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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O fiscal das redes




Malaquias de Oxóssi dos Santos – essa a grafia de seu nome de batismo – é impiedoso nas redes sociais. Não deixa passar uma postagem de um webamigo (ou webinimigo, não importa) em que não veja, do alto do seu QI-87, “métrica e rima”, notícia atualizada ou texto compreensível e/ou agradável. E lá vai ele deixar seu imprescindível comentário.

Nesses tempos de mudanças de paradigmas no campo da política, diz que pertence à ala da direita soft, também dita limpinha (ou light), e da qual também fazem parte a galera do Clube do Livro, alguns youtubers e poucos comediantes. Na verdade, é o pessoal conhecido como a Nova Esquerda brasileira.

Versado nas obras de Mises, Rothbart, Ayn Rand, e nos textos e teorias do Luciano Ayan, considera seus conservadores preferidos o João Pereira Coutinho e o Luiz Felipe Pondé.

Jamais curte as postagens da gente comum que lê diariamente, tintim por tintim, buscando alguma irregularidade, embora aproveite as ideias como suas, nos comentários que faz nas postagens de perfis famosinhos, aos quais dedica todos os seus likes.

Invariavelmente, nas postagens dos não-famosinhos, deixa comentários irônicos; mas o problema começa mesmo quando, segundo seus critérios, encontra imperdoáveis deslizes.

Esse é o Malaquias...

Notícia antiga?

Tome-lhe uma traulitada pela displicência.

Shitpost?

Se não compreende, “fodace”, diz que é feiquinius.

E se esbarra numa crítica a seus companheiros de viagem liberais, aumenta o tom nas críticas, postando textão, arranjando quizila, dando bronca e puxão de orelha, enfiando dedo no olho, chamando de “burro fofoqueiro”, de “mariquinha”, e até xingando à vera.

Já em sua grandiosa timeline, não há nada além de fotos de paisagens, propagandas de seu negócio e os dois livros que lê por ano, em PDF, a maioria fornecida pelo Instituto Liberal.

No texto de apresentação do perfil, Malaquias escreveu: “Não falo de minha vida porque o povo é doido, questiona tudo e procura treta”, dando a entender que tem mais o que fazer, a ficar tretando na internet, em sua timeline.

Li isso antes de bloqueá-lo, e pensei: “Eu, hein! Parece que tá lôko nas drogas”.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Seu Nabiça


Seu Nabiça, mulato de pele clara, sorriso franco, óculos de aro grosso, cujo cocuruto fora abandonado pelos cabelos há tempos, enquanto os fios que persistiam nas laterais embranqueciam como o orvalho da madrugada, costumava dizer que tinha um dos poucos nomes de homem que terminam com a letra “a” e não são oriundos da língua indígena, fato ainda mais raro que os terminados em “i” ou “ir”.
Trabalhava há quase 50 anos na Monteiro Petiscos & Lanchonete, casa especializada em servir pernil em porções ou em sanduíches com pão francês de fabricação própria, um sucesso absoluto, muito pedido com a tradicional cerveja estupidamente gelada.
Negócio de família, já estava na 4ª geração de proprietários, havendo falecido vários deles.
O início do comércio se dera há décadas, num dos inúmeros quiosques das principais avenidas da Capital, onde o Sr. Joaquim Monteiro, recém-egresso da terrinha, vendia comida, pinga e produtos variados. Levando a natural vida espartana do imigrante que deixa seu país com a roupa do corpo, ele só trouxe a mulher e os filhos para o Brasil quando teve uma folguinha; e logo depois, com a ajuda de todos, conseguiu comprar duas amplas lojas de esquina, num ponto movimentado da periferia.
Quando Nabiça foi contratado, quem estava no comando era o Sr. Nuno Monteiro, filho mais novo do patriarca. O portuga dizia que enxergou no menino mulatinho alguém com grande potencial e muita vontade de trabalhar. Além disso, não podia contar com os filhos do casamento com Lucrécia, demasiadamente novos para pegarem no batente.
A força de vontade do rapaz o encantou a ponto de amolecer seu coração, mas as ajudas frequentes, de início com presentes modestos, e que culminou, alguns anos depois, com a entrada da compra da tão sonhada casa própria, acabaram gerando um buchicho entre os habitués, já que a fama de pão duro que antecedia a pessoa do portuga ia longe. Diziam que Nabiça era seu filho bastardo, com a belíssima mulata Cecília, pernas grossas e bem torneadas, joelhos redondos, seios pequenos e rijos, ancas generosíssimas...
A fofoca já havia gerado muita briga e chateação, e o “animus necandi” que tomava conta da figura pacata de Nabiça fez com que os assuntos corressem apenas à boca-miúda, entre os fuxiqueiros.
Os funcionários que passaram pela lanchonete admiravam o colega, e grande parte dos fregueses, e seus descendentes, que cresceram sendo servidos pelo seu Nabiça, sempre lhe foram afeiçoados – havia até quem esperasse o tempo que fosse necessário apenas para ser atendido por ele, dada a amabilidade com que tratava a todos.
Outros, porém, só faziam o pedido quando ele se afastava. Chamavam-no de porco, mas apenas “en petit comité”, por conta de certa peculiaridade que envolvia tal personagem.
É que sempre que ia pegar o papel para embrulhar o sanduíche de pernil do freguês, ele passava as pontas dos dedos naquela almofadinha molhada e “higiênica”, que trazemos guardada dentro da boca, para separar as folhas de papel: a língua. Logicamente, aqueles mesmos dedinhos lambidos seguravam o pão enquanto recheava o sanduíche seguinte.
Sempre que indagados sobre aquele patrimônio da empresa, os proprietários da ocasião afirmavam que Nabiça seria funcionário de seus netos, e que ele era o segredo do sucesso do negócio. Não era. A antiga forma de preparar o pernil, e também de outros tira-gostos de sucesso da empresa, só era conhecida pelos membros de família – a “fórmula da Coca-Cola” dos Monteiro.
O tempo passava e, um dia, Nabiça, que não era disso, saiu de férias. Várias e várias semanas se passaram e nada dele voltar.
Aos clientes que perguntavam se ele estava doente, ou se havia falecido, era dada sempre a mesma a resposta: “Está de férias”; e quando a desculpa parou de colar, foi dito que ele havia pedido a aposentadoria.
“Na verdade” – disse um dia o Sr. Nestor, um dos mais antigos (e fofoqueiros) frequentadores do estabelecimento, enquanto jogava dominó, tomava pinga,  e lambia os dedos sujos de limão e da gordura dos pedaços de pernil que pegava com a mão –, “ele realmente se aposentou, mas ajuizou ação na Vara de Órfãos e Sucessões, pedindo exame de DNA e metade do atual patrimônio da família”.
Nabiça nada comentou sobre uma relação entre o Sr. Nuno Monteiro e Lucrécia, sua mãe, mas disse que não foi ao programa do Ratinho para preservar as pessoas que mais havia amado na vida.
Sobre os herdeiros, que todos os clientes jurariam de pés juntos que o tratavam como alguém da família, disse ele: “Não passam de fingidos exploradores”.

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O assassino que deixava provas




Desde menino, Reinaldo sentia atração por garotos. “Eu nasci assim”, dizia.
Não, não havia nascido assim, mas não compreenderia a verdade consumindo tanta propaganda da militância gay que, inclusive, ensinou-o a chamar de preconceituoso quem não pagasse pedágio à ditadura homossexual. Contestar era proibido.
Apesar de não fingir afetação para chamar a atenção, os trejeitos femininos saltavam aos olhos, junto a sua constituição física. Por ser filho único, apanhou muito de seu pai, um bronco e machista, mas que andou furando uns guris na infância. A mãe não fazia nada porque também era agredida e acusada: “o menino saiu assim por sua causa”, dizia o pai. Reinaldo ainda apanhava dos primos e dos vizinhos, principalmente após a prática de atos libidinosos, sendo essa a forma deles se livrarem da vergonha e da culpa pela saliência praticada, como fazia o seu pai na juventude.
Ele crescia e, para sobreviver, aprendeu a bater. Ao perceber a força que possuía, tomou gosto e passou ele a puxar brigas, para dar socos e pontapés violentos nos eleitos. Até no colégio vivia se estranhando com os colegas, apesar da quase totalidade não se importar com sua opção sexual. Era mais cruel com quem se negava a satisfazer sua libido; e embora estivesse se desenvolvendo fisicamente, não conseguia entender que não era agressão ou preconceito, negar-se a praticar sexo com ele, ou não reconhecer que o homossexual deve gozar de privilégios apenas por ser homossexual.
Ao entrar na faculdade de Direito, ainda se vestia com roupas masculinas, apesar da fala macia, que alterava radicalmente ao se exasperar. Lá aprendeu que é quem detém o poder de decidir que determina o que é justiça; e que é possível definir de cara o vencedor da demanda, e só depois fundamentar a decisão, pois os princípios jurídicos admitem deformações ao gosto do freguês. Compreendeu que os direitos humanos e o princípio da dignidade da pessoa humana seriam a grande panaceia dos operadores do Direito; e percebeu o enorme prestígio do ativismo judicial, que transforma julgadores das altas Cortes em plenipotenciários e, grosso modo, respalda a usurpação do poder conferido pelo povo aos representantes políticos, por magistrados progressistas que, sem alcançarem seus cargos pelo voto, impõem mudanças até de cunho civilizacional à sociedade. Ouviu deles, que são garantidos pela vitaliciedade, que estão livres para implementar as mudanças exigidas pela sociedade (como se a sociedade inteira, e não pequena parte dela, o pedisse), porque não devem satisfações a eleitores.
Estudou com afinco a ideologia de gênero, endossada por disciplinas de ciências humanas, que joga no lixo as ciências biológicas para explicar o sexo como construção social, e não um fenômeno natural – segundo seus teóricos, qualquer um pode se autodeterminar em relação ao sexo, e exigir o reconhecimento do outro, independentemente do que os olhos (do outro) enxergam; ou do que diz a ciência natural; ou, ainda, dos valores e princípios formadores da nossa cultura. E com muita satisfação viu o poder constituído abraçar tal teoria, em franco desprezo ao direito individual de quem a entende anticientífica; de quem a ela se opõe por motivos pessoais ou de crença religiosa; ou de quem quer conhecer verdadeiramente a pessoa com quem mantém laços sociais e/ou afetivos, incluindo seu sexo biológico. Reinaldo, a cada dia aumentava suas convicções, pautado em decisões judiciais baseadas no princípio da dignidade humana e no direito de personalidade, como a que admitiu a alteração do nome civil, cuja principal função é individualizar e identificar o ser humano nas relações sociais.
Ele estava de pleno acordo com a ideia de o desejo pessoal do homossexual sobrepujar o interesse público. E mais ainda: sabia que há regras e exceções, mas sabia também que quem decide o que é regra e o que é exceção, é quem possui o poder de decidir. E é por isso que defendia a urgência da ocupação de espaços-chaves, para solidificação das pautas progressistas na sociedade.
Ao conhecer a velha máxima dividir para conquistar, compreendeu por que alguns se esforçam para causar fissuras na sociedade através do discurso do nós contra eles, instigando a hostilidade de negros e índios contra brancos, e entre homens e mulheres, gays e héteros, ricos e pobres, veganos e carnívoros... Percebeu a propaganda e a manipulação de relatórios que afirmam que o Brasil é o país onde mais se matam homossexuais, mulheres e negros, enquanto, na realidade, é o lugar do mundo onde morrem mais pessoas assassinadas, mais que na guerra: superior a 60 mil homicídios por ano. Portanto, morrem mais homossexuais, mulheres e negros, e também mais heterossexuais, homens e brancos. O mesmo se diga da falsa perseguição a homossexuais no país, pois eles estão no Congresso, no Executivo, no Judiciário, na mídia, nas FFAA e na Academia, em suma, em todas as instituições. Mas ele entendia a necessidade de manter a farsa que viabiliza o discurso.
Pois bem. Naquele momento, só quem se submetesse à operação de mudança de sexo poderia alterar o nome e o sexo sem qualquer referência à situação de transexual no registro civil. Mas em seguida, as instituições reconheceram que os avanços eram insuficientes para promover a dignidade da pessoa humana, e atender às exigências de cada indivíduo em seu direito de personalidade. Então, primeiramente, através de decreto, foi estabelecida a adoção do nome social por travestis e transexuais, sem alterar os documentos oficiais. Depois, decisões das mais altas Cortes do Judiciário, com base nas mesmas normas jurídicas que fundamentavam a antiga regra geral da imutabilidade do nome, reconheceram a desnecessidade de ajuizar ação nem realizar operação de adequação sexual para alterar o nome e o sexo no registro civil, e proibiram qualquer remissão à expressão transexual, ao sexo biológico ou aos motivos que levaram à modificação do registro civil. Por fim, decisão de órgão administrativo ligado ao Judiciário, sem a anuência do Poder competente, o Legislativo, emitiu normativo determinando tais providências aos cartórios extrajudiciais.
Ainda na Universidade, conheceu o pessoal da área de Psicologia, e manteve relacionamentos afetivos com dois deles, de quem soube que alguns governantes tiranos haviam usado a Psicologia e a Psiquiatria para perseguir opositores, internando-os em manicômios, isolando-os com loucos de toda a espécie, ou enviando-os a campos de concentração ou gulags. Soube também de certa flexibilidade na elaboração de postulados dessas áreas fundamentais para a sedimentação da teoria de gênero no ordenamento jurídico, e entendeu por que não importavam os inúmeros casos de arrependimento posterior à cirurgia de mudança de sexo, que geravam, inclusive, suicídios. Esse efeito colateral não deveria, de forma alguma, aparecer nas estatísticas.
Depois de formado, Reinaldo passou a exibir as conquistas profissionais e seu talento, e a repetir o discurso da superioridade financeira e intelectual dos homossexuais, embora não dispensasse os favores conferidos pelo Estado às minorias – explorava o vitimismo no coletivo de negros homossexuais, onde atuava desde o tempo da graduação, para manipular a militância, servindo-se também dessa grande massa de manobra comumente manejada por políticos, intelectuais e outros líderes. Havia-se transformado naqueles benfeitores que, de forma fingida, tutelam as minorias com o objetivo de obter vantagens, mantendo-as cativas. Demonizava e desumanizava quem se opunha à ditadura do politicamente correto, abusando de termos como preconceituoso, homofóbico, fascista e nazista. Sabia que, com esse discurso, tornava o inimigo alguém execrável aos olhos da militância, o que justifica, para mentes vazias e criminosas, a agressão ou até a remoção física dessas pessoas. Extremamente inteligente e arrogante, sua empatia era desajustada.
A forma de encarar sua homossexualidade ia modificando com o tempo, mas não queria mudar o sexo. Passou a se vestir como mulher e alterou a documentação, trocando o prenome por Renilda, e tirando o patronímico do pai, para assumir o de solteira da mãe. Também fez algumas aplicações de silicone e botox.
Mais adiante, já mulher na documentação, foi aprovada em prova de admissão num escritório de advocacia de renome, de uma cidade grande de outro estado, e foi para lá de mala e cuia. Agradava-lhe o fato de ninguém conhecer sua vida pregressa. Já instalada, foi galgando postos rapidamente na empresa, pois, além de inteligente e esforçada, não tinha o menor pudor em atropelar quem se pusesse como obstáculo. Possuía admiradores, mas também desafetos.
Fora do trabalho, como mulher, porque assim se sentia, frequentava bares e boates para azarar rapazes e fazer sexo casual. Estranhamente, enquanto se apresentava como homem homossexual, mantinha relacionamentos com homens homossexuais. Mas ao virar a chave, como mulher, só buscava relações com homens heterossexuais. Ia para a cama apenas depois que o parceiro se embriagasse, ou usasse maconha ou cocaína; e agia como o personagem de M. Butterfly, de David Henry Hwang, ou aproveitava o apagamento ou a falta de freios morais do parceiro, já inebriado. Após a relação sexual, costumava inventar uma desculpa para dispensá-lo, com o objetivo de evitar surpresas ao fim do torpor. Apesar dos cuidados, mantinha sempre por perto um instrumento que a protegesse. Embora reprimisse, não havia perdido a agressividade.
Certa vez, porém, ela dormiu, e acordou, no dia seguinte, com o rapaz aos gritos, indignado por Renilda possuir um pênis, e ainda maior que o seu. Indagava o que teria acontecido: Fora dopado com Rohypnol, ou outra droga de efeito similar? Enrabado? Beijou a boca de outro homem?
Ela deu uma coça de porrete no infeliz, e só parou por medo dos vizinhos ouvirem os gritos. Enquanto o rapaz agonizava, inerte, esperou a hora mais conveniente para transportar aquele corpo todo moído até o porta-malas do carro, e deixá-lo, quase morto, num lixão da periferia. Foi encontrado por um miserável e, após recuperar-se, tamanha era a vergonha, que inventou que havia sido roubado e espancado por bandidos.
Ela submergiu. Passou a fazer sexo apenas com profissionais e, em pouco tempo, aceitou proposta de emprego em outro Estado, feita por uma advogada para quem, há tempos prestava serviços de correspondência em casos complexos. Foi-se.
Enquanto se dedicava fulltime ao novo emprego, conheceu Geraldo, jovem cristão ligado às formalidades da religião, com quem embalou um relacionamento. De início, conseguiu dominar a satiríase, fazendo-se de santa. Mas encarava a quebra da abstinência sexual dele como um jogo que queria vencer, o que não demorou a acontecer. Aos 3 meses de relacionamento, estava pronta para seduzir o rapaz, e preparou um clima favorável: um vestido bastante sensual, e um jantar à luz de velas, numa espécie de garçonnière que mantinha em lugar retirado. Fazia isso Para evitar passar por outro susto daqueles, e manter o sigilo, registrou o imóvel em seu antigo nome.
Após umas taças de vinho, Geraldo cedeu, para em seguida ser tomado por imenso espanto, ao notar o membro enrijecido de Renilda. Num acesso de fúria, empurrou-a, aos berros, perguntando por que fizera aquilo. Ela pegou a garrafa de champanha que estava sobre a mesa e a quebrou na cabeça de Geraldo, causando um corte profundo, de onde o sangue jorrava. Ele ficou zonzo, seu corpo emborcou já desmaiado. Nesse momento, ela enfiou-lhe várias vezes a parte afiada que segurava pelo gargalo. Nenhuma lágrima correu de seus olhos, não sofreu um minuto sequer. Ao contrário, imediatamente começou a pensar em se livrar do cadáver e das provas, com a certeza de que a polícia não chegaria àquele lugar, nem a ligaria ao imóvel.
Usou um rolo de plástico estrategicamente guardado, para enrolar o cadáver. Levou-o ao carro e depois a um lugar ainda mais isolado, onde ateou fogo com gasolina. No dia seguinte, voltou ao local para destruir as arcadas dentárias e jogar o que sobrou num lago; e em outro lugar incendiou as roupas e a parca mobília do garçonnière, onde poderia ter respingado sangue. Lavou o cômodo com água sanitária e, vestida de homem, falando com voz grave, contratou um pedreiro para reformar o imóvel: mudar o piso e o rodapé, e pintar das paredes, que previamente havia lixado.
Voltou à vida rotineira, e esperou dois dias para ligar à família do namorado e perguntar por ele. Fingiu saudades e disse que ele estava sumido desde o jantar em sua casa. Logicamente, ligou várias vezes para o celular que jazia no fundo do lago.
Renilda foi investigada por não conseguir provar que Geraldo estivera em sua casa. Porém, como o cadáver não apareceu, e não foram encontradas evidências de crime, o rapaz foi engrossar a estatística dos desaparecidos. Sem corpo, sem crime.
Esse foi o start para uma mudança mais radical daquela vida sem laços de amizades fieis e sem rastros deixados. Pretendia dar frescor àquela figura escondida dentro de si: fria, perversa, manipuladora, que não tinha família, não frequentava redes sociais, e costumava se infiltrar em grupos, associações e coletivos, apenas para manipular as pessoas que, em verdade, desprezava. Sim, era por puro interesse que interagia com as pessoas, fazendo-as se sentirem especiais, sempre dizendo o que queriam ouvir.
Embora insistisse em ser desejada como mulher por heterossexuais, percebeu a dificuldade de encontrar um que aceitasse sua condição de mulher com pênis, e resolveu iniciar o tratamento de transição para mudar o sexo. Não seria difícil, conhecia a estrutura de suporte à ideologia de gênero. Sabia ser quase impossível o contrário, pois acompanhou a célebre perseguição que o conselho profissional promoveu contra psicólogos que ofereciam terapias de reversão sexual. Lutou com a militância para impedir até que o tratamento, ofensivamente chamado de cura gay, fosse oferecido a homossexuais que buscavam ajuda para se livrar daquela condição, que se tornara incômoda, e viver como heterossexuais.
Não haveria a necessidade de se submeter a um tratamento hormonal severo, em razão da sua constituição física favorável.
O pênis foi retirado, e uma linda vagina, com desenhos e contornos perfeitos, foi esculpida em seu lugar. Renilda fez intervenções cirúrgicas no rosto e passou a usar um cabelão pintado de loiro, além da prótese colocada no bumbum.
Era outra pessoa, mas culpava a sociedade, que não a aceitava do seu jeito, e a obrigara a sofrer uma amputação. Negava-se a reconhecer que o fato de não gostar de se relacionar com homossexuais, e de que esconder que possuía um pênis, causavam a rejeição. Então, resolveu dar vazão, metódica e regularmente, ao ódio que sempre trouxe consigo. Enquanto uns relaxam na academia, e outros batem em sacos de pancada, ela queria matar.
Para zerar tudo, e não gerar desconfianças, pediu transferência para uma filial da empresa, numa cidade grande e distante. Era o quarto estado em que morava.
Resolveu escolher as vítimas sem nenhum padrão, e contar com as facilidades da ocasião. Usaria um expediente diabólico para dificultar as investigações: deixar mostras do seu DNA nas cenas dos crimes, pois os registros que poderiam ligá-la ao sexo biológico haviam sido apagados. Não deixaria digitais. Imitava um caso estudado na faculdade, de um serial killer que deixava provas de DNA de terceiros, recolhidos em lixos, nas ruas, e em casas e locais onde prestava serviços, e cuja prisão fora resultado de uma fatalidade. A polícia procuraria um homem, e ela passaria incólume pelas investigações. Não existia polícia científica, nem registros de seu DNA em arquivos públicos. Além disso, tinha conhecimento de que menos de 10% dos crimes praticados no país são solucionados pela polícia.
Em 5 anos, foram 30 mortos – uma vítima a cada dois meses. A referência era sua idade quando matou Geraldo, a primeira vítima: 31 anos. Na cena do crime, deixava fios descoloridos de seu cabelo, pelos do púbis e do nariz, saliva, cotonetes usados... Não deixou esperma porque não produzia mais. Entre as vítimas, pessoas de variadas espécies: mendigo, prostituta, taxista, casada(o) em busca sexo casual (lésbico ou hétero), líder religioso e empreendedor.
Encerrada a carreira criminosa, planejada em detalhes, preparou-se para arranjar alguém para estar ao seu lado pelo resto da vida. Não teria dificuldades em encontrar: era uma advogada vistosa e bem sucedida. Beirava os 40 anos, seria fácil dizer que não poderia ter filhos, e que gostaria de adotar. Montou uma triste história de vida: foi abandonada e sofreu abusos; um casal de idosos cuidou dela e teve um final trágico, com câncer e parkinson; o homem com quem se casaria desapareceu sem deixar rastros, levando-a a viver para o trabalho; e mudara de estado para esquecer as perdas suportadas em sua triste vida. Calculou que não seria difícil dar vazão a todo o seu apreço por manipular as pessoas.
Assim o fez. Casou com Astolfo, e juntos adotaram as gêmeas Lucy e Luma, que sofreram um bocado nas mãos da mãe, que não sabia amar, enquanto cresciam. O pai, porém, as amava pelos dois.
O tempo passou, e ela levava a vida de casada do jeitinho que havia programado. Além disso, Lucy estava casada e engravidara; e Luma estava na Espanha, fazendo Doutorado.
Quando Renilda pensava que tudo estava resolvido, e que seria feliz para sempre, teve uma síncope e parou no hospital, onde foi atendida e realizou uma bateria de exames. Um sangramento estranho deixou uma marca no lençol do leito em que ela ficava deitada, enquanto aguardava os horários de fazer os exames e buscar os resultados. Preocupado, o médico, sob muitos protestos da paciente, empreendeu uma análise detida para, então, diagnosticar o problema: câncer de próstata.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O garçom do atendimento personalíssimo



Enquanto vários clientes chegavam à Praça de Alimentação, Eurípedes, se não mirava o olhar no infinito ou fingia ajeitar a meia do pé esquerdo, voltava ao balcão para perguntar algo nonsense à mocinha do caixa. Às vezes apontava clientes de longe aos colegas, e quando estavam próximos, chegava mesmo a se esquivar para não esbarrar-lhes o corpo e evitar fadiga. Para ser atendido por ele, era necessária muita sorte.
Dali a 4 meses estaria aposentado – 129 dias, para ser mais exato –, e negava o esforço para encher os bolsos do patrão. Não precisava mais daquilo, pensava. Como recebia um fixo, podia dispensar a gorjeta, ainda mais que a mulher estava bem colocada como merendeira numa escola estadual, e aos fins de semana fazia salgados, doces e bolos para festas, pelo Dhelmyra Mini-Buffet.
Há 3 anos no Galeto Arisco, sempre desviou chopes e petiscos para conhecidos que se aventuravam pelos lados do Centro Comercial em que dava expediente. Mas, em determinado momento, deu zebra, pois o patrão empregou um paraíba neurótico para fiscalizar e anotar os produtos que saíam da cozinha. No primeiro mês, não estava esperto e tomou uns 500 contos de prejuízo. Um absurdo! Eurípedes berrou. Berrou muito... E foi por isso que, no dia em que a galera da sinuca chegou em peso, pedindo chopes a “2 por 1” de forma desinibida, ele quase teve uma convulsão. Disse que havia sujado, e pediu para falarem baixo, pois poderia pegar uma justa causa já próximo à aposentadoria.
Em especial no ambiente de trabalho, era um resmungão mal-agradecido. Aprendera com um primo, dirigente de sindicato, que patrão é tudo ladrão e explorador, e que é dever do empregado “entrar na Justiça” toda vez que sair de uma empresa. O conselho, ele sempre seguira à risca.
Era contra dividir a gorjeta com a cambada da cozinha que votava em políticos “nazistas dos infernos”, saudosistas da ditadura fascista, que iriam entregar o país aos Estados Unidos e trazer de volta a pobreza extinta por Lula. Sentia mal-estar ao pensar que não faria o primeiro voo de avião enquanto um vendido aos ianques estivesse no poder. E quando indagado o porquê de ainda não ter feito, respondia que demorava muito recuperar a economia para todos.
O patrão, que ele tanto odiava, também votava na direita; e sempre o recriminava pelos processos de reparação por danos morais que Eurípedes moveu contra dois (ex) antigos clientes do restaurante, acusando-os de racismo. Não o mandava embora por sentir um grande carinho pelo funcionário, que não sabia explicar.
Mas, na vida, nem tudo é flores, e esse cônscio senhor de seus direitos, não podia ver uma nota de 1 galo (ou uma onça) bobeando no caixa, que dava logo um perdido; sem contar as mercadorias que frequentemente desviava, numa operação casada com um vizinho que trabalhava perto do restaurante, e vinha de moto para pegar o produto do furto, devidamente acondicionado, e deixado num saco de lixo próximo à lixeira, para divisão posterior.
Certa vez, questionado por sua mulher, sobre não sentir vergonha de fazer isso, e por não se colocar no lugar dela, que era uma microempresária, respondeu o que aprendera com o primo: “estou agindo segundo a moral revolucionária, contra a moral burguesa. Se você é patroa, ponha as barbas de molho e não chore a expropriação”.
Infelizmente, esse é o retrato da inveja e do desprezo pelo empreendedor, que estão arraigados no sentimento do brasileiro.
Apesar do mau humor, os colegas de trabalho, muitas vezes vítimas de desconfiança injusta pelo sumiço de peças de queijo ou de salaminho que ele dava cabo, juntavam grana para a festa de despedida do Euri, como era carinhosamente chamado.
Um dia, porém, a filha do patrão, que depois de sair da faculdade se juntava à mãe para pegar no pesado, na cozinha do restaurante do pai, viu Eurípedes enfiar várias porções de franguinho, recém-preparadas pelos ajudantes de cozinha, num saco de lixo, e o seguiu até vê-lo colocar ao lado da lixeira, acenando para um motoqueiro que se aproximava. Com o coração na mão, por causa da aposentadoria iminente, o patrão se viu forçado a demiti-lo por justa causa.
A situação foi devidamente revertida na Justiça Laboral. O juiz reconheceu que o coitado teria até cometido falhas, mas apontou que o patrão não poderia despedi-lo naquele período da pré-aposentadoria, nem tê-lo constrangido no ambiente de trabalho.
Um dos fundamentos da decisão, uma pérola jurídica, foi a analogia à “Teoria da Lógica do Assalto”, da pensadora Márcia Tiburi. Eurípedes foi dispensado pelo patrão, que continuou pagando seu salário, mas para não ficar mal com a patroa, foi matar o tempo trabalhando em seu Mini-Buffet. A esposa precisou regularizar a empresa para contratá-lo – exigência dele –, porque até ali atuava na informalidade. Logicamente, isso a levou à falência pouco tempo depois, mas não foi sequer objeto de discussão.
O proprietário fechou o Galeto Arisco, e foi viver com a família nos Estados Unidos, aproveitando seu passaporte italiano.
Os antigos colegas de trabalho engrossaram a lista dos desempregados, e um deles chegou a ouvir de Euri que “isso é efeito do sistema porco do capitalismo”.

E ele ainda considerava que a justiça, enfim, havia sido feita em seu caso (!), pois recebeu uma boa verba indenizatória, fixada por Sua Excelência na sentença, a título do "constrangimento" sofrido. A decisão, aliás, sequer foi objeto de recurso, por falta de confiança do requerido nas instituições que, segundo juram, continuam funcionando.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Incontinência


Aquela incontinência urinária o incomodava há meses, e pouco depois de adentrar e se instalar no restaurante, sentiu vontade de ir ao banheiro. Levantou-se da cadeira e seguiu os passos já conhecidos, naquele jeito de quem se espreme para não fazer ali mesmo, nas calças.
Bastou entrar e se trancar para ouvir tiros-gritos-tiros.
Ficou em estado de choque. Mijou igual um chafariz, molhando tudo ao redor, inclusive o sapato, e quando voltou a si, Penélope esmurrava a porta, gritando seu nome, histérica – quase como a moça do “Igu néra guei?” –, e perguntando se ele estava bem.
Saiu sem dar a descarga, e ela, sem tomar fôlego, foi logo o colocando a par dos acontecimentos, metralhando palavras desconexas.
Ao final, ele compreendeu que dois encapuzados haviam invadido o recinto e disparado vários tiros, a boa distância, no careca que estava sentado ao seu lado.
- Podiam ter acertado você, Tavinho. - E chorava...
Foram caminhando, e Tavinho já estava com tudo sob controle, apesar de incomodado com aquele sangue que saía do corpo do sujeito inerte, ainda descoberto, olhos esbugalhados e rosto deformado, esburacado pelas balas que o atingiram.
- É, podiam ter me acertado - respondeu. - E eu reclamando de meu problema. Vejo agora que isso só pode ter sido coisa de Deus: uma doença enviada por Deus... - falou, pausadamente, para encerrar, enfático:
- Não havia escolha. Era incontinência ou morte!


Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, um saudosista que agora inventou de escrever poesia.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gertrudes

Era uma pessoa ruim em sua essência, e a certeza veio após seu quarto marido confirmar em alto e bom som, enquanto afivelava a bolsa do notebook, jogava malas e outros recipientes com seus pertences no lombo e caminhava rumo à porta para nunca mais voltar.
Deixava as chaves na porta e sacudia os sapatos para não levar daquele “lar desfeito” sequer o pó de minério de ferro com que a Vale empesteava a cidade.
- Liberdade, afinal!!! - Gritou.
Não tinham filhos, carros, cachorros ou samambaias, o que facilitava a decisão de ambos.
Gertrudes estava parada na antessala, com olhar fixo no horizonte enquanto elencava os defeitos de Herculano. Partiria para outra – não tinha tempo nem talento para sofrer dores de amores.
Deu vontade de tomar um proudy mary, mas os drinques era ele quem fazia. Ela se virava nos acepipes e sanduíches, sempre abusando da pimenta moída e deixando transparecer o seu “fraco” por alecrim.
Pensou em abrir o Chianti Galo Nero comprado há um mês, e sorvê-lo até a última gota.
Foi o que fez.
Após abrir a garrafa, deu um sorriso irônico e lançou Chico Buarque no notebook acoplado à TV:
- “Eu vou lhe deixar, a medida do Bonfim não me valeu....
Checou o celular, abriu o facebook e mudou o status.
Pronto. Agora estava sol-tei-ra!!!
Começaram a chover mensagens na timeline e inbox, das amigas interessadas (mais na fofoca do que dar “aquela força”), oferecendo o ombro amigo para a Gê desabafar.
Fez charme, agradeceu a grande preocupação de todas em 5 minutos, mais de 100 recados –, e fingiu estar triste e aborrecida demais para falar no assunto.
Aproveitou para conferir quem estava solteira, pois poderia ser uma virtual parceira para convidar para o chope do fim de semana.
Cortou uns pedaços de emental, maasdan e gorgonzola; preparou umas provoletas e, junto com umas salsichinhas petisco, colocou tudo em cumbuquinhas.
Solteira numa sexta-feira...
O momento era inoportuno para sair, embora não fosse má ideia, pois a tv por assinatura estava com uma programação daquelas que dão vontade de rescindir o contrato.
Pensou em sua família, da qual estava afastada; em seus pais, já falecidos.
Assistiu a uma das 35 reprises de um filme francês com Jacy Borreau.
O vinho estava acabando. Pensou em tomar banho e dormir.

