No blog, que a minha filha ajudou a criar, pretendo apresentar crônicas, contos, poesias, fábulas, ensaios e artigos sobre política, economia, Direito, história, educação, sociedade, relações humanas, experiências pessoais e ficção.
domingo, 8 de maio de 2016
O último ano do sinhozinho
quinta-feira, 5 de maio de 2016
Como estilhaços de granada
Desde muito cedo descobriu que seu
coração era grande. Luzias, Luísas, Cláudias, Carlas, Beatrizes, Lúcias,
Marias, todas tinham morado dentro dele (seu coração) antes de completar 12
anos de idade. Mas, tudo foi diferente com Verônica, o terceiro ou quarto
“primeiro amor” de sua vida.
O enamorado compulsivo apontara seu
radar para a mocinha vistosa e pujante que, na realidade, era uma cavala, com
uma diferença de idade significativa naquela etapa de suas vidas: completaria
15 anos até o fim do ano. Sim, estava atrasada na escola. Culpa dos pais, que
não paravam em lugar nenhum.
Era um menino tímido, mas obstinado,
e logo deu um jeito de se aboletar para o lado dela e das amigas, desenvolvendo
a amizade para curtir o amor platônico mais de pertinho.
Um dia, criou coragem e perguntou se
ela gostava de alguém — era o tipo de pergunta que crianças e adolescentes faziam.
Ela disse que não e foi inconveniente o bastante para devolver a pergunta. Ela,
sabida, sabia. A seu turno, ele enrolou o quanto pode, até que num dia, diante
da insistência dela, aproveitou que seu ônibus estava parado no ponto
recolhendo passageiros para sussurrar em seu ouvido:
— Você, Verônica.
Fingindo-se surpresa, ela falou algo
enquanto ele corria:
— Eu? Jamais poderia imaginar.
Entrou no ônibus envergonhado, após
aquela que não seria a única amarelada que daria em sua vida. Tinha certeza de
que ela não era para ele. Muita coisa, muito tudo. Pensou em nunca mais voltar
à escola, mas não teve jeito.
O tempo passou. Ela nada mais falou.
Lógico! Ele se afastou sem conseguir superar a vergonha. Lógico! Mas, não sem
antes sair para bater com seu coração volúvel noutras freguesias.
Os dias se arrastaram até que,
finalmente, acabou o ano letivo. A potranca saiu da escola porque foi morar na
capital com o pai, recém-separado de sua mãe.
Três anos se passaram, e lá estava
ele deslocado, numa festa americana muito louca — quem frequentou bem sabe como
ficavam as almas depois do mix de frutas, empadão, pastel, biscoitos,
refrigerante, cachaça, vinho de 5ª e vodca de 10ª categoria.
Tinha a galera da maconha tocando
músicas “cabeça” no violão, e os boyzinhos que saíam à caça das meninas que
ficaram a noite toda com alguém que já tinha ido embora àquela altura. Era
quando rolava o famoso “beijar homem por tabela”. Depois de meia-noite já
começava “no woman, no cry”, seguida de músicas de Beto Guedes, 14 Bis, Rita
Lee, Luiz Melodia, e seguia para Ultraje, Paralamas, Barão, Repemê e o
grandioso Lobão, com a indefectível “Me chama”. Quantas vezes, nas madrugadas,
vozes embriagadas não desafinaram aos berros e aos quatro ventos que
nem-sem-pre-se-vê lágrimas no escuro?
Voltando ao nosso herói, ele não
acreditou quando olhou para o lado e viu seu “ex-inesquecível primeiro amor”,
que continuava linda. Foi em sua direção e se preparou para fazer a clássica
pergunta, idealizada por um amigo: “viste alguém que te interessaste?”, quando
um velho conhecido chegou por trás, abraçou e beijou a musa.
Cebola era o seu nome, um zé mané
convencido, fedido, mas que era mais velho, fumava e trabalhava. Quase causou
uma síncope no agora desolado adolescente, que não acreditava que o maior
mentiroso, trambiqueiro, metido a pegador e difamador de meninas estava ali no
bem-bom com Verônica. Inveja? Ciúme?
Cumprimentos trocados, suas vidas
seguiram naqueles infinitos minutos. Até que ela foi ao banheiro e Cebola,
aproveitando para ser insuportável como sempre, achou-o no meio de um grupo de
inteligentinhos e mandou a letra:
- Conhece? Facinha...
O agora rapaz ficou sem voz. Já havia
se apaixonado ao menos umas seis vezes naquele período em que perderam o
contato, mas isso não dava a ela o direito de “fazer aquilo com ele”, não havia
explicação para aquele retorno triunfal às avessas. No momento em que a avistou
seu coração bateu mais rápido e forte. Agora, era só decepção.
Bebeu de uma só golada uma cuba-libre
feita de refrigereco e três fazendas, tomou o violão do maconheiro que acabara
de dizer que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito” e tocou
“Canção da despedida”. Cada acorde, um sofrimento: “Já vou embora, mas sei que
vou voltar...”.
Não. Ele não iria voltar. Aliás,
quase não chegou. Engatou na birita, foi a pé pra casa e não soube nem como
parou em sua cama vestindo apenas cuecas.
A música que tocou não fala de “dores
de amores”, mas de exílio. Só que, sem querer, acertou. Estava no exílio,
afastado e saudoso, não de uma terra, mas daquele tempo da paixão platônica, em
que, no fundo, nutria esperanças em ter para si uma mocinha ingênua com mais
idade que ele. A realidade, àquela altura, era por demais cruel.
Estranhamente, entrava na
adolescência com saudades da infância, daquela inocência de um eterno
apaixonado.
E só havia passado três anos...