domingo, 26 de abril de 2026

A Curva de Laffer e o inadimplemento privado: quando cobrar demais significa receber menos

 

O economista Arthur Laffer desenvolveu a teoria sobre a curva que estabelece um limite para além do qual o aumento da carga tributária produz efeito contrário ao objetivo da tributação: a arrecadação cai porque o contribuinte prefere correr riscos a ter o empreendimento inviabilizado. Então, ele sonega, migra para a informalidade, diminui a produção, deixa de produzir ou simplesmente busca um local menos hostil. Assim, entre os extremos de alíquota zero e alíquota de cem por cento, existe um ponto ótimo que, uma vez ultrapassado, inaugura a zona de ineficiência.

Essa lógica, concebida para o campo tributário, encontra correspondência precisa no universo do crédito privado, e compreendê-la é fundamental para entender por que o Brasil convive com 81,7 milhões de inadimplentes.

Quando o custo total da dívida se torna desproporcional à capacidade de pagamento do devedor, cria-se um ambiente que desestimula o adimplemento. Juros contratuais elevados, multas excessivas e crescimento exponencial do saldo devedor, especialmente quando somados à retração da renda e à instabilidade econômica, reduzem progressivamente a probabilidade de quitação. O devedor, nesse cenário, não deixa de pagar por má-fé. Sua desistência decorre de uma decisão racional de sobrevivência.

Alguns estágios podem ser identificados nesse processo. Na zona de confiança, o devedor mantém o adimplemento ainda que mediante sacrifícios. Na zona de estresse, começa a priorizar obrigações essenciais — moradia, alimentação, serviços básicos — em detrimento das dívidas financeiras. Na zona de saturação, diante da inviabilidade objetiva, desiste de considerar a dívida um compromisso exigível. Ou seja, enquanto a dívida se mantém em patamar economicamente suportável, e o devedor percebe que seu sacrifício o conduzirá à quitação, ele vai cooperar ajustando o consumo e reorganizando a vida financeira. Esse é o ponto ótimo da Curva de Laffer, aqui entendido como zona de confiança. Contudo, ao atingir o ponto de saturação, quando o custo da dívida ultrapassa de forma evidente a capacidade de geração de renda, o esforço do devedor em pagá-la praticamente desaparece.

O fator determinante para esse colapso é, em geral, a combinação entre estagnação de renda e encargos que superam a capacidade de geração de recursos do devedor. Os juros excessivos não apenas tornam a dívida impagável — eles aceleram o caminho até a saturação, antecipando a perda de qualquer perspectiva de quitação.

A partir desse ponto, instala-se um comportamento defensivo que a prática jurídica conhece bem: alienação de bens, encerramento de contas, interposição de terceiros e fuga de qualquer tentativa de negociação. Juridicamente reprovável, essa reação revela, na essência, adaptação racional a um ambiente de inviabilidade econômica.

Há ainda um componente subjetivo que não pode ser ignorado. Quando o devedor percebe o credor como agente oportunista ou como peça de uma estrutura que o explora, a inadimplência deixa de ser encarada como falha pessoal e passa a ser vista como forma legítima de autoproteção. Essa inversão moral torna a negociação ainda mais difícil e o ciclo ainda mais difícil de romper.

O paralelo com Laffer é inevitável: assim como o Estado arrecada menos quando tributa além do suportável, o credor recupera menos quando cobra além do pagável. O ponto de saturação do devedor é, em essência, o ponto ótimo da curva ultrapassado no sentido inverso. O resultado, em ambos os casos, é a ineficiência do sistema.

Compreender esse mecanismo não é exercício acadêmico. É condição para o desenho de políticas de crédito e mecanismos jurídicos que sejam eficientes sem serem predatórios, e que não destruam a relação obrigacional antes que ela cumpra sua finalidade.

 

Fernando Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador que gosta de escrever e que, de certa forma, é um saudosista


O Escândalo do INSS: fraude contra vulneráveis e o colapso dos mecanismos de controle

  

Recentemente, vieram a público as investigações sobre o “Escândalo do INSS”, envolvendo empresas do sistema financeiro e ao menos onze entidades sindicais e associativas. Foram apurados descontos ilegais decorrentes da contratação não autorizada de empréstimos consignados e filiações compulsórias fraudulentas, que lesaram aposentados e pensionistas. Há, ainda, indícios de conexões políticas, revelados pela proximidade entre agentes públicos e as estruturas investigadas, além da possível influência sobre os mecanismos de controle e fiscalização.

