Algumas narrativas parecem buscar mais a emoção do
espectador do que a compreensão equilibrada dos acontecimentos. Recentemente, assisti
a um curta-metragem divulgado por uma federação de raízes italianas, dedicado à
imigração italiana no Brasil. Trata-se de uma produção de forte clamor
sentimental, mas é impossível não perceber o forte viés ideológico presente na interpretação
histórica apresentada.
Em verdade, o roteiro sucumbiu à tentação da militância
ao sugerir que a elite brasileira financiou e incentivou a vinda dos europeus "imbuída
de uma ideologia de branqueamento da população". Foi ignorado quase completamente
outro fator histórico relevante: a busca por mão-de-obra qualificada para
colonizar e desenvolver atividades produtivas na enorme quantidade de terras devolutas,
e atender a demandas nas cidades. O Brasil vivia, naquele período, um momento de
transição econômica e social, marcado pelo fim do regime escravagista.
A interpretação adotada, embora encontre defensores na literatura
acadêmica contemporânea, revela-se excessivamente reducionista.
Além disso, o minidocumentário sugeriu que os imigrantes
foram enganados pelo governo brasileiro e por intermediários interessados em lucrar
com o "comércio" daqueles que se aventuraram a cruzar o oceano porque
não lhes restava nada em seu país de origem, a não ser a fome e a falta de
perspectivas decorrentes das crises econômicas que se seguiram após a
unificação da Itália.
Realmente, há registros de exploração, abusos e promessas
não cumpridas. Contudo, embora eu não seja historiador nem pesquisador, é
possível, com a utilização do método empírico, apresentar outras perspectivas através
de experiências distintas, baseadas em relatos que ouvi ao longo da vida. Inclusive
pelo fato de que os imigrantes não eram apenas trabalhadores do campo, mas
também operários, comerciantes, artesãos e profissionais especializados ou liberais.
Um exemplo foi contado pela minha sogra, descendente da
família Melotti. Segundo ela, quando seus antepassados chegaram em Santa
Teresa, Município do Espírito Santo, receberam terras conforme prometido pelo
Estado. A região era coberta por mata fechada e, no início, a vida era extremamente
difícil. Ainda assim, a possibilidade de cultivar a própria terra oferecia uma perspectiva
concreta de prosperidade por meio do trabalho e da poupança, já que a
propriedade era vista como um instrumento de liberdade.
Outra experiência semelhante foi a vivida pelos pais da
minha avó paterna, descendente das famílias Carraro e Zanutto, que também se estabeleceram,
coincidentemente, em Santa Teresa, mas no bairro histórico da Cidade do Rio de
Janeiro, onde fica o nascedouro que abastecia o aqueduto conhecido como Arcos da Lapa. Seguiram, porém, caminhos
distintos: não se dedicaram à agricultura, mas às atividades do comércio e da
indústria, setores igualmente vitais da economia urbana, ignorados em nome da
fixação ideológica pela narrativa do conflito rural.
Há mais um aspecto pouco explorado no documentário: a raiz
cultural europeia comum. A proximidade civilizacional entre italianos e portugueses
certamente facilitou a integração. Embora preservassem seus costumes e
tradições, os imigrantes italianos adaptaram-se paulatinamente ao idioma e acabaram formando comunidades
relativamente estáveis e integradas ao tecido sócio-cultural brasileiro.
Nada disso significa negar a existência de exploração por
políticos e empresários gananciosos, desprovidos de senso moral, nem ignorar as
dificuldades, injustiças e conflitos enfrentados pelos imigrantes. Como sói
ocorrer nos processos migratórios, esse também foi marcado por tensões sociais
e econômicas.
Contudo, reduzir a história da imigração italiana a uma
narrativa exclusivamente pautada pela exploração ou pela manipulação, tende a obscurecer
a diversidade real das experiências vividas por aqueles que participaram desse
processo. A realidade histórica raramente se ajusta facilmente aos esquemas reducionistas
desenhados pelo discurso militante.
Talvez esse seja o maior desafio: compreender que a realidade
social não se organiza em categorias tão nítidas quanto aquelas narradas nos
discursos ideológicos. A história, como a própria existência humana, costuma
ser complexa, ambígua e cheia de nuanças.
O pensamento dicotômico e polarizado, que hoje contribui
para esgarçar o tecido social brasileiro, também se manifesta nessas releituras
históricas pautadas no vitimismo e na exploração do homem pelo outro. Isso precisa
ser superado. A leitura do passado exige disposição para aceitar que ele raramente
irá se amoldar às nossas expectativas.
Diante disso, parece mais prudente confrontar diferentes
fontes, comparar narrativas, ler as entrelinhas e reconhecer que processos
históricos amplos produzem resultados variados e, por vezes, contraditórios. Não
faz sentido distorcer os acontecimentos apenas para encaixá-los em uma
narrativa pré-concebida.
No caso da imigração italiana, não houve uniformidade de experiências
entre os que cruzaram o oceano, sobretudo porque esse processo incorporou
perspectivas distintas vivenciadas segundo as circunstâncias e as escolhas de
cada indivíduo envolvido.
Compreender o passado exige, portanto, mais do que recorrer
a fórmulas interpretativas para produzir uma história prêt-à-porter. Exige
honestidade intelectual para reconhecer que a história verdadeira se constrói
no terreno das realidades humanas – e que, por isso, não pode ser amputada para
servir às conveniências de uma ideologia.