sábado, 23 de julho de 2016

Comida, ocupação de espaços e doutrinação

Eu e minha mulher temos um hobby, e não é do Menudo: gostamos de assistir a programas de culinária na TV. Com isso, aprendemos sobre novos utensílios, técnicas, ingredientes e combinações. Mas, também aproveito para lançar um olhar crítico nos sinais emitidos, e, acredite, há espaço (e muito) para a divulgação de pautas da agenda da esquerda, em especial o politicamente correto e o vitimismo.
Um dos maiores, a franquia mundial exibida na TV aberta, não poderia deixar de ser um dos que mais endossam isso. Na atual temporada, viu-se claramente que a competidora mais querida, que fez muita gente chorar e se apiedar, especialmente em suas duas eliminações, é negra, pobre e perdeu um irmão para a violência. E ela fez questão de falar isso em algumas oportunidades. Sua limitadíssima capacidade para cozinhar ficou relegada a segundo plano, obviamente.
E não para por aí. Há dois participantes de origem oriental. O melhor apessoado, ao que tudo indica heterossexual, é discriminado pelos adversários, enquanto o outro, que mostra um comportamento dúbio e afetadíssimo, faz parte da “panela” – e não aquela na qual se cozinha.
Não foi em apenas um episódio que pessoas diferentes apontaram o comportamento reprovável desse último. E o que seria reprovável em sua conduta? Seu comportamento afetado?
Não. Esse é um problema dele, pessoal, embora isso possa lhe angariar a simpatia de algumas minorias. Reprovável é o seu vitimismo barato e canalha.
E por que isso seria reprovável, se “vale tudo” numa disputa?
Simples. Há os valores morais, e nós, por mais que seja desesperador para muitos, fomos criados sobre os pilares que construíram a Civilização Ocidental: o Direito Romano, a Filosofia grega e a moral judaico-cristã.
O sujeito se apresentou deixando transparecer se tratar de alguém de origem pobre. E apesar de médico oncologista e pesquisador, continua falando em pobreza enquanto “acusa” seus adversários de terem uma vida tranquila. Chegou afirmando que “have a dream”: criar uma cozinha baseada em ingredientes baratos e no reaproveitamento, para aplacar a fome de pobres e necessitados. Contudo, isso ele não faz. Ademais, alguns de seus adversários afirmam que, na realidade, ele mente, e descaradamente, por se tratar de alguém abastado, viajado, que maneja muito bem os ingredientes mais refinados porque os conhece – e muito bem – apesar de todo o “mise-en-scène” pré-cozimento.
Ele é esperto e manipulador. Sabe que o coitadismo, o vitimismo nesses tempos é excelente angariador de simpatia, de votos.
Tristeza.
Mas, não paremos por aqui, não esqueçamos os apresentadores desses programas. Um, bonitão, da TV paga, defende a agenda abortista; outra, bonitona, dá aula – ou faz intervenção cultural – em escolas invadidas por crianças manipuladas por coletivos de esquerda que chamam esse ato criminoso de “ocupação” e amam o dinheiro público.
Há também a apresentadora que faz rangos que ninguém suporta, que faz os convidados comerem com “dentes altos” – como sua irmã gordinha, que não segue nem de perto as dicas de dieta. Esse programa, eu descobri recentemente, além de ser motivo de piadas nas redes sociais, possui um público que se digna a aprender a fazer churrasco de melancia porque seus convidados são famosos...
É o showbizz. Mas, isso vai muito além. Esses rostinhos famosos e bonitos, a exploração desse coitadismo, nada disso está ali por acaso.
Antonio Gramsci falava da necessidade da ocupação de espaços para difusão da ideologia marxista e a conquista de corações e mentes. Olavo de Carvalho vez por outra lembra a diretriz adotada por John Howard Lawson, um agente comunista que dirigia a escola de roteiristas de cinema em Hollywood (isso mesmo, nos EUA) nos idos de 1940 e 1950. Ele confirmava a sutileza descrita na teoria gramsciana, ao destacar que não era para fazer filme comunista, mas inserir em filmes comuns, aos poucos, mensagens comunistas, pois a finalidade era conquistar o subconsciente das pessoas.
Somos bombardeados todo o tempo com essas mensagens que atingem nosso subconsciente, fazendo-nos de idiotas úteis, defensores de uma ou outra pauta dessa agenda. Mesmo quando falamos que não discutimos política (porque não gostamos) ou que isso é algo que passa ao largo de nossas vidas. Nada mais equivocado. E esse desleixo faz com que, ainda que não sejamos esquerdistas, acabemos defendendo algo que os favorece de alguma maneira.
Fique atento, porque somos alvo de doutrinação até mesmo quando assistimos a um programa querendo melhorar a performance na cozinha.


