Dora Lúcia da Conceição, a Dorinha,
era gêmea de Maria Lúcia da Conceição, a Maricota. Eram as únicas filhas da D.
Conceição, que socorria pelo nome de Eletildes Lúcia da Conceição — procure
abstrair, caro leitor, as confusões causadas pelos nomes das “Lúcias da
Conceição” —, uma preta retinta que coxeava da perna direita.
Mulher digna, religiosa e prendada,
vestia-se com recato e trazia sempre um lenço à cabeça que combinasse com os
vestidos compridos. Cortou um dobrado para criar, sozinha, as meninas, pois o
pai delas, um pescador galego metido a oficial da Marinha, cometeu a gentileza
de sair para comprar cigarros quando ainda não tinham completado o nono
mesversário e jamais retornou à casa para infernizar a vida de quem vivia ao
seu redor, como era do seu feitio.
Empregada doméstica — cozinheira de
forno e fogão —, ela achava que sofria muito quando encontrou um alçapão no
fundo do poço: foi despejada da meia água em que morava com as filhas no Morro
do Salgueiro, em São Gonçalo, e na sequência foi impedida de levar as meninas
para viverem com ela, em Niterói, no quartinho 3x2 oferecido pela patroa —
oferta feita, como se vê, mais para encerrar os atrasos costumeiros da
empregada que para promover a prática cristã de estender as mãos aos
necessitados.
Sem alternativas, foi viver na casa
dos patrões e deixou as meninas sob os cuidados da avó, D. Lúcia da Conceição —
prometo ficar quieto dessa vez —, e de duas tias desempregadas, Veralú e Analú,
ambas Conceição, que viviam com a mãe, sustentadas pela pensão da velha, que
andava mais para lá do que para cá.
O trabalho duro se transformou num
regime semiescravo, pois era a primeira a acordar e a última a se recolher; não
tinha folga, não recebia dispensa nem tirava férias, algo inconcebível para sua
patroa, a socialite Nonata Mascarenhas Paranhos, a Natinha Paranhos, que pagava
os direitos da empregada com o dinheiro contado.
Recebendo parcas visitas da mãe, as
meninas foram crescendo. Sobre o pai, acreditavam que era um herói da Marinha
de Guerra, morto em alto-mar enquanto salvava os tripulantes da Corveta em que
servia, durante uma tempestade. Era o que lhes contara a mãe, e os familiares
tiveram o bom senso de não desmentir.
Numa triste sequência temporal,
primeiro faltou a avó e logo em seguida foi a vez da mãe, em exatos dois meses.
As gêmeas, contavam com onze anos, cinco meses e dez dias, e em meio ao
sofrimento foram afastadas violentamente.
Natinha Paranhos tratou logo de
dividir o espólio de D. Conceição: levou Dorinha para sua casa e despachou
Maricota para ajudar uma prima porra-louca que vivia com a mãe, D. Durvalina,
numa chácara em Saquarema. As tias das meninas ensaiaram uma reclamação, mas
Natinha puxou quatro notas de duzentos reais e, despejando dois lobos guará na
mão de cada uma delas, nada mais ouviu.
As meninas sofreram com a adaptação.
Emagreceram e ficaram amuadas por um bom tempo; só redescobriram a felicidade
no dia em que se encontraram numa confraternização organizada por Natinha para
seus parentes. Mas logo descobriram que não estavam ali para brincadeiras ou
matar saudades, e sim para cuidar dos preparativos, da condução do convescote,
da louçaria e das acomodações dos convivas.
Para a sorte de ambas, havia ao
menos duas dessas confraternizações de família por ano, e foi num desses
encontros que Maricota, a mais esperta, levou anotado o número do telefone da
casa de Deca, a prima de Natinha Paranhos, e o entregou à irmã, para se falarem
quando sentissem saudades. Já na segunda ligação, porém, a sonsa da Dorinha foi
descoberta e levou uns catiripapos e um castigo por desperdiçar os pulsos de
telefone da patroa — a reprimenda de Maricota foi mais suave, feita aos risos.
Alguns anos se passaram e veio o
falecimento de D. Durvalina. Deca, que era homossexual, resolveu morar numa
comunidade de lésbicas em Friburgo, e para evitar constranger Maricota — que
era religiosa como a falecida mãe —, dispensou a moça. Antes, porém,
entregou-lhe generosa soma de dinheiro como sinal de gratidão pelo carinho com
que cuidou dela e da mãe durante aqueles anos.
Maricota voltou a Niterói para
assumir um emprego que Dorinha arranjou em segredo, na casa de D. Josefa
Militão, amiga de D. Miguelina Mascarenhas, mãe de Natinha Paranhos. A idosa,
que havia sofrido uma queda e precisava de cuidados especiais, ficou encantada
com a moça, que chegou para ficar pouco tempo, mas permaneceu até a morte da
patroa. Então, a filha de D. Josefa, Carla Seabra, moradora da Tijuca, a
contratou; e foi na nova residência que Maricota conheceu o futuro marido, um
porteiro do condomínio que trabalhava no horário noturno.
Carla Seabra, muito satisfeita, só
dispensou Maricota anos depois, para trabalhar para seu filho do meio quando
ele foi pai pela primeira vez, porque não confiava na nora para cuidar do neto.
A nora, carne de pescoço, não ficou mais de um ano com Maricota, e a despachou
para trabalhar com uma prima que morava na Lagoa.
Com tantas mudanças, Maricota
angariou mais experiência que Dorinha, que trabalhou na mesma casa por décadas.
Conviveu com milionários descolados, dotados de “consciência social”, daquele
tipo que banca a educação da empregada ao mesmo tempo em que a explora nos
horários, ou a leva em suas viagens para cuidar do café pequeno, como crianças,
lavagem de roupas, despacho de malas etc. Maricota trabalhou para burro, mas
fez faculdade de contabilidade. Nunca exerceu a profissão, embora tivesse o
diploma de pêlo de cordeiro, presente da patroa, enquadrado na parede.
Dorinha completou o segundo grau. Foi
na escola que conheceu Feliciano, seu marido, responsável pelos serviços gerais
da instituição e o homem que realizou todos os seus sonhos, que eram simples.
Ele chegou a admitir que Dorinha levasse a D. Durvalina para morar em sua casa
depois que Natinha decidiu enfiar a mãe num asilo — haviam chegado o ocaso da
anciã e a necessidade de muitos cuidados, e justamente na época do nascimento
do primeiro bisneto de Natinha.
Quando nasceu a sua neta, Dorinha
pediu a aposentadoria, mas Natinha, mandona que só, não aceitou. Concordou em
diminuir o horário de expediente, mas exigiu que continuasse trabalhando em sua
casa para coordenar o serviço das demais empregadas, além de comparecer em
algumas recepções do fim de semana, quando seria remunerada por fora. A
situação, porém, não durou muito. Bastou encontrar outra moça capaz de realizar
o serviço que Natinha a dispensou sem maiores justificativas.
Dorinha ficou satisfeita. Enfim,
havia chegado a hora de curtir a vida ao lado do marido. Estavam sozinhos, pois
os filhos casaram e ganharam o mundo. Para seu azar, porém, Feliciano adoeceu,
e coube a ela cuidar de mais um doente dentre tantos que cuidou no curso de sua
vida dedicada ao próximo. Aquela, aliás, parecia uma sina dos membros da
família Conceição.
Maricota, aparentemente, teve maior
sorte. Após se aposentar, ela e o marido, que já estava aposentado, compraram
uma casa no interior de Maricá, perto da praia — cerca de vinte e cinco minutos
de carro —, e um Fiat Uno conservadão. Como o Senhor não os havia abençoado com
filhos, pretendiam viver naquele paraíso sozinhos até o fim de seus dias.
Mas o destino resolver pregar uma de
suas peças e, após oito meses, Maurício — esse era o seu nome — teve morte
súbita, consequência de um aneurisma cerebral que sofreu enquanto limpava os
caranguejos e tomava caipirinha.
Feliciano faleceu cerca de dois anos
depois, já muito castigado pelo câncer.
Maricota, que havia voltado para São
Gonçalo, perguntou à irmã se não queria viver com ela em Maricá. Disse que a
casa ainda estava lá, meio abandonada, servindo apenas para alugar por
temporadas. Poderiam ver gente nova, ir à praia, à lagoa.
Dorinha aceitou e lá se foram as duas
viverem juntas novamente, e passaram alguns anos naquela vidinha sem graça, com
a rotina quebrada apenas nos dias de Feira e de Missa.
Certo dia, Dorinha estranhou que a
irmã tivesse acordado tão cedo, pois não estava no único quarto da casa, onde
dormiam. Ainda não eram três da manhã. Ela se levantou para fazer o xixi da
madrugada e, ao caminhar meio trôpega pelo corredor, deparou-se com o corpo de
Maricota caído, com uma poça de sangue ao lado, escorrido da cabeça,
provavelmente machucada ao bater na quina da mesa de jantar enquanto desabava,
em razão do infarto fulminante posteriormente diagnosticado.
Quase sem acreditar, e apavorada,
Dorinha sentiu uma dor lancinante no peito e foi se alojando, lentamente, ao
lado do corpo da irmã até cair igualmente morta, de infarto, logo após, quem
sabe, perceber que viver não faria mais nenhum sentido, pois não lhe havia
restado mais ninguém para cuidar.
Fernando César Borges Peixoto
Advogado,
niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista