Marcella Policarpa, segunda filha dos
Almeida – depois ainda viriam os meninos, Viriato Jr. e Pompeu –, conheceu
Augustinho no verão de 1990, num sábado de sol, na praia lotada. A moça,
bobinha para os dezoito recém-completados, recheava com pujança a peça do
recatado maiô que sua mãe, Lucrécia, católica tradicionalíssima, impunha a ela
e à irmã. Morava no mesmo bairro da praia e tinha saído com as amigas de
colégio — os pais a haviam deixado ir naquele dia, excepcionalmente, porque não
puderam viajar para Araruama no fim de semana, já que dona Anastácia, a avó
paterna, havia adoecido e precisava do filho e da nora na capital. Como
condição, teve que levar os irmãos mais novos, de onze e seis anos.
Augustinho fumava maconha com sua
gangue de desajustados quando, de longe, avistou a delicinha. Feio de doer,
disse para si próprio que tentaria faturá-la, sem saber que ela, que até ali só
tivera paixões platônicas, estava prontinha pro abate.
Ele alcançou Cella – assim era
chamada em família – por intermédio dos irmãos. Após observá-la levando-os à
beira do mar e admoestando-os sobre seus perigos, ele se aproximou e começou a
fazer estruturas disformes com a areia molhada sobre a areia seca. Olhou para
as crianças, disse que estava construindo um castelo e perguntou se não queriam
ajudar. Eles concordaram; ela achou o gesto simpático e ficou aliviada ao ver
que as crianças ficariam ocupadas com a “construção” e o mar não representaria
uma ameaça.
Meia hora depois, ele entregou os
meninos, que trazia pelas mãos; ela conversava distraída e nem atinou que o
estranho poderia tê-los levado consigo. Mal sabe você, caro leitor, que
verdadeiro sequestro ocorreria tempos mais tarde, não da forma descrita na
tipificação penal: o bom senso, o ânimo, o sentido de união e até valores de
alguns membros da família seriam sequestrados por aquele psicopata.
Ele agradeceu por confiar-lhe os
anjinhos. Lamentou devolvê-los, mas precisava ir, pois morava na periferia e
estava tarde. Perguntou onde estudava; o que fazia; e se poderia encontrá-la
novamente. Ela respondeu que sim, poderiam se encontrar; estava no último ano
do Santo Ignácio, no turno da manhã; às terças lanchava no Burgão da Praia, lá
pelas três da tarde, e às quintas pegava um cineminha e depois ia tomar sorvete
na lanchonete Positano. Completou afirmando que só ia à praia no meio da
semana, e com a irmã mais velha, quando ela estava de folga.
O caboclo pensou longe nesse momento.
Conheceu menina de família estruturada, respeitosa e respeitável, totalmente
diferente das barangas, hippies e drogadas que costumava frequentar; e teve a
sensação de que valia o investimento, pois certamente obteria vantagens no
futuro. As informações ficaram gravadas na mente daquela figura com memória de
elefante, faro de cão e rapinagem de águia; naquele momento ele creu que havia
acertado o milhar. Investiria para buscar ajuda moral e financeira por toda a
vida. — exatamente o que aconteceu, como será contado adiante.
Encontraram-se algumas vezes e a
conquista não foi difícil. Começaram a namorar às escondidas, mas, observando
desconfiada as saídas rotineiras, a mãe exigiu que levasse os irmãos ou não
sairia mais. Ela levou, e as crianças, que já lhe eram simpáticas, também foram
seduzidas pelo Don Juan do subúrbio. Nada contaram à mãe.
Quando Cella levou Augustinho para
conhecer os pais, o caminho estava aplainado: a moça, apaixonada; os irmãos
menores, cúmplices, fizeram lobby em seu favor; e o sogro foi conquistado de
cara. A sogra, vendo o marido entusiasmado e a filha feliz, não ousou se opor,
apesar da velha pulga incomodar atrás da orelha.
Augustinho se afastou dos amigos e
parou de fumar maconha, mas continuou tomando álcool destilado escondido. O
cheiro disfarçava mascando cravo; os olhos vermelhos e esbugalhados,
características de quando estava bêbado, passavam despercebidos diante das
guardas arriadas; a fala enrolada também não chamava a atenção porque era
naturalmente assim.