Fernando César Borges Peixoto

Advogado, especialista em Direito Público pela Faculdade de Direito de Vila Velha-ES e em Direito Civil e Processual Civil pela Faculdade Cândido Mendes de Vitória-ES.

sábado, 2 de julho de 2016

Duviviemos dos que fingem ter boas intenções: o inferno está cheio deles

Gregório Duvivier é um idiota. Completo. E para esclarecer o sentido (ou os sentidos) em que estou enquadrando o humorista, escritor, colunista e mais um monte de coisas (de conteúdo “duvividoso”, mas ele é ocupado, não se pode negar), vou tecer alguns comentários.
Em Primeiro lugar, há a oligofrenia, deficiência congênita ou adquirida que compromete o desenvolvimento intelectual do “indivíduo” (essa palavra ofensiva para esquerdistas). A tríade oligofrênica é composta pelo idiota, o imbecil e o débil mental, sendo a espécie de oligofrenia mais grave a idiotia, cujos portadores possuem o quociente de inteligência (QI) entre 20 e 34.
Há também a ideologia marxista, mas Duvivier demonstra conhecê-la bem, razão pela qual não pode ser considerado um “idiota útil”, expressão usada para descrever os ocidentais que inconscientemente simpatizam com essa teoria e, sem saber, atuam em seu favor, empunhando suas bandeiras. Ele superou essa fase.
E ainda há a questão das drogas. Ele já assumiu que planta maconha em sua casa e, estufando o peito e bagunçando o tabuleiro, desafiou a autoridade constituída a prendê-lo e ainda aproveitou para fazer propaganda ideológica ao afirmar que não seria preso por ser branco, rico, morar no Rio de Janeiro, no Sudeste, etc. e tal [1].
Ora, essa droga não causa somente a lombra (ou larica). É ruim para os jovens, pois afeta o hipocampo, região do cérebro que exerce importante função na memória de longo prazo, e aumenta “em 310% o risco de desenvolver esquizofrenia, que é uma doença incurável[2]; e a longo prazo pode causar “mudanças no cérebro, semelhantes aos vistos no abuso de outras drogas consideradas mais ‘pesadas’ [3].
E aí vem outra complicação, pois o Greg faz grande sucesso entre o público jovem e adolescente – o que é normal para o nível da sua (dele) intelectualidade –, e o seu comportamento, é lógico, influencia seu público.
Vencida a parte do “idiota”, cabe lembrar que os jovens são cobiçados pelos revolucionários marxistas há muito tempo, por sua impetuosidade, pouca experiência e pela facilidade com que são convencidos e inflamados.
Ion Mihai Pacepa informa que Penteleymon Bondarenko, um General soviético, mandou-o criar, com base em mentiras, um ambiente de anti-americanismo para influenciar jovens que participariam de um congresso da Federação Mundial da Juventude Democrática. Em meio a palavrões, seu chefe informou a importância dos jovens na causa marxista: “‘aqueles estudantes de mer* ficam empolgados com qualquer bos* de injustiça e têm uma porr* de pavio curto quando vão protestar’. Isso fazia deles ‘massa maleável em nossas mãos, e podemos moldá-los como qualquer mer* que quisermos’[4]. A ideia de manobrar a juventude também não passou despercebida por expoentes do comunismo como Carlos Marighella [5] e Antonio Gramsci [6].
             
                  *       *      *
No programa Pânico na Jovem Pan [7], Duvivier citou com sarcasmo o deputado federal e Pastor Marco Feliciano, e também foi fugidio ao negar sua proximidade e afeição ao PT [8]. Mas, ele mentiu, pois, além de escrever artigos pró-lulopetismo, em entrevista a uma rede de TV em Portugal, engrossou descaradamente o coro dos lulopetistas ao se referir ao processo de impeachment da Dilma Roussef como um golpe [9].
Duas coisas devem ser lembradas: o psol que ele apoia é um satélite do PT; e ele e seus parceiros, com certa frequência, são agraciados com a liberação de somas vultosas de dinheiro público ou com a autorização para captação de dinheiro através de leis de incentivo.
Duvivier é daqueles "intelectuais" oriundos do meio artístico e das faculdades, que se dizem preocupados com minorias e aparecem com grande frequência em programas onde são discutidas questões sociais (apenas entre esquerdistas, é lógico, para a formação de consenso), mas que, na verdade, seguem a agenda esquerdista, que é mundial, diga-se. Como exemplo, apoia a invasão de escolas [10].
Com a total ocupação de espaços da nossa mídia pela esquerda, tornou-se muito comum ver a defesa de pautas progressistas e ataques, ainda que velados, aos pilares da Civilização Ocidental. Duvivier faz parte de um grupo que usa seu peculiar humorismo para, disfarçadamente, ridicularizar e promover ataques mentirosos, preconceituosos e sem fundamentação contra o cristianismo e contra os eleitos “adversários políticos”. Ele ganha dinheiro com isso, além do reconhecimento e da superexposição na mídia pelos companheiros de front.
Seguem os aplausos, mas, voltemos.
Interpelado pelo deputado “no ar”, ele piorou tudo. Feliciano perguntou o motivo do humorista, que adora falar de religião, não incluir em seu repertório de piadas o islã, muçulmanos e Maomé. Ele, então, usou aquilo que chamo de “arjumento”, ao responder que é porque não há nenhum deputado muçulmano “roubando” o seu dinheiro. Também falou que a bancada evangélica destrói o país, pois não aprova nem deixa aprovar nada da pauta progressista. E ele destacou o aborto.
A certa altura, Rafael Portugal, que se disse cristão – não sei se mal intencionado ou total ignorante do assunto, mas bom “arjumentador” –, falou que o cristão que se ofende com piada que atenta contra a imagem de Jesus Cristo está “faltando crer quem de fato é Jesus” (sic), pois Ele não se  preocuparia com isso. O humorista não sabe (?) que a escrotização do cristianismo é o caminho para a sua extinção, o desfecho sonhado por Marx e todos os líderes soviéticos para essa religião “impertinente”.
Mas, vamos lá. Se o Greg fosse alguém que verdadeiramente não apoia políticos que “roubam”, ele não apoiaria políticos do PSOL [11], partido que usou dinheiro desviado do SINDISPREV/RIO para fins eleitorais, falsificando relatório do Conselho Fiscal [12].
Quanto ao caso do aborto, Feliciano foi certeiro e disse que isso é assassinato, e que a Constituição Federal de 1988 garante a inviolabilidade do direito à vida, no caput do seu artigo 5º.
E quanto às críticas à “Bancada Evangélica” (que deve incluir todos os que creem no Evangelho) e seu “pavoroso” conservadorismo, cabe revelar um detalhe: o povo brasileiro é conservador, tema que, inclusive, já abordei no ensaio “Comentário sobre o domínio da semântica como instrumento revolucionário[13], com dados da obra de Alberto Carlos Almeida:
... endossando o pensamento do antropólogo Roberto DaMatta, [Almeida] arremata: “o Brasil é hierárquico, familista, patrimonialista e se encaixa em vários outros adjetivos que significam arcaísmo, atraso”. Sobre esses adjetivos, destaca que o brasileiro é fatalista, favorável à censura, contrário ao liberalismo sexual e não confia nos amigos.

A título de esclarecimento, Alberto Carlos Almeida é o cientista político que aconselhou o ex-Presidente Lula a "pegar" um ministério para que não fosse preso na operação Lava Jato [14], numa das gravações do grampo autorizado pelo Juiz Sérgio Moro.
Greg quer que projetos progressistas sejam aprovados para seu prazer, desprezando o fato de que o brasileiro é majoritariamente conservador e cristão. Ele ataca covardemente os cristãos que os totalitaristas que comungam de sua ideologia sempre atacaram, porque atrapalham o “sonho de um mundo melhor”, com liberdade para abortar crianças (inclusive após o nascimento), usar drogas, fazer sexo com crianças e animais, celebrar “casamento” entre homossexuais, fechar Igrejas cristãs, adotar a religião universal e facilitar o convívio harmônico com os islâmicos da paz, em nome do multiculturalismo. Um mundo onde se adote a ideologia de gênero, prevaleça a ditadura gay e feminista, criminosos sejam soltos, a população seja desarmada, todos consumam comida vegana, haja hospitais públicos para animais, a polícia porte flores no lugar de armas e o Estado seja o provedor de tudo a todos, tirando dinheiro sabe lá de onde, porque os utopistas são contra a escravidão.
O fato é que a esquerda alcançou a hegemonia no plano político, artístico e midiático, e não admite sequer uma centelha de oposição. Soa-lhes agressivo. É retrocesso.
Como prova, há o fato de não haver um único partido genuinamente conservador num país cuja mentalidade da maioria esmagadora é conservadora, e isso apesar de falsos estudos e pesquisas, que às vezes não conseguem encobrir a verdade. É irônico, mas é também planejado.
Para Olavo de Carvalho, três fatores sustentam esse absurdo: o enorme sucesso da revolução cultural gramsciana e sua influência na incorporação de valores, critérios e cacoetes mentais do movimento comunista internacional em nosso “senso comum”; o engodo do discurso “pra fora” dos esquerdistas, que tratam suas reais intenções em discussões internas dos partidos; e a ausência de canais, políticos e partidos conservadores. Vejamos [15]:
Se no Brasil ocorre esse fenômeno aberrante de um eleitorado conservador votar maciçamente em candidatos de esquerda, o motivo da contradição aparente é claríssimo e se compõe da confluência de três fatores.
Desde logo, o conservadorismo não tem canais partidários ou culturais de expressão e se tornou politicamente nulo. Não há políticos conservadores: ninguém pode votar em candidatos inexistentes.
(...) Somem esses três fatores e compreenderão por que um povo conservador vota em candidatos comunistas: ele não sabe que são comunistas, não sabe que há um movimento comunista ativíssimo no continente e não tem a menor ideia das consequências do seu voto. As eleições brasileiras são uma farsa no sentido mais exato e integral do termo.

O esquerdista não se importa em mentir, em ser desonesto, porque entende que o conceito de moral dos ocidentais deve ser desconsiderado. A sua moral é a revolucionária, que é casuística - ele pode tudo em razão da causa, como deixou claro Leon Trotski [16]:
... a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um caráter revolucionário. Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante.
... na luta de classes contra o capitalismo (...) são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação.
(...) Estes critérios, é obvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas.

Ion Mihai Pacepa revela a capacidade de inversão da verdade e da manipulação das massas pelas mentes doentias de certos esquerdistas, ao lembrar que Jacques Derrida culpou as vítimas pelos ataques terroristas da Al Qaeda nos EUA, em 11/09/2001, e “pediu uma ‘nova Internacional’ para unir todos os ambientalistas, feministas, gays, aborígenes e outras pessoas ‘despossuídas e marginalizadas’ que combatiam a globalização guiada pelos Estados Unidos[17]. Eis aí a massa de manobra da esquerda, sendo certo que os despossuídos e marginalizados vêm do lumpemproletariado.
É preciso denunciar o conteúdo nocivo das manifestações escritas, faladas ou interpretadas de pessoas como Gregório Duvivier, que segue a pauta da esquerda progressista e suas inúmeras distorções e contradições (duplipensar), inoculando a causa revolucionária de forma silenciosa em adultos desavisados e jovens inexperientes, ao “estilo” Antonio Gramsci, e, assim, conquistando corações e mentes. Aliás, Gramsci é o teórico do “intelectual orgânico”, militante marxista inserido no mundo da educação e da cultura com a finalidade de conscientizar a classe social que surge com a função de atuar de forma “determinante no modo de produção econômico” [18].
Duvivier não é um humorista moderno, sarcástico e bonzinho. Aquele jeitinho de Frodo, “o bolseiro”, pode enganar principalmente os jovens, mas ele defende uma ideologia que atrai a liderança de quem não mede esforços para escravizar e matar seu povo, para levar uma vida abastada, pois em todos os lugares em que um regime de esquerda foi implantado uma casta viveu da usurpação e da desgraça alheia, da exploração de muitos para deleite de poucos, porventura membros do establishment. E Greg ganha muito bem para isso. Sendo um intelectual orgânico, hoje já goza de vários privilégios conferidos pela “nomenklatura” a seus camaradas.

NOTAS
[1] Maselli, Juliana. Gregório Duvivier diz que tem pé de maconha em casa em debate. EGO, 30/11/2015. Disponível em  http://ego.globo.com/famosos/noticia/2015/11/gregorio-duvivier-diz-que-tem-pe-de-maconha-em-casa-em-debate.html. Acesso em 01/07/2016;
[2] Gentil Filho, Valentim. Psiquiatra entrevistado no Programa Roda Viva da TV Cultura (31’52’’), exibido em 04/11/2013. Disponível em http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/transmissao/valentim-gentil-filho-4#. Acesso em 25/09/2015;
[3] Os efeitos do abuso de drogas ilícitas na saúde. Boa saúde, 24/06/2010. Disponível em http://www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/4724/-1/os-efeitos-do-abuso-de-drogas-ilicitas-na-saude.html. Acesso em 01/07/2016;
[4] PACEPA, ion Mihai e RYCHLAK, Ronald J. Desinformação... Campinas: VIDE Editorial, 2015, p. 377;
[5]Os estudantes se destacam por ser politicamente cruéis e rudes, e portanto rompem todas as regras. Quando são integrados na guerrilha urbana, como está ocorrendo agora em grande escala, ensinam um talento especial para a violência revolucionária e, pronto, adquirem um alto nível de destreza político-técnico-militar”. MARIGHELLA, Carlos. Manual do guerrilheiro urbano. Disponível em http://www.documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2015/08/carlos-marighella-manual-do-guerrilheiro-urbano.pdf, 2003, p. 60;
[6]A juventude intelectual socialista italiana, que não tem quaisquer vínculos com esses homens do passado, com esses intelectuais pequeno-burgueses, que é livre de preconceitos e de tradições, que adquiriu maturidade na paixão pela guerra e caráter revolucionário no estudo da revolução bolchevique, é convocada para criar a produção específica da sua atividade histórica: ideias, mitos, ousadia de pensamento e de ação revolucionária para a fundação da República Sovietista Italiana”. GRAMSCI, Antonio. O ressurgimento e a unificação da Itália. São Paulo: Martins Fontes, 2014, págs. 260/261;
[7] Pânico na Jovem Pan entrevista Gregório Duvivier, Totoro e Rafael Portugal. Rádio Jovem Pan, 28/06/2016. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=cxcLPWX-CqA. Acesso em 30/06/2016;
[8] Apesar do título, o conteúdo do texto publicado na Folha de São Paulo é propaganda do PT. Por que odiar o PT, por Gregório Duvivier. GGN, 10/08/2015. Disponível em http://jornalggn.com.br/noticia/por-que-odiar-o-pt-por-gregorio-duvivier. Acesso em 01/07/2016;
[9] Em TV portuguesa, Gregorio Duvivier (Porta dos fundos) critica Temer e desmascara o golpe. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=KdXFkwKN2Z0. Acesso em 01/07/2016;
[10]Iniciadas em 21 de março, as ocupações ganham, cada vez mais, apoio de artistas. O humorista Gregorio Duvivier integrou intervenção cultural ontem na Escola Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador. Amanhã, a também humorista Clarice Falcão, do ‘Porta dos Fundos’, a Orquestra Voadora e o cantor Tico Santa Cruz se apresentam para alunos no Colégio Visconde de Cairu, no Méier”. RAITER, Amanda. Escola ocupada é assaltada. O Dia, 24/04/2016. Disponível em http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-04-24/escola-ocupada-e-assaltada.html. Acesso em 01/07/2016;
[11] Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos, declara apoio a Luciana Genro. Disponível em http://lucianagenro.com.br/2014/08/gregorio-duvivier-do-porta-dos-fundos-declara-apoio-a-luciana-genro/. Acesso em 01/07/2016;
[12] MAGALHÃES, Luiz Ernesto. Em gravação, Janira Rocha admite desvio de recursos para uso político. O Globo, 04/09/2013. Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/em-gravacao-janira-rocha-admite-desvio-de-recursos-para-uso-politico-9824266. Acesso em 01/07/2016;
[13] PEIXOTO, Fernando César Borges. Comentário sobre o domínio da semântica como instrumento revolucionário. Impressões e confissões expressas, 27/08/2015. Disponível em http://fernandopeixoto-es.blogspot.com.br/2015/08/comentario-sobre-o-dominio-da-semantica.html. Acesso em 01/07/2016. Acesso em 01/07/2016;
[14] Grampo de Lula: 8/3, 18h11. Conversa entre Lula e Alberto Carlos Almeida (cientista político). G1, 17/03/2016. Disponível em http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/grampo-de-lula-83-18h11.html. Acesso em 01/07/2016;
[15] CARVALHO, Olavo. A Nova Era e a Revolução Cultural. 4. ed. Campinas: VIDE Editorial, 2014, págs. 194/195;
[16] TROTSKY, Leon. A moral deles e a nossa. Disponível em https://www.archivoleontrotsky.org/download.php?mfn=7078. Acesso em 25/09/2014;
[17] PACEPA, ion Mihai e RYCHLAK, Ronald J. Ob. cit., p. 369;
[18] COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014, p. 175.


Fernando César Borges Peixoto

Advogado, especialista em Direito Público pela Faculdade de Direito de Vila Velha e em Direito Civil e Processual Civil pela Faculdade Cândido Mendes de Vitória.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Brasil, terra de contrastes [1]

Com o revezamento da tocha olímpica na cidade de Maracaju, no Mato Grosso do Sul, houve um fato inusitado. Marcelino Mateus Silva Proença, que aguardava a passagem do estafeta que levava “atocha olímpica”, munido de um balde d’água para apagar a “chama mágica”, não conseguiu seu intento, mas, considerando a grave ameaça que o ato representa à sociedade brasileira, homens da lei e da ordem rapidamente resolveram a querela – buscaram o cidadão em sua casa e o levaram preso, acusado de cometer crime de dano ao patrimônio cultural [2], previsto no artigo 62 da Lei nº 9.605/1998, cuja pena é de um a três anos e multa [3].

Nessa maré de desemprego em massa no país, o agora meliante desembolsou mil reais para não ficar preso, após confessar que não se tratou de um ato político, mas uma aposta ou brincadeira compartilhada no Facebook.

E não é que em 29/06/2016, além de uma professora de Maringá [4], outra jovem ameaça ao Estado brasileiro, munida de um extintor para tentar apagar esse símbolo da humanidade, foi presa em Cascavel, no Paraná, agora pela Força Nacional [5], organização criada para cumprir honrosas funções, como um dia o foram a SS nazista, os camisas negras do Duce (Benito Mussolini), e a Guarda Nacional bolivariana de Nicolás Maduro (herdada de Hugo Chávez, “o colibri”).


Segundo SIRVINSKAS, o patrimônio cultural protegido pela lei [6]:

... é formado por uma gama diversificada de produtos e subprodutos provenientes da sociedade. Esse patrimônio deve ser protegido em razão do seu valor cultural, pois constitui a memória de um país. Não se trata de interesse particular. O “interesse histórico e artístico responde a um particular complexo de exigências espirituais cuja satisfação integra os fins do Estado. É, em substância, uma especial qualificação do interesse geral da coletividade, como o interesse à sanidade, à moralidade, a (sic) ordem pública etc.”.
(...)
Protege-se, como se vê, o patrimônio cultural, ou seja, aquilo que possui valor histórico, artístico, arqueológico, turístico, paisagístico e natural.

     É importante salientar que a grafitagem de edificação ou monumento urbano, antes prevista no artigo 65 da mesma lei, foi descriminalizada. Para os bons entendedores, trata-se de arte.

Bom. Da confusa definição acima, é possível destacar que o artefato é considerado um produto ou subproduto advindo da sociedade, cujo interesse é comunal (não individual) e ligado à moralidade, além de possuir valor histórico.

Ora, o objeto do crime está ligado a um evento que, assim como a Copa do Mundo, não vai deixar legado algum e a cada dia envergonha mais o povo brasileiro (escarnecido pelos estrangeiros) pela falta de estrutura e competência de seus organizadores, políticos e construtores. Há ciclovia recém-inaugurada caindo como se de papelão (que papelão!); o local onde vários competidores mergulharão está altamente poluído, cheio de coliformes fecais; está prevista a conquista de poucas medalhas por nossos atletas; e foram feitos gastos gigantescos, que quebraram um Estado-membro e deu muito prejuízo à União. Cadê a moralidade e o valor histórico disso aí?

Mas, os contrastes dessa belíssima terra que tem palmeiras onde canta o sabiá (“sen A = cos B, sen B = cos A”) não param por aqui.

É impossível não pensar nesses acontecimentos e esquecer vários outros ocorridos nesses últimos tempos, especialmente a partir da derrocada do lulopetismo – ou, pelo menos, da exposição de seus males a quem quiser ouvir.

Para começar, as várias manifestações de coletivos, sindicatos etc., regados a dinheiro público para defender um governo que se mostra corrupto pelas inúmeras prisões realizadas no âmbito do Mensalão e da operação Lava Jato. Esse mesmo governo que quebrou a nação e suas desnecessárias, mas milionárias, empresas integralizadas com dinheiro público, como Petrobras, Correios, Caixa Econômica e Banco do Brasil. E não podemos esquecer as caixas de assistência dos servidores públicos, tungadas da mesma forma – a forma “democrática”.

Elas são sempre realizadas em dias úteis da semana, vindo pela “contramão, atrapalhando o tráfego” e também a locomoção de trabalhadores e de quem tem mais o que fazer, como ir para casa descansar depois de um dia de trabalho. A polícia protege.

Há também as porralouquizes zižekianas de “ocupai” (ou Inricristianas: Ocu-PAI???) qualquer coisa, o que não passa de uma invasão injusta de espaços públicos, como as escolas onde os eternamente mal atendidos alunos da rede pública são prejudicados por meia dúzia de crianças mimadas, baderneiras e de mente vazia, instigadas por sindicalistas e por um bando de come-dorme, todos financiados com o dinheiro público (olha ele aí de novo).

Nas faculdades – as públicas, que são as que sustentamos –, há a afronta à autoridade de professores, o que mostra a nítida inversão de valores que tomou conta do país nos últimos anos. Bichos-grilos e aluados, que querem impor a todos que adiram a suas ideologias e/ou imbecilidades. Para tanto, interrompem aulas e enchem o saco de quem quer estudar e se formar para encarar o mercado de trabalho – e não ficar vinte anos na universidade cultivando pelos, defecando e urinando nas escadas, e colecionando e alimentando espécies de piolhos ou contribuindo para surto de sarna (pra se coçar).

Logicamente, não há paralisação quando o assunto é a venda de drogas de consumo proibido nos campi das universidades Brasil afora [7].

Por fim, voltando às OlimPIADAS – esse sonho megalomaníaco, mas também rentável –, há gastos superfaturados, obras mal feitas, inacabadas e nem iniciadas, como a descocorização (ou desbostalização) da Baía de Guanabara [8], e ninguém é preso por isso... Pela Força Nacional... Ao vivo, em flagrante.

Não. E sabe por quê? Porque:

a) É o país dos embargos de declaração em embargos de declaração em embargos de declaração no Recurso Extraordinário; do julgador que suprime instâncias e concede “habeas corpus” de ofício em Reclamação Constitucional à qual negou a liminar, liberando da prisão o político que tem coragem de cobrar uma “mesada” sobre empréstimos consignados obtidos por aposentados que vivem em petição de miséria, nesses tempos de governo social de grandes conquistas negativas e que se diz golpeado; da censura judicial descabida que quer punir a fala de parlamentar marcado para ser destruído no congresso de um partido político, enquanto no dia imediatamente anterior a mesma Corte eximiu de simples prestação de contas uma parlamentar aliada ao referido partido, após sugerir que um Senador da República (um falso adversário, diga-se) é o traficante responsável por meia tonelada de cocaína encontrada num helicóptero;

b) É o país onde a corrupção foi elevada a enésima potência por um grupo de “humanistas humanitários” que “quer porque quer” levar adiante um projeto criminoso de poder para instaurar uma ditadura do proletariado no Brasil, estender a uma união de repúblicas socialistas no continente e escravizar todo o povo;

c) É o país onde a apuração de escândalos milionários de corrupção por um juiz de 1ª instância, que visa a acabar com a impunidade, sofre diversos ataques das classes política e empresarial, encalacradas por esquemas, esqueminhas e esquemões revelados a cada operação policial de nome criativo que abastece o processo;

d) É o país onde infrações que afrontam as idiossincrasias do estamento burocrático são fácil e rapidamente combatidas – vai apagar “atocha” para ver uma coisa. Porém, se ocorre crime mais violento, que imputa danos à sociedade, mas praticado por certos atores dessa sociedade (como apologia ao crime e tráfico de drogas por mulas ou traficantes de ficha limpa), uma brandura angelical toma conta de legisladores e julgadores, o que, consequentemente, deixa as autoridades policiais de mãos atadas e a sociedade desprotegida;

e) Por fim, é o país onde um hospital público, onde se espera que vidas sejam salvas, recebe o nome de um assassino covarde e preconceituoso.

É ou não é uma terra de contrastes?


NOTAS
[1] O título é uma homenagem ao Casseta & Planeta, grupo de humoristas que alcançaram grande destaque numa época em que as piadas eram engraçadas;

[2] KATAYAMA, Juliene. Homem é preso ao tentar apagar tocha olímpica com balde de água. G1, 26/06/2016. Disponível em http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2016/06/homem-e-preso-ao-tentar-apagar-tocha-olimpica-com-balde-de-agua.html. Acesso em 27/06/2016;

[3] A Lei nº 9.605/1998, que em sua seção IV trata dos Crimes contra o Ordenamento Urbano e o Patrimônio Cultural, assim dispõe em seu artigo 62:

Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar:
I - bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial;
II - arquivo, registro, museu, biblioteca, pinacoteca, instalação científica ou similar protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.

[4] Cordeiro, Luciane. Duas pessoas são presas por tentar apagar chama olímpica no Paraná. G1, 29/06/2016. Disponível em http://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2016/06/professora-e-presa-ao-tentar-apagar-chama-olimpica-com-cartaz-no-pr.html. Acesso em 30/06/2016;

[5] Jovem é preso ao tentar apagar a Tocha Olímpica em Cascavel. TN on line, 29/06/2016. Disponível em http://tnonline.uol.com.br/noticias/cotidiano/67,377984,29,06,jovem-acaba-preso-ao-tentar-apagar-a-tocha-olimpica-com-extintor-em-cascavel.shtml?cmpid=fb-uol. Acesso em 30/06/2016;

[6] SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 490;

[7] Calcagno, Luiz. Documento prevê proibição da venda de bebida alcoólica e fim dos CAs na UnB. Correio Braziliense, 19/01/2011. Disponível em http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2011/01/19/interna_cidadesdf,233096/documento-preve-proibicao-da-venda-de-bebida-alcoolica-e-fim-dos-cas-na-unb.shtml. Acesso em 28/06/2016;

[8] Despoluição da Baía de Guanabara já gastou R$ 10 bi e prevê mais R$ 20 bi. G1, 30/07/2015. Disponível em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/07/despoluicao-da-baia-de-guanabara-ja-gastou-r-10-bi-e-preve-mais-r-20-bi.htmlAcesso em 28/06/2016.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, especialista em Direito Público pela Faculdade de Direito de Vila Velha-ES e em Direito Civil e Processual Civil pela Faculdade Cândido Mendes de Vitória-ES. 



domingo, 8 de maio de 2016

O último ano do sinhozinho


Betinho já contava com 10 anos de idade e todos os anos seus pais moviam céus e terra para elegê-lo “sinhozinho” na festa junina da escola – festividade de vital importância para arrecadar dinheiro para o caixa.
O sinhozinho era a atração da festa: havia a entrega da faixa, um prêmio pela vitória e a sensação de poder absoluto sobre os amiguinhos.
Estudava num colégio estadual do subúrbio. O Regime Militar chegava ao fim e as escolas particulares ainda não haviam se transformado na última esperança de um aprendizado de melhor qualidade. Com isso, a escola pública não era frequentada apenas pelos mais carentes, o que dificultava levar o prêmio.
É que cada pai e cada mãe têm a exata certeza de que seus filhos são as pessoas mais importantes do mundo, e isso fazia com que houvesse uma disputa carnívora entre genitores das “celebridades familiares pelos momentos de destaque no dia da festa. A mãe de Betinho empurrava vários carnês para o pai vender na repartição pública em que trabalhava, enquanto passava nas casas de amigas, conhecidas e parentes para vender votos e arrecadar brindes, brindes esses que também valiam pontos. As pessoas eram mais receptivas e menos ressentidas naqueles tempos, e não se sentiam incomodadas com o pedido de ajuda, ao contrário da repulsa demonstrada nos dias atuais, quando alguém vem “incomodar pedindo dinheiro”.
Estava a 5ª série do ginasial e nem sabia por que havia cedido ao apelo das professoras para inscrever seu nome na disputa daquele ano. Ele passava por uma nova fase da vida, vivenciava novas experiências. Acabara de sair do primário, em que havia uma única professora, para o ginasial, no qual tinha aulas com oito professores. Uma baita mudança que acarretava maiores obrigações com os estudos e a obtenção de mais informações sobre o “sentido da vida”. As “coisas de criança” ficavam para trás. Na realidade, no lugar de puxar a quadrilha, do “Arraiá” da escola preferia participar da apresentação de patins no dia da festa, evento que havia sido motivo de ciumeira por parte de um colega de longa data, na disputa pela melhor patinadora.
A mãe percebeu a mudança e foi conversar com ele sobre a falta de entusiasmo. Com seu amor infinito pelo único filho homem, e ainda por cima temporão, olhou-o no fundo dos olhos e perguntou se realmente queria participar e vencer a disputa naquele ano. Em sua inocência, ele achava que era importante para ela, e meio constrangido, mesmo sem pressão alguma, disse sim. Ela percebeu o sim chocho, mas ela resolveu não perguntar novamente para não constranger o menino. E lá foi ela mover mundos e fundos para ele vencer outra vez.
No dia da apuração, ele estava em aula e a sua mãe foi ao colégio. Encerrado o evento, ela foi à sala de aula. Ia aproveitar para levá-lo embora com ela. Quando a viu, ele percebeu um semblante amuado, e perguntou:
- Perdi? A pergunta era quase uma súplica.
Ela, então, abriu um sorriso e disse:
- Não. Você venceu de novo. Enganei o bobo. Não foi fácil, porque uma das mães quis ser mais esperta que as outras e desembolsou um bom dinheiro após a apuração dos votos vendidos. Seu filho arrecadou mais, mas ela esqueceu os brindes.
Mãe e filho foram embora, cúmplices, parceiros. Mais uma vitória no caixa.
No dia da festa, já não corria pelo pátio da escola, nem exibia, garboso, a faixa de sinhozinho como antes. Aliás, havia pedido à mãe para guardá-la em sua bolsa, porque ficava com vergonha de usar aquilo perto de seus amigos. Ela observava de longe, com ar de nostalgia, o menino que mudava a cada dia. Então, sorriu, com olhos marejados – seu bebê estava crescendo.
Quando mais tarde ele se aproximou e disse que estava cansado e queria ir embora, ela perguntou:
- Esse foi o último ano, né?
- É, mãe – disse ele. Acho que já estou grande demais para isso. Obrigado pelo esforço, sei que não foi fácil. A senhora é a melhor mãe do mundo.
Deu um beijo nela e partiu para se despedir dos amigos.
Sua mãe era uma mulher de temperamento empedernido, mas sua generosidade e seus ensinamentos permeariam toda a vida de Betinho. Acima de tudo, uma certeza ele teria até o fim de seus dias: acontecesse o que tivesse que acontecer, ninguém nesse mundo o amaria como ela o amou.




Fernando César Borges Peixoto. Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, saudosista

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Como estilhaços de granada


Desde muito cedo descobriu que seu coração era grande. Luzias, Luísas, Cláudias, Carlas, Beatrizes, Lúcias, Marias, todas tinham morado dentro dele (seu coração) antes de completar 12 anos de idade. Mas, tudo foi diferente com Verônica, o terceiro ou quarto “primeiro amor” de sua vida.

O enamorado compulsivo apontara seu radar para a mocinha vistosa e pujante que, na realidade, era uma cavala, com uma diferença de idade significativa naquela etapa de suas vidas: completaria 15 anos até o fim do ano. Sim, estava atrasada na escola. Culpa dos pais, que não paravam em lugar nenhum.

Era um menino tímido, mas obstinado, e logo deu um jeito de se aboletar para o lado dela e das amigas, desenvolvendo a amizade para curtir o amor platônico mais de pertinho.

Um dia, criou coragem e perguntou se ela gostava de alguém — era o tipo de pergunta que crianças e adolescentes faziam. Ela disse que não e foi inconveniente o bastante para devolver a pergunta. Ela, sabida, sabia. A seu turno, ele enrolou o quanto pode, até que num dia, diante da insistência dela, aproveitou que seu ônibus estava parado no ponto recolhendo passageiros para sussurrar em seu ouvido:

— Você, Verônica.

Fingindo-se surpresa, ela falou algo enquanto ele corria:

— Eu? Jamais poderia imaginar.

Entrou no ônibus envergonhado, após aquela que não seria a única amarelada que daria em sua vida. Tinha certeza de que ela não era para ele. Muita coisa, muito tudo. Pensou em nunca mais voltar à escola, mas não teve jeito.

O tempo passou. Ela nada mais falou. Lógico! Ele se afastou sem conseguir superar a vergonha. Lógico! Mas, não sem antes sair para bater com seu coração volúvel noutras freguesias.

Os dias se arrastaram até que, finalmente, acabou o ano letivo. A potranca saiu da escola porque foi morar na capital com o pai, recém-separado de sua mãe.

Três anos se passaram, e lá estava ele deslocado, numa festa americana muito louca — quem frequentou bem sabe como ficavam as almas depois do mix de frutas, empadão, pastel, biscoitos, refrigerante, cachaça, vinho de 5ª e vodca de 10ª categoria.

Tinha a galera da maconha tocando músicas “cabeça” no violão, e os boyzinhos que saíam à caça das meninas que ficaram a noite toda com alguém que já tinha ido embora àquela altura. Era quando rolava o famoso “beijar homem por tabela”. Depois de meia-noite já começava “no woman, no cry”, seguida de músicas de Beto Guedes, 14 Bis, Rita Lee, Luiz Melodia, e seguia para Ultraje, Paralamas, Barão, Repemê e o grandioso Lobão, com a indefectível “Me chama”. Quantas vezes, nas madrugadas, vozes embriagadas não desafinaram aos berros e aos quatro ventos que nem-sem-pre-se-vê lágrimas no escuro?

Voltando ao nosso herói, ele não acreditou quando olhou para o lado e viu seu “ex-inesquecível primeiro amor”, que continuava linda. Foi em sua direção e se preparou para fazer a clássica pergunta, idealizada por um amigo: “viste alguém que te interessaste?”, quando um velho conhecido chegou por trás, abraçou e beijou a musa.

Cebola era o seu nome, um zé mané convencido, fedido, mas que era mais velho, fumava e trabalhava. Quase causou uma síncope no agora desolado adolescente, que não acreditava que o maior mentiroso, trambiqueiro, metido a pegador e difamador de meninas estava ali no bem-bom com Verônica. Inveja? Ciúme?

Cumprimentos trocados, suas vidas seguiram naqueles infinitos minutos. Até que ela foi ao banheiro e Cebola, aproveitando para ser insuportável como sempre, achou-o no meio de um grupo de inteligentinhos e mandou a letra:

- Conhece? Facinha...

O agora rapaz ficou sem voz. Já havia se apaixonado ao menos umas seis vezes naquele período em que perderam o contato, mas isso não dava a ela o direito de “fazer aquilo com ele”, não havia explicação para aquele retorno triunfal às avessas. No momento em que a avistou seu coração bateu mais rápido e forte. Agora, era só decepção.

Bebeu de uma só golada uma cuba-libre feita de refrigereco e três fazendas, tomou o violão do maconheiro que acabara de dizer que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito” e tocou “Canção da despedida”. Cada acorde, um sofrimento: “Já vou embora, mas sei que vou voltar...”.

Não. Ele não iria voltar. Aliás, quase não chegou. Engatou na birita, foi a pé pra casa e não soube nem como parou em sua cama vestindo apenas cuecas.

A música que tocou não fala de “dores de amores”, mas de exílio. Só que, sem querer, acertou. Estava no exílio, afastado e saudoso, não de uma terra, mas daquele tempo da paixão platônica, em que, no fundo, nutria esperanças em ter para si uma mocinha ingênua com mais idade que ele. A realidade, àquela altura, era por demais cruel.

Estranhamente, entrava na adolescência com saudades da infância, daquela inocência de um eterno apaixonado.

E só havia passado três anos...


Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, cronista, contista e, de certa forma, saudosista