sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Pandem-Hister-IA


“Lucrécia morreu!”, repetia Ermengarda a cada segundo, lamentando a partida da última das três gatas que lhe faziam companhia há tanto tempo que, para melhor situar o período, tinha que relembrar o ano de partida do seu querido Astolfo (o devotado marido) para a morada do Senhor (se assim Ele quis).

“Primeiro morreu Tirana. Depois, Bombinha. Agora, Lucrécia”, disse, para depois emendar, em prantos: “Lucrécia morreu! Não quero mais saber de felinos. Um dia estão aqui, olhando pra gente com cara de nojo e só se aproximando na hora da comida e do cafuné, e no outro estão ali, estirados, inertes, mortinhos da Silva”. Ela não afirmou que não teria mais animais de estimação, falou de felinos. Logo, era de se esperar que em pouco tempo adotaria cãezinhos, canários ou até uma tartaruga, para, nesse caso, não mais experimentar o dissabor de presenciar a morte do pet.

Esse caso tinha ocorrido há cerca de cinco anos, e Ermengarda há havia superado a dor. No período, havia rejeitado as várias espécies de bichos com que as pessoas chegadas tentaram presenteá-la, com vistas à superação do luto – ela preferiu trocar os cuidados com os animais pela participação em várias pastorais da sua Igreja, Católica, cujos compromissos a ocupavam nos sete dias da semana. Queria cuidar da alma, da sua e das alheias, e promover a caridade. Mas se metia em tudo; e chamava todos às falas. Sempre que possível, ou seja, todo o tempo, reclamava de um e de outro, e encerrava dizendo: “É para o bem da Comunidade. Se eu não for assim, quem há de ser?”

Era a personificação da Teoria Crítica dos ideólogos da Escola de Frankfurt, tão conhecida no meio acadêmico e nos círculos do marxismo cultural, ao qual dedicara seus estudos e sua militância fervorosamente até concluir com honras o curso de Sociologia. E não parou por aí, pois continuou a vida de intelectual orgânica no exercício de um cargo comissionado numa Secretaria Municipal (que ocupou por décadas), até a data em que deu entrada na aposentadoria, aposentadoria essa que pouco pôde curtir ao lado de Astolfo, o marido vinte anos mais velho, que tinha enviuvado pouco tempo antes de entabularem o namoro que acabou num casamento épico, celebrado por um padre amigo, da Teologia da Libertação. Aquela paixão avassaladora que se concretizou no Altar de Cristo fora fruto do empenho de Ermengarda, que, danadinha e meio riponga, conquistou Astolfo com a sua versão do ipicilone – “muito superior ao de Tieta do Agreste”, diziam alguns colegas de faculdade.

Voltando à atualidade, sua vida na Igreja era chamar a atenção alheia, destruindo em palavras secas as ideias e as ações dos fiéis que porventura se entregassem ao serviço: “Coisinha, não coloque santinhos nem terços na Capela, eu já conversei com o Padre e ele me autorizou a evitar isso”; “Esse menino?! Você lê (ou canta) muito mal, devia dar espaço a outros que tenham o dom”; “Fulano, vê se capricha na canjica esse ano, porque a que você trouxe na festa do Padroeiro do ano passado... Deus nos livre e guarde!”

Assim seguia a árdua caminhada de Ermengarda rumo à morada celeste. Sofriam mais os membros dos grupos que ela coordenava, mas não negava os “toques fraternos” aos demais membros da Paróquia. Não respeitava autoridade ou independência de uma equipe sequer – mexia na escala do dia para acomodar algum chegado que quisesse servir de última hora numa Missa Solene sem avisar ao coordenador ou à pessoa substituída; retirava flores do altar se não gostasse da espécie; não admitia a realização de nada que não tivesse sido informado antecipadamente; admoestava os Ministros da Eucaristia e da Palavra, músicos, coroinhas e até os cerimoniários, que deviam satisfações apenas ao Padre Jean-Baptiste Yozemah, um gordinho bochechudo e bonachão que chegava à melhor idade e era muito querido na Diocese. O Padre vivia fugindo dela, pois suas orelhas ferviam todas as vezes que ela o imprensava para reclamar de alguma equipe ou membro da comunidade, em especial quando “dava o serviço”, à sua maneira, de cada um dos inscritos para a confissão semanal, cujos horários eram marcados na Secretaria da Paróquia; e não se retirava enquanto não falasse tudo de todos. O padre, em algumas circunstâncias, argumentava que as coisas funcionavam razoavelmente bem na Matriz e nas demais comunidades da Paróquia, mas ela o lembrava que era fruto da entrega dela, Ermengarda, ao serviço da Igreja. Ele bem que acabava concordando em seus pensamentos, achando que a instabilidade causada era mais facilmente contornável, um prejuízo menor que ter que nomear várias pessoas e administrá-las na operação dos serviços paroquianos. Em algumas ocasiões, quando ela extrapolava no palavrório, ao final do rosário de observações e de maledicências tecidas sobre a vida alheia, o padre prescrevia uma penitência quilométrica. Ao receber a incumbência de executar os inúmeros Pais-Nossos e Aves-Marias prescritos, ela murmurava, aturdida e de certa forma passada, que não estava confessando seus pecados. Mas ela era obediente e não ousava questionar o sacerdote que afiançava abertamente sua administração autoritária. Nessas ocasiões, ele contra-murmurava, dizendo que era impossível que ela tivesse cometido, no curso dos dias, atos e pensamentos mais pecaminosos que aqueles relatados sobre a vida alheia.

Chegou o dia, porém, em que algumas senhoras piedosas do Grupo de Oração, que intercediam pela salvação de Ermengarda em suas orações pessoais – ao alvedrio dela, logicamente –, e que presenciaram seu sofrimento no velório de Lucrécia, resolveram comprar um cãozinho para presentear a governanta da Casa do Senhor. Pela primeira vez impuseram à autoritária senhora a tarefa de aceitar o mimo – um pug que ela acabou recebendo com sentimentos contraditórios: felicidade e angústia. (Tinha tanto que fazer pela Igreja, como conciliar com aquela distração tão fofinha?)

Ultrapassada a sensação inicial, logo começaram os afagos e os gritinhos de felicidade diante das primeiras gracinhas do, agora batizado, Pitoco. E nos dias que seguiram, a postura da varoa começou a mudar e já não se fazia tão presente nos compromissos paroquianos. Após autoconceder-se uma espécie de licença-maternidade, dedicava o tempo livre à compra de roupinhas, acessórios e comidas de cães, e aproveitava para levar Pitoco ao veterinário para consultas, exames e tomar banhos e vacinas. A comunidade seguia aliviada e os membros das pastorais agora podiam servir sem as interferências que os tiravam da Graça do Pai.

Esse evento ocorreu pouco tempo antes da fraudemia e dos lockdowns supervenientes à propaganda histérica que envolveu a peste viral chinesa. E logo no início Ermengarda tentou exercer o comando através das redes sociais, mas isso lhe rendeu bloqueios e unfollows por parte dos fiéis mais rebeldes. E esse comportamento só não gerou um cataclismo porque o fechamento da Igreja e o encerramento de reuniões físicas contribuíram, por outro lado, para uma maior aproximação entre mãe (de pet) e filho (o pet). O presente talvez tenha salvado sua vida, ao menos no aspecto mental. (Será? Eu não apostaria muitas fichas nisso.)

Zelosa com a saúde de Pitoco, ela dedicava grande parte dos seus dias a navegar pela internet vasculhando sobre doenças, remédios e vacinas, e descobriu que as vacinas dos animais tinham em sua composição uma substância que combatia o coronavírus. (“Até os cães tomavam vacina contra o coronavírus”, pensou. “Pitoco está a salvo”.)

Essa descoberta, por outro lado, inspirou-a a mirar os canhões contra o Presidente à época, Jