No blog, que a minha filha ajudou a criar, pretendo apresentar crônicas, contos, poesias, fábulas, ensaios e artigos sobre política, economia, Direito, história, educação, sociedade, relações humanas, experiências pessoais e ficção.
sexta-feira, 26 de abril de 2019
A pergunta que não quer LACRAR...
quarta-feira, 17 de abril de 2019
O garçom do atendimento personalíssimo
Enquanto
vários clientes chegavam à Praça de Alimentação, Eurípedes, se não mirava o
olhar no infinito ou fingia ajeitar a meia do pé esquerdo, voltava ao balcão
para perguntar algo nonsense à mocinha do caixa. Às vezes apontava
clientes de longe aos colegas, e quando estavam próximos, chegava mesmo a se
esquivar para não esbarrar-lhes o corpo e evitar fadiga. Para ser atendido por
ele, era necessária muita sorte.
Dali
a quatro meses estaria aposentado — cento e vinte e nove dias, para ser mais
exato —, e negava o esforço para encher os bolsos do patrão. Não precisava mais
daquilo, pensava. Como recebia um fixo, podia dispensar a gorjeta, ainda mais
que a mulher estava bem colocada como merendeira numa escola estadual, e aos
fins de semana fazia salgados, doces e bolos para festas, pelo Dhelmyra
Mini-Buffet.
Há
três anos no Galeto Arisco, sempre desviou chopes e petiscos para conhecidos
que se aventuravam pelos lados do Centro Comercial em que dava expediente. Mas,
em determinado momento, deu zebra, pois o patrão empregou um paraíba neurótico
para fiscalizar e anotar os produtos que saíam da cozinha. No primeiro mês, não
estava esperto e tomou uns quinhentos contos de prejuízo. Um absurdo! Eurípedes
berrou. Berrou muito... E foi por isso que, no dia em que a galera da sinuca
chegou em peso, pedindo chopes a “2 por 1” de forma desinibida, ele quase teve
uma convulsão. Disse que havia sujado, e pediu para falarem baixo, pois poderia
pegar uma justa causa já próximo à aposentadoria.
Em
especial no ambiente de trabalho, era um resmungão mal-agradecido. Aprendera
com um primo, dirigente de sindicato, que patrão é tudo ladrão e explorador, e
que é dever do empregado “entrar na Justiça” toda vez que sair de uma empresa.
O conselho, ele sempre seguira à risca.
Era
contra dividir a gorjeta com a cambada da cozinha que votava em políticos
“nazistas dos infernos”, saudosistas da ditadura fascista, que iriam entregar o
país aos Estados Unidos e trazer de volta a pobreza. Sentia mal-estar ao pensar
que não faria o primeiro voo de avião enquanto um vendido aos ianques estivesse
no poder. E quando indagado o porquê de ainda não ter feito, respondia que
demorava muito recuperar a economia para todos.
O
patrão, que ele tanto odiava, também votava na direita; e sempre o recriminava
pelos processos de reparação por danos morais que Eurípedes moveu contra dois
(ex) antigos clientes do restaurante, acusando-os de racismo. Não o mandava
embora por sentir um grande carinho pelo funcionário, que não sabia explicar.
Mas,
na vida, nem tudo é flores, e esse cônscio senhor de seus direitos, não podia
ver uma nota de um galo (ou uma onça) bobeando no caixa, que dava logo um
perdido; sem contar as mercadorias que frequentemente desviava, numa operação
casada com um vizinho que trabalhava perto do restaurante, e vinha de moto para
pegar o produto do furto, devidamente acondicionado, e deixado num saco de lixo
próximo à lixeira, para divisão posterior.
Certa
vez, questionado por sua mulher, sobre não sentir vergonha de fazer isso, e por
não se colocar no lugar dela, que era uma microempresária, respondeu o que
aprendera com o primo: “estou agindo segundo a moral revolucionária, contra a
moral burguesa. Se você é patroa, ponha as barbas de molho e não chore a
expropriação”.
Infelizmente,
esse é o retrato da inveja e do desprezo pelo empreendedor, que estão
arraigados no sentimento do brasileiro.
Apesar
do mau humor, os colegas de trabalho, muitas vezes vítimas de desconfiança
injusta pelo sumiço de peças de queijo ou de salaminho que ele dava cabo,
juntavam grana para a festa de despedida do Euri, como era carinhosamente
chamado.
Um
dia, porém, a filha do patrão, que depois de sair da faculdade se juntava à mãe
para pegar no pesado, na cozinha do restaurante do pai, viu Eurípedes enfiar
várias porções de franguinho, recém-preparadas pelos ajudantes de cozinha, num
saco de lixo, e o seguiu até vê-lo colocar ao lado da lixeira, acenando para um
motoqueiro que se aproximava. Com o coração na mão, por causa da aposentadoria
iminente, o patrão se viu forçado a demiti-lo por justa causa.
A
situação foi devidamente revertida na Justiça Laboral. O juiz reconheceu que o
coitado teria até cometido falhas, mas apontou que o patrão não poderia
despedi-lo naquele período da pré-aposentadoria, nem tê-lo constrangido no
ambiente de trabalho.
Um
dos fundamentos da decisão, uma pérola jurídica, foi a analogia à “Teoria da
Lógica do Assalto”, da pensadora Márcia Tiburi. Eurípedes foi dispensado pelo
patrão, que continuou pagando seu salário, mas para não ficar mal com a patroa,
foi matar o tempo trabalhando em seu Mini-Buffet. A esposa precisou regularizar
a empresa para contratá-lo — exigência dele —, porque até ali
atuava na informalidade. Logicamente, isso a levou à falência pouco tempo
depois, mas não foi sequer objeto de discussão.
O
proprietário fechou o Galeto Arisco, e foi viver com a família nos Estados
Unidos, aproveitando seu passaporte italiano.
Os
antigos colegas de trabalho engrossaram a lista dos desempregados, e um deles
chegou a ouvir de Euri que “isso é efeito do sistema porco do capitalismo”.
E
ele ainda considerava que a justiça, enfim, havia sido feita em seu caso (!),
pois recebeu uma boa verba indenizatória, fixada por Sua Excelência na
sentença, a título do "constrangimento" sofrido. A decisão,
aliás, sequer foi objeto de recurso, por falta de confiança do requerido
nas instituições que, segundo juram, continuam funcionando.