quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Raimundo


Raimundo Cavalcante tinha terras na Paraíba, mas a seca constante o fez desistir e partir para arranjar o que fazer no sul. Preferia trabalhar, e por isso dispensou viver pendurado no governo. Pretendia continuar vivendo no campo, para lidar com o que tinha experiência; e em pouco tempo já estava bem instalado numa pequena fazenda, onde tocava o pomar e a horta, e cuidava de porcos, carneiros, patos, galinhas e marrecos. Aquele pedaço de terra era um sonho.

Como não estava muito afastado da Cidade, podia frequentar a Igreja Matriz, Católica, Apostólica e Romana, àquela altura dominada por devotos da teologia da libertação.

Um belo dia, um membro da comunidade eclesial de base puxou assunto, e perguntou a Raimundo o que ele achava do “golpe”. Raimundo, homem muito atarefado e ensimesmado, desconhecia os jargões da esquerda brasileira, e perguntou: – Quediabéisso?

Então, ouviu:

- O golpe que o Temer deu na presidenta Dilma por ter tirado milhões da pobreza, pois a elite odeia ver os pobres fazendo compras, tomando avião e frequentando os mesmos lugares que os ricos.

Raimundo respondeu:

- I u hômi num fazia propaganda e discussu juntu cua Dirma? Eis num tava juntu? Eu vi, das duas vez, qui eis tava juntu.

- Não senhor! Se Temer não estivesse lá, ela não ganhava. Foi obrigada a aceitar por imposição das elites. Mas ele se juntou com os tucanos e deu um golpe na mãe Dilma. E ainda querem prender o papai Lula. Gente ruim, que não larga o poder.

- Óia, seu moçu — disse Raimundo , eu num sô letradu, i tive qui saí de minha terrinha pruque num tive ajuda di ninguém. Nem quiria. Larguei tudu pra lá i vim trabaiá nu su do país. Mais meu patrão, que é rico, i muitcho bão, tamém tem dificurdade pra tocá a fazenda. Mai tem muitcho amigu dus hômi qui tão nadanu nu dinhêru. Issu é justo? Eis déru geladêra i tevelisão prus pobri, i mansão, iati i dinheiru grossu prus ricu, e ficaro com um naco pra eis tamém i prus cumpádi deis. E nissu aí, tá eis tudu mitidu: Lula, Dirma, Têmi... Jesus num qué issu não, viu?

Irritado, o fiel foi embora, não sem antes chamar Raimundo de cão adestrado da burguesia.

Raimundo, que não estava nem aí, voltou para casa, reconfortado pela Palavra lida na Santa Missa. Agora, precisava descansar no domingo do Senhor, porque tinha uma semana dura pela frente, em que precisava estar bem-disposto para trabalhar pesado, como sempre fez e nunca reclamou.




Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, um saudosista que agora inventou de escrever poesia.

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