sexta-feira, 5 de junho de 2026

E lá se foi a Dona Maria se encontrar com o Deus que tanto amou


Numa manhã de Carnaval de 2025, foi-se embora a terceira senhora que, junto à minha mãe e à minha madrinha, amou-me movida por um legítimo sentimento de ágape. Aliás, ela se entregou a muitas pessoas dessa maneira, tanto que não sei se viverei tempo suficiente para ver isso novamente — amores e paixões são líquidos nesses tempos, tudo é substituído à velocidade da luz, com uma bela ajuda de uma tecnologia feita exatamente para isso.

Minha sogra nos deixou. Viveu e morreu como quis.

Trabalhou duro demais nos tempos da roça, e ao chegar à capital trabalhou duro demais para ajudar no sustento da casa e na construção de duas Igrejas Católicas. Irrequieta, com setenta e tantos anos refugiou-se na roça novamente: cultivava uma horta invejável, abatia animais e cozinhava para os filhos que estavam próximos e para quem mais chegasse. Não se furtava ao trabalho — almoçar em sua casa era como ir a um buffet. Sem a menor necessidade, punha à mesa uma variedade de pratos exagerada. Não conhecia o dolce far niente cultuado na terra de seus avós.

— Para que esse trabalho todo, dona Maria?

Ela brigava de volta, dizendo que não tinha sido trabalho nenhum. Bastava se empanturrar para fazê-la feliz.

Teve dez filhos "de sua barriga", ficou viúva e sozinha cuidou dos três filhos de criação adolescentes até à idade adulta, arranjou lares para várias crianças desamparadas e ainda criou outras que ganharam o mundo antes de eu entrar em sua vida. Desapegada de bens materiais como poucos, deixou um número absurdo de descendentes para a realidade dos tempos atuais — essa foi a sua riqueza.

Dentro de sua simplicidade ministrou muitos ensinamentos que ficam: que a relação entre sogra e genro não precisa ser tensa, que Deus deve ser o norte de nossas vidas, que há sempre espaço para amar o próximo.

Ela me recebeu com toda a gentileza e confiança — algo atípico no capixaba, ainda mais vindo eu do Rio de Janeiro sem nenhuma referência no Espírito Santo. Esteve ao nosso lado em vários momentos impossíveis de esquecer: nas doenças dos gêmeos, no desespero do engasgo da menina. Inspecionou com lupa a minha performance ao dar banho nos bebês. Pegou camisa velha minha para fazer roupa para o menino. Costurou fantasias para os dois e mais alguns amiguinhos da escola e todos os vestidinhos e camisas da Festa de São João das crianças. Deixou o apartamento onde morava e se mudou para outra unidade do mesmo prédio, apenas para nos ter por perto. Coincidentemente, após a sua partida, viemos morar no apartamento que ela havia alugado para viver os últimos anos de sua vida.

Adorava minhas brincadeiras, e tinha o claro discernimento de que eram uma das formas atrapalhadas que tenho para demonstrar carinho. Soube respeitar as minhas ranzinzices e também se impor quando necessário. Apoiou toda e qualquer iniciativa. Pediu muito a Deus por nós, sempre nos recebia com um sorriso e se despedia já sentindo saudades. Foram vinte e cinco anos de convívio, um período considerável, pois já havia completado setenta quando conheci sua filha.

Fica-me a convicção de que muito mais amou que foi amada — e posso garantir que não foi pouca coisa.

Foi homenageada por um mar de pessoas no seu funeral. Teve oração de protestantes e de católicos, inúmeras coroas de flores — mas nada disso seria capaz de retribuir o bem que ela fez quando em vida.

Apesar do inconformismo com a partida, todos temos a mais pura consciência de que se foi alguém que combateu o bom combate, que viveu a vida e não deixou para trás pendência alguma.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador que gosta de escrever e que, de certa forma, é um saudosista.