Não demorou muito, foi marcado o
casamento. A notícia das bodas foi comemorada por quase todos, sendo as raras
exceções: a mãe, que continuava incomodada sem saber por quê; o menino mais
velho, Viriatinho, agora com doze, quase treze anos, que sentiu que a irmã
mudou para pior desde a chegada do cunhado; o noivo da irmã, Lurdinha, a
primogênita do casal, que o achava um canalha; e uma tia bastante vivida que
não gostava da aura dele, mas suas opiniões não eram respeitadas por ser uma
porra-louca. Qualquer outro que percebeu aquele exemplo clássico de alpinismo
social calou-se para sempre, e o enlace correu naturalmente.
A noiva fez o enxoval sob a gerência
da mãe; o pai patrocinou tudo, pagou das taxas e emolumentos até o aperitivo
final da festança, providenciando, ainda, convites, flores, aluguel do salão e
até o terno do pai do noivo — não fosse assim, o velho não compareceria.
O noivo, da sua parte, levou para o
casamento o peru e uma dívida de cinquenta cruzeiros de cana, cerveja e fichas
de sinuca que estavam penduradas há meses no Bar e Sinuca do Seu Nicanor.
Foram morar numa das casas que Seu
Viriato um dia deixaria de herança para os filhos, e que alugava para ajudar a
compor a renda familiar.
Em menos de um ano nasceu José, o
primeiro filho do casal, com síndrome de down. A falha genética foi descoberta
no ultrassom, e Augustinho tentou de tudo para convencer a esposa a abortar.
Com muito custo, ela considerou assassinar o filho em seu ventre, mas foi
demovida do ato abominável pela radical contrariedade da mãe, que ainda exercia
alguma influência sobre ela.
Após o nascimento, o pai mal
disfarçava o desprezo pela criança. Porém, percebendo o carinho e os cuidados
que os avós lhe dispensavam, mudou o comportamento, encarando a situação sob
nova perspectiva. Acostumado a fingir, representou a personagem de um pai
exemplar, com o intuito de obter vantagens. Passou a pedir dinheiro ao sogro,
alegando que não conseguia cobrir os gastos com a criança, e ato contínuo
começou a voltar à casa de madrugada, chegando até a agredir Cella fisicamente
algumas vezes. Ela, logicamente, escondia tudo da família.
O genro explorou a bondade do sogro
até ver a documentação da casa transferida para seu nome e o de Cella, que
algum tempo depois faleceu de forma repentina e misteriosa, acometida de
moléstia que nem uma junta médica conseguiu diagnosticar.
Certo dia, alegando que não reunia
condições de criar José, Augustinho entregou o menino à sogra, prometendo que
não o abandonaria por muito tempo; queria apenas acertar o rumo após a desgraça
que se abateu sobre sua vida. A avó queria isso mesmo, apesar de saber que
acolheria o neto num lar onde já não reinava a paz, pelas inúmeras brigas entre
ela e Viriato por causa do genro que o marido tanto amava — Viriato impediu a
exumação no corpo de Cella para descobrir a verdadeira causa mortis; não
queria ferir os brios do viúvo, que sofrera a perda da esposa, com acusações
infundadas. Lucrécia sabia que o neto viveria num lar onde já não reinava a
paz, pois as brigas com o marido por culpa do genro que ele tanto amava havia
destruído a relação entre eles. E Viriato sequer observou o adolescente
Viriatinho, que não parava em casa e dava sinais de envolvimento com álcool e
drogas; nem o afastamento dos outros filhos.
Augustinho, pilantra que só,
conseguiu vender a casa através de um trambique, pegou o dinheiro e ganhou o
mundo. Jamais se soube dele novamente.
O sogro, amargurado, mas sem nutrir
maus sentimentos contra o genro, teve morte súbita, sentado, olhando o tempo.
Lucrécia viveu sem viver enquanto cuidava de José, preparando-o para levar uma
vida dentro da possível normalidade, sem cuidados excessivos e desnecessários.
Aguentou até ele atingir a maioridade e logo em seguida sucumbiu.
Coube a Lurdinha a guarda do rapaz
após o passamento da mãe.
Apesar de tudo, José era uma lufada
de frescor na vida dos tios e, aos trancos e barrancos, agregava os tios nas
reuniões familiares, mantendo aproximados os cacos que restaram daquela família
que um dia fora estruturada, invejável e feliz.
Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de
certa forma, é um saudosista.
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