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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Hamburgueria



Era finzinho da década de 70, início da de 80 do século passado, e um boteco a poucos passos de minha casa foi transformado numa "hamburgueria".
Tratava-se de uma notícia alvissareira, uma novidade que mexeu com o povo do bairro.
A partir de então, travei uma batalha cruenta contra o desejo incontrolável de comer aquele acepipe, que ficava ainda mais delicioso aos olhos de uma criança/pré-adolescente da periferia.
Sim, amigos, falhei miseravelmente!
Ali e por todo o resto de minha vida, no tocante àquele disco de carne moída inserido num pão fofinho, que será acrescido de vários acompanhamentos, segundo a fome, a disposição e o gosto do consumidor.
E o que poderia eu pretender?
Se não consegui vencer a luta contra o hambúrguer do Carlinhos - era esse o nome daquele monstro sem sentimentos...
Eu dizia: "se não consegui vencer a luta contra o hambúrguer do Carlinhos...", como poderia encarar impérios como o do Bob's e o do palhaço?

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

domingo, 24 de novembro de 2019

Crônica moderna




6:20 da manhã,  Ludmylla Kellen entrou no ônibus da linha Vila Mortícia x Santo Soros, a caminho do trabalho. Já não se sentia muito bem, em razão dos borborigmos que zoavam seus intestinos.
Havia sido avisada dos perigos daquela dieta à base de repolho, batata-doce, couve-flor e ovos, mas, teimosa, ainda queria emagrecer 3 kg para desfilar na Portela.
Tinha por costume se instalar no último banco todos os dias. Casmurra, não distribuía olás ou sorrisos ao iniciar a jornada tediosa, pois não suportava ouvir as mesmas histórias, com pequenas atualizações dos capítulos mais recentes das novelas. No mais, eram remelentos malcriados, mães doentes, maridos beberrões, primas invejosas... Um festival de informações desnecessárias que não acrescentavam nada à vida de ninguém.
Chovera e o busão sacolejava mais que o normal, por causa dos buracos abertos no asfalto recém-remendado, o que incentivava a revolta intestinal e fortalecia cada minúscula partícula de gás em trâmite agora já em sua alma.
O suor corria-lhe as têmporas, mas resistia heroicamente, até não conseguir evitar a bufa quando o motorista acertou um conjunto de 3 crateras.
Nenhum cristão permaneceu incólume em meio àquela "nuvem" incolor que empesteava o ar, e parecia ter saído das mais profundas entranhas de satanás, dado o aroma de enxofre.
Incréus, os companheiros de viagem se entreolhavam enquanto buscavam ar fresco ou cerravam as narinas com os dedos, mas não foi difícil constatar quem desferira o tiro mortal, com a roda que se espalhou em volta da "criminosa".
Para sua tristeza, não teria como correr da única empresa de ônibus a circular em seu bairro, pois não havia linha de van atendendo aquela área, e o salário era insuficiente para bancar o Uber.
O jeito era encarar diariamente os risinhos e as piadinhas dos passageiros habituais.
Então, logo ela, tão metida a fina, passava a ser conhecida como "a dona do peidaço", em alusão à novela que estreava à época.

P. S.: Ludmylla Kellen desistiu de desfilar pela Portela e acabou engordando tudo de novo ao abandonar a dieta.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A merda só fica pronta depois das seis



Uostergleysson ia ao banheiro, diária e pontualmente, às seis e trinta da manhã, para exercitar o intestino. Naquele dia, porém, precisava fazer um exame de sangue bem cedo, e acabou saindo de casa antes do horário do hábito - às 5h45 -, em jejum, rumo ao Centro da Cidade para encontrar o “vampiro”.
Ele até foi ao banheiro, sentou no bocão, e por quase dez minutos tentou dar uma aliviada, mas não conseguiu, por falta de material pronto.
Saiu de casa, pegou o coletivo, andou um tanto e chegou ao laboratório dentro do horário, sendo liberado pouco mais de sete da matina, quando foi procurar algo para o desjejum.
Enquanto entrava num local aparentemente limpo e saudável, sentiu um primeiro deslocamento de ar dentro da barriga. A nebulosa saiu de um ponto a outro como um raio e parou pertinho do escapamento. A violência com que aquilo ocorreu o deixou em estado de alerta, mas continuou fazendo o que tinha que fazer.
Só que, poucos segundos depois, sentiu-se novamente incomodado e, prevendo o que estava por acontecer, viu-se obrigado a usar o banheiro da lanchonete na qual já havia se sentado e tinha acabado de pedir uma coxinha e um suco, o que seria seu café da manhã.
Correu para a casinha e, lá chegando, não achou o vaso. Só havia um mictório de chapa de aço, daqueles compridos, desnivelados para escorrer o líquido, que pegam a parede de fora a fora, com o interior cheio de rodelas de limão e bolinhas de naftalina, um ralo ao final da parte mais baixa, que desemboca num cano de pvc exposto e depois some debaixo do assoalho, e que na parte superior há um cano furado, de onde pingam gotas de água para facilitar o descarte da ureia.
O segundo deslocamento de ar, mais violento, convenceu-o de que não havia como voltar; e fez o serviço ali mesmo, empesteando não apenas o cômodo já não muito cheiroso, mas todo o estabelecimento.
Não havia papel higiênico e ainda era muito cedo para o proprietário encher o depósito de toalhas de papel. Não restou outro jeito senão fazer a limpeza com a cueca zazá velha de guerra, que tombou heroica e definitivamente, lambrecada de bosta, dentro da lixeira. Pelo menos havia uma lixeira...
Ao proprietário não restou alternativa, senão expulsar da lanchonete o mau-freguês e, em seguida, chamar dona Semíramis, a faz-tudo (inclusive os salgados), para jogar pinho-sol no banheiro, trocando uma catinga por outra.
Saindo dali, Ostinho, hipocorístico pelo qual era chamado, cumprindo o programado, foi buscar um equipamento no conserto, imprescindível para bem cumprir o próximo contrato de trabalho, no dia seguinte. Ele era fotógrafo.
Lembrou que, pelo menos, havia marcado com a cliente às oito da manhã, e isso o fez sentir alívio, pois dava para ir ao banheiro em casa, no horário oficial.
Ao chegar à oficina, ouviu do técnico que o serviço só estaria pronto depois das seis, mas que ficasse tranquilo, porque a loja fecharia após esse horário.
Desolado por ter que voltar mais tarde da periferia em que morava, repetiu para si mesmo, com raiva, uma frase que invariavelmente lhe ocorria: “A merda só fica pronta depois das seis”.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.


domingo, 17 de março de 2019

Funeral




Sempre ouvi dizer que a pior hora é aquela em que se fecha o caixão, apertam-se as borboletas e alguém começa a cantar: “Com minha mãe estare-ei, na Santa Glória um diiia...”.

Não para mim. A pior hora foi aquela em que se fechou a parede de pedra, ergueu-se o muro isolando o corpo palpável, presencial, agora inerte, mas que pouco antes possuía vida — e uma vida tão importante —, para revelar a morte inapelável.

Ela se foi. A mulher que mais me amou, a que fez mais do que qualquer outra faria; quem daria facilmente a vida por mim.

Em seu lugar, um vazio. Perdeu-se aquela alegria. Nunca mais verei o riso fácil que espantava a saudade depois do encontro havido ao fim da longa viagem imposta pelo destino, aquele ingrato que estabeleceu o considerável espaço físico que nos separava. Falo do riso fácil que nem mesmo a doença covarde que apaga as pessoas aos poucos conseguiu roubar.

Agora é impossível rezar o Terço sem ouvir sua voz se destacando entre as demais. Para sua tristeza, tenho certeza disso, infelizmente, poucas vezes a acompanhei nessa demonstração de fé e da pequenez humana ao render graças ao metafísico, ao nosso Deus, o responsável por nossas vidas e por nossa concepção da moral, da fé, da esperança, da caridade e do amor.

É também impossível esquecer os conselhos da infância, sobre respeito a limites, colegas, bens alheios e pessoas mais velhas; e depois o timing dos novos conselhos na adolescência, sobre honrar compromissos, ser caridoso com os necessitados – confesso que aqui, por vezes, falhei –, e dos cuidados em relação a estudos, companhias, locais frequentados, drogas, amizades e, novamente, sobre limites e respeito, agora em novas perspectivas.

Apesar da rebeldia incurável, prevalecia o respeito; as broncas eram aprendizado, e não um incômodo, como de forma malfazeja percebem esses jovens das novas gerações de geleia. Lição ensinada, lição aprendida — a ação reprovada não seria repetida.

Seu cantinho preferido agora jaz vazio, e serve somente para machucar, lembrando a perda, aguçando a saudade, e provocando o pranto e a pontada lancinante que alcança o fundo da alma — há tanta coisa que poderia e deveria ser dita.

Dizem que uma criança definiu a saudade como “o amor que fica”. Não sei da autoria, mas abraço o conteúdo. No pós-facto, esse sentimento nos faz buscar, com urgência, imagens, fotos, escritos e tudo o que atice a memória, como se a inércia implicasse o esquecimento da vivência conjunta; ou como se fosse possível recuperar o tempo perdido; ou, ainda, como se tais ações permitissem a repetição presencial daqueles momentos.

Mas o tempo surpreende, e quando e onde menos esperamos, percebemos que quem partiu transcendeu ao se fazer reconhecer no jeito de sorrir dos filhos; no olhar da irmã; na careta de alguém próximo, vista de soslaio no reflexo do espelho; nas histórias recontadas mil vezes, e que a maior parte delas foi ouvida em sua companhia; nas músicas que compunham sua trilha sonora e faziam seus olhos brilharem.

A maior lembrança eu carrego comigo, a marca indelével deixada em meu próprio ser: a total influência na formação do caráter, dos pensamentos às atitudes, passando pelo gosto pela música até o tratamento dispensado ao próximo na melhor concepção da reciprocidade. Algumas das convicções que carrego, e das quais não abro mão, ainda me fazem pagar caro, pois não me permito cometer erros conscientemente para evitar a fadiga ou alcançar vantagens. Uma delas é que, em tempos de acomodações e de vitimismo, não é do seu tempo quem é ensinado a dar a cada um aquilo o que é seu.

Por fim, não é possível evitar aquela frase feita de consolo: “a vida continua”.

Para um cristão católico que tenta evitar o lugar-comum, a frase utilitarista mais incomoda que conforta; a humanidade, num movimento de retrocesso, volta à barbárie muito influenciada por essa cultura do eu, não importando que mil caiam ao seu lado e dez mil a sua direita. Basta que as circunstâncias promovam a felicidade pessoal, e a qualquer custo; o importante é ser feliz, dizem. Porém, se isso é o que importa para muitos, não importa para todos. Se a vida continua, falta-lhe um pedaço; um pedação, na verdade.

Ela se foi. E levou consigo algo de cada um dos que verdadeiramente se importavam. Eu fiquei, e cônscio de que, mais dia menos dia, a única verdade absoluta do futuro de qualquer um que nasça com vida vai bater à porta: “Ninguém veio para ser semente; é importante é estar preparado”, ela ensinou. E ensinou com propriedade; tinha toda a razão, pois está escrito na Palavra.

Ainda é difícil esvaziar os olhos marejados de lágrimas...

 

(Deus sabe o quão difícil foi escrever essas palavras.)

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, até certo ponto saudosista, metido a escrever.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Roger Waters e a invertida: militância paga?



Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura, revelou pelo twitter que o músico Roger Waters, ex-guitarrista do Pink Floyd, ativista acusado de antissemita por apoiar um boicote econômico, cultural e político a Israel, recebeu R$ 90 milhões por sua turnê, para fazer campanha eleitoral disfarçada em favor do candidato Fernando Haddad [1], nos shows realizados no Brasil, no curso do segundo turno das eleições presidenciais. Para o ministro, essa é a verdadeira caixa 2 ocorrida nessas eleições, pois uma empresa brasileira pagou US$ 3 milhões por show pela campanha favorável ao petista.
Os shows do Brasil foram programados para outubro, nas seguintes datas: São Paulo (09 e 10), Brasília (13), Salvador (17), Belo Horizonte (21), Rio de Janeiro (24), Curitiba (27) e Porto Alegre (30).
Sem apresentar uma única prova, o músico vem insistindo em atingir a reputação de Jair Bolsonaro, candidato oponente, chamando-o de “corrupto”, “louco”, “vingativo e insano”. Já no primeiro show da turnê, no Alianz Parque, em 09/10/2018, Waters aderiu à campanha #EleNão no palco, e exibiu a frase “Neofascismo está em ascensão”, elencando o nome de Bolsonaro ao lado de líderes mundiais, como Donald Trump, Viktor Orbán, Marine Le Pen, Sebastian Kurz, Jaroslaw Kaczynski e Niger Farage, além de Vladimir Putin, único nome seguido por um sinal de interrogação [2]. Recebeu uma baita vaia e, dada a repercussão negativa de sua atitude, fez-se de vítima no show seguinte, em que exibiu a mensagem “ponto de vista político censurado” sobre o nome de Bolsonaro, e usou vários jargões dos “humanistas” que amam o ser abstrato “humanidade”, sem se preocupar com quem está próximo: “... todas as etnias, religiões e nacionalidades merecem ter os direitos humanos básicos” [3]. No show em Salvador, seu telão exibiu a imagem de Moa do Katendê, cuja morte numa discussão de bar, foi instrumentalizada pela esquerda, que afirmou que o mestre de capoeira teria sido morto por um partidário de Bolsonaro, numa discussão sobre política; e no do Rio de Janeiro, a homenageada foi Marielle Franco [4], política de extrema-esquerda, morta por supostos adversários políticos.
Fora dos palcos, o músico continuou com suas declarações polêmicas, para utilizar o jargão da grande mídia, como na entrevista concedida à Folha de São Paulo, em 19/10/2018 [5], quando denunciou a severa separação entre ricos e pobres por todo o mundo, e falou que em São Paulo, p.ex., há casarões bastante vigiados, cercados por grades, em locais que, logo adiante, há pessoas vivendo na sarjeta. O cantor, que vive num palacete, cobra uma montanha de dinheiro para dar shows em países periféricos como o Brasil, inviabilizando que aqueles que “merecem ter os direitos humanos básicos”, segundo suas próprias palavras, tenham acesso à diversão.
Sobre o presidiário Lula da Silva e a impeachada (e reprovada nas urnas) Dilma Roussef, ele foi bastante ameno ao questionar o motivo pelo qual o Lula teria roubado dinheiro do povo, e se essa era a história verdadeira.
Tudo não passa de um mise-em-scène esquerdista, pois enquanto ataca um homem honesto, defende os que criam fortunas mantendo os seguimentos “minoritários” da sociedade que dizem defender sob seu jugo, e ainda desviam milhões do dinheiro que a eles deveria ser destinado.
O músico, que acredita na importância de suas opiniões políticas, mesmo desconhecendo o conceito real de ideologias como o fascismo, também declarou não saber o que acontece no Brasil, e que as informações sobre a situação política dos países nos quais se apresenta, são obtidas em conversas informais, com pessoas com quem se encontra no período de estadia. Parece que o ativista filtra as informações, aceitando apenas as que não contrariam a agenda esquerdista, pois criticou o chefe de sua equipe de segurança no Brasil, por dizer que Bolsonaro não se rendeu à corrupção e representa a novidade na política.
Ele ainda disse que, “dependendo do resultado da eleição”, espera que os brasileiros não peçam sua volta ao país até o retorno da democracia.
A denúncia do ministro Sérgio Sá Leitão, que foi criticado por Waters por repudiar manifestações políticas em shows, além de escancarar a hipocrisia do músico, e a sua desonestidade ao cometer crime eleitoral, comprovará a utilização (mais uma vez) da máxima esquerdista, atribuída a Lênin: “acuse-os de fazer aquilo o que você faz; xingue-os daquilo o que você é”.



NOTAS
[2] Praça, Sérgio. Roger Waters precisa de educação. Exame, 10/10/2018. Disponível em https://exame.abril.com.br/blog/sergio-praca/roger-waters-precisa-de-educacao/;
[3] Roger Waters reage a vaias e se diz 'censurado' em segundo show em São Paulo. O Globo, 11/10/2018. Disponível em https://oglobo.globo.com/cultura/musica/roger-waters-reage-vaias-se-diz-censurado-em-segundo-show-em-sao-paulo-23148326;
[4] Roger Waters defende boicote ao Brasil em defesa da democracia. Brasil 247, 22/10/2018. Disponível em https://www.brasil247.com/pt/247/cultura/372744/Roger-Waters-defende-boicote-ao-Brasil-em-defesa-da-democracia.htm;
[5] Menezes, Thales de. Roger Waters agradece vaias em SP e diz que Bolsonaro é corrupto e insano. Folha em São Paulo, 19/10/2018. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/10/roger-waters-agradece-vaias-em-sp-e-diz-que-bolsonaro-e-corrupto-e-insano.shtml.


[Texto originalmente publicado no portal Análise Inversa]




Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Apertadinho



Naquela época, Dr. Tomás beirava os cinquenta anos. Não era um homem bonito, nem feio. Estava na melhor forma física de sua vida, fruto de uma operação bariátrica bem sucedida; e sua carreira o permitia ter acesso a certos prazeres da vida.
Estava no interior para acompanhar o sobrinho de um grande cliente, intimado para uma audiência no Judiciário.
A população do Município, na maior parte, era formada de descendentes de italianos e de alemães que traziam a preservação das tradições muito presente, como era possível verificar, inclusive, na arquitetura dos prédios.
Não havia chegado cedo o suficiente para o almoço, e resolveu lanchar. Como não havia lanchonetes por ali, recorreu a um botequim que lhe pareceu limpo e confiável.
Foi direto à estufa sobre o balcão, para ver o que lhe esperava.
A proprietária o atendeu, e foi logo dizendo que o “serve selfice” havia sido recolhido, mas se ofereceu para fritar uns pastéis ou até um bife, se fosse necessário.
Ele não quis incomodar, e perguntou sobre o enroladinho de salsicha que estava ali, dando sopa. Pela aparência, era “de hooooje”, mas surpreendentemente o sabor não era ruim. Comeu dois, acompanhados de uma coca de garrafa de vidro.
Agora o estabelecimento estava vazio. Os dois fregueses remanescentes do almoço deram a última lapada na pinga que degustavam, assim que o estranho adentrou o recinto. Um papudinho chamou o outro e foram embora. Era normal que, àquela hora, o pessoal da cana estivesse descansando para se preparar para o “turno da noite”.
Ela puxou assunto com o freguês. Era uma jovem senhora, não muito bonita, mas bastante comunicativa, como deve ser mesmo todo comerciante.
Tomás havia saído de seu estado natal, Rio de Janeiro, há muito, mas pensou na diferença daquela comerciante para os Manoéis e Joaquins dos botecos da Baixada Fluminense - grossos iguais a pentelho de barrão, como diria o comediante cearense Mução.
Ele, que pensava ter perdido o sotaque, achou engraçado quando ela afirmou que ele não era dali. Também não atinou para o fato de que, numa cidade pequena, todo mundo se conhece.
Respondeu com uma afirmativa, e o papo avançou, até que ele dissesse que era do Rio, mais precisamente de Belford Roxo, um lugar de muita violência, que talvez fosse difícil para ela imaginar.
Ela surpreendeu ao dizer:
- O senhor é que pensa. O interior está ficando perigoso.
Ele falou aquilo porque a TV estava ligada, noticiando em plantão, um atentado terrorista ocorrido contra um capitão do Exército, único candidato à Presidência da República do espectro da direita política em trinta anos no país.
Havia uma forte comoção, muitos estavam preocupados, ao mesmo tempo em que, do lado da oposição, aquele evento havia aflorado o sentimento mais mesquinho que pode contagiar o ser humano. Estavam felizes, torcendo pela morte do adversário. 
Ele insistiu, dizendo que, pelo menos, aquele tipo de violência não existia por aquelas bandas, mas ela respondeu:
- Ahã! Dia desses, um carro sinistro estava rodando a cidade, vidros tão escuros, não se via nada lá dentro. De repente, uns bandidos saltaram e assaltaram a Farmácia. Deram um tirambaço na moça que não conseguia abrir a caixa registradora. Todo mundo ouviu. Foi uma correria desgraçada por isso aí tudo. Só dois policiais no plantão, e o senhor  acha que eles colocaram a cabecinha de fora? De noite, eles nem saem. Fica tudo lá no posto, quietinho, com o cuzinho apertadinho, fingindo que num tem ninguém lá... – e fechou o indicador e o polegar da mão direita até não poder mais, de forma que, realmente, não poderia passar nem vento.
De repente, surgiu o marido, até então em silêncio, do fundo do bar. Carregava um prato com uma montanha de comida, já destroçada pela metade. Deu um trupicão ao bater com a sandália havaiana numa falha do piso, e por pouco não saiu da cena tão rápido quanto entrou, para ganhar a rua arrastando o banjo no chão.
Dizia ele, momentos antes de ter que se equilibrar:
- Ô, mulher! Cê tá conversando esse assunto com quem?
Tomás entendia o porquê de não haver mais comida do “serve selfice”. Tudo parecia estar no prato do comerciante, que ficara espantado ao constatar que a voz desconhecida era mesmo de alguém que ele jamais havia visto.
O clima ficou esquisito, todos estavam, àquela altura, constrangidos, e foi a deixa para o advogado pagar a conta, cumprimentar o casal e ganhar a rua.
E lá se foi, gargalhando gostosamente até chegar ao Fórum, e perceber que aquela era uma história para contar aos netos que esperava um dia ter.
E ele fazia isso agora, após tantos anos passados, rindo como se tudo estivesse acontecendo novamente.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Tarzan de Papelão

- “Is mai ou évis...” – cantava sempre que vinha andando pelo meio da Rua Dr. March, subindo em direção ao Rodo, atrapalhando os poucos carros que transitavam na época em Tenente Jardim.
A criançada do bairro adorava mexer com loucos, cachaceiros e mendigos, e aquele era um dos mais populares. Mulato forte, Tarzan de Papelão caminhava meio bêbado, meio louco, chamando a atenção com seu inglês singular.
Todos sabiam de longe quando se aproximava, porque, fazendo jus ao apelido, lá vinha ele apresentando sua melhor performance – o grito do Rei das Selvas:
- Ôôôôô ô ô ô ôôôô ô ô ô ôôôô.
Mas não parava por aí, pois possuía outras, digamos, habilidades. Vez por outra andava como Django Kid, com as mãos na cintura, coçando seus revólveres imaginários na cartucheira, como se adentrasse uma cidade infestada de bandidos, pronto para um duelo repentino.
Sempre que vinha caminhando, cabecinhas de crianças olhavam por cima de muros, meias paredes ou por trás das janelas, meio que se escondendo. Ele, grande pistoleiro que era, e percebendo o perigo, imediatamente sacava seus revólveres, e gritava em direção a quem o emboscava:
- Hey, hombre!
E com movimentos ligeiros atirava, enquanto houvesse balas no tambor, repetindo:
- Ptchiu! Ptchiu! – Eram tiros certeiros, na direção de seus antagonistas, e ele próprio fazia a maravilhosa sonoplastia.
Ao que parece, em algum momento de sua vida fora um aficionado em cinema, onde assistia aos filmes cujos personagens interpretava alegremente, e dividia a lembrança de forma solidária com a criançada. Naquela época, uma TV em casa era luxo, o que tornava difícil assistir aos  famosos bangue-bangues. Quanto ao pobre Tarzan de Papelão, faltava-lhe até uma casa onde morar.
De certa forma, um mistério pairava sobre seu passado. O pai de Careca o havia conhecido quando moço, e afirmava que era cheio de vida, inteligente e trabalhador. Oferecia seus serviços a todos, como limpar e roçar quintais, lavar carros, carregar entulho, fazer compras etc. Seu Olavo pensava que Luís (esse era o nome de Tarzan de Papelão) conseguiria se destacar na vida por ser muito esforçado e bem articulado. Naquele tempo, quem era muito trabalhador era recompensado na vida.
Mas ele sumiu, e era penoso vê-lo naquela situação. A vida fora ingrata para ele. A loucura parece ter vindo cedo, sem avisar, junto com a tal da cachaça. Andava sempre junto à esposa, com quem tivera 6 filhos em escadinha. Quando próximos ao lugar em que se recolhiam, ele, a esposa e a prole entravavam num terreno baldio que dava acesso a um morro e sumiam por ali. Sua casa ficava ao relento, ou numa barraca ou a sombra de uma rocha, talvez. Ninguém sabia ao certo.
Ele alegrava algumas tardes da criançada, que achava engraçado interagir com um mendigo performático que cantava em “inglês”, dava tiros imaginários e sorria mesmo sem ter muito por que sorrir.
E lá vinha a garotada, de longe:
- Tarzan de Papelão! Tarzan de Papelão!
Ninguém chegava muito perto dele porque os adultos alertavam que um louco não poderia ser responsabilizado por seus atos, agia por instinto, sem fazer sequência. Só que, apesar de temido, nunca fora agressivo. Sempre sorria para as senhoras. E mesmo participando de intensos tiroteios, ao final não deixava de acenar para elas, com seu chapéu imaginário. Parecia estrelar um dos episódios de Trinity, com Terence Hill e Bud Spencer.
- Hey, muchacho! – Esse era outro bordão do pistoleiro.
A Igreja ajudava, o povo ajudava. Doavam produtos alimentícios e roupas usadas, mas dignas. Talvez não tenham sido suficientes já que algum tempo depois ele sumiu, e para onde, ninguém sabe, ninguém viu. Era a segunda e última vez para o Seu Olavo, a primeira e última para Careca.
A família do Luís foi junto.
O tempo fez com que quase todos esquecessem o performático Tarzan de Papelão. Afinal, a vida é dinâmica e outras pessoas com histórias miseráveis também surgiram e sumiram. A infância ficou para trás, mas Careca sempre lembrava do homem que gritava como o Rei das Selvas, e, curioso, fazia elucubrações sobre o que realmente acontecera com ele e sua família. Teriam morrido?
Duas imagens sempre vinham à lembrança: o brilho nos olhos após cessados os tiros que acertada no “hombre”, ou o sorriso colocado no canto dos lábios, enquanto dava a célebre ajeitadinha no chapéu com a ponta de um dos revólveres ainda fumegantes (- Ptchiu! Ptchiu!), para depois soprar seus canos.


Fernando César Borges Peixoto

Advogado, pós-graduado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é saudosista.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Os donos da bola


Henrique era mimado, e sempre que autorizado a jogar bola na rua com os meninos da vizinhança levava uma bola diferente, linda, de excelente qualidade.
Ele a colocava sem dó no campinho de várzea, de terra batida, onde em poucos minutos o couro já estaria todo arranhado, retirando a beleza da bola.
Não era problema. Daí a alguns dias ganharia outra de modelo vistoso e ainda melhor.
Acontece que por qualquer motivo Henrique embirrava, e aí o jogo acabava – a bola ia embora.
Como era cheio de não me toques, incomodava-se até com uma simples discussão, mesmo que entre jogadores do time adversário. Faltas, então, ele recebia sempre que perdia o domínio da bola.
Primeiro os colegas mais ranzinzas, depois os invejosos, e por último os indiferentes – foram se afastando um a um.
Chegou um momento em que Henrique vinha com sua linda e reluzente bola embaixo do braço e todos iam embora. Daí foi um pulo para ser apelidado de “espalha roda”.
Os meninos estavam ali para se divertir, para ter uma vida saudável, para crescerem com disposição, para se ajudarem e criarem laços que poderiam durar a vida inteira. E o Henrique se preocupava em patrulhar o jogo, o que os colegas diziam e até pensavam, ditando as regras de comportamento, exigindo que prevalecesse sempre a sua vontade.
Sozinho, ele ficava fazendo pepé (embaixadinhas) no meio do campinho, enquanto os meninos iam soltar pipa, catar frutas, brincar de outras coisas e até cantar cantigas de roda – inclusive “atirei o pau no gato” em sua versão original (master-blaster), a qual, leio hoje, um vereador insano pretende proibir em sua cidade através de lei, mostrando como utiliza o dinheiro público.
O tempo passou. Henrique cresceu, estudou muito, trabalhou, deu asas a sua inteligência, fazendo sucesso em toda a sua trajetória e acercando-se de pessoas como ele: bem sucedidas e de pensamento muito próximo ao seu; e sempre afastando os divergentes, logicamente.
Mas ele sentia falta de um joguinho de futebol.
Então, um dia lançou a ideia no seu pequeno grupo de amigos. Um a um, foram todos aceitando, embora não lembrassem bem o que era isso. Enquanto alguns precisaram assistir a partidas de futebol, outros recorreram ao videogame para relembrar como se pratica o esporte bretão.
Depois disso, quase a totalidade deles se dirigiu a uma loja especializada para adquirir o material esportivo.
No dia do jogo, cada um que entrava pelo alambrado do campinho de grama sintética, carregava a sua bola. Uma mais linda que a outra.
De tão egoístas, de tão superiores que se achavam, nenhum deles quis jogar com a bola do outro. Todos ficaram fazendo pepé no centro do campo.
Estavam juntos, mas separados. Mantiveram aquilo que entendiam por amizade e afinidade, mas cultuavam suas idiossincrasias, a mania de grandeza, o desprezo pelas ideias e pelos comportamentos diferentes.
Rechaçavam os diferentes - mas ninguém de fora queria mesmo se aproximar daquela gente exclusivista...
Henrique estava com eles.



Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a articulista, ensaísta e cronista e, de certa forma, saudosista