Caminhou para seu quarto, para sua cama... E foi só então que lembrou que tinha medo de dormir sozinha.

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, um saudosista que agora inventou de escrever poesias

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Saldanha, o incorrigível



Bartolomeu Saldanha era o dono da verdade... 
 
Oftalmologista bem sucedido, nas conversas de botequim, além de transitar bem na já tradicional “Filosofia”, discutia desde Pedagogia até Física Quântica. Aliás, discutia, não. Dava aulas, pois ninguém era páreo para ele.


Frequentava o Xágora, boteco de classe média onde ensinava aos empresários a arte de comerciar, interpretação de leis a advogados e a preparação de guisados ou de uma bela pasta aos gourmets e culinaristas.


Desancava a todos, falando as verdades que precisavam ouvir; e destacava o primor e o rigor com que educava seus filhos, aproveitando para dar pitacos em como os outros deveriam educar os seus.


Se alguém tecia um elogio à esposa, lá vinha ele com ironia, dizendo: - "Nossa, ela é bastante prendada, não é mesmo?"


Se outro fizesse um comentário sobre um feito de seu filho, ele de pronto afirmava: - "Esse seu menino é um gênio!"


E piscava não disfarçadamente para outro membro da mesa.


Todas as vezes que alguém comentava alguma proeza que para ele soasse como vantagem, ou se percebesse que era algo importante para seu interlocutor, ele desqualificava para logo em seguida contar um feito seu ou de um de seus parentes, de maior magnitude.


A dinâmica de alguns botecos é assim: alguns habitués infelizes e metidos a besta se juntam a outros que considera de “menor estirpe”. O intuito é superar suas frustrações diminuindo os outros, fazer autopromoção. É uma das misérias humanas, e o mais engraçado é que ninguém se afasta do grupo. Parece que todos estão presos uns aos outros por um visgo, e não procurando nada melhor para fazerem, no dia seguinte chegam do trabalho e voltam novamente, escutando de forma bovina gente como Saldanha, até o dia em que é o “Saldanha da vez” e fala lá seus impropérios para os menos afortunados.


E no Xágora a rotina seguia...


Um dia, Saldanha não apareceu. Houve alguns comentários, alguém chegou a perguntar onde teria ido o assíduo “Inquisidor”. Mas ninguém sabia.
No dia seguinte também “faltou”. Poucos tinham o número do seu celular. Alguém arriscou. Caiu na caixa postal.
Esse amigo que ligou, de tão incomodado que estava, virou para o lado e disparou:


- "Viu o jogo do Flamengo ontem?"


A vida seguia...


Já após a segunda semana de sumiço, pouco se lembrava de Saldanha; e após o primeiro mês já não se falava mais nele.

Outras pessoas haviam tomado seu espaço e se incorporado ao fixo do grupo e do estabelecimento.
O tempo não para, e ninguém é insubstituível. Assim, novas histórias, novas discussões intermináveis e novas idiossincrasias contribuíram para seu definitivo esquecimento.


Havia um bom tempo do sumiço de Saldanha quando, num belo dia, sentou-se a uma das mesas do bar um rapaz simpático, de fisionomia que lembrava alguém “de longe”.


Fez um pedido ao garçom e perguntou se ele trabalhava ali havia muito tempo. O solícito funcionário, abrindo a gelada, disparou:


- "Estou aqui há quase vinte anos, senhor".


- "Ah, tá! Então você deve ter conhecido meu pai, o Bartolomeu Saldanha".


- "Sim, claro", respondeu, disfarçando o desprezo por aquele pão-duro que reclamava de todas as contas, e não deixava de gorjeta nem o gelo para colocar no uísque.


- "Ele mudou daqui né? A gente ficou sabendo", emendou o garçom.


- "Não. Meu pai faleceu há quase sete meses. Morte súbita. Estranhamos que ninguém daqui tenha ido ao seu enterro. Nem os amigos de infância apareceram, apesar de avisados. É a vida, não? Ajudou a tanta gente e no fim ficou praticamente sozinho..."


- "É verdade, as pessoas são muito ingratas nesse mundo de hoje", observou finalmente o garçom, que lá se foi, com um sentimento profundo de culpa e pesar, informar aos habitués e “grandes amigos”, a morte do “saudoso” Saldanha.





Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, contista e cronista, além de saudosista