Numa manhã de Carnaval de 2025, foi-se embora a terceira senhora que,
junto à minha mãe e à minha madrinha, amou-me movida por um legítimo sentimento
de ágape. Aliás, ela se entregou a muitas pessoas dessa maneira, tanto que não
sei se viverei tempo suficiente para ver isso novamente — amores e paixões são
líquidos nesses tempos, tudo é substituído à velocidade da luz, com uma bela
ajuda de uma tecnologia feita exatamente para isso.
Minha sogra nos deixou. Viveu e morreu como quis.
Trabalhou duro demais nos tempos da roça, e ao chegar à capital
trabalhou duro demais para ajudar no sustento da casa e na construção de duas
Igrejas Católicas. Irrequieta, com setenta e tantos anos refugiou-se na roça
novamente: cultivava uma horta invejável, abatia animais e cozinhava para os
filhos que estavam próximos e para quem mais chegasse. Não se furtava ao
trabalho — almoçar em sua casa era como ir a um buffet. Sem a menor necessidade,
punha à mesa uma variedade de pratos exagerada. Não conhecia o dolce far
niente cultuado na terra de seus avós.
— Para que esse trabalho todo, dona Maria?
Ela brigava de volta, dizendo que não tinha sido trabalho nenhum.
Bastava se empanturrar para fazê-la feliz.
Teve dez filhos "de sua barriga", ficou viúva e sozinha cuidou
dos três filhos de criação adolescentes até à idade adulta, arranjou lares para
várias crianças desamparadas e ainda criou outras que ganharam o mundo antes de
eu entrar em sua vida. Desapegada de bens materiais como poucos, deixou um
número absurdo de descendentes para a realidade dos tempos atuais — essa foi a
sua riqueza.
Dentro de sua simplicidade ministrou muitos ensinamentos que ficam: que
a relação entre sogra e genro não precisa ser tensa, que Deus deve ser o norte
de nossas vidas, que há sempre espaço para amar o próximo.
Ela me recebeu com toda a gentileza e confiança — algo atípico no
capixaba, ainda mais vindo eu do Rio de Janeiro sem nenhuma referência no
Espírito Santo. Esteve ao nosso lado em vários momentos impossíveis de
esquecer: nas doenças dos gêmeos, no desespero do engasgo da menina.
Inspecionou com lupa a minha performance ao dar banho nos bebês. Pegou camisa
velha minha para fazer roupa para o menino. Costurou fantasias para os dois e
mais alguns amiguinhos da escola e todos os vestidinhos e camisas da Festa de
São João das crianças. Deixou o apartamento onde morava e se mudou para outra
unidade do mesmo prédio, apenas para nos ter por perto. Coincidentemente, após
a sua partida, viemos morar no apartamento que ela havia alugado para viver os
últimos anos de sua vida.
Adorava minhas brincadeiras, e tinha o claro discernimento de que eram
uma das formas atrapalhadas que tenho para demonstrar carinho. Soube respeitar
as minhas ranzinzices e também se impor quando necessário. Apoiou toda e qualquer
iniciativa. Pediu muito a Deus por nós, sempre nos recebia com um sorriso e se
despedia já sentindo saudades. Foram vinte e cinco anos de convívio, um período
considerável, pois já havia completado setenta quando conheci sua filha.
Fica-me a convicção de que muito mais amou que foi amada — e posso
garantir que não foi pouca coisa.
Foi homenageada por um mar de pessoas no seu funeral. Teve oração de
protestantes e de católicos, inúmeras coroas de flores — mas nada disso seria
capaz de retribuir o bem que ela fez quando em vida.
Apesar do inconformismo com a partida, todos temos a mais pura
consciência de que se foi alguém que combateu o bom combate, que viveu a vida e não deixou para trás pendência alguma.
Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador que gosta de escrever e que, de certa forma, é um saudosista.
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