Chama a atenção a ausência de cautela do INSS, que deveria ter identificado o aumento abrupto de descontos nos benefícios de quem, em regra, já não exerce atividade laboral. A ausência de medidas preventivas para proteger seus segurados, neste caso, não é detalhe, mas parte do problema.

Feitas essas observações, não há dificuldades em reconhecer que as operações de crédito configuram relações de consumo. Mais delicada é a análise quanto à natureza da relação entre sindicatos, associações e seus filiados. O STJ, no REsp 1.150.711/MG, admitiu a existência de relação consumerista quando sindicatos atuam como fornecedores de produtos ou serviços aos filiados, orientação já pacificada em relação às associações.

Sob a ótica jurídica, o CDC pode ser usado como parâmetro normativo, e o art. 39, III e IV, veda o fornecimento de produtos ou serviços sem solicitação prévia e a exploração da vulnerabilidade do consumidor para induzi-lo à contratação. Soma-se a isso a Lei 14.181/2021, que regulou o superendividamento e reforçou a proteção ao estabelecer que a pessoa natural de boa-fé não pode ter seu mínimo existencial comprometido pelo pagamento de dívidas. Essa garantia foi violada nas situações descritas, já que os rendimentos dos beneficiários da Seguridade Social são, em regra, insuficientes para cobrir despesas básicas.

Há, contudo, um ponto que merece atenção. O CDC não incide diretamente no caso. As obrigações sequer ultrapassaram o plano da existência, não havendo relação de consumo formalmente constituída. Mas isso não significa que os agentes privados envolvidos estejam fora do seu alcance. A vedação às práticas abusivas funciona como diretriz de controle da conduta de todos os agentes que atuam no mercado de crédito e nos sindicatos e associações que prestam serviços. Em outros termos, a Lei Consumerista não incide sobre contratos inexistentes, mas incide sobre a conduta dos agentes privados que participaram do esquema.

A resposta institucional não foi a esperada. Ao anunciar o ressarcimento dos prejuízos com recursos do Tesouro Nacional, o Presidente da República transferiu à coletividade o ônus oriundo de falhas sistêmicas e de ilícitos praticados contra segurados vulneráveis, sem enfrentar, com o mesmo ímpeto, as causas estruturais do problema nem apurar devidamente as responsabilidades no âmbito cível, penal e administrativo. Agrava o quadro a notícia da prática de condutas ostensivas por autoridades que estariam envolvidas no esquema, interferindo nas investigações para dificultar a apuração dos fatos, promovendo uma "operação abafa", o que reforça a percepção de ineficiência dos mecanismos de controle e alimenta a sensação de impunidade que corrói a confiança da sociedade nas instituições.

Todos os agentes envolvidos podem ser responsabilizados, cada qual sofrendo as consequências próprias. No âmbito penal, as condutas ajustam-se, em tese, ao estelionato, à apropriação indébita e à associação criminosa. Na esfera cível, pela reparação integral dos danos causados às vítimas. Aos agentes públicos que se omitiram ou facilitaram as fraudes, aplicam-se as sanções da Lei de Improbidade Administrativa. Às instituições financeiras, sindicatos e associações envolvidos, somam-se as sanções administrativas dos órgãos reguladores — Banco Central e CVM — e a responsabilidade objetiva perante os consumidores lesados. A gravidade e a escala do esquema justificam a aplicação rigorosa e proporcional de sanções, pois houve comprometimento da higidez do sistema financeiro e da regularidade institucional de sindicatos e associações. É preciso que fique claro que a vulnerabilidade dos mais fracos não será impunemente explorada.

O cenário revela a disfunção estrutural que atravessa o sistema de proteção ao consumidor, a regulação do mercado de crédito e a integridade da máquina estatal. É necessária uma resposta firme e coordenada entre Judiciário, Ministério Público e setores da Administração Pública, inclusive Banco Central e CVM, responsáveis pela supervisão do sistema financeiro. Sem isso, o há o risco de  reduzir o sistema normativo a um conjunto meramente simbólico de regras escritas, incapaz de coibir esquemas como este. A sociedade tem urgência de reformas estruturais nos mecanismos de controle e fiscalização, porque sabe que nada será feito quando os ânimos arrefecerem, senão a preparação para aguardar novo escândalo, como sói acontecer no Brasil. O momento exige não apenas a punição dos responsáveis, mas a restauração da confiança nas instituições, o que inicia na demonstração inequívoca de que nenhum agente, público ou privado, está acima da lei.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador que gosta de escrever e que, de certa forma, é um saudosista

 


sábado, 25 de abril de 2026

STJ flexibiliza requisitos para citação por edital na via dos recursos repetitivos

 

A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça concluiu o julgamento do Tema Repetitivo nº 1.338 e, à luz do art. 256, § 3º, do CPC, definiu se a validade da citação por edital exige o esgotamento prévio de diligências extrajudiciais para a localização do réu.

O dispositivo legal permite a consulta a cadastros de órgãos públicos ou de concessionárias de serviços públicos, a fim de esgotar as tentativas de localização da parte ré antes de considerá-la em local incerto ou ignorado. No julgamento dos recursos afetados (REsp 2.166.983/AP e REsp 2.162.483/AP), ocorrido em 27/03/2026, foram fixadas as seguintes teses:

1. A expedição de ofícios a cadastros de órgãos públicos ou a concessionárias de serviços públicos não é requisito obrigatório para a validade da citação por edital, competindo ao magistrado, à luz das circunstâncias do caso concreto, avaliar a suficiência das diligências realizadas e motivar a conclusão quanto ao esgotamento razoável dos meios disponíveis.

2. Considera-se atendido, em regra, o requisito do art. 256, § 3º, do CPC quando infrutíferas as tentativas de localização do réu nos endereços constantes dos autos e naqueles obtidos por meio dos sistemas informatizados de pesquisa à disposição do Juízo, sendo desnecessário o esgotamento de todos os meios extrajudiciais ou a expedição de ofícios a empresas privadas de serviços públicos.

Portanto, sem desconsiderar o caráter excepcional da medida, a Corte Superior estabeleceu que, após realizadas consultas infrutíferas através dos canais de pesquisa informatizados disponíveis ao Judiciário, cabe ao magistrado decidir, casuisticamente (e observadas a eficiência, a proporcionalidade e a duração razoável do processo), entre determinar a citação por edital ou realizar diligências adicionais, desde que verificada sua utilidade concreta.

Na prática, foi flexibilizada a obrigatoriedade do uso de meios extrajudiciais para encontrar o réu e, com isso, autorizar a citação por edital. A orientação é no sentido de que não se trata de pré-requisito automático para a citação editalícia, estando o magistrado desobrigado do dever de expedir sucessivos ofícios aos órgãos públicos e às concessionárias antes de autorizar o ato.

Cumpre ressaltar, por fim, que até a publicação deste informativo, a decisão ainda não transitou em julgado.


terça-feira, 10 de março de 2026

Impressões acerca de um minidocumentário sobre a imigração italiana no Brasil

 

 

Algumas narrativas parecem buscar mais a emoção do espectador do que a compreensão equilibrada dos acontecimentos. Recentemente, assisti a um curta-metragem divulgado por uma federação de raízes italianas, dedicado à imigração italiana no Brasil. Trata-se de uma produção de forte clamor sentimental, mas é impossível não perceber o forte viés ideológico presente na interpretação histórica apresentada.

 

Em verdade, o roteiro sucumbiu à tentação da militância ao sugerir que a elite brasileira financiou e incentivou a vinda dos europeus "imbuída de uma ideologia de branqueamento da população". Foi ignorado quase completamente outro fator histórico relevante: a busca por mão-de-obra qualificada para colonizar e desenvolver atividades produtivas na enorme quantidade de terras devolutas, e atender a demandas nas cidades. O Brasil vivia, naquele período, um momento de transição econômica e social, marcado pelo fim do regime escravagista.

 

A interpretação adotada, embora encontre defensores na literatura acadêmica contemporânea, revela-se excessivamente reducionista.

 

Além disso, o minidocumentário sugeriu que os imigrantes foram enganados pelo governo brasileiro e por intermediários interessados em lucrar com o "comércio" daqueles que se aventuraram a cruzar o oceano porque não lhes restava nada em seu país de origem, a não ser a fome e a falta de perspectivas decorrentes das crises econômicas que se seguiram após a unificação da Itália.

 

Realmente, há registros de exploração, abusos e promessas não cumpridas. Contudo, embora eu não seja historiador nem pesquisador, é possível, com a utilização do método empírico, apresentar outras perspectivas através de experiências distintas, baseadas em relatos que ouvi ao longo da vida. Inclusive pelo fato de que os imigrantes não eram apenas trabalhadores do campo, mas também operários, comerciantes, artesãos e profissionais especializados ou liberais.

 

Um exemplo foi contado pela minha sogra, descendente da família Melotti. Segundo ela, quando seus antepassados chegaram em Santa Teresa, Município do Espírito Santo, receberam terras conforme prometido pelo Estado. A região era coberta por mata fechada e, no início, a vida era extremamente difícil. Ainda assim, a possibilidade de cultivar a própria terra oferecia uma perspectiva concreta de prosperidade por meio do trabalho e da poupança, já que a propriedade era vista como um instrumento de liberdade.

 

Outra experiência semelhante foi a vivida pelos pais da minha avó paterna, descendente das famílias Carraro e Zanutto, que também se estabeleceram, coincidentemente, em Santa Teresa, mas no bairro histórico da Cidade do Rio de Janeiro, onde fica o nascedouro que abastecia o aqueduto conhecido como Arcos da Lapa. Seguiram, porém, caminhos distintos: não se dedicaram à agricultura, mas às atividades do comércio e da indústria, setores igualmente vitais da economia urbana, ignorados em nome da fixação ideológica pela narrativa do conflito rural.

 

Há mais um aspecto pouco explorado no documentário: a raiz cultural europeia comum. A proximidade civilizacional entre italianos e portugueses certamente facilitou a integração. Embora preservassem seus costumes e tradições, os imigrantes italianos adaptaram-se paulatinamente ao idioma e acabaram formando comunidades relativamente estáveis e integradas ao tecido sócio-cultural brasileiro.

 

Nada disso significa negar a existência de exploração por políticos e empresários gananciosos, desprovidos de senso moral, nem ignorar as dificuldades, injustiças e conflitos enfrentados pelos imigrantes. Como sói ocorrer nos processos migratórios, esse também foi marcado por tensões sociais e econômicas.

 

Contudo, reduzir a história da imigração italiana a uma narrativa exclusivamente pautada pela exploração ou pela manipulação, tende a obscurecer a diversidade real das experiências vividas por aqueles que participaram desse processo. A realidade histórica raramente se ajusta facilmente aos esquemas reducionistas desenhados pelo discurso militante.

 

Talvez esse seja o maior desafio: compreender que a realidade social não se organiza em categorias tão nítidas quanto aquelas narradas nos discursos ideológicos. A história, como a própria existência humana, costuma ser complexa, ambígua e cheia de nuanças.

 

O pensamento dicotômico e polarizado, que hoje contribui para esgarçar o tecido social brasileiro, também se manifesta nessas releituras históricas pautadas no vitimismo e na exploração do homem pelo outro. Isso precisa ser superado. A leitura do passado exige disposição para aceitar que ele raramente irá se amoldar às nossas expectativas.

 

Diante disso, parece mais prudente confrontar diferentes fontes, comparar narrativas, ler as entrelinhas e reconhecer que processos históricos amplos produzem resultados variados e, por vezes, contraditórios. Não faz sentido distorcer os acontecimentos apenas para encaixá-los em uma narrativa pré-concebida.

 

No caso da imigração italiana, não houve uniformidade de experiências entre os que cruzaram o oceano, sobretudo porque esse processo incorporou perspectivas distintas vivenciadas segundo as circunstâncias e as escolhas de cada indivíduo envolvido.

 

Compreender o passado exige, portanto, mais do que recorrer a fórmulas interpretativas para produzir uma história prêt-à-porter. Exige honestidade intelectual para reconhecer que a história verdadeira se constrói no terreno das realidades humanas – e que, por isso, não pode ser amputada para servir às conveniências de uma ideologia.


sábado, 10 de junho de 2023

Meu sovaco cresceu

 

Dia desses achei algumas velhas notas fiscais da farmácia. Constatei algo incomum, misterioso, catastrófico: meu sovaco cresceu.

Fiz contas de somar, multiplicar, diminuir e dividir, usei o bom e velho “novesfora”, e percebi que até pouco tempo eu comprava, mensalmente, um ou dois frascos a menos de desodorante.

No país em que notórios criminosos são tratados como suspeitos e inocentados mesmo após a decisão penal condenatória ratificada em várias instâncias, e onde vige o proveitoso e imprescindível Código de Defesa do Consumidor, seria impossível responsabilizar judicial e civilmente as instituições regulatórias, porque são democráticas de direito e continuarão funcionando para todo o sempre (amém!).

Muito menos será culpada a multinacional de produtos de higiene pessoal que, dentre suas inúmeras preocupações com as causas sociais, fez lobby para acabar com o sofrimento de militantes com a pobreza menstrual, exigindo de seus pupilos estrategicamente incrustados no Congresso, que lutem (como uma garota!) para que o Estado supra essa deficiência.

É só coincidência o fato desses produtos estarem disponíveis para pronto atendimento da grande demanda gerada, como todas as coincidências com as necessidades urgentes de um Estado preocupado com a população, como um dia foi a gloriosa tomada de três pinos.

Tudo, sempre, pelo bem da população e do consumidor!

Afinal, grandes empresas devem estar sempre alertas para tais situações.

Além disso, não se espera outra coisa do pessoal do marketing que prega o respeito à Amazônia, à humanidade, às tão sofridas minorias, que não o respeito aos direitos da clientela, até porque poderiam se ver submetidas à rigorosa admoestação das personalidades iluminadas e supremacistas que azeitam a máquina pública, cujas instituições, repito, funcionam muito bem, obrigado.

Sim, empresas que prezam pela filantropia estão acima de qualquer suspeita, elas exigem que o mundo seja um lugar melhor – pouco habitado, onde todo idoso para gozar do direito de viver deve ser milionário e poucos possuam propriedades, sem doenças, pois erradicadas por vacinas, sem religião, mas com religiosidade, e com pervertidos sem sexo definido.

Por isso é ilógico pensar em diminuição da quantidade dos produtos ante a manutenção de preços ou a lesão deliberada ao consumidor. Não custa relembrar a existência de instituições e do Código protetor, tão zelosos, além da agenda ESG aplicada pelas próprias organizações, extremamente éticas, atuando para desencorajar essa prática.

Voltando ao ponto inicial, após distração provocada por tanta bondade e generosidade, cabe a mim, mero mortal de uma vida miserável que espera a salvação em Cristo, ajoelhar e pedir a Deus para impedir que o sovaco (ou subaco) continue crescendo, pois não teria lugar para guardar tantos frascos em minha humilde residência. (Que em breve poderá deixar de ser minha.)

João Capado e o Benfica Freyre Club

 

- Priiiiii! Priiiiii! Priiiiiiiiiiii!

Maninho ouvia o apito final e saía de campo desolado: o Benfica Freyre Club acabava de levar outra piaba, agora de 5x1 para o Noroeste de Altos e Baixos.

Assumiu o time naquela semana e mal tivera tempo para conhecer os jogadores. Repetiu a escalação do técnico anterior por achar que o conjunto falaria mais alto na hora de enfrentar um dos lanternas do campeonato.

Não conseguia entender como aquele time, com um elenco formado de grandes jogadores, não conseguia emplacar.

João Carlos Marques, o técnico substituído, era endeusado pela imprensa local, e o presidente do time era o Prefeito, sem o qual o desenvolvimento jamais teria chegado àquelas bandas, e talvez nem houvesse um campeonato tão concorrido, dada a grandeza dos escretes que ele montava sem poupar dinheiro. O seu próprio dinheiro, diga-se.

Não havia como explicar que o time com os melhores jogadores, a maior estrutura, os melhores salários, as maiores regalias, os maiores patrocínios, pudesse patinar no meio da tabela, protagonizando apresentações vergonhosas em sua sede, talvez um dos melhores estádios – e gramados – do Estado.

No dia da reapresentação, antes mesmo do treino tático, ele chamou um por um dos jogadores e perguntou o que eles achavam do que estava acontecendo. Várias foram as informações colhidas, mas a principal veio de dois jogadores: Fubazinho, um garoto que era o craque do time, e Espeto, o jogador mais experiente.

Fubazinho disse que João Carlos Marques insistia em colocá-lo como segundo homem de campo, indo e voltando para marcar, quando a sua principal arma, aquilo que fizera a sua fama, era a visão de jogo, a enfiada de bola e o ataque fulminante, pois chutava com as duas, uma de cada vez, logicamente.

Espeto disse que o antigo treinador parecia escalar o time para perder. Ele entendia que o “professor” agia assim apenas para atingir o Prefeito, que era um político conservador muito querido na região, mas adversário político do Sr. Tobias, um trotskista inveterado que criou João Carlos Marques, cujo pai era alcoólatra, batia em sua mãe e não evitou que alguns de seus irmãos morressem de inanição.

O seu Tobias cuidara bem do menino, mas transmitiu para ele o ódio figadal que sentia do Prefeito, simplesmente por detestar a burguesia que o Sr. Jonas Modesto Braga representava.

Espeto era cria da cidade e conhecia a história de todos dali. Gozava de muito respeito perante a sociedade e possuía inteligência acima da média. Era, enfim, um homem muito perspicaz e observador.

E assim Maninho, continuou ele, outra atitude não poderíamos esperar de Marques, e concluiu: ele sabotava o time, perseguia o craque, Fubazinho para prejudicar a atuação do time, desmoralizar o Prefeito e arruinar sua carreira política, esperando que o partido extremista do Sr. Tobias assumisse a Prefeitura Municipal.

Diante disso, chamou os dois jogadores de volta e perguntou a ambos quais as modificações entendiam que ele deveria fazer para melhorar a performance do time. Fez o mesmo com os olheiros.

Colhidas as informações, já no treino com bola dividiu os coletes promovendo algumas alterações – todas certeiras.

A zaga seria formada por Casagrande e Senzala. Mocambo seria o segundo homem de meio de campo, em razão do passe acertado, do vigor físico e a forte marcação.

Sobrado, que era lateral-esquerdo e gostava de jogar na sobra, vinha atuando deslocado na lateral-direita. Com as novas medidas, voltou a titular da sua posição, e virou peça chave do time, cortando por dentro e por fora no ataque, desconcertando os marcadores adversários.

Progresso, que jogava à frente, no meio de campo, substituindo Fubazinho na criação e na chegada, passou para a lateral-direita, sua posição de origem.

O time mostrou uma evolução muito grande já no primeiro jogo, e acabou sendo o campeão da temporada, mas a conquista veio apenas na última rodada, quando conseguiu ultrapassar o Dínamo de Amendoeira no jogo que valia seis pontos. Apesar da enorme diferença aberta pelo Dínamo, quase impossível de alcançar nos tempos de Carlos Marques à frente do clube, o trabalho de Maninho surtiu efeitos.

Fubazinho, que passou a jogar um pouco mais solto, escalado do jeito que gostava de atuar, mas com o compromisso de não descuidar da marcação, foi artilheiro do campeonato e o jogador que deu mais assistências. Garantiu o “bicho” da rapaziada nos jogos seguintes e passou a ser ainda mais admirado por isso.

Aquela temporada jamais saiu do imaginário dos torcedores do Benfica Freyre Club, apesar da indiferença da imprensa local e do silêncio sepulcral de seus jornalistas políticos, incapazes e invejosos. Várias gerações conheciam os feitos daquele esquadrão liderado por Espeto e Fubazinho.

Sobrado virou técnico do time, que jamais foi rebaixado ou andou mal das pernas sob sua batuta, como um dia havia acontecido no campeonato aqui lembrado.

Espeto montou uma escolinha de futebol e enviou jogadores para os maiores times de futebol do país, além de manter contato direto com clubes da Ásia e dos Estados Unidos, que vez por outra levavam alguns de seus jogadores.

Fubazinho foi jogar no Flamengo, levado por Maninho, que virou auxiliar-técnico do Mais Querido do Brasil. Por lá ele jogou quatro temporadas – duas como titular –, antes de fechar um contrato com o time de um sheik árabe. Ficou rico.

O Prefeito Jonas, já falecido, emplacou a candidatura do seu vice na Prefeitura e elegeu mais de 80% das cadeiras da Câmara dos Vereadores na eleição seguinte.

Hoje, o filho mais velho de Jonas é o maior empresário da cidade; ele gera mais empregos que a Prefeitura e financia vários projetos sociais nos quais é proibido pregar ou impor ideologias políticas. Sua irmã caçula, que foi estudar fora do país buscando a melhor formação possível e se preparar para continuar o desenvolvimento do Município, é a atual Prefeita. É uma gestora muito dedicada e responsável, e elege e reelege quem quiser. Os vários filhos de Jonas são bem sucedidos, criaram uma enorme família feliz e trabalham em prol da comunidade, sem práticas ilícitas. 

João Carlos Marques continuou sendo chamado de o melhor filho que a cidade produzira para o futebol, incensado pela imprensa esportiva local, formada por companheiros de ideologia do Sr. Tobias e seus pupilos. Tinha fama de ser alguém à frente de sua época, o que não fazia jus a sua trajetória. Suas glórias eram pura narrativa falaciosa.

Mas nem todos engoliam essa notícia falsa. Muitos que viveram aqueles tempos diziam que “João Capado” jamais deixou de ser um burro enaltecido por jornalistas de meia-tigela. Um homem invejoso, mau-caráter e saudosista, contador de histórias gloriosas que jamais existiram no plano da realidade, morreu de cirrose pouco tempo depois de passar pelo segundo trintenário.

 


terça-feira, 28 de setembro de 2021

Meu amigo Cadu

 

 

Há duas noites fui visitado em sonho por uma figura bastante frequente na minha infância, um amigo querido de quem eu havia me separado, infelizmente, de forma trágica.

Acordei num sobressalto — era um pesadelo —, mas as coisas foram normalizando e, como não conseguia voltar a dormir de imediato, o banzo me atingiu.

Lembrei-me de uma das poucas fotos antigas que ainda possuía, já que a grande maioria delas — e não eram muitas — haviam sido consumidas num incêndio dramático ocorrido num cômodo da casa dos meus pais, quando eu ainda era jovem. Minha mãe acendeu uma vela pelas almas do purgatório, e seu quarto virou câmara de incineração total de todos os bens que possuía.

Éramos amigos desde sempre, e a foto era uma pose do time de futebol que formamos para realizar um sonho de infância.

Entrávamos na adolescência. O cenário era a quadra onde, minutos depois, disputaríamos nossa primeira final. Perderíamos de dois a um para um time mais organizado, mais entrosado, e com mais investimentos, se considerarmos a realidade daquele bairro, cujos moradores, em grande maioria, eram operários.

Ele estava lá. Aliás, nós estávamos lá. Felizes, sorrindo, agachados e abraçados, radiantes com o que havíamos conquistado até ali.

Poucos anos depois, Cadu e eu acabamos nos separando por contingências da vida. Mudamos de colégio, ele foi morar com a avó em outro bairro, porque era mais próximo ao trabalho que arranjou. Mesmo assim, continuávamos fazendo uma grande festa nas poucas vezes em que nos encontrávamos.

Ele era moreno claro, olhos verdes, usava corte baixo no cabelo castanho e tinha braços compridos, de macaco. Gostava de usar boné e roupas largas, bastante coloridas, e num desses encontros me surpreendeu quando vi que aquele bigodinho ralo que nasceu bem cedo já estava parecendo um guidão de bicicleta antiga.

Na última vez em que nos vimos, marcamos encontro numa boate, por telefone de disco. Contávamos com mais de dezoito e fomos tomar cerveja e uísque falsificado. A certa altura, ele me chamou para ir ao banheiro e puxou um sacolé com cocaína. Eu ainda estava espantado quando ele arrumou duas lacraias com rara destreza, naqueles pedaços de mármore colocados estrategicamente nos cantos dos banheiros, e disse que uma era minha. Eu disse não, ele ficou puto no resto da noite e acabamos perdendo contato para sempre.

Infelizmente, poucos meses depois recebi a notícia de que ele, por não ter dinheiro para bancar o vício, e já endividado com os traficantes, começou a fazer serviços de motorista para eles. O resultado foram os quinze tiros tomados numa emboscada feita por uma quadrilha rival. Seu corpo ficou todo perfurado, e ele ainda estampou a capa do jornal do dia seguinte. Ficou conhecido como um dos cinco traficantes fuzilados numa guerra de quadrilhas em Niterói.

No sonho, ele vinha correndo pela rua e eu estava na porta de casa. Disse para eu ir para o portão de trás, queria falar comigo, mas não poderia ser ali porque dois homens armados o perseguiam.

Entrei em casa e voei para os fundos. Chegando lá, ele me entregou uma pistola sem munição e um pacote com drogas, tirado de dentro da bermuda. Pediu que eu guardasse e que voltaria mais tarde para pegar. Afirmou que aquilo jamais se repetiria.

Enquanto eu estava atônito, sem acreditar no que se passava, os homens chegaram. Mandaram-me entrar, fechar o portão e não voltar.

Fuzilaram meu amigo ali mesmo, impiedosamente. Foram disparados quinze tiros.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista