sexta-feira, 5 de maio de 2017

O tempo



Bartolomeu recorria outra vez ao cofrinho, catando algumas entre as parcas moedas (que outrora abundavam), para pagar as passagens de ônibus. Vivia essa rotina desde que uma nova crise se abatera pelo país, mas ao menos não entrava mais no cheque especial, nem o cartão de crédito era rejeitado na hora de abastecer o carro, que havia vendido para pagar dívidas e, com a sobra, comer por mais uns dias.
Andava cabisbaixo. Era uma época triste, e não apenas por causa da crise financeira — havia também uma crise política e moral: uma intensa investigação criminal havia revelado uma rede de corrupção com extensas ramificações no meio político e no serviço público. A relação promíscua entre autoridades achacadoras e empresas privadas, de laranjas ou de amigos do rei, revelava a prática de um modelo econômico fascista, de um capitalismo de compadrio. A crise moral sem precedentes não havia atingido apenas a classe política e o serviço público, mas intelectuais e artistas, sempre a serviço de partidos políticos, grandes canais da mídia domesticada, disseminadores de “fake news”, e até líderes religiosos. Vários expoentes da doutrinação ideológica haviam perdido o apoio popular, a confiabilidade e o respeito. Sem contar a guinada no âmbito dos costumes, rumo à sonhada derrocada da moral judaico-cristã, pilar da Civilização Ocidental.
Já no escritório, arrumou uma pilha de folhas impressas, leu o noticiário, e-mails, alguns artigos técnicos e as 25 folhas diárias do livro “da vez”. Lanchou café e biscoito, rascunhou uma tese sobre o abuso dos administradores das redes sociais em relação aos usuários, lanchou de novo, e quando se deu conta chegava o fim de mais um expediente, que havia transcorrido de forma muito próxima ao dos outros dias: ninguém procurou seus serviços, e o pó de café havia acabado. O pote vazio, ele levou para fazer companhia ao do açúcar, que chegara ao fim há pelo menos duas semanas...
Como à noite passaria na TV um jogo do time de coração, foi ao mercado e levou duas cervejas — quentes, porque eram mais baratas.
Enquanto viajava de volta, lembrava-se de fatos de sua vida: dois divórcios acumulados, e um dos seis filhos que não falava mais com ele desde o fim do casamento com a mãe — uma histérica que tornara sua vida um inferno, em razão de ciúmes e da falta de equilíbrio; os planos enquanto estagiava; e a tristeza que sentia ao ver advogados mais velhos mal arrumados, vivaldinos, ávidos por tirar dinheiro dos clientes e prestando serviço ruim. Era estudioso, vaidoso, bem formado e informado, um admirável workaholic bem empregado, e que produzia muito. Por isso pôde deixar escapar um cargo público, para não se afastar da primeira esposa. Jamais se arrependera disso, pois não teria a oportunidade de experimentar e vivenciar tantas coisas maravilhosas, engrandecedoras e sublimes — inclusive a paternidade em sua plenitude — se tivesse deixado tudo para trás. (Na realidade, o tudo era um grande nada, pois não havia construído até ali nenhum patrimônio considerável, fosse de cunho pecuniário, profissional ou pessoal, e até sua capacidade intelectual começava a ser posta à prova.)
Hoje aquele trampo fazia falta: estaria próxima a aposentaria com proventos integrais, e teria gozado das benesses do serviço público durante a carreira, ainda que isso não lhe deixasse totalmente feliz, pois reconhecia o enorme sacrifício dos contribuintes para sustentar a máquina pública, e o luxo de servidores e de políticos, ainda mais que muitos desses políticos eram corruptos que diziam lutar em prol da sociedade. (Guardava consigo uma máxima: corra de quem diz que luta por você.)
Absorto em seus pensamentos, imaginava se aqueles advogados dos quais se apiedava não seriam até brilhantes no início da carreira; se não teriam vivido os mesmos dilemas que ele, ou tido iguais frustrações. Por ironia do destino, de certa forma, havia se tornado um deles - ou refletia a ideia que fazia deles: poucos clientes, sem dinheiro no bolso e no banco, o ímpeto diminuído para o estudo e o trabalho — até mesmo o jeito de se vestir havia modificado com o passar dos anos... Ele aprendera a conviver com aquilo, era verdade, até para manter a sanidade. Contava com 58 anos, e o único bem que havia sobrado era a sala num excelente ponto, mas que já, já teria que vender para pagar dívidas e evitar mais gastos com a taxa do condomínio, que vivia atrasada. Trabalharia no escritório modelo que o órgão de classe mantinha para profissionais “sem chão”.
Agora pensava em tudo o que passara em sua profissão, e concluiu que o mundo não era lugar de justiças. Justiça... Tantas vezes lembrada por pessoas posicionadas em lados extremos, a justiça era uma falácia, algo imposto pelo establishment aos que devem obedecer, e cujo conceito havia sido esvaziado de significado por demagogos, desonestos e oligofrênicos, todos em busca de algo vantajoso para si. Alcançar a justiça dependia do poder e da capacidade de articulação das partes envolvidas, porque o ordenamento jurídico era facilmente manipulável para atender a interesses, necessidades de ocasião ou ideologias dos operadores do Direito.
Após chegar a casa, enquanto vasculhava o armário vazio, procurando algo que servisse de tira-gosto — uma lata de salsicha petit, sabia que havia comprado uma —, a bolsa vagabunda do mercado, que ainda estava em suas mãos, abriu e uma das garrafas se espatifou no chão.
Ele foi invadido por um misto de raiva e autopiedade. Aquilo era algo significativo, pois toda a sua miséria (e decadência) se revelava: a perda de algo ordinário que lhe era muito, muito caro naquelas circunstâncias, fosse pelo valor monetário, fosse porque lhe daria alento, aplacando, ainda que de forma passageira, sua miserabilidade.
Uma lágrima rolou de seus olhos.



Fernando César Borges Peixoto


Advogado, pós-graduado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é saudosista.

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