Bartolomeu recorria outra vez ao cofrinho, catando algumas entre as parcas moedas (que outrora abundavam), para pagar as passagens de ônibus. Vivia essa rotina desde que uma nova crise se abatera pelo país, mas ao menos não entrava mais no cheque especial, nem o cartão de crédito era rejeitado na hora de abastecer o carro, que havia vendido para pagar dívidas e, com a sobra, comer por mais uns dias.
Andava cabisbaixo. Era uma época triste, e não apenas por causa da
crise financeira — havia também uma crise política e moral: uma intensa
investigação criminal havia revelado uma rede de corrupção com extensas
ramificações no meio político e no serviço público. A relação promíscua entre
autoridades achacadoras e empresas privadas, de laranjas ou de amigos do rei,
revelava a prática de um modelo econômico fascista, de um capitalismo de
compadrio. A crise moral sem precedentes não havia atingido apenas a classe
política e o serviço público, mas intelectuais e artistas, sempre a serviço de
partidos políticos, grandes canais da mídia domesticada, disseminadores de
“fake news”, e até líderes religiosos. Vários expoentes da doutrinação
ideológica haviam perdido o apoio popular, a confiabilidade e o respeito. Sem
contar a guinada no âmbito dos costumes, rumo à sonhada derrocada da moral
judaico-cristã, pilar da Civilização Ocidental.
Já no escritório, arrumou uma pilha de folhas impressas, leu o
noticiário, e-mails, alguns artigos técnicos e as 25 folhas diárias do livro
“da vez”. Lanchou café e biscoito, rascunhou uma tese sobre o abuso dos
administradores das redes sociais em relação aos usuários, lanchou de novo, e
quando se deu conta chegava o fim de mais um expediente, que havia transcorrido
de forma muito próxima ao dos outros dias: ninguém procurou seus serviços, e o
pó de café havia acabado. O pote vazio, ele levou para fazer companhia ao do
açúcar, que chegara ao fim há pelo menos duas semanas...
Como à noite passaria na TV um jogo do time de coração, foi ao
mercado e levou duas cervejas — quentes, porque eram mais baratas.
Enquanto viajava de volta, lembrava-se de fatos de sua vida: dois
divórcios acumulados, e um dos seis filhos que não falava mais com ele desde o
fim do casamento com a mãe — uma histérica que tornara sua vida um inferno, em
razão de ciúmes e da falta de equilíbrio; os planos enquanto estagiava; e a
tristeza que sentia ao ver advogados mais velhos mal arrumados, vivaldinos,
ávidos por tirar dinheiro dos clientes e prestando serviço ruim. Era estudioso,
vaidoso, bem formado e informado, um admirável workaholic bem empregado, e que
produzia muito. Por isso pôde deixar escapar um cargo público, para não se
afastar da primeira esposa. Jamais se arrependera disso, pois não teria a
oportunidade de experimentar e vivenciar tantas coisas maravilhosas,
engrandecedoras e sublimes — inclusive a paternidade em sua plenitude — se
tivesse deixado tudo para trás. (Na realidade, o tudo era um grande nada, pois
não havia construído até ali nenhum patrimônio considerável, fosse de cunho
pecuniário, profissional ou pessoal, e até sua capacidade intelectual começava
a ser posta à prova.)
Hoje aquele trampo fazia falta: estaria próxima a aposentaria com
proventos integrais, e teria gozado das benesses do serviço público durante a
carreira, ainda que isso não lhe deixasse totalmente feliz, pois reconhecia o
enorme sacrifício dos contribuintes para sustentar a máquina pública, e o luxo
de servidores e de políticos, ainda mais que muitos desses políticos eram
corruptos que diziam lutar em prol da sociedade. (Guardava consigo uma máxima:
corra de quem diz que luta por você.)
Absorto em seus pensamentos, imaginava se aqueles advogados dos
quais se apiedava não seriam até brilhantes no início da carreira; se não
teriam vivido os mesmos dilemas que ele, ou tido iguais frustrações. Por
ironia do destino, de certa forma, havia se tornado um deles - ou refletia a
ideia que fazia deles: poucos clientes, sem dinheiro no bolso e no banco, o
ímpeto diminuído para o estudo e o trabalho — até mesmo o jeito de se vestir
havia modificado com o passar dos anos... Ele aprendera a conviver com aquilo,
era verdade, até para manter a sanidade. Contava com 58 anos, e o único bem que
havia sobrado era a sala num excelente ponto, mas que já, já teria que vender
para pagar dívidas e evitar mais gastos com a taxa do condomínio, que vivia
atrasada. Trabalharia no escritório modelo que o órgão de classe
mantinha para profissionais “sem chão”.
Agora pensava em tudo o que passara em sua profissão, e concluiu
que o mundo não era lugar de justiças. Justiça... Tantas vezes lembrada por
pessoas posicionadas em lados extremos, a justiça era uma falácia, algo imposto
pelo establishment aos que devem obedecer, e cujo conceito havia sido esvaziado
de significado por demagogos, desonestos e oligofrênicos, todos em
busca de algo vantajoso para si. Alcançar a justiça dependia do poder e da
capacidade de articulação das partes envolvidas, porque o ordenamento jurídico
era facilmente manipulável para atender a interesses, necessidades de ocasião
ou ideologias dos operadores do Direito.
Após chegar a casa, enquanto vasculhava o armário vazio,
procurando algo que servisse de tira-gosto — uma lata de salsicha petit, sabia
que havia comprado uma —, a bolsa vagabunda do mercado, que ainda estava em
suas mãos, abriu e uma das garrafas se espatifou no chão.
Ele foi invadido por um misto de raiva e autopiedade. Aquilo era
algo significativo, pois toda a sua miséria (e decadência) se revelava: a perda
de algo ordinário que lhe era muito, muito caro naquelas circunstâncias, fosse
pelo valor monetário, fosse porque lhe daria alento, aplacando, ainda que de
forma passageira, sua miserabilidade.
Uma lágrima rolou de seus olhos.
Fernando César
Borges Peixoto
Advogado,
pós-graduado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é saudosista.
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