segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Confissões de um filósofo de botequim sofrido


— Olegário, querido! Traga mais uma gelada pro seu velho amigo. Trincando, hein! — Disse Samuel ao garçom, conhecido de anos, do Bar Filadélfia, em Recanto dos Prazeres, bairro de Vila Fictícia.

— Toma lá, Samuca. Flamengo joga hoje. Quero ver se é o timaço que vocês dizem. — E lá se foi o senhor coxo atender os rapazes que afastavam cadeiras para se sentarem à mesa central do botequim.

Samuel serviu-se da cerveja, bateu o copo na garrafa e começou a confissão, falando baixo para que os frequentadores não ouvissem:

— E se eu dissesse que percebi a diferença logo no início? Não soube disfarçar. Mas, também, pudera! Sabe que estou sempre atento ao que acontece ao meu redor... Não, meu amigo, eu não estou enganado. Sei exatamente o que aconteceu. Há vinte e cinco anos eu estava do outro lado; eu era o zangão que gostava de foder mulheres casadas. Gostava dessa prática infeliz porque mulheres casadas não fazem cobranças, querem apenas uma aventura para compensar os anos de crises de ciúmes dedicados ao marido, dos cuidados com os filhos e o tempo empenhado na organização da família perfeita. Quando veem tudo nos eixos, filhos criados, marido brochando, é a vez de investirem em si próprias. Li num artigo de especialista: os homens traem no início do casamento porque são imaturos e viçosos, e querem confirmar a macheza. Já as mulheres só traem depois da vida estabilizada; para elas vige o brocardo “primeiro as coisas primeiras”. E uma coisa eu pude constatar: aquelas com quem me relacionei — se não mentiram para mim, e eu acredito que não —, tinham enormes dificuldades em manter uma relação mais íntima com o marido. Sexo, então? Nem pensar! Só o afeto cultivado com o convívio de anos.

Olegário interrompeu:

— Samuca, a Elizete fez uns pasteizinhos divinos. Estão fresquinhos. Tem de carne, camarão e bacalhau. Quer algum?

— Se for dos pequenos, deixa dois de cada aqui na mesa, que é para você não me interromper mais.

Olegário saiu claudicante, resmungando as velhas coisas de sempre e foi lá pedir para a cozinheira separar os pastéis do cliente ranzinza, que piorava a cada dia, segundo seu diagnóstico.

— Quando a conheci, ela saía com um homem mais velho e casado que bancava seus gastos em troca de ir lá de vez em quando dar umas beliscadas nela. É a tal relação de sugar baby e sugar daddy... Eu entrei nesse circuito e me apaixonei. Investi pesado e consegui trazê-la para viver comigo; e fomos o casal mais feliz que se soube. No começo, transávamos muito, beijávamos muito, ríamos muito... Trocávamos carinhos e carícias todo o tempo, em qualquer lugar, e foi assim até a gravidez do primeiro filho. Quando veio a menina, era uma época em que só fazíamos sexo para satisfazer a libido, e a coisa foi só diminuindo. Com o evento da terceira gravidez, eu cheguei a pensar que era filho de outro, porque minha vida sexual praticamente se resumia a masturbação e prostitutas. Se o moleque não fosse a minha cara, desconfiaria até hoje.

Nesse momento, umas meninas belíssimas entraram no bar para batepapear com os rapazes que haviam chegado anteriormente. O bode velho parou para espiar e seus olhos brilharam. Saudades da juventude, já que ele gostava mesmo era de mulheres maduras. Sempre fora assim.

Voltou à posição anterior e, depois do pit stop, tornou à carga:

— Então, meu caro, o tempo transformou nossa vida; a gente passou a viver uma relação protocolar. Ela nunca tinha tempo para dedicar a mim, com referendo dos inúmeros compromissos assumidos, e eu, de minha parte, agia de forma recíproca: futebol e botequim. E só! Foi assim por anos, até que, num determinado tempo, ela abandonou um a um seus afazeres: a equipe da Igreja, o trabalho voluntário no asilo, o bazar humanitário, o curso de inglês e até a ginástica — se bem que, nesse caso, o objetivo de emagrecer havia se cumprido. E foi além: comprou roupas novas, passou a se maquiar e voltou a usar perfume. Passou, inclusive, a usar calcinhas sexys. Antes, andava com aquelas de cor bege, que fazem a mulher parecer engessada. Peluda anos a fio, como a Conga do circo, de repente desenhou o tal bigodinho de Hitler, que eu só vi porque entrei no quarto de supetão após ela ter saído do banho. E ainda tem isso: não trocava de roupa na minha frente, e se eu insinuasse algo sobre sexo saía desconjurando e se trancava no quarto. Há anos não tomávamos banho juntos...

Olegário trouxe os pastéis e Samuel sorriu, agradecendo. Pegou um e mordeu. Era de bacalhau, sabor que não gostava muito, mas havia pedido — sem saber o porquê — e não iria devolvê-lo.

Depois de um muxoxo, voltou ao seu monólogo:

— A gota d’água aconteceu quando menstruou no meio da semana e o fluxo acabou na sexta-feira. Curiosamente, ela avisou que teria que concluir um serviço urgente do trabalho no sábado, dia fora do expediente. Acontece que, um dia antes, sexta-feira, havia arranjado uma dispensa no trabalho para passar a tarde inteira no salão, cortando e pintando madeixas e unhas. Se pôde se afastar do trabalho, como explicar tal urgência no dia seguinte? Pior: emperequetou-se toda para ir ao escritório onde estaria sozinha; e era a segunda vez seguida que tais coincidências aconteciam— falo sobre as datas do fim da menstruação e do trabalho inadiável —. Não fiz escândalo, o bom cabrito não berra. Fiquei elucubrando por três dias e decidi sair de casa. Levei comigo a roupa do corpo, deixei até os imóveis que recebi de herança para trás, recomendando que os administrasse até que chegasse o tempo da divisão pelas crianças. Como você pode ver, as coisas não esfriaram de uma hora para outra; foi um desgaste gradual. Eu que era taradinho quando mais novo, nem percebi que o sexo virou uma coisa esporádica; um castigo para quem, na solteirice, achava que a vida de casado seria “esporrádica”. Escolhi tanto e acabei escolhido. Mas, à época, ela não negava fogo; era danadinha, a moça. Prometia...

Samuel olhou para Olegário e fez sinais apontando a garrafa de cerveja vazia e pedindo outra por meio de sinais. Continuou:

— Eu já havia tentado sair de casa antes, mas a volta para a casa dos meus pais foi negada pelo meu pai; e minha mãe já estava doente à época, não intercedeu. Voltei humilhado, pensei em cair na vida, virar mendigo, longe de todos, já que não reunia condições de alugar um local para viver sozinho e ainda arcar com pensão — pensei nisso por anos —. Não sei se não o fiz por falta de coragem ou por causa dos meus filhos, dos quais acabei me distanciando; e ela contribuiu, metendo o bedelho todas as vezes em que interagíamos, queria participar de momentos íntimos que não lhe diziam respeito. As crianças ficaram muito próximas dela, por conta da divisão das tarefas, e acabaram se afastando de mim. O pior é que permiti. Minha preocupação era ser pai, mostrava o lado ruim da vida e me preocupava com o lugar deles no mundo. Queria mostrar-lhes o que os esperava fora das asas da mãe, mas para eles eu não passava de um chato.

Olegário trouxe a cerveja, quis encher o copo, mas Samuel não permitiu. Ele mesmo pegou a cerveja e derramou devagarzinho para dentro do copo. Odiava espuma.

— Na adolescência das crianças, eu tinha pensamentos conflitantes: acertaríamos os passos ou eu teria que fazer o que fiz: ganhar o mundo? Eu me pegava fazendo planos ao lado dela, mas em seguida lembrava a frieza com que nos tratávamos. Confesso que pendia a passar por cima de tudo, pois, em verdade, eu nunca fui boa bisca, e sabia da minha grande parcela de culpa. Tenho meus pecadilhos e reconheço que não sou alguém que se quer ao lado por muito tempo: sou enjoativo e também enjoo fácil das pessoas — tenho baixa tolerância à frustração, disse o psicólogo da infância, no lugar de dizer: “você é mimado”, mas não estava, nem estou, psicologicamente preparado para discutir isso. Só sei que há um momento da convivência a partir do qual me transformo num ser insuportável, admito.

Uma lufada de vento fresco veio brindar aquela tarde quente, ensolarada, em que a cerveja gelada descia como água, refrescante, deliciosa. Samuel fechou os olhos e sentiu a brisa tocar gostosamente seu rosto. De repente, lembrou-se de algo e virou o corpo, falando na direção do velho garçom:

— Olegário, meu velho. Aquele toca-fitas de vocês ainda funciona?

— Nem sei — respondeu —, seu Salustiano proibiu música no recinto por causa daqueles boêmios que vinham pra cá ouvir as músicas esquisitas que gravavam e depois repetiam, uma a uma, com o violão. Espantava a freguesia, como você bem pode lembrar. Sem contar a arruaça que faziam com o jogo de dominó apostado.

— Mas eles já não vêm aqui há mais de um ano. A regra ainda está vigente?

— Não sei. Vou perguntar a D. Jussara e já te digo — o garçom saiu, rodeou o bar por fora, pela calçada sem marquise, e voltou, minutos depois, com a careca molhada de suor. A casa da proprietária ficava nos fundos, mas a porta interna, que interligava os ambientes, só ficava aberta quando ela estava no bar.

Disse ele:

— Samuca, ela falou que pra você pode ligar o rádio.

— Rádio não, Olegário, quero ouvir aquela fita cassete com músicas de verdade, das antigas. Coloca aí “Inspiração”.

— Primeiro preciso ver se funciona. — Olegário ligou o velho aparelho na tomada, pegou a fita, que estava enfiada numa capa coberta por uma crosta de gordura e muita poeira, enfiou no toca-fitas e apertou o play. Milagrosamente começou a rodar.

A primeira música foi “Perfídia”, com Altemar Dutra. Samuel ensaiou uma reclamação, mas foi obstado de imediato por Olegário:

— Tenho que trabalhar! Sem tempo, irmão, para ficar adiantando e voltando fita até encontrar o que você quer.

— Ok, Olegário. Você é quem manda.

A seguinte foi “A volta do Boêmio”, com Nelson Gonçalves: “Ele voltou, o boêmio voltou novamente, partiu daqui tão contente, por que razão quer voltar?”; e depois “Último desejo”, de Noel Rosa, na voz de Aracy de Almeida: “Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não presto, que meu lar é um botequim...”

Samuel ouvia, saudoso, as canções que os mais jovens chamavam de “música de corno” — e os mais velhos, de seresta. Foi só ouvir os primeiros acordes de “Inspiração” que seus olhos brilharam: “Na mesa de um bar é sempre onde encontro a inspiração. Bebendo e fumando foi como aprendi este samba-canção...”

Não aguentou. A emoção, pela primeira vez desde que iniciara o processo de separação e desapego afetivo da vida em família, tomou conta de si. (É possível que o álcool ingerido até ali tenha ajudado.)

Pediu a conta. Pagou e deu o último brinde na garrafa com o copo, um Nadir Figueiredo que fora o companheiro silencioso daquela tarde, a quem acabara de revelar os momentos mais delicados de sua existência.

No prato ainda descansavam cinco dos pastéis que havia pedido. Olegário perguntou se estavam ruins e ele nem respondeu que não. Apenas acenou, negando com o dedo pra cima e balançando a mão.

Partiu.

Enquanto se afastava do bar, caminhando sem saber ao certo para onde, sentia a dor de um punhal atravessando seu peito. Ainda teve tempo de ouvir: “Adeus, adeus, adeus... Cinco letras que choram, num soluço de dor”.

As lágrimas rolavam enquanto acompanhava Francisco Alves mentalmente: “É como o fim de uma estrada, cortando a encruzilhada, ponto final de um romance de amor...”

  

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O Chuveiro de alkingel

 

Tempos difíceis nunca implicaram letargia na vida de Dione Ismit de Souza. Enquanto a maior parte da população sofria atônita com a pandemia do Covid-19, absorvendo as notícias apocalípticas veiculadas nas redes sociais e na TV pela grande mídia arcaica e prostituída, ele procurava soluções e lutava para patentear, o mais rápido possível, seu revolucionário “chuveiro de alkingel”, que sonhava ver instalado em cada unidade das redes de supermercado pelo país e, quiçá, em cada estabelecimento comercial do mundo livre.

Arranjar um investidor foi o mais difícil, pois o dinheiro circulante estava correndo para as mãos das maiores empresas e conglomerados nacionais e mundiais, dada a estrutura que possuíam para atender às demandas, com observância do protocolo exigido e repetido como mantra por especialistas, políticos, jornalistas e histéricos.

Douglas Castro foi o investidor, e o produto fez um estrondoso sucesso, especialmente entre os que vivem a melhor idade. Os idosos, esses meninos crescidos, faziam compras a conta-gotas e formavam filas nos boxes coletivos para se imunizarem com o álcool milagroso, da raiz do cabelo – quando os tinha – às plantas dos pés. Não demorou muito, os anciãos passaram a levar consigo os netos, que iam se divertir nos chuveirões coletivos.

Comemorando a ideia revolucionária, especialistas da área da saúde e de humanas, muito entendedores das ciências, surgiram aos borbotões, e de pronto passaram a discutir a eficácia desse método de tratamento e de combate à doença. Pulularam palestras e debates na mídia e na academia, entre pessoas com entendimento consensual; artigos acadêmicos bajulatórios dirigidos ao produto foram escritos; e revistas publicaram inúmeras matérias. Tudo foi compartilhado incansavelmente nas redes sociais e replicado em blogs e em colunas de entusiastas da pandemia. ONGs comprometidas com a promoção de um mundo melhor defenderam combater o vírus chinês causador da moléstia com um chuveirão em cada recôndito desse mundo de ai meu Deus. A empreitada, logicamente, estava vinculada a doações milionárias, pois ninguém é de ferro.

Como estância lúdica de imunização, o chuveirão virou um local de sociabilização, sendo palco de encontros com hora marcada e tudo. Com efeito, além da população infantil e da terceira idade, a novidade também conquistou a paixão e a adesão dos histéricos, que não saíam de casa se não tivessem fortemente protegidos.

Quando os shoppings centers aderiram ao projeto, a euforia das pessoas causou inconvenientes escorregões e estabacos nos alegres e afoitos candidatos a alcançar o milagre, mas isso foi rapidamente contornado com a instalação de pisos antiderrapantes especialmente desenvolvidos para esse nicho de mercado.

Depois do piso especial vieram as máscaras apropriadas para usuários do chuveiro; e com o mercado em franca expansão, quem pegou carona na ideia foi a dupla visionária Nico e Neco — dois desmiolados, famosos nas redes sociais por promoverem brincadeiras edificantes numa banheira de nutella. Eles criaram modelos de banheiras e piscinas de álcool em gel, para aluguel ou vender, para instalação em clubes, em condomínios, em brinquedotecas e afins, e em festas nababescas de casamento, de aniversário e também nas comemorações de final de ano, fossem realizadas em lares ou em empresas.

A seguir surgiram as máscaras de segunda geração, ainda mais duráveis que as anteriores, e que permitiam aos usuários se refastelarem nas piscinas por mais tempo, sem deterioração do material.

Essas soluções deram tranquilidade aos governantes que, devido à alta periculosidade do vírus — cujos estragos eram destacados a cada minuto e segundo no noticiário —, determinaram o fechamento de praias, parques e praças. Por outro lado, também permitiram o endurecimento no trato com os negacionistas fascistas que praticavam desobediência civil e ideológica. Com pulso forte, o Estado, castigou-os física, psíquica e financeiramente; esses perniciosos que sequer deveriam ser catalogados como seres humanos.

O Presidente, que era também um negacionista, logicamente foi alijado de seus poderes em tempo, e não pôde determinar regras comportamentais à população em razão de inúmeras decisões das Cortes de Justiça, devidamente alinhadas à ONU.

Quando os mais abastados começaram a instalar chuveiros e boxes de álcool em gel nos banheiros e nas entradas das residências, a fim de higienizar moradores e visitantes, não demorou a virar exigência estatal. A medida visava a contornar o problema gerado com a proibição de visitas decretada pelos governadores de todos os entes federativos, o que gerou a indignação de parcela significativa da sociedade. O controle seria feito pelas Agências Reguladoras Estaduais de Visitação, cujo escopo era distribuir cadernetas que conferiam aos cidadãos o direito a até seis visitas anuais, adstritas às zonas territoriais onde se encontravam suas residências. Os locais de visitação, logicamente, deveriam estar equipados com chuveiros, banheiras ou piscinas; e para receber o vale-visita, o contemplado deveria ser vacinado — àquela altura, duas doses por mês — e portar o chip de controle de movimentação introduzido no corpo, uma ideia revolucionária chinesa. A pandemia já durava considerável número de anos, e todas essas medidas constavam numa Agenda da Organização Mundial de Saúde, liderada por um matemático guatemalteco.

Por outro lado, era concedido livre trânsito às autoridades, e apenas a elas, por serem muito bem capacitadas para o enfrentamento à ameaça real de erradicação da vida humana, culpa dos próprios humanos, conforme relatavam especialistas.

Os negócios da “Ismit In Gel” chamavam a atenção de empresários e de autoridades nacionais, vinculados ao governo único e global exercido há alguns anos a partir da ONU. Havia o interesse na aquisição da empresa, para adaptação e enfrentamento de outras ameaças iminentes de extinção da vida humana, fosse através de novos vírus mortais manipulados por cientistas autorizados por países democráticos, fosse pelo aquecimento ou pelo resfriamento do planeta, conforme a alteração das estações climáticas e dos pareceres da comunidade científica ligada ao governo único. Por isso era necessário adquirir suas patentes e adequá-las para o combate às novas ondas de mortandade.

Dispostos a fazer qualquer coisa para tomar os negócios de Ismit para si, com um não como resposta, a patente foi imediatamente quebrada, sob a alegação de se tratar de serviço essencial de manutenção da vida humana; e ele logo percebeu que não seria socorrido pelo direito de propriedade, em face da colisão com os princípios relacionados à promoção dos direitos humanos, conforme mostrava a jurisprudência dominante.

Mas Dione Ismit havia sido prudente e possuía uma carteira diversificada de investimentos; por isso não quebrou na cepa. Porém, ao tentar encarar aqueles que o prejudicaram, foi perseguido, humilhado e levado à falência por decisões judiciais e fiscalizações constantes. O Estado passou sobre ele como um rolo compressor. Atarefado demais, não se cercou dos cuidados necessários para enfrentar as grandes transformações geopolíticas ocorridas nos últimos tempos.

Não durou muito. Morreu de repente, de desgosto, apesar de aparentemente ter contraído uma doença degenerativa que acelerou, e muito, o processo — e não houve junta médica que explicasse.

Seus filhos foram mais espertos. Cresceram progressistas num lar burguês conservador. O pai investiu pesado na educação deles, mas não atentou que seus herdeiros se distanciavam dos valores que considerados inegociáveis pelo pai. Estava atarefado demais, como foi dito.

Os rapazes viraram burocratas; aderiram à religião estatal e perseguiram com afinco quem quer que estabelecesse empreendimentos não aprovados pelas autoridades ou que a elas não obedecesse, independentemente do teor de suas decisões.

Infelizmente, ao final, foram também tragados pelo sistema. Acusados de corrupção, morreram executados, pois a revolução se alimenta dos próprios revolucionários.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista