No blog, que a minha filha ajudou a criar, pretendo apresentar crônicas, contos, poesias, fábulas, ensaios e artigos sobre política, economia, Direito, história, educação, sociedade, relações humanas, experiências pessoais e ficção.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Hamburgueria
domingo, 24 de novembro de 2019
A dieta de Ludmylla
O jeito era encarar diariamente os risinhos e as piadinhas dos passageiros habituais.
Então, logo ela, tão metida a fina, passava a ser conhecida como "a dona do peidaço", em alusão à novela que estreava à época.
P. S.: Ludmylla Kellen desistiu de desfilar pela Portela e acabou engordando tudo de novo ao abandonar a dieta.
Fernando Peixoto
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
A merda só fica pronta depois das seis
domingo, 17 de março de 2019
Funeral
Sempre ouvi dizer que a pior hora
é aquela em que se fecha o caixão, apertam-se as borboletas e alguém começa a
cantar: “Com minha mãe estare-ei, na Santa Glória um diiia...”.
Não para mim. A pior hora foi
aquela em que se fechou a parede de pedra, ergueu-se o muro isolando o corpo
palpável, presencial, agora inerte, mas que pouco antes possuía vida — e uma
vida tão importante —, para revelar a morte inapelável.
Ela se foi. A mulher que mais me
amou, que daria facilmente a vida por mim.
Em seu lugar, um vazio. Perdeu-se
aquela alegria. Nunca mais verei o riso fácil que espantava a saudade depois do
encontro ao fim da longa viagem imposta pelo destino, aquele ingrato que nos
separou e nos mantinha afastados. Falo do riso fácil que nem mesmo a doença
covarde — que apaga as pessoas aos poucos — conseguiu roubar.
Agora é impossível rezar o Terço
sem ouvir sua voz se destacando entre as demais. Para sua tristeza, tenho
certeza disso, e infelizmente, poucas vezes a acompanhei nessa demonstração de
fé e da pequenez humana ao render graças ao metafísico, ao nosso Deus, fonte de
nossas vidas e da nossa concepção da moral, da fé, da esperança, da caridade e
do amor.
É também impossível esquecer os
conselhos da infância, sobre respeito a limites, colegas, bens alheios e
pessoas mais velhas; e depois o timing dos novos conselhos na adolescência,
sobre honrar compromissos, ser caridoso com os necessitados — confesso que
aqui, por vezes, falhei —, e os cuidados com os estudos, companhias, locais
frequentados, drogas, amizades e, novamente, sobre limites e respeito, agora em
novas perspectivas.
Apesar da rebeldia incurável,
prevalecia o respeito; as broncas eram aprendizado, e não um incômodo, como de
forma malfazeja percebem esses jovens das novas gerações de geleia. Lição
ensinada, lição aprendida — a ação reprovada não seria repetida.
Seu cantinho preferido agora jaz
vazio, e serve somente para machucar, lembrando a perda, aguçando a saudade, e
provocando o pranto e a pontada lancinante que alcança o fundo da alma — há
tanta coisa que poderia e deveria ser dita.
Dizem que uma criança definiu a
saudade como “o amor que fica”. Não sei da autoria, mas abraço o conteúdo. No
pós-facto, esse sentimento nos faz buscar, com urgência, imagens, fotos,
escritos e tudo o que atice a memória, como se a inércia implicasse o esquecimento
da vivência conjunta; ou como se fosse possível recuperar o tempo perdido; ou,
ainda, como se tais ações permitissem a repetição presencial daqueles momentos.
Mas o tempo surpreende, e quando
e onde menos esperamos, percebemos que quem partiu transcendeu ao se fazer
reconhecer no jeito de sorrir dos filhos; no olhar da irmã; na careta de alguém
próximo, vista de soslaio no reflexo do espelho; nas histórias recontadas mil
vezes, e que a maior parte delas foi ouvida em sua companhia; nas músicas que
compunham sua trilha sonora e faziam seus olhos brilharem.
A maior lembrança eu carrego
comigo, a marca indelével deixada em meu próprio ser: a total influência na
formação do caráter, dos pensamentos às atitudes, passando pelo gosto pela
música até o tratamento dispensado ao próximo na melhor concepção da reciprocidade.
Algumas das convicções que carrego, e das quais não abro mão, ainda me fazem
pagar caro, pois não me permito cometer erros conscientemente para evitar a
fadiga ou alcançar vantagens. Uma delas é que, em tempos de acomodações e de
vitimismo, torna-se anacrônico quem foi ensinado a dar a cada um aquilo o que é
seu.
Por fim, não é possível evitar
aquela frase feita de consolo: “a vida continua”. Mas para um cristão católico,
a frase utilitarista mais incomoda que conforta. O importante é ser feliz,
dizem — e nessa cultura do eu, não importa se mil caem ao seu lado e dez mil a
sua direita. Basta a felicidade pessoal, e a qualquer custo. Porém, isso não é
o que importa para todos. Se a vida vai continuar, vai faltar um pedaço; um
pedação, na verdade.
Ela se foi. E levou consigo algo
de cada um dos que verdadeiramente se importavam. Eu fiquei, e cônscio de que,
mais dia menos dia, a única verdade absoluta do futuro de qualquer um que nasça
com vida vai bater à porta: “Ninguém veio para ser semente; é importante estar
preparado”, ela ensinou. E ensinou com propriedade; tinha toda a razão, pois
está escrito na Palavra.
Ainda é difícil esvaziar os olhos
marejados de lágrimas...
(Deus sabe o quão difícil foi
escrever essas palavras.)
Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense,
conservador, metido a escritor e, até certo ponto, é um saudosista.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
Roger Waters e a invertida: militância paga?
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Um causo no interior
Estava no interior para acompanhar o
sobrinho de um grande cliente, intimado para uma audiência no Judiciário.
A população do Município, na maior
parte, era formada de descendentes de italianos e de alemães que traziam a
preservação das tradições muito presente, como era possível verificar,
inclusive, na arquitetura dos prédios.
Não havia chegado cedo o suficiente
para o almoço, e resolveu lanchar. Como não havia lanchonetes por ali, recorreu
a um botequim que lhe pareceu limpo e confiável.
Foi direto à estufa sobre o balcão,
para ver o que lhe esperava.
A proprietária o atendeu, e foi logo
dizendo que o “serve selfice” havia sido recolhido, mas se ofereceu para fritar
uns pastéis ou até um bife, se fosse necessário.
Ele não quis incomodar, e perguntou
sobre o enroladinho de salsicha que estava ali, dando sopa. Pela aparência, era
“de hooooje”, mas surpreendentemente o sabor não era ruim. Comeu dois,
acompanhados de uma coca de garrafa de vidro.
Agora o estabelecimento estava vazio.
Os dois fregueses remanescentes do almoço deram a última lapada na pinga que
degustavam, assim que o estranho adentrou o recinto. Um papudinho chamou o
outro e foram embora. Era normal que, àquela hora, o pessoal da cana estivesse
descansando para se preparar para o “turno da noite”.
Ela puxou assunto com o freguês. Era
uma jovem senhora, não muito bonita, mas bastante comunicativa, como deve ser
mesmo todo comerciante.
Tomás havia saído de seu estado
natal, Rio de Janeiro, há muito, mas pensou na diferença daquela comerciante
para os Manoéis e Joaquins dos botecos da Baixada Fluminense — grossos iguais a
pentelho de barrão, como diria o comediante cearense Mução.
Ele, que pensava ter perdido o
sotaque, achou engraçado quando ela afirmou que ele não era dali. Também não
atinou para o fato de que, numa cidade pequena, todo mundo se conhece.
Respondeu com uma afirmativa, e o
papo avançou, até que ele dissesse que era do Rio, mais precisamente de Belford
Roxo, um lugar de muita violência, que talvez fosse difícil para ela imaginar.
Ela surpreendeu ao dizer:
- O senhor é que pensa. O interior
está ficando perigoso.
A TV estava ligada, noticiando em
plantão um atentado terrorista contra um candidato à Presidência da República,
único do espectro da direita política em trinta anos de abertura no país. Havia
uma forte comoção.
Ele insistiu, dizendo que, pelo
menos, aquele tipo de violência não existia por aquelas bandas, mas ela
respondeu:
- Ahã! Dia desses, um carro sinistro
estava rodando a cidade, vidros tão escuros, não se via nada lá dentro. De
repente, uns bandidos saltaram e assaltaram a Farmácia. Deram um tirambaço na
moça que não conseguia abrir a caixa registradora. Todo mundo ouviu. Foi uma
correria desgraçada por isso aí tudo. Só dois policiais no plantão, e o
senhor acha que eles colocaram a cabecinha de fora? De noite, eles nem
saem. Fica tudo lá no posto, quietinho, com o cuzinho apertadinho, fingindo que
num tem ninguém lá... – e fechou o indicador e o polegar da mão direita até não
poder mais, de forma que, realmente, não poderia passar nem vento.
De repente, surgiu o marido, até
então em silêncio, do fundo do bar. Carregava um prato com uma montanha de
comida, já destroçada pela metade. Deu um trupicão ao bater com a sandália
havaiana numa falha do piso, e por pouco não saiu da cena tão rápido quanto
entrou, para ganhar a rua arrastando o banjo no chão.
Dizia ele, momentos antes de ter que
se equilibrar:
- Ô, mulher! Cê tá conversando esse
assunto com quem?
Tomás entendia o porquê de não
haver mais comida do “serve selfice”. Tudo parecia estar no prato do
comerciante, que ficara espantado ao constatar que a voz desconhecida era mesmo
de alguém que ele jamais havia visto.
O clima ficou esquisito, todos
estavam, àquela altura, constrangidos, e foi a deixa para o advogado pagar a
conta, cumprimentar o casal e ganhar a rua.
E lá se foi, gargalhando gostosamente
até chegar ao Fórum, certo de que contaria aquela história para aos netos que
esperava um dia ter. E foi o que fez, anos depois, rindo como se tudo estivesse
acontecendo de novo.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Tarzan de Papelão
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Os donos da bola
Rechaçavam os diferentes - mas ninguém de fora queria mesmo se aproximar daquela gente exclusivista...
Henrique estava com eles.