Lucas
voltava de mais um Natal passado na casa dos pais, dirigindo pela longa estrada
que tinha a percorrer. Anoitecera há pouco tempo. Era dia 25 de dezembro e o
Deus-menino ainda se aquecia na manjedoura. Como de praxe, haviam sido três
dias angustiantes, decorrência da instabilidade no relacionamento entre seus
parentes, cujas personalidades marcantes e intransigentes o tiravam de seu
centro. Não conseguia conviver com aquela terrível mania de discutirem assuntos
que não dominavam com a total certeza e autoridade que só os idiotas
possuem. Porém, reconhecia que contribuía com os conflitos ao entrar nas
discussões e ao revelar com aspereza sua total impaciência com as ignorâncias e
os comentários sobre a vida alheia. Além disso, em nada favorecia sua irritante
mania de corrigir os erros de português dos interlocutores. Ele sabia que esse
clima influenciava o desinteresse dos filhos em estreitar relacionamentos
e construir uma história com os avós, os tios e os primos.
Sempre
que saía de lá prometia a si próprio que seria a última vez que voltaria
àquele ambiente hostil, mas ao fim de cada ano superava o desconforto da viagem
anterior e voltava. Vivia em outro estado há anos e sentia saudades da
família e dos amigos, o que aumentava quando refletia sobre a aproximação da
velhice. Lamentava a iminente chegada do inevitável fim da jornada para aqueles
que o ajudaram a formar seu caráter e com quem havia dividido momentos
especiais, e por isso ia encontrá-los ao fim de cada ano, mesmo que por poucos
dias e à custa da exposição à beligerância familiar constante. Era como se
expiasse o distanciamento territorial imposto voluntariamente e que lhe roubava
a convivência entre os seus.
Ainda
estava envolto em seus pensamentos quando sentiu que o motor do carro enguiçou
num local bastante ermo; a total escuridão era cortada apenas pelos potentes
faróis da SUV, que permaneciam milagrosamente acesos. Por sorte
estava numa descida e pôde aproveitar o embalo para não ficar por ali mesmo,
conseguindo respirar aliviado ao notar uma forte luz despontando para além da
curva que temia não contornar caso o volante travasse.
A
potente claridade vinha de um posto de combustíveis que não fora prenunciado
por placas e do qual não se recordava – talvez tivesse sido construído depois
das recentes reformas da estrada, pensou.
Há
anos passava por aquele trecho e todas as viagens eram meticulosamente
planejadas para evitar parar em pontos desconhecidos. A situação emergencial,
entretanto, forçava-o a isso. Estacionou perto de uma das bombas, agradeceu a
Deus e informou à família que o carro apresentava um problema. Disse para
esticarem as pernas, fazerem um pipizinho e tomarem café enquanto ele esperava
o carro esfriar, conferia os pneus e o óleo do motor e enchia o tanque de
combustível.
A
mulher e os meninos ficaram boquiabertos ao se depararem com um
banheiro limpíssimo e uma lanchonete de ótima aparência, que expunha
produtos apetitosos e deliciosos, como perceberam ao experimentar alguns,
que foram servidos pelo frentista. Não havia clientes, nem carros, nem
caminhões estacionados no posto, mas a preocupação em retornar à estrada era
tanta que não repararam a situação inusitada: um posto novo sem clientes, com
apenas um funcionário cuidando das bombas, da limpeza, do caixa e da lanchonete
impecável.
O
carro não funcionou – o fornecimento interno de energia estava interrompido –,
mas Lucas os acalmou dizendo que tudo seria resolvido, pois o carro era novo.
Viu que não havia sinal de celular e perguntou ao sorridente e prestativo faz
tudo do posto se ele não teria um telefone de onde pudesse acionar a
seguradora. Seu nome era Expedito, e ele entregou um telefone sem fio alertando
que funcionava, mas que teria que insistir para conseguir linha. Ele forneceu
as coordenadas do posto para informação de quem os fosse buscar e disse que
poderiam ficar o tempo que fosse necessário, pois o local era seguro; e ainda
ofereceu um dormitório para pernoitarem, mas Lucas rechaçou a gentileza,
agradeceu e disse ao rapaz para não se incomodar. Realmente, Lucas precisou
discar inúmeras vezes até conseguir falar com o call center do seguro. O
atendente informou que enviaria um reboque, que o tempo de espera seria de
noventa minutos e que o carro seria levado a uma oficina autorizada duas
cidades adiante, enquanto Lucas e a família seriam hospedados no
Hotel Ágape.
Em
vinte minutos o guincho chegou e Expedito se despediu entregando um
panfleto do Posto Paraíso. Nele estava escrito: “Creia! Você pode fazer a
diferença e mudar para melhor a sua vida e a de seus irmãos”.
Lucas
viajou na cabine do reboque e a família dentro do carro. Enquanto a SUV era
deixada na calçada da oficina, porque o segurança havia sido dispensado, um
carro os aguardava para levá-los ao hotel. E apesar de estarem no interior, no
meio de um feriado, foram muito bem acolhidos ao chegarem ao hotel. Depois de
instalados em seus quartos desceram para jantar, e ao retornarem Lucas pôs o
celular para despertar às 6h 30min e disse que todos iriam com ele à oficina
para retomarem a estrada imediatamente após a entrega do carro. O problema
haveria de ser coisa pouca....
O Sr.
Judas Tadeu, o motorista que os conduziu ao hotel na noite anterior, já
esperava para levá-los à oficina, onde após infindável espera foram informados
pelo gerente que o conserto não poderia ser realizado em menos de quinze dias
porque a peça da injeção de combustível que apresentava defeito teria que vir
de outro estado. Ele informou também que a seguradora ainda não havia
autorizado o serviço. Apesar de confuso, Lucas não ficou inerte. Decidiu
rebocar o carro para uma autorizada em sua cidade, cuja distância dali era
menor que a já percorrida desde a casa dos pais. Buscou o contato da Cidade de
Deus Reboques e do agradável guincheiro da noite anterior, Miguel Angel, mas
ninguém conhecia empresa ou sujeito com esses nomes em nenhuma das cinco cidades
do vale em que se encontravam. Daí ligou para o call center do seguro e ficou
sabendo que não constava registro seu da noite anterior. Achou muito estranho,
mas não queria perder tempo e imediatamente ligou para o único serviço de
reboque da região, que haviam lhe fornecido. Agora ouvia do Sr. Nezinho que não
poderia atendê-lo porque o motor do seu guincho havia pifado. Parecia o “Dia da
Marmota”, mas Lucas não se deu por vencido. Ligou para pedir ajuda ao corretor
de seguros e combinou em despachar o carro para a cidade onde vivia, através da
empresa que o corretor indicou. Fez contato e deixou acertado que o carro seria
entregue pelo gerente da oficina.
Feito
isso resolveu dar azo a algo que vinha lhe atravessando o pensamento durante
aquela manhã angustiante e avisou a Vivi, sua mulher, e aos filhos que
voltariam dali mesmo para passar o Réveillon com os parentes. Com efeito, desde
o início da manhã, ao acordar, não sabia o motivo, vinha pensando em cada
sofrimento experimentado no curso de sua vida e se sentiu um homem afortunado.
Estava feliz por não ter sofrido um sério acidente na noite anterior que
pusesse fim à família que havia formado e dedicado ao seu Deus Uno e Trino; e
estava feliz também porque apesar de ter perdido o controle do carro em local
ermo, o que colocou sua família em posição de vulnerabilidade e exposta a toda
sorte de ataques criminosos, nada de ruim acontecera. Melhor ainda, só havia
encontrado pessoas generosas a partir dali.
Então,
retornava à casa dos pais convicto de que a partir dali começariam uma relação
diferente, queria celebrar o Réveillon em família, pedir perdão, convencer os
mais renitentes, ser cristão, ser Igreja, ser família, mostrar que era possível
refazer os laços, reaver valores perdidos... Com o apoio da mulher e dos filhos
alugou um carro numa locadora estabelecida na maior das cidades locais e seguiu
viagem. Antes, porém, quis voltar ao Posto Paraíso para recompensar Expedito,
mas não o encontrou nem o posto. Lembrou-se da curva, passou por ela e nada foi
visto. Seguiu um pouco adiante, retornou e dirigiu de volta com extrema
atenção, mas fracassou novamente. Fez novo retorno e nada. Era por ali, tinha
certeza, mas o local radiante e providencial da noite anterior parecia não mais
existir. Num povoado adiante perguntou a transeuntes sobre o posto
desaparecido, “um bastante iluminado, com banheiro e lanchonete limpíssimos e
que serve produtos de primeira linha”. Alguns sorriam da descrição e diziam que
também gostariam de saber onde fica, pois postos de beira de estrada possuem
banheiros imundos e vendem comidas péssimas. Em razão do tempo e do espaço a
percorrer ele desistiu, mas temporariamente, pois tinha a intenção de fazer
novas buscas na volta.
O
retorno inesperado surpreendeu os que se encontravam na casa dos seus pais,
lugar onde os parentes costumavam se reunir no mês de dezembro. A recepção não
foi calorosa, mas não houve desconforto; e com o passar das horas e dos dias as
coisas se acalmaram, tornando a estadia bastante agradável. Lucas participava
das resenhas, interagia sem se indispor e se retirava apenas para fumar
cachimbo e “pôr as coisas em ordem”, momento em que refletia sobre os
acontecimentos daquele fim de ano. Os filhos, aproveitando o armistício, agora
se misturavam com os parentes, e Vivi não se continha de felicidade.
No dia
do festejo, faltando poucos minutos para dar meia noite, ele pediu a palavra e
disse que leria um texto. Fez um ligeiro preâmbulo, lembrou aos parentes que
estava ali despido de qualquer vaidade, mágoa ou remorso, tirou um pedaço de
papel do bolso e passou a ler seu conteúdo:
“Prezados,
Nesse
fim de ano, eu e meu núcleo familiar tivemos uma experiência que podemos dizer
sobrenatural. Passamos por uma situação inicialmente aflitiva, mas muito
valorosa ao final. Num momento em que todas as circunstâncias obravam para nos
deixar abatidos e com muito medo, a solicitude alheia nos fez esquecer as
adversidades. Nosso carro sofreu uma pane no meio do nada e por pura sorte o
conduzi até um posto de gasolina onde recebi ajuda e ficamos em segurança.
Porém, o local parece não existir. Sim, alguns podem pensar que foi alucinação
coletiva, mas não o encontramos em nosso retorno, apesar de insistirmos
bastante. Além disso, o seguro afirma que não entrei em contato e parece que a
empresa e o funcionário que rebocaram o carro também não existem — e eu nem
procurei notícias do hotel onde pernoitamos ou do chofer que nos levou da
oficina para o hotel e vice-versa. Espero muito reencontrar aquelas pessoas
para recompensá-las de alguma forma, e espero também estender e multiplicar
essa caridade a todo aquele que vier a atravessar as nossas vidas.
Eu
gostaria de relembrar o clima tenso e pesado da noite de Natal,
celebração que deveria trazer muito mais felicidade que a virada de
ano, pois nessa data comemoramos o dia no qual o Verbo se fez carne para
habitar entre nós e cumprir a Palavra; Ele veio sofrer por nós para perdoar
nossos pecados apenas pelo fato de nos amar infinitamente com todos os nossos
defeitos e pediu em troca apenas que O amássemos acima de todas as coisas e que
também amássemos nossos semelhantes na mesma medida em que amamos a nós
próprios.
Peço,
nessa reflexão, que todos vocês guardem com carinho a noite de Natal, que
deixem as trocas de presentes, a árvore e o Papai Noel em segundo plano e rezem
na intenção de Jesus, pedindo que o Seu amor transforme em carne os corações
petrificados pelas mazelas desse mundo egoísta. Lembrem que a expressão “festas
de fim de ano” é o eufemismo criado para tirar Jesus e a cristandade do foco do
Natal e para colocar a praia, as yemanjices e os shows de fogos de artifícios e
de cantores como símbolos do Réveillon, enquanto na verdade deveríamos
comemorar a chegada do fim de mais um Ano do Senhor. Tudo isso promove o distanciamento
das famílias e das amizades. Façam o contrário. Reúnam-se alegre e
voluntariamente para contar causos, rezar, celebrar o nascimento de Jesus,
preservar a tradição dos ancestrais e passá-la à descendência. Procurem quem
lhes causou mágoas e o perdoem; ouçam com paciência o que os desagrada, reconheçam
os próprios erros e exponham seus pontos de vista com sabedoria. Espero que Deus
os desarme do desejo de vingança e da necessidade de mostrar superioridade sobre
as pessoas. Quero deixar claro que já venho promovendo em meu íntimo as
mudanças que lhes peço.
Vou me
comprometer a estar aqui com vocês pelo resto de minha vida ao menos no fim
ano, e dizer que farei o possível para vir sempre que as circunstâncias me permitirem.
Deixo também o desejo de que os encontros familiares continuem acontecendo mesmo
após a minha partida para a vida eterna.
Agradeço
profundamente o convívio desses últimos dias e a atenção dispensada; e, por
fim, peço com firmeza na fé que Deus abençoe a todos”.
As
palavras ecoaram em todos os cantos da enorme casa e nos corações dos que
estavam naquela reunião. O Réveillon foi comemorado com certa solenidade e de
forma mais fraternal que de costume, passando longe do fiasco vivido no Natal.
(Logo no Natal...) Foram feitas orações e ouvidas músicas civilizadas no volume
apropriado. Ninguém assistiu à queima dos fogos televisivos que dispersam os
celebrantes.
As
personagens daquela história e o Posto Paraíso nunca mais foram vistos por
Lucas ou Vivi, pelos filhos, genro, nora e netos, apesar de todos ficarem em
estado de alerta nas vezes em que passavam pelo local nas viagens para a cidade
de nascimento do patriarca. E como era possível supor, o hotel Ágape também não
existia, como foi possível constatar em algumas incursões na cidade.
Lucas
guardou consigo até à morte o cartão entregue por Expedito. Ele creu, mudou a
sua vida e fez a diferença. Muita coisa boa aconteceu depois daquilo, inúmeras
reconciliações foram celebradas até a definitiva recuperação do espírito
natalino e da tradição cultuada por seus antepassados antes mesmo das primeiras
gerações que chegaram ao país. A alegria das reuniões era contagiante e os
momentos de tristeza só ocorriam nas revelações de graves doenças ou nos casos
de falecimento, mas até aí havia a presença maciça dos familiares para dar
encorajamento ou para o último adeus, coisa que inexistia antes.
Os
encontros continuaram até à geração dos netos de Lucas, e só deixaram de
acontecer quando os parentes perderam o contato por terem se espalhado pelo
país e pelo planeta. A tradição, porém, eles levaram consigo.
Fernando César Borges Peixoto
Advogado,
niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista