terça-feira, 28 de setembro de 2021

Meu amigo Cadu

 

 

Há duas noites fui visitado em sonho por uma figura bastante frequente na minha infância, um amigo querido de quem eu havia me separado, infelizmente, de forma trágica.

Acordei num sobressalto — era um pesadelo —, mas as coisas foram normalizando e, como não conseguia voltar a dormir de imediato, o banzo me atingiu em cheio.

Lembrei-me de uma das poucas fotos antigas que ainda possuía, já que a grande maioria delas — e não eram muitas — haviam sido consumidas num incêndio dramático ocorrido num cômodo da casa dos meus pais, quando eu ainda era jovem.

Éramos amigos desde sempre, e a foto era uma pose do time de futebol que formamos para realizar um sonho de infância.

Entrávamos na adolescência. O cenário era a quadra onde, minutos depois, disputaríamos nossa primeira final. Perderíamos de dois a um para um time mais organizado, mais entrosado, e com mais investimentos, se considerarmos a realidade daquele bairro, cujos moradores, em grande maioria, eram operários.

Ele estava lá. Aliás, nós estávamos lá. Felizes, sorrindo, agachados e abraçados, radiantes com o que havíamos conquistado até ali.

Poucos anos depois, Cadu e eu acabamos nos separando por contingências da vida. Mudamos de colégio, ele foi morar com a avó em outro bairro, porque era mais próximo ao trabalho que arranjou. Mesmo assim, continuávamos fazendo uma grande festa nas poucas vezes em que nos encontrávamos.

Ele era moreno claro, olhos verdes, usava corte baixo no cabelo castanho e tinha braços compridos, de macaco. Gostava de usar boné e roupas largas, bastante coloridas, e num desses encontros me surpreendeu quando vi que aquele bigodinho ralo que nasceu bem cedo já estava parecendo um guidão de bicicleta antiga.

Na última vez em que nos vimos, marcamos encontro numa boate, por telefone de disco. Contávamos com mais de dezoito e fomos tomar cerveja e uísque falsificado. A certa altura, ele me chamou para ir ao banheiro e puxou um sacolé com cocaína. Eu ainda estava espantado quando ele arrumou duas lacraias com rara destreza, naqueles pedaços de mármore colocados estrategicamente nos cantos dos banheiros, e disse que uma era minha. Eu disse não, ele ficou puto no resto da noite e acabamos perdendo contato para sempre.

Infelizmente, poucos meses depois recebi a notícia de que ele, por não ter dinheiro para bancar o vício, e já endividado com os traficantes, começou a fazer serviços de motorista para eles. O resultado foram os quinze tiros tomados numa emboscada feita por uma quadrilha rival. Seu corpo ficou todo perfurado, e ele ainda estampou a capa do jornal do dia seguinte, ficando conhecido como um dos cinco traficantes fuzilados numa guerra de quadrilhas em Niterói.

No sonho, ele vinha correndo pela rua e eu estava na porta de casa. Disse para eu ir para o portão de trás, queria falar comigo, mas não poderia ser ali porque dois homens armados o perseguiam.

Entrei em casa e voei para os fundos. Chegando lá, ele me entregou uma pistola sem munição e um pacote com drogas, tirado de dentro da bermuda. Pediu que eu guardasse e que voltaria mais tarde para pegar. Afirmou que aquilo jamais se repetiria.

Enquanto eu estava atônito, sem acreditar no que se passava, os homens chegaram. Mandaram-me entrar, fechar o portão e não voltar.

Fuzilaram meu amigo ali mesmo, impiedosamente. Foram disparados quinze tiros.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Confissões de um filósofo de botequim sofrido


— Olegário, querido! Traga mais uma gelada pro seu velho amigo. Trincando, hein! — Disse Samuel ao garçom, conhecido de anos, do Bar Filadélfia, em Recanto dos Prazeres, bairro de Vila Fictícia.

— Toma lá, Samuca. Flamengo joga hoje. Quero ver se é o timaço que vocês dizem. — E lá se foi o senhor coxo atender os rapazes que afastavam cadeiras para se sentarem à mesa central do botequim.

Samuel serviu-se da cerveja, bateu o copo na garrafa e começou a confissão, falando baixo para que os frequentadores não ouvissem:

— E se eu dissesse que percebi a diferença logo no início? Não soube disfarçar. Mas, também, pudera! Sabe que estou sempre atento ao que acontece ao meu redor... Não, meu amigo, eu não estou enganado. Sei exatamente o que aconteceu. Há vinte e cinco anos eu estava do outro lado; eu era o zangão que gostava de foder mulheres casadas. Gostava dessa prática infeliz porque mulheres casadas não fazem cobranças, querem apenas uma aventura para compensar os anos de crises de ciúmes dedicados ao marido, dos cuidados com os filhos e o tempo empenhado na organização da família perfeita. Quando veem tudo nos eixos, filhos criados, marido brochando, é a vez de investirem em si próprias. Li num artigo de especialista: os homens traem no início do casamento porque são imaturos e viçosos, e querem confirmar a macheza. Já as mulheres só traem depois da vida estabilizada; para elas vige o brocardo “primeiro as coisas primeiras”. E uma coisa eu pude constatar: aquelas com quem me relacionei — se não mentiram para mim, e eu acredito que não —, tinham enormes dificuldades em manter uma relação mais íntima com o marido. Sexo, então? Nem pensar! Só o afeto cultivado com o convívio de anos.

Olegário interrompeu:

— Samuca, a Elizete fez uns pasteizinhos divinos. Estão fresquinhos. Tem de carne, camarão e bacalhau. Quer algum?

— Se for dos pequenos, deixa dois de cada aqui na mesa, que é para você não me interromper mais.

Olegário saiu claudicante, resmungando as velhas coisas de sempre e foi lá pedir para a cozinheira separar os pastéis do cliente ranzinza, que piorava a cada dia, segundo seu diagnóstico.

— Quando a conheci, ela saía com um homem mais velho e casado que bancava seus gastos em troca de ir lá de vez em quando dar umas beliscadas nela. É a tal relação de sugar baby e sugar daddy... Eu entrei nesse circuito e me apaixonei. Investi pesado e consegui trazê-la para viver comigo; e fomos o casal mais feliz que se soube. No começo, transávamos muito, beijávamos muito, ríamos muito... Trocávamos carinhos e carícias todo o tempo, em qualquer lugar, e foi assim até a gravidez do primeiro filho. Quando veio a menina, era uma época em que só fazíamos sexo para satisfazer a libido, e a coisa foi só diminuindo. Com o evento da terceira gravidez, eu cheguei a pensar que era filho de outro, porque minha vida sexual praticamente se resumia a masturbação e prostitutas. Se o moleque não fosse a minha cara, desconfiaria até hoje.

Nesse momento, umas meninas belíssimas entraram no bar para batepapear com os rapazes que haviam chegado anteriormente. O bode velho parou para espiar e seus olhos brilharam. Saudades da juventude, já que ele gostava mesmo era de mulheres maduras. Sempre fora assim.

Voltou à posição anterior e, depois do pit stop, tornou à carga:

— Então, meu caro, o tempo transformou nossa vida; a gente passou a viver uma relação protocolar. Ela nunca tinha tempo para dedicar a mim, com referendo dos inúmeros compromissos assumidos, e eu, de minha parte, agia de forma recíproca: futebol e botequim. E só! Foi assim por anos, até que, num determinado tempo, ela abandonou um a um seus afazeres: a equipe da Igreja, o trabalho voluntário no asilo, o bazar humanitário, o curso de inglês e até a ginástica — se bem que, nesse caso, o objetivo de emagrecer havia se cumprido. E foi além: comprou roupas novas, passou a se maquiar e voltou a usar perfume. Passou, inclusive, a usar calcinhas sexys. Antes, andava com aquelas de cor bege, que fazem a mulher parecer engessada. Peluda anos a fio, como a Conga do circo, de repente desenhou o tal bigodinho de Hitler, que eu só vi porque entrei no quarto de supetão após ela ter saído do banho. E ainda tem isso: não trocava de roupa na minha frente, e se eu insinuasse algo sobre sexo saía desconjurando e se trancava no quarto. Há anos não tomávamos banho juntos...

Olegário trouxe os pastéis e Samuel sorriu, agradecendo. Pegou um e mordeu. Era de bacalhau, sabor que não gostava muito, mas havia pedido — sem saber o porquê — e não iria devolvê-lo.

Depois de um muxoxo, voltou ao seu monólogo:

— A gota d’água aconteceu quando menstruou no meio da semana e o fluxo acabou na sexta-feira. Curiosamente, ela avisou que teria que concluir um serviço urgente do trabalho no sábado, dia fora do expediente. Acontece que, um dia antes, sexta-feira, havia arranjado uma dispensa no trabalho para passar a tarde inteira no salão, cortando e pintando madeixas e unhas. Se pôde se afastar do trabalho, como explicar tal urgência no dia seguinte? Pior: emperequetou-se toda para ir ao escritório onde estaria sozinha; e era a segunda vez seguida que tais coincidências aconteciam— falo sobre as datas do fim da menstruação e do trabalho inadiável —. Não fiz escândalo, o bom cabrito não berra. Fiquei elucubrando por três dias e decidi sair de casa. Levei comigo a roupa do corpo, deixei até os imóveis que recebi de herança para trás, recomendando que os administrasse até que chegasse o tempo da divisão pelas crianças. Como você pode ver, as coisas não esfriaram de uma hora para outra; foi um desgaste gradual. Eu que era taradinho quando mais novo, nem percebi que o sexo virou uma coisa esporádica; um castigo para quem, na solteirice, achava que a vida de casado seria “esporrádica”. Escolhi tanto e acabei escolhido. Mas, à época, ela não negava fogo; era danadinha, a moça. Prometia...

Samuel olhou para Olegário e fez sinais apontando a garrafa de cerveja vazia e pedindo outra por meio de sinais. Continuou:

— Eu já havia tentado sair de casa antes, mas a volta para a casa dos meus pais foi negada pelo meu pai; e minha mãe já estava doente à época, não intercedeu. Voltei humilhado, pensei em cair na vida, virar mendigo, longe de todos, já que não reunia condições de alugar um local para viver sozinho e ainda arcar com pensão — pensei nisso por anos —. Não sei se não o fiz por falta de coragem ou por causa dos meus filhos, dos quais acabei me distanciando; e ela contribuiu, metendo o bedelho todas as vezes em que interagíamos, queria participar de momentos íntimos que não lhe diziam respeito. As crianças ficaram muito próximas dela, por conta da divisão das tarefas, e acabaram se afastando de mim. O pior é que permiti. Minha preocupação era ser pai, mostrava o lado ruim da vida e me preocupava com o lugar deles no mundo. Queria mostrar-lhes o que os esperava fora das asas da mãe, mas para eles eu não passava de um chato.

Olegário trouxe a cerveja, quis encher o copo, mas Samuel não permitiu. Ele mesmo pegou a cerveja e derramou devagarzinho para dentro do copo. Odiava espuma.

— Na adolescência das crianças, eu tinha pensamentos conflitantes: acertaríamos os passos ou eu teria que fazer o que fiz: ganhar o mundo? Eu me pegava fazendo planos ao lado dela, mas em seguida lembrava a frieza com que nos tratávamos. Confesso que pendia a passar por cima de tudo, pois, em verdade, eu nunca fui boa bisca, e sabia da minha grande parcela de culpa. Tenho meus pecadilhos e reconheço que não sou alguém que se quer ao lado por muito tempo: sou enjoativo e também enjoo fácil das pessoas — tenho baixa tolerância à frustração, disse o psicólogo da infância, no lugar de dizer: “você é mimado”, mas não estava, nem estou, psicologicamente preparado para discutir isso. Só sei que há um momento da convivência a partir do qual me transformo num ser insuportável, admito.

Uma lufada de vento fresco veio brindar aquela tarde quente, ensolarada, em que a cerveja gelada descia como água, refrescante, deliciosa. Samuel fechou os olhos e sentiu a brisa tocar gostosamente seu rosto. De repente, lembrou-se de algo e virou o corpo, falando na direção do velho garçom:

— Olegário, meu velho. Aquele toca-fitas de vocês ainda funciona?

— Nem sei — respondeu —, seu Salustiano proibiu música no recinto por causa daqueles boêmios que vinham pra cá ouvir as músicas esquisitas que gravavam e depois repetiam, uma a uma, com o violão. Espantava a freguesia, como você bem pode lembrar. Sem contar a arruaça que faziam com o jogo de dominó apostado.

— Mas eles já não vêm aqui há mais de um ano. A regra ainda está vigente?

— Não sei. Vou perguntar a D. Jussara e já te digo — o garçom saiu, rodeou o bar por fora, pela calçada sem marquise, e voltou, minutos depois, com a careca molhada de suor. A casa da proprietária ficava nos fundos, mas a porta interna, que interligava os ambientes, só ficava aberta quando ela estava no bar.

Disse ele:

— Samuca, ela falou que pra você pode ligar o rádio.

— Rádio não, Olegário, quero ouvir aquela fita cassete com músicas de verdade, das antigas. Coloca aí “Inspiração”.

— Primeiro preciso ver se funciona. — Olegário ligou o velho aparelho na tomada, pegou a fita, que estava enfiada numa capa coberta por uma crosta de gordura e muita poeira, enfiou no toca-fitas e apertou o play. Milagrosamente começou a rodar.

A primeira música foi “Perfídia”, com Altemar Dutra. Samuel ensaiou uma reclamação, mas foi obstado de imediato por Olegário:

— Tenho que trabalhar! Sem tempo, irmão, para ficar adiantando e voltando fita até encontrar o que você quer.

— Ok, Olegário. Você é quem manda.

A seguinte foi “A volta do Boêmio”, com Nelson Gonçalves: “Ele voltou, o boêmio voltou novamente, partiu daqui tão contente, por que razão quer voltar?”; e depois “Último desejo”, de Noel Rosa, na voz de Aracy de Almeida: “Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não presto, que meu lar é um botequim...”

Samuel ouvia, saudoso, as canções que os mais jovens chamavam de “música de corno” — e os mais velhos, de seresta. Foi só ouvir os primeiros acordes de “Inspiração” que seus olhos brilharam: “Na mesa de um bar é sempre onde encontro a inspiração. Bebendo e fumando foi como aprendi este samba-canção...”

Não aguentou. A emoção, pela primeira vez desde que iniciara o processo de separação e desapego afetivo da vida em família, tomou conta de si. (É possível que o álcool ingerido até ali tenha ajudado.)

Pediu a conta. Pagou e deu o último brinde na garrafa com o copo, um Nadir Figueiredo que fora o companheiro silencioso daquela tarde, a quem acabara de revelar os momentos mais delicados de sua existência.

No prato ainda descansavam cinco dos pastéis que havia pedido. Olegário perguntou se estavam ruins e ele nem respondeu que não. Apenas acenou, negando com o dedo pra cima e balançando a mão.

Partiu.

Enquanto se afastava do bar, caminhando sem saber ao certo para onde, sentia a dor de um punhal atravessando seu peito. Ainda teve tempo de ouvir: “Adeus, adeus, adeus... Cinco letras que choram, num soluço de dor”.

As lágrimas rolavam enquanto acompanhava Francisco Alves mentalmente: “É como o fim de uma estrada, cortando a encruzilhada, ponto final de um romance de amor...”

  

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O Chuveiro de alkingel

 

Tempos difíceis nunca implicaram letargia na vida de Dione Ismit de Souza. Enquanto a maior parte da população sofria atônita com a pandemia do Covid-19, absorvendo as notícias apocalípticas veiculadas nas redes sociais e na TV pela grande mídia arcaica e prostituída, ele procurava soluções e lutava para patentear, o mais rápido possível, seu revolucionário “chuveiro de alkingel”, que sonhava ver instalado em cada unidade das redes de supermercado pelo país e, quiçá, em cada estabelecimento comercial do mundo livre.

Arranjar um investidor foi o mais difícil, pois o dinheiro circulante estava correndo para as mãos das maiores empresas e conglomerados nacionais e mundiais, dada a estrutura que possuíam para atender às demandas, com observância do protocolo exigido e repetido como mantra por especialistas, políticos, jornalistas e histéricos.

Douglas Castro foi o investidor, e o produto fez um estrondoso sucesso, especialmente entre os que vivem a melhor idade. Os idosos, esses meninos crescidos, faziam compras a conta-gotas e formavam filas nos boxes coletivos para se imunizarem com o álcool milagroso, da raiz do cabelo – quando os tinha – às plantas dos pés. Não demorou muito, os anciãos passaram a levar consigo os netos, que iam se divertir nos chuveirões coletivos.

Comemorando a ideia revolucionária, especialistas da área da saúde e de humanas, muito entendedores das ciências, surgiram aos borbotões, e de pronto passaram a discutir a eficácia desse método de tratamento e de combate à doença. Pulularam palestras e debates na mídia e na academia, entre pessoas com entendimento consensual; artigos acadêmicos bajulatórios dirigidos ao produto foram escritos; e revistas publicaram inúmeras matérias. Tudo foi compartilhado incansavelmente nas redes sociais e replicado em blogs e em colunas de entusiastas da pandemia. ONGs comprometidas com a promoção de um mundo melhor defenderam combater o vírus chinês causador da moléstia com um chuveirão em cada recôndito desse mundo de ai meu Deus. A empreitada, logicamente, estava vinculada a doações milionárias, pois ninguém é de ferro.

Como estância lúdica de imunização, o chuveirão virou um local de sociabilização, sendo palco de encontros com hora marcada e tudo. Com efeito, além da população infantil e da terceira idade, a novidade também conquistou a paixão e a adesão dos histéricos, que não saíam de casa se não tivessem fortemente protegidos.

Quando os shoppings centers aderiram ao projeto, a euforia das pessoas causou inconvenientes escorregões e estabacos nos alegres e afoitos candidatos a alcançar o milagre, mas isso foi rapidamente contornado com a instalação de pisos antiderrapantes especialmente desenvolvidos para esse nicho de mercado.

Depois do piso especial vieram as máscaras apropriadas para usuários do chuveiro; e com o mercado em franca expansão, quem pegou carona na ideia foi a dupla visionária Nico e Neco — dois desmiolados, famosos nas redes sociais por promoverem brincadeiras edificantes numa banheira de nutella. Eles criaram modelos de banheiras e piscinas de álcool em gel, para aluguel ou vender, para instalação em clubes, em condomínios, em brinquedotecas e afins, e em festas nababescas de casamento, de aniversário e também nas comemorações de final de ano, fossem realizadas em lares ou em empresas.

A seguir surgiram as máscaras de segunda geração, ainda mais duráveis que as anteriores, e que permitiam aos usuários se refastelarem nas piscinas por mais tempo, sem deterioração do material.

Essas soluções deram tranquilidade aos governantes que, devido à alta periculosidade do vírus — cujos estragos eram destacados a cada minuto e segundo no noticiário —, determinaram o fechamento de praias, parques e praças. Por outro lado, também permitiram o endurecimento no trato com os negacionistas fascistas que praticavam desobediência civil e ideológica. Com pulso forte, o Estado, castigou-os física, psíquica e financeiramente; esses perniciosos que sequer deveriam ser catalogados como seres humanos.

O Presidente, que era também um negacionista, logicamente foi alijado de seus poderes em tempo, e não pôde determinar regras comportamentais à população em razão de inúmeras decisões das Cortes de Justiça, devidamente alinhadas à ONU.

Quando os mais abastados começaram a instalar chuveiros e boxes de álcool em gel nos banheiros e nas entradas das residências, a fim de higienizar moradores e visitantes, não demorou a virar exigência estatal. A medida visava a contornar o problema gerado com a proibição de visitas decretada pelos governadores de todos os entes federativos, o que gerou a indignação de parcela significativa da sociedade. O controle seria feito pelas Agências Reguladoras Estaduais de Visitação, cujo escopo era distribuir cadernetas que conferiam aos cidadãos o direito a até seis visitas anuais, adstritas às zonas territoriais onde se encontravam suas residências. Os locais de visitação, logicamente, deveriam estar equipados com chuveiros, banheiras ou piscinas; e para receber o vale-visita, o contemplado deveria ser vacinado — àquela altura, duas doses por mês — e portar o chip de controle de movimentação introduzido no corpo, uma ideia revolucionária chinesa. A pandemia já durava considerável número de anos, e todas essas medidas constavam numa Agenda da Organização Mundial de Saúde, liderada por um matemático guatemalteco.

Por outro lado, era concedido livre trânsito às autoridades, e apenas a elas, por serem muito bem capacitadas para o enfrentamento à ameaça real de erradicação da vida humana, culpa dos próprios humanos, conforme relatavam especialistas.

Os negócios da “Ismit In Gel” chamavam a atenção de empresários e de autoridades nacionais, vinculados ao governo único e global exercido há alguns anos a partir da ONU. Havia o interesse na aquisição da empresa, para adaptação e enfrentamento de outras ameaças iminentes de extinção da vida humana, fosse através de novos vírus mortais manipulados por cientistas autorizados por países democráticos, fosse pelo aquecimento ou pelo resfriamento do planeta, conforme a alteração das estações climáticas e dos pareceres da comunidade científica ligada ao governo único. Por isso era necessário adquirir suas patentes e adequá-las para o combate às novas ondas de mortandade.

Dispostos a fazer qualquer coisa para tomar os negócios de Ismit para si, com um não como resposta, a patente foi imediatamente quebrada, sob a alegação de se tratar de serviço essencial de manutenção da vida humana; e ele logo percebeu que não seria socorrido pelo direito de propriedade, em face da colisão com os princípios relacionados à promoção dos direitos humanos, conforme mostrava a jurisprudência dominante.

Mas Dione Ismit havia sido prudente e possuía uma carteira diversificada de investimentos; por isso não quebrou na cepa. Porém, ao tentar encarar aqueles que o prejudicaram, foi perseguido, humilhado e levado à falência por decisões judiciais e fiscalizações constantes. O Estado passou sobre ele como um rolo compressor. Atarefado demais, não se cercou dos cuidados necessários para enfrentar as grandes transformações geopolíticas ocorridas nos últimos tempos.

Não durou muito. Morreu de repente, de desgosto, apesar de aparentemente ter contraído uma doença degenerativa que acelerou, e muito, o processo — e não houve junta médica que explicasse.

Seus filhos foram mais espertos. Cresceram progressistas num lar burguês conservador. O pai investiu pesado na educação deles, mas não atentou que seus herdeiros se distanciavam dos valores que considerados inegociáveis pelo pai. Estava atarefado demais, como foi dito.

Os rapazes viraram burocratas; aderiram à religião estatal e perseguiram com afinco quem quer que estabelecesse empreendimentos não aprovados pelas autoridades ou que a elas não obedecesse, independentemente do teor de suas decisões.

Infelizmente, ao final, foram também tragados pelo sistema. Acusados de corrupção, morreram executados, pois a revolução se alimenta dos próprios revolucionários.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Influenciadores decadentes



Surge uma nova casta, formada por pessoas iracundas, um chorume criado pelas redes sociais, sob a alcunha de influenciador digital da terceira via. São “profissionais” que já caíram em ostracismo depois de possuírem, em regra, muita relevância por determinado período.

Aparentemente, por incapacidade própria, não souberam lidar com o sucesso e a vaidade; e pior ainda administram o fracasso.

Há muitos desses, mas abaixo serão tratados apenas aqueles que iniciaram seus passos junto ao incipiente movimento conservador no país e aos adeptos do espectro político da direita, resultado da revolta contra a espiral do silêncio em que os conservadores foram envolvidos durante os anos de roubalheira e vergonha protagonizados pela esquerda no poder (cujos frutos amargos colhemos sem previsão de acabar, em razão da ampla infiltração).

Tais personagens, em verdade, ganharam postos e prestígio, mas foram incapazes de se manter no topo, não fidelizando os seguidores que foram conquistados apenas por defenderem as ideias que, sem justificativa plausível (ou quiçá por algum tipo de ameaça ou oferecimento de vantagens desconhecidos), passaram a ofender de uma hora para a outra.

Alguns foram abandonados pelos verdadeiros produtores do conteúdo que apresentavam e tiveram que lidar com a própria deficiência cognitiva para continuar seu trabalho. Como não poderia ser diferente, falharam fragorosamente na abordagem de temas que não dominam. O público mais qualificado percebeu a farsa e se afastou, restando-lhes apenas gritar e xingar os agora desafetos.

Outros, por vaidade ou inveja, aparentemente traíram as convicções que os levaram ao sucesso. Alegando que "pensam com a própria cabeça" (o propriomiolismo), passaram a ofender seus companheiros de viajem, em especial os mais capacitados, pois não se dignam a olhar para baixo, apenas atiram para cima.

Interessante observar que todas essas subcelebridades que ascenderam e decaíram meteoricamente, atraíram para si espécies de peixes-piloto que buscavam ascensão profissional ou financeira; e eles não se opuseram porque é bom para sua imagem manter a panca de influente entre os influentes. Os peixes-piloto, como desde sempre foram personas irrelevantes, seguiram-nos forçosamente ou até mesmo por desconhecerem outro caminho.

Voltando aos influenciadores decadentes, a perda de likes, de joinhas e de comentários babaovísticos forjou pessoas frustradas, que não reagiram bem à irrelevância que já era esperada pelos conscienciosos. Aliadas à imaturidade, essas circunstâncias as levou a protagonizar situações vexaminosas e passíveis de dura repreensão pela baixeza de certas ações que levaram a efeito.

Como diria Fausto Silva, a fauna (desses pseudo-qualquer-coisa) é grande e abarca desde editores de livros a políticos, passando por figuras públicas, analistas políticos, músicos, chargistas, portadores de diplomas de Filosofia, publicitários, notórios trambiqueiros, jornalistas, funkeiros e profissionais das mais variadas áreas.

Espera-se que a birra não os conduza a aderir à escumalha que pretende enterrar o país de vez com o seu projeto de poder.

Todos seremos vítimas, com a exceção dos amigos do rei, mas uma coisa é mais certa que as outras: a revolução devora seus filhos, e normalmente os primeiros a sucumbir são aqueles que cerraram fileiras com os que ocupam o poder, para não se verem tentados a tomarem-no para si.

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista


quarta-feira, 21 de julho de 2021

O Vampiro

  

Marcella Policarpa, segunda filha dos Almeida – depois ainda viriam os meninos, Viriato Jr. e Pompeu –, conheceu Augustinho no verão de 1990, num sábado de sol, na praia lotada. A moça, bobinha para os dezoito recém-completados, recheava com pujança a peça do recatado maiô que sua mãe, Lucrécia, católica tradicionalíssima, impunha a ela e à irmã. Morava no mesmo bairro da praia e tinha saído com as amigas de colégio — os pais a haviam deixado ir naquele dia, excepcionalmente, porque não puderam viajar para Araruama no fim de semana, já que dona Anastácia, a avó paterna, havia adoecido e precisava do filho e da nora na capital. Como condição, teve que levar os irmãos mais novos, de onze e seis anos.

Augustinho fumava maconha com sua gangue de desajustados quando, de longe, avistou a delicinha. Feio de doer, disse para si próprio que tentaria faturá-la, sem saber que ela, que até ali só tivera paixões platônicas, estava prontinha pro abate.

Ele alcançou Cella – assim era chamada em família – por intermédio dos irmãos. Após observá-la levando-os à beira do mar e admoestando-os sobre seus perigos, ele se aproximou e começou a fazer estruturas disformes com a areia molhada sobre a areia seca. Olhou para as crianças, disse que estava construindo um castelo e perguntou se não queriam ajudar. Eles concordaram; ela achou o gesto simpático e ficou aliviada ao ver que as crianças ficariam ocupadas com a “construção” e o mar não representaria uma ameaça.

Meia hora depois, ele entregou os meninos, que trazia pelas mãos; ela conversava distraída e nem atinou que o estranho poderia tê-los levado consigo. Mal sabe você, caro leitor, que verdadeiro sequestro ocorreria tempos mais tarde, não da forma descrita na tipificação penal: o bom senso, o ânimo, o sentido de união e até valores de alguns membros da família seriam sequestrados por aquele psicopata.

Ele agradeceu por confiar-lhe os anjinhos. Lamentou devolvê-los, mas precisava ir, pois morava na periferia e estava tarde. Perguntou onde estudava; o que fazia; e se poderia encontrá-la novamente. Ela respondeu que sim, poderiam se encontrar; estava no último ano do Santo Ignácio, no turno da manhã; às terças lanchava no Burgão da Praia, lá pelas três da tarde, e às quintas pegava um cineminha e depois ia tomar sorvete na lanchonete Positano. Completou afirmando que só ia à praia no meio da semana, e com a irmã mais velha, quando ela estava de folga.

O caboclo pensou longe nesse momento. Conheceu menina de família estruturada, respeitosa e respeitável, totalmente diferente das barangas, hippies e drogadas que costumava frequentar; e teve a sensação de que valia o investimento, pois certamente obteria vantagens no futuro. As informações ficaram gravadas na mente daquela figura com memória de elefante, faro de cão e rapinagem de águia; naquele momento ele creu que havia acertado o milhar. Investiria para buscar ajuda moral e financeira por toda a vida. — exatamente o que aconteceu, como será contado adiante.

Encontraram-se algumas vezes e a conquista não foi difícil. Começaram a namorar às escondidas, mas, observando desconfiada as saídas rotineiras, a mãe exigiu que levasse os irmãos ou não sairia mais. Ela levou, e as crianças, que já lhe eram simpáticas, também foram seduzidas pelo Don Juan do subúrbio. Nada contaram à mãe.

Quando Cella levou Augustinho para conhecer os pais, o caminho estava aplainado: a moça, apaixonada; os irmãos menores, cúmplices, fizeram lobby em seu favor; e o sogro foi conquistado de cara. A sogra, vendo o marido entusiasmado e a filha feliz, não ousou se opor, apesar da velha pulga incomodar atrás da orelha.

Augustinho se afastou dos amigos e parou de fumar maconha, mas continuou tomando álcool destilado escondido. O cheiro disfarçava mascando cravo; os olhos vermelhos e esbugalhados, características de quando estava bêbado, passavam despercebidos diante das guardas arriadas; a fala enrolada também não chamava a atenção porque era naturalmente assim.

Não demorou muito, foi marcado o casamento. A notícia das bodas foi comemorada por quase todos, sendo as raras exceções: a mãe, que continuava incomodada sem saber por que; o menino mais velho, Viriatinho, agora com doze, quase treze anos, que sentiu que a irmã mudou para pior desde a chegada do cunhado; o noivo da irmã, Lurdinha, a primogênita do casal, que o achava um canalha; e uma tia bastante vivida que não gostava da aura dele, mas suas opiniões não eram respeitadas por ser uma porra-louca. Qualquer outro que percebeu aquele exemplo clássico de alpinismo social calou-se para sempre, e o enlace correu naturalmente.

A noiva fez o enxoval sob a gerência da mãe; o pai patrocinou tudo, pagou das taxas e emolumentos até o aperitivo final da festança, providenciando, ainda, convites, flores, aluguel do salão e até o terno do pai do noivo — não fosse assim, o velho não compareceria.

O noivo, da sua parte, levou para o casamento o peru e uma dívida de cinquenta cruzeiros de cana, cerveja e fichas de sinuca que estavam penduradas há meses no Bar e Sinuca do Seu Nicanor.

Foram morar numa das casas que Seu Viriato um dia deixaria de herança para os filhos, e que alugava para ajudar a compor a renda familiar.

Em menos de um ano nasceu José, o primeiro filho do casal, com síndrome de down. A falha genética foi descoberta no ultrassom — exame de translucência nucal — e Augustinho tentou de tudo para convencer a esposa a abortar. Com muito custo, ela considerou assassinar o filho em seu ventre, mas foi demovida do ato abominável pela radical contrariedade da mãe, que ainda exercia alguma influência sobre ela.

Após o nascimento, o pai mal disfarçava o desprezo pela criança. Porém, percebendo o carinho e os cuidados que os avós lhe dispensavam, mudou o comportamento, encarando a situação sob nova perspectiva. Acostumado a fingir, representou a personagem de um pai exemplar, com o intuito de obter vantagens. Passou a pedir dinheiro ao sogro, alegando que não conseguia cobrir os gastos com a criança, e ato contínuo começou a voltar à casa de madrugada, chegando até a agredir Cella fisicamente algumas vezes. Ela, logicamente, escondia tudo da família.

O genro explorou a bondade do sogro até ver a documentação da casa transferida para seu nome e o de Cella, que algum tempo depois faleceu de forma repentina e misteriosa, acometida de moléstia que nem uma junta médica conseguiu diagnosticar.

Certo dia, alegando que não reunia condições de criar José, Augustinho entregou o menino à sogra, prometendo que não o abandonaria por muito tempo; queria apenas acertar o rumo após a desgraça que se abateu sobre sua vida. A avó queria isso mesmo, apesar de saber que acolheria o neto num lar onde já não reinava a paz, pelas inúmeras brigas entre ela e Viriato por causa do genro que o marido tanto amava — Viriato impediu a exumação no corpo de Cella para descobrir a verdadeira “causa mortis”; não queria ferir os brios do viúvo, que sofrera a perda da esposa, com acusações infundadas. O homem sequer observou o comportamento do adolescente Viriatinho, que não parava em casa e dava sinais de envolvimento com álcool e drogas; nem o afastamento dos outros filhos.

Augustinho, pilantra que só, conseguiu vender a casa através de um trambique, pegou o dinheiro e ganhou o mundo. Jamais se soube dele novamente.

O sogro, amargurado, mas sem nutrir maus sentimentos contra o genro, teve morte súbita, sentado, olhando o tempo. Lucrécia viveu sem viver enquanto cuidava de José, preparando-o para levar uma vida dentro da possível normalidade, sem cuidados excessivos e desnecessários. Aguentou até ele atingir a maioridade e logo em seguida sucumbiu.

Coube a Lurdinha a guarda do rapaz após o passamento da mãe.

Apesar de tudo, José era uma lufada de frescor na vida dos tios e, aos trancos e barrancos, agregava os tios nas reuniões familiares, mantendo aproximados os cacos que restaram daquela família que um dia fora estruturada, invejável e feliz.

 

 

 

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

A triste e relevante história das Conceição

   

Dora Lúcia da Conceição, a Dorinha, era gêmea de Maria Lúcia da Conceição, a Maricota. Eram as únicas filhas da D. Conceição, que socorria pelo nome de Eletildes Lúcia da Conceição — procure abstrair, caro leitor, as confusões causadas pelos nomes das “Lúcias da Conceição” —, uma preta retinta que coxeava da perna direita.

Mulher digna, religiosa e prendada, vestia-se com recato e trazia sempre um lenço à cabeça que combinasse com os vestidos compridos. Cortou um dobrado para criar, sozinha, as meninas, pois o pai delas, um pescador galego metido a oficial da Marinha, cometeu a gentileza de sair para comprar cigarros quando ainda não tinham completado o nono mesversário e jamais retornou à casa para infernizar a vida de quem vivia ao seu redor, como era do seu feitio.

Empregada doméstica — cozinheira de forno e fogão —, ela achava que sofria muito quando encontrou um alçapão no fundo do poço: foi despejada da meia água em que morava com as filhas no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, e na sequência foi impedida de levar as meninas para viverem com ela, em Niterói, no quartinho 3x2 oferecido pela patroa — oferta feita, como se vê, mais para encerrar os atrasos costumeiros da empregada que para promover a prática cristã de estender as mãos aos necessitados.

Sem alternativas, foi viver na casa dos patrões e deixou as meninas sob os cuidados da avó, D. Lúcia da Conceição — prometo ficar quieto dessa vez —, e de duas tias desempregadas, Veralú e Analú, ambas Conceição, que viviam com a mãe, sustentadas pela pensão da velha, que andava mais para lá do que para cá.

O trabalho duro se transformou num regime semiescravo, pois era a primeira a acordar e a última a se recolher; não tinha folga, não recebia dispensa nem tirava férias, algo inconcebível para sua patroa, a socialite Nonata Mascarenhas Paranhos, a Natinha Paranhos, que pagava os direitos da empregada com o dinheiro contado.

Recebendo parcas visitas da mãe, as meninas foram crescendo. Sobre o pai, acreditavam que era um herói da Marinha de Guerra, morto em alto-mar enquanto salvava os tripulantes da Corveta em que servia, durante uma tempestade. Era o que lhes contara a mãe, e os familiares tiveram o bom senso de não desmentir.

Numa triste sequência temporal, primeiro faltou a avó e logo em seguida foi a vez da mãe, em exatos dois meses. As gêmeas, contavam com onze anos, cinco meses e dez dias, e em meio ao sofrimento foram afastadas violentamente.

Natinha Paranhos tratou logo de dividir o espólio de D. Conceição: levou Dorinha para sua casa e despachou Maricota para ajudar uma prima porra-louca que vivia com a mãe, D. Durvalina, numa chácara em Saquarema. As tias das meninas ensaiaram uma reclamação, mas Natinha puxou quatro notas de duzentos reais e, despejando dois lobos guará na mão de cada uma delas, nada mais ouviu.

As meninas sofreram com a adaptação. Emagreceram e ficaram amuadas por um bom tempo; só redescobriram a felicidade no dia em que se encontraram numa confraternização organizada por Natinha para seus parentes. Mas não estavam ali para brincadeiras ou matar saudades, e sim para cuidar dos preparativos, da condução do convescote, da louçaria e das acomodações dos convivas.

 Para a sorte de ambas, havia ao menos duas dessas confraternizações de família por ano, e foi num desses encontros que Maricota, a mais esperta, levou anotado o número do telefone da casa de Deca, a prima de Natinha Paranhos, e o entregou à irmã, para se falarem quando sentissem saudades. Já na segunda ligação, porém, a sonsa da Dorinha foi descoberta e levou uns catiripapos e um castigo por desperdiçar os pulsos de telefone da patroa — a reprimenda de Maricota foi mais suave, feita aos risos.

Alguns anos se passaram e veio o falecimento de D. Durvalina. Deca, que era homossexual, resolveu morar numa comunidade de lésbicas em Friburgo, e para evitar constranger Maricota — que era religiosa como a falecida mãe —, dispensou a moça. Antes, porém, entregou-lhe generosa soma de dinheiro como sinal de gratidão pelo carinho com que cuidou dela e da mãe durante aqueles anos.

Maricota voltou a Niterói para assumir um emprego que Dorinha arranjou em segredo, na casa de D. Josefa Militão, amiga de D. Miguelina Mascarenhas, mãe de Natinha Paranhos. A idosa, que havia sofrido uma queda e precisava de cuidados especiais, ficou encantada com a moça, que chegou para ficar pouco tempo, mas permaneceu até a morte da patroa. Então, a filha de D. Josefa, Carla Seabra, moradora da Tijuca, a contratou; e foi na nova residência que Maricota conheceu o futuro marido, um porteiro do condomínio que trabalhava no horário noturno.

Carla Seabra, muito satisfeita, só dispensou Maricota anos depois, para trabalhar para seu filho do meio quando ele foi pai pela primeira vez, porque não confiava na nora para cuidar do neto. A nora, carne de pescoço, não ficou mais de um ano com Maricota, e a despachou para trabalhar com uma prima que morava na Lagoa.

Com tantas mudanças, Maricota angariou mais experiência que Dorinha, que trabalhou na mesma casa por décadas. Conviveu com milionários descolados, dotados de “consciência social”, daquele tipo que banca a educação da empregada ao mesmo tempo em que a explora nos horários, ou a leva em suas viagens para cuidar do café pequeno, como crianças, lavagem de roupas, despacho de malas etc. Maricota trabalhou para burro, mas fez faculdade de contabilidade. Nunca exerceu a profissão, embora tivesse o diploma de pêlo de cordeiro, presente da patroa, enquadrado na parede.

Dorinha completou o segundo grau. Foi na escola que conheceu Feliciano, seu marido, responsável pelos serviços gerais da instituição e o homem que realizou todos os seus sonhos, que eram simples. Ele chegou a admitir que Dorinha levasse a D. Durvalina para morar em sua casa depois que Natinha decidiu enfiar a mãe num asilo — haviam chegado o ocaso da anciã e a necessidade de muitos cuidados, e justamente na época do nascimento do primeiro bisneto de Natinha.

Quando nasceu a sua neta, Dorinha pediu a aposentadoria, mas Natinha, mandona que só, não aceitou. Concordou em diminuir o horário de expediente, mas exigiu que continuasse trabalhando em sua casa para coordenar o serviço das demais empregadas, além de comparecer em algumas recepções do fim de semana, quando seria remunerada por fora. A situação, porém, não durou muito. Bastou encontrar outra moça capaz de realizar o serviço que Natinha a dispensou sem maiores justificativas.

Dorinha ficou satisfeita. Enfim, havia chegado a hora de curtir a vida ao lado do marido. Estavam sozinhos, pois os filhos casaram e ganharam o mundo. Para seu azar, porém, Feliciano adoeceu, e coube a ela cuidar de mais um doente dentre tantos que cuidou no curso de sua vida dedicada ao próximo. Aquela, aliás, parecia uma sina dos membros da família Conceição.

Maricota, aparentemente, teve maior sorte. Após se aposentar, ela e o marido, que já estava aposentado, compraram uma casa no interior de Maricá, perto da praia — cerca de vinte e cinco minutos de carro —, e um Fiat Uno conservadão. Como o Senhor não os havia abençoado com filhos, pretendiam viver naquele paraíso sozinhos até o fim de seus dias.

Mas o destino prega as suas peças...

Oito meses se passaram e Maurício, esse era o seu nome, teve morte súbita, consequência de um aneurisma cerebral que sofreu enquanto limpava os caranguejos e tomava caipirinha.

Feliciano faleceu cerca de dois anos depois, já muito castigado pelo câncer.

Maricota, que havia voltado para São Gonçalo, perguntou à irmã se não queria viver com ela em Maricá. Disse que a casa ainda estava lá, meio abandonada, servindo apenas para alugar por temporadas. Poderiam ver gente nova, ir à praia, à lagoa..

Dorinha aceitou e lá se foram as duas viverem juntas novamente, e passaram alguns anos naquela vidinha sem graça, com a rotina quebrada apenas nos dias de Feira e de Missa.

Certo dia, Dorinha estranhou que a irmã tivesse acordado tão cedo, pois não estava no único quarto da casa, onde dormiam. Ainda não eram três da manhã. Ela se levantou para fazer o xixi da madrugada e, ao caminhar meio trôpega pelo corredor, deparou-se com o corpo de Maricota caído, com uma poça de sangue ao lado, escorrido da cabeça, provavelmente machucada ao bater na quina da mesa de jantar enquanto desabava, em razão do infarto fulminante posteriormente diagnosticado.

Quase sem acreditar, e apavorada, Dorinha sentiu uma dor lancinante no peito e foi se alojando, lentamente, ao lado do corpo da irmã até cair igualmente morta, de infarto, logo após, quem sabe, perceber que viver não faria mais nenhum sentido, pois não lhe havia restado mais ninguém para cuidar.

 

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

O médico e o monstro advogado

  

Dr. João Miguel, um homem de posses, deu muito duro para construir seu patrimônio. Era encegueirado por dinheiro e, para aumentar ainda mais a fortuna amealhada, resolveu empreender esforços extras que, digamos, não eram muito recomendáveis, ao menos na forma em que procedeu. É necessário observar que, no curso de sua carreira laureada na Medicina, de tanto que aprontou fazendo esforços extras, teve que se ver com o fisco e até com a polícia. Por conta disso, viu-se obrigado a desembolsar boas somas de dinheiro, o que perturbou deveras sua paz de espírito.

Para seu desespero, então, não lhe restava alternativa senão constituir um profissional da categoria que costumava castigar com os piores adjetivos. Nas rodas de amigos, chamava os advogados de aves de rapina; de depenadores de primeira grandeza que, ao serem procurados por alguém necessitando de seus serviços, armavam o bote para tirar-lhe os últimos cobres — ou mesmo o couro —, mediante artifícios, malandragens e quejandos.

Cabem, aqui, parêntesis. É comum ouvir falas com tom de reprovação e de desprezo em desfavor da advocacia, categoria que, devemos admitir, abriga verdadeiros pavões, ególatras e desonestos. Mas não há motivo para generalizações, com desprezo à consideração sobre o indivíduo. Veja que esse tom quase nunca é destinado aos profissionais de outras áreas, certamente por se acreditar que elas atraem o gosto de virgens vestais, ou conferem a quem as pratica uma aura de santidade. Por outro lado — não podemos desprezar —, há quem possua uma imagem superestimada de si próprio, enquanto não passa de um arrogante, insensível e desonesto, nada devendo ao tão criticado advogado; e sendo até, por vezes, sua verdadeira alma gêmea.

Voltando ao Dr. João Miguel, ele jamais confessou aos amigos que, apesar da implicância com os causídicos, sempre buscou a ajuda de um para livrá-lo das implicações com o Judiciário por seu envolvimento em situações, digamos, questionáveis. E procurava os da pior espécie, pois acreditava que quem não possui escrúpulos está mais apto a lidar com as instituições públicas voltadas à persecução penal e fiscal. Com efeito, não foram poucas as vezes que frequentou os escritórios do submundo do crime, como costumava dizer, para se livrar de uma picona enorme prestes a ser enterrada em seu rabo.

No início, chegou a acreditar que o jurisconsulto retiraria a naba de dentro dele a troco de vinténs, pois profissão de prestígio era a dele. Com o tempo, porém, percebeu não haver nada mais afastado da realidade. A cobrança era conformada à situação apresentada, e daí vinha o seu queixume.

Analisando a “teoria do pilantra da história”, a triste realidade é a de que muito profissional é considerado desonesto exatamente em razão do tipo de cliente que o procura. Os verdadeiros honestos, devo concordar, são esquecidos ou dispensados para dar lugar àqueles que sabidamente possuem contatos e entrâncias facilitadas, participam de maracutaias, subornam servidores públicos e são “chegados” dos magistrados.

Enfim, em inúmeros casos, a mesma régua serve para medir o ofensor e o ofendido.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

O Espantalho do Condomínio

 

Robervaldo Georgian de Bragança já entrara na melhor idade. Contava com sessenta e oito anos, mas sua aparência era de oitenta e cinco. A família Bragança, da parte do pai, que se desconfiava ser da linhagem dos Imperadores, havia desembarcado no Novo Mundo, vinda de Portugal, à época da Colônia — ou extensão territorial do Reino na América, como queiram os adeptos das diferentes perspectivas históricas —, e fizera fortuna nos ciclos econômicos, inclusive explorando o comércio escravagista. A fortuna, porém, havia se dissipado nos tempos de seu avô, não chegando um mísero cobre até ele. Pelo lado da mãe veio a veia armênia, e a junção das raças lhe conferia uma carranca que causava agonia nos mais sensíveis.

Tinha olhos grandes e negros, boca larga, com pêlos à mostra nas orelhas de elefante e no nariz, provável herança dos avanços muçulmanos Península Ibérica adentro. Era conhecido por Espantalho do Condomínio porque não cortava os cabelos encarapinhados, que cresciam arrepiados como os cultivados pelos cantores sertanejos dos anos oitenta do século XX, mas armados, por sua consistência. Para perplexidade geral, porém, usava barba bem escanhoada.

O apartamento em que morava, ele ganhou num sorteio feito entre os operários que participaram das obras que levantaram os prédios do condomínio, generosidade do rico empreiteiro que patrocinou todas as etapas da construção, desde o projeto à entrega.

Perambulava pelas ruas da cidade o dia inteiro, com velocidade impressionante, portando um cajado — em verdade, um varão de pendurar cortinas encontrado numa das caçambas de lixo que tinha por costume revirar. Ele era desses, apesar de aparentemente não precisar, dada a vida espartana que levava, sem filhos ou até passarinho para dar alpiste; e o grosso dos gastos do apartamento era arcado por seu irmão e um amigo, que moravam com ele sem pagar aluguel. Aparentemente, possuía saúde de ferro e por isso não consumia a aposentadoria, que não era das piores, com os remédios que normalmente funcionam como ralos por onde escoa o dinheiro de velhinhas e de velhinhos aposentados e pensionistas.

Possuía uma boa cultura e esbanjava conhecimento devido à constante leitura de clássicos, mas também se rendia a toda sorte de “teorias da conspiração” — segundo a linguagem popular —, fossem provenientes de histórias verdadeiras ou realmente falaciosas. Como é sabido, conspiradores, tiranos, psicopatas e mentirosos chamam teoria da conspiração suas maquinações, o que assegura a ignorância do homem médio sobre fatos verídicos que não devem ser repercutidos.

Tinha acesso à literatura produzida por sociedades secretas para fazer propaganda de suas atividades, mas também lia aquele tipo de livro que promete revelar o lado oculto dessas sociedades, sem que o escritor conheça patavinas de seus meandros. Some-se a isso o fato dele ter frequentado algumas reuniões da Rosa-Cruz e da Maçonaria, e o contato mantido com alguns "línguas soltas" que contrariavam as determinações ancestrais dessas ordens. Dessa miscelânea retirava sua suposta autoridade sobre os mais variados temas.

Gostava de política, religião e comportamento humano; e uma simples conversa com ele resultava numa profusão de informações encontradas e desencontradas, com potencial de aturdir o interlocutor. Acreditava-se que o mix de conhecimentos absorvidos o deixara louco. Ele, porém, tentava apenas interagir com pessoas mal informadas, grosseiras, deselegantes, insinceras, consumidoras assíduas de produtos da grande mídia e de best sellers expostos com destaque nas prateleiras das livrarias e nas listas de mais vendidos publicados em colunas especializadas — o tipo de gente cuja cota de leitura é a de um exemplar por ano (ou década), que gosta de falar sobre o que não conhece.

Alguns ainda hoje arriscam dizer que ele era evitado por questões ideológicas, já que era anti-esquerdista. A desculpa oficial, contudo, era a de que o tempo custa caro e deve ser bem administrado para oportunizar o descanso, a alimentação, o trabalho, os deslocamentos e o acesso às redes sociais. A Robervaldo, então, restava disputar o espaço destinado à aquisição de cultura, ou seja, nenhum.

Mas o homem era incansável; seu objetivo de vida era alertar a todos dos perigos das trevas que rondam nosso mundo, e não se dava por vencido. De tanto insistir em abordar os vizinhos, acabou por espantá-los (espantalhos!), o que os fez evitar encontros desviando o caminho, retornando ou dando desculpas como a pressa — essa, grande parte das vezes, uma verdade.

E o que fez o velhaco quando percebeu isso?

Passou a espreitá-los para, no momento oportuno, dar o bote e colocá-los em xeque. Apertava ou atrasava o passo para parear com a vítima, voltava com ela quando estava indo, abordava-a na garagem enquanto manobrava o carro... Chegou ao ponto de se esconder por trás das pilastras e das caçambas de lixo, ocasião em que aproveitava para revolver as sacolas e tirar algo de seu interesse.

A inconveniência das abordagens levou alguns condôminos a formalizarem reclamações perante o síndico, pedindo uma providência — não a cachaça, à qual o síndico era bastante chegado, mas a solução da situação.

Para cumprir a parte que lhe cabia, o alcaide condominial se dirigiu, com solenidade e obstinado a resolver a demanda, ao irmão e ao amigo do Sr. Espantalho. Os coabitantes ouviram as queixas, concordaram que isso requeria uma atitude firme e em seguida ameaçaram o pobre homem de interná-lo num hospício.

E o que fez nossa personagem principal diante dessa nova circunstância?

Astuto, riu às escâncaras e confidenciou-lhes que os esquerdistas negacionistas das ciências naturais haviam se enfileirado em campanha inglória para o fechamento dos sanatórios, e conseguiram o intento, colocando os loucos nas ruas para ajudar a causar o caos social, já que o lumpemproletariado passara a ser entendido como substituto da classe operária na função revolucionária.

Mas não podemos dizer que a reprimenda não surtiu efeito, pois as abordagens aos moradores do condomínio diminuíram.

A vida avançava mansa, mas inflexível, até que, num determinado dia ensolarado, o Sr. Espantalho adoeceu; e naquele momento não reunia forças sequer para tomar um táxi em direção ao hospital.

Um vizinho entrou em polvorosa ao se deparar com a ambulância da SAMU em frente ao condomínio, e começou a disparar inúmeras mensagens nos grupos de Whatsapp dos blocos para descobrir quem precisava de socorro. A investigação durou tempo considerável — se levarmos em conta a velocidade telemática — porque os três moradores do apartamento 505 do Bloco C eram avessos ao uso de smartphones e, por conta disso, não participavam de redes sociais.

Após a revelação, de repente, descobriu-se que a resistência ao Sr. Espantalho não era absoluta; ele era capaz de suscitar a piedade alheia. Até os condôminos mais empedernidos viraram a chave e passaram a sofrer com o doente — somatização geral. Elogios foram tecidos e pulularam desejos de pronta recuperação, além de promessas de orações e de terços em sua intenção. Chegaram a dizer que não esperavam a hora de poderem fazer uma visita para celebrar a melhora do querido vizinho e prestar-lhe solidariedade levando uma canjinha, uma rosca seca, um bolo fresquinho...

Ele jamais voltou para casa.

Três semanas depois, o Espantalho do Condomínio foi enterrado no cemitério Jardim da Saudade. Estavam presentes: o irmão, o amigo coabitante e dois mendigos, companheiros de longa data com quem ele costumava passar horas por dia conversando sobre temas variados, na esquina da Rua da Hipocrisia com a Rua da Falsidade.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista