rapazes fumavam uma pedra — e não o edulcorado “cachimbo da paz”, cantado pelo Pensador proselitista marcha lenta.

O cenário não precisava de legenda. Nunca havia visto tão claramente a renúncia à herança civilizacional. Ele reconhecia que havia gente interessada, que investia naquela situação.

Àquela altura, os livros, companheiros diletos, foram esquecidos, ao passo em que ele mergulhava em profunda tristeza.



Fernando César Borges Peixoto
É um advogado niteroiense que gosta de escrever e, até certo ponto, saudosista.