Desde menino, Reinaldo
sentia atração por garotos. “Eu nasci assim”, dizia.
Os trejeitos femininos saltavam aos olhos, junto a sua constituição física. Por conta disso, foi submetido à brutalidade de um pai que espancava mãe e filho, mas que praticava atos libidinosos com primos e amigos na juventude. Descontava sua vergonha no menino, e acusava a mãe de ser culpada pelo “menino ser assim”. Reinaldo ainda apanhava dos primos e dos vizinhos, principalmente após ser estuprado. Por sobrevivência, aprendeu a bater de volta; e ao perceber que tinha força, tomou gosto e passou a ser ele a escolher os eleitos que levariam socos e pontapés violentos.
Até no colégio vivia se
estranhando com os colegas, apesar da quase totalidade não se importar com sua
opção sexual. Era mais cruel com quem se negava a satisfazer sua libido; e
embora estivesse se desenvolvendo fisicamente, não conseguia entender que não
era agressão ou preconceito, negar-se a praticar sexo com ele, ou não
reconhecer que o homossexual deve gozar de privilégios apenas por ser
homossexual.
Ao entrar na faculdade
de Direito, ainda se vestia com roupas masculinas, apesar da fala macia, que
alterava radicalmente ao se exasperar. Aprendeu com os professores — que também
eram magistrados — que quem detém o poder decidir determina o que é justiça,
que os princípios jurídicos absorvem deformações ao gosto do freguês e
que magistrados progressistas, sem obterem um único voto, impõem
mudanças até de cunho civilizacional à sociedade. Ouviu deles, que são
garantidos pela vitaliciedade, que estão livres para implementar as mudanças
exigidas pela sociedade (como se a sociedade inteira, e não pequena
parte dela, o pedisse), porque não devem satisfações a eleitores.
Estudou com afinco a
ideologia de gênero através das disciplinas de ciências humanas, e não se
incomodou com o fato de que as ciências biológicas são descartadas para
explicar o sexo como construção social, e não um fenômeno natural. Com muita
satisfação viu o poder constituído abraçar essa teoria e desprezar o direito
individual de quem a entende anticientífica ou a ela se opõe por motivos
pessoais ou de crença religiosa. Achava absurda a ideia de que alguém exigia
saber o sexo biológico da pessoa com quem mantém laços afetivos. Reinaldo, a
cada dia aumentava suas convicções, pautado em decisões judiciais baseadas no
princípio da dignidade humana e no direito de personalidade, como a que admitiu
a alteração do nome civil, cuja principal função é individualizar e identificar
o ser humano nas relações sociais.
Ele estava de pleno
acordo com a ideia de o desejo pessoal do homossexual sobrepujar o interesse
público. E mais ainda: sabia que há regras e exceções, mas sabia também que
quem decide o que é regra e o que é exceção, é quem possui o poder de decidir.
E é por isso que defendia a urgência da ocupação de espaços-chaves, para
solidificação das pautas progressistas na sociedade.
Ao conhecer a velha
máxima dividir para conquistar, compreendeu por que alguns se
esforçam para causar fissuras na sociedade através do discurso do nós
contra eles, instigando a hostilidade de negros e índios contra brancos, e
entre homens e mulheres, gays e héteros, ricos e pobres, veganos e
carnívoros... Ficou indignado ao ouvir, numa palestra que os relatórios que
afirmam que o Brasil é o país onde mais se matam homossexuais, mulheres e
negros são falaciosos; e que, na realidade, é o lugar do mundo onde morrem mais
pessoas assassinadas, mais que na guerra: acima de 60 mil homicídios por ano.
Portanto, morrem mais homossexuais, mulheres e negros, e também mais heterossexuais,
homens e brancos. Mas o que o tirou do sério foi ouvir que é falsa a
perseguição a homossexuais no país, pois eles estão no Congresso, no Executivo,
no Judiciário, na mídia, nas FFAA e na Academia, em suma, em todas as
instituições. Mas ele entendia a necessidade de manter a farsa que viabiliza o
discurso.
Pois bem. Naquele
momento, só quem se submetesse à operação de mudança de sexo poderia
alterar o nome e o sexo sem qualquer referência à situação de transexual no
registro civil. Mas em seguida, as instituições reconheceram que os avanços
eram insuficientes para promover a dignidade da pessoa humana, e atender às
exigências de cada indivíduo em seu direito de personalidade. Então,
primeiramente, através de decreto, foi estabelecida a adoção do nome social por
travestis e transexuais, sem alterar os documentos oficiais. Depois, decisões
das mais altas Cortes do Judiciário, com base nas mesmas normas jurídicas que
fundamentavam a antiga regra geral da imutabilidade do nome, reconheceram a
desnecessidade de ajuizar ação nem realizar operação de adequação
sexual para alterar o nome e o sexo no registro civil, e proibiram
qualquer remissão à expressão transexual, ao sexo biológico ou aos motivos que
levaram à modificação do registro civil. Por fim, decisão de órgão
administrativo ligado ao Judiciário, sem a anuência do Poder competente, o
Legislativo, emitiu normativo determinando tais providências aos cartórios
extrajudiciais.
Ainda na Universidade,
conheceu o pessoal da área de Psicologia, e manteve relacionamentos afetivos
com dois deles, de quem soube que alguns governantes tiranos haviam usado a
Psicologia e a Psiquiatria para perseguir opositores, internando-os em manicômios,
isolando-os com loucos de toda a espécie, ou enviando-os a campos de
concentração ou gulags. Soube também de certa flexibilidade na elaboração de
postulados dessas áreas fundamentais para a sedimentação da teoria de gênero no
ordenamento jurídico, e entendeu por que não importavam os inúmeros casos de
arrependimento posterior à cirurgia de mudança de sexo, que
geravam, inclusive, suicídios. Esse efeito colateral não deveria, de forma
alguma, aparecer nas estatísticas.
Depois de formado,
Reinaldo passou a exibir as conquistas profissionais e seu talento, e a repetir
o discurso da superioridade financeira e intelectual dos homossexuais, embora
não dispensasse os favores conferidos pelo Estado às minorias – explorava o vitimismo
no coletivo de negros homossexuais, onde atuava desde o tempo da graduação,
para manipular a militância, servindo-se também dessa grande massa de manobra
comumente manejada por políticos, intelectuais e outros líderes. Havia-se
transformado naqueles benfeitores que, de forma fingida,
tutelam as minorias com o objetivo de obter vantagens, mantendo-as cativas.
Demonizava e desumanizava quem se opunha à ditadura do politicamente correto,
abusando de termos como preconceituoso, homofóbico, fascista e nazista. Sabia
que, com esse discurso, tornava o inimigo alguém execrável aos olhos da
militância. Isso, para alguns, justificava a agressão ou até a remoção física
desse adversário. Extremamente inteligente e arrogante, sua empatia era
desajustada.
A forma de encarar sua
homossexualidade ia modificando com o tempo, mas não queria mudar o
sexo. Passou a se vestir como mulher e alterou a documentação, trocando o
prenome por Renilda, e tirando o patronímico do pai, para assumir o de solteira
da mãe. Guardava da mãe uma lembrança sobre a qual preferia não se aprofundar.
Também fez algumas
aplicações de silicone e botox, e mais adiante, já mulher na documentação, foi
aprovada em prova de admissão num escritório de advocacia de renome, de uma
cidade grande de outro estado, e foi para lá de mala e cuia. Agradava-lhe o
fato de ninguém conhecer sua vida pregressa. Já instalada, foi galgando postos
rapidamente na empresa, pois, além de inteligente e esforçada, não tinha o
menor pudor em atropelar quem se pusesse como obstáculo. Possuía admiradores,
mas também desafetos.
Fora do trabalho, como
mulher, porque assim se sentia, frequentava bares e boates para azarar rapazes
e fazer sexo casual. Estranhamente, enquanto se apresentava como homem
homossexual, mantinha relacionamentos com homens homossexuais. Mas ao virar a
chave, como mulher, só buscava relações com homens heterossexuais. Ia para a
cama apenas depois que o parceiro se embriagasse, ou usasse maconha ou cocaína;
e agia como o personagem de M. Butterfly, de David Henry Hwang, ou aproveitava
o apagamento ou a falta de freios morais do parceiro, já inebriado. Após a
relação sexual, costumava inventar uma desculpa para dispensá-lo, com o
objetivo de evitar surpresas ao fim do torpor. Apesar dos cuidados, mantinha
sempre por perto um instrumento que a protegesse. Embora reprimisse, não havia
perdido a agressividade.
Certa vez, porém, ela
dormiu, e acordou, no dia seguinte, com o rapaz aos gritos, indignado por
Renilda possuir um pênis, e ainda maior que o seu. Indagava o que teria
acontecido: Fora dopado com Rohypnol, ou outra droga de efeito similar?
Enrabado? Beijou a boca de outro homem?
Ela deu uma coça de
porrete no infeliz, e só parou por medo dos vizinhos ouvirem os gritos.
Enquanto o rapaz agonizava, inerte, esperou a hora mais conveniente para
transportar aquele corpo todo moído até o porta-malas do carro, e deixá-lo,
quase morto, num lixão da periferia. Foi encontrado por um miserável e, após
recuperar-se, tamanha era a vergonha, que inventou que havia sido roubado e
espancado por bandidos.
Ela submergiu. Passou a
fazer sexo apenas com profissionais. Não porque temia repetir o que havia feito
— ela percebeu que faria aquilo outras vezes. Só não queria ser interrompida antes
da hora. Em pouco tempo, aceitou proposta de emprego em outro Estado, feita por
uma advogada para quem, há tempos prestava serviços de correspondência em casos
complexos. Foi-se.
Enquanto se dedicava
fulltime ao novo emprego, conheceu Geraldo, jovem cristão ligado às
formalidades da religião, com quem embalou um relacionamento. De início,
conseguiu dominar a satiríase, fazendo-se de santa. Mas encarava a quebra da
abstinência sexual dele como um jogo que queria vencer, o que não demorou a
acontecer. Aos 3 meses de relacionamento, estava pronta para seduzir o rapaz, e
preparou um clima favorável: um vestido bastante sensual, e um jantar à luz de
velas, numa espécie de garçonnière que mantinha em lugar retirado. Fazia isso
Para evitar passar por outro susto daqueles, e manter o sigilo, registrou o
imóvel em seu antigo nome.
Após umas taças de
vinho, Geraldo cedeu, para em seguida ser tomado por imenso espanto, ao notar o
membro enrijecido de Renilda. Num acesso de fúria, empurrou-a, aos berros,
perguntando por que fizera aquilo. Ela pegou a garrafa de champanha que estava
sobre a mesa e a quebrou na cabeça de Geraldo, causando um corte profundo, de
onde o sangue jorrava. Ele ficou zonzo, seu corpo emborcou já desmaiado. Nesse
momento, ela enfiou-lhe várias vezes a parte afiada que segurava pelo gargalo.
Nenhuma lágrima correu de seus olhos, não sofreu um minuto sequer. Notou apenas
que suas mães continuavam firmes e que, estranhamente, aquilo não a
surpreendia. Em seguida, começou a pensar em se livrar do cadáver e das provas,
com a certeza de que a polícia não chegaria àquele lugar, nem a ligaria ao
imóvel.
Usou um rolo de
plástico estrategicamente guardado, para enrolar o cadáver. Levou-o ao carro e
depois a um lugar ainda mais isolado, onde ateou fogo com gasolina. No dia
seguinte, voltou ao local para destruir as arcadas dentárias e jogar o que
sobrou num lago; e em outro lugar incendiou as roupas e a parca mobília do
garçonnière, onde poderia ter respingado sangue. Lavou o cômodo com água
sanitária e, vestida de homem, falando com voz grave, contratou um pedreiro
para reformar o imóvel: mudar o piso e o rodapé, e pintar das paredes, que
previamente havia lixado.
Voltou à vida
rotineira, e esperou dois dias para ligar à família do namorado e perguntar por
ele. Fingiu saudades e disse que ele estava sumido desde o jantar em sua casa.
Logicamente, ligou várias vezes para o celular que jazia no fundo do lago.
Renilda foi investigada
por não conseguir provar que Geraldo estivera em sua casa. Porém, como o
cadáver não apareceu, e não foram encontradas evidências de crime, o rapaz foi
engrossar a estatística dos desaparecidos. Sem corpo, sem crime.
Esse foi o start para
uma mudança mais radical daquela vida sem laços de amizades fiéis e sem rastros
deixados. Pretendia dar frescor àquela figura escondida dentro de si: fria,
perversa, manipuladora, que não tinha família, não frequentava redes sociais, e
costumava se infiltrar em grupos, associações e coletivos, apenas para
manipular as pessoas que, em verdade, desprezava. Sim, era por puro interesse
que interagia com as pessoas, fazendo-as se sentirem especiais, sempre dizendo
o que queriam ouvir.
Embora insistisse em
ser desejada como mulher por heterossexuais, percebeu a dificuldade de
encontrar um que aceitasse sua condição de mulher com pênis, e resolveu iniciar
o tratamento de transição para mudar o sexo. Não seria difícil,
conhecia a estrutura de suporte à ideologia de gênero. Sabia ser quase
impossível o contrário. Então, convocou grupos e participou de reuniões para
iniciar a campanha de perseguição que o conselho profissional promoveu contra
psicólogos que ofereciam terapias de reversão sexual. Lutou com a militância
para impedir até que o tratamento, ofensivamente chamado de cura gay,
fosse oferecido a homossexuais que buscavam ajuda para se livrar daquela
condição e viver como heterossexuais, por se sentirem incomodados.
Não haveria a
necessidade de se submeter a um tratamento hormonal severo, em razão da sua
constituição física favorável.
O pênis foi retirado, e
uma linda vagina, com desenhos e contornos perfeitos, foi esculpida em seu
lugar. Renilda fez intervenções cirúrgicas no rosto e passou a usar um cabelão
pintado de loiro, além da prótese colocada no bumbum.
Era outra pessoa. Culpava
a sociedade, que não a aceitara como era, e a obrigara a tomar essa decisão.
Negava-se a reconhecer que o fato de não gostar de se relacionar com
homossexuais, e de que esconder que possuía um pênis, causavam a rejeição.
Então, resolveu dar vazão, metódica e regularmente, ao ódio que sempre trouxe
consigo. Enquanto uns relaxam na academia, e outros batem em sacos de pancada,
ela queria matar.
Para zerar tudo, e não
gerar desconfianças, pediu transferência para uma filial da empresa, numa
cidade grande e distante. Era o quarto estado em que morava.
Resolveu escolher as
vítimas sem nenhum padrão, e contar com as facilidades da ocasião. Usaria um
expediente diabólico para dificultar as investigações: deixar mostras do seu
DNA nas cenas dos crimes, pois os registros que poderiam ligá-la ao sexo biológico
haviam sido apagados. Não deixaria digitais. Imitava um caso estudado na
faculdade, de um serial killer que deixava provas de DNA de
terceiros, recolhidos em lixos, nas ruas, e em casas e locais onde prestava
serviços, e cuja prisão fora resultado de uma fatalidade. A polícia procuraria
um homem, e ela passaria incólume pelas investigações. Não existia polícia
científica, nem registros de seu DNA em arquivos públicos. Além disso, tinha
conhecimento de que menos de 10% dos crimes praticados no país são solucionados
pela polícia.
Em 5 anos, foram 30
mortos – uma vítima a cada dois meses. A referência era sua idade quando matou
Geraldo, a primeira vítima: 31 anos. Na cena do crime, deixava fios
descoloridos de seu cabelo, pelos do púbis e do nariz, saliva, cotonetes
usados... Não deixou esperma porque não produzia mais. Não havia um padrão de
vítima e nenhum padrão de método. Dentre eles, o líder religioso foi o que mais
a divertiu. Possuía o mesmo ar de superioridade moral de Geraldo, mas não a sua
ingenuidade. Soube o que estava acontecendo antes do fim, o que tornou essa
experiência mais interessante para Renilda.
Encerrada a carreira
criminosa, planejada em detalhes, preparou-se para arranjar alguém para estar
ao seu lado pelo resto da vida. Não teria dificuldades em encontrar: era uma
advogada vistosa e bem-sucedida. Beirava os 40 anos, seria fácil dizer que não
poderia ter filhos, e que gostaria de adotar. Montou uma triste história de
vida: foi abandonada e sofreu abusos; um casal de idosos cuidou dela e teve um
final trágico, com câncer e parkinson; o homem com
quem se casaria desapareceu sem deixar rastros, levando-a a viver para o
trabalho; e mudara de estado para esquecer as perdas suportadas em sua triste
vida. Calculou que não seria difícil dar vazão a todo o seu apreço por
manipular as pessoas.
Assim o fez. Casou com
Astolfo, e juntos adotaram as gêmeas Lucy e Luma, que sofreram um bocado nas
mãos da mãe, que não sabia amar, enquanto cresciam. O pai, porém, as amava
pelos dois.
O tempo passou, e ela
levava a vida de casada do jeitinho que havia programado. Entretanto, em alguns
momentos Astolfo a desarmava sem perceber, e ela precisava se lembrar que isso
também fazia parte. Além disso, Lucy estava casada e engravidara; e Luma estava
na Espanha, fazendo Doutorado.
Quando Renilda pensava
que tudo estava resolvido, e que seria feliz para sempre, teve uma síncope e
parou no hospital, onde foi atendida e realizou uma bateria de exames. Um
sangramento estranho deixou uma marca no lençol do leito em que ela ficava
deitada, enquanto aguardava os horários de fazer os exames e buscar os
resultados. Preocupado, o médico, sob muitos protestos da paciente, empreendeu
uma análise detida para, então, diagnosticar o problema: câncer de próstata.
Fernando César Borges
Peixoto
Advogado, niteroiense,
conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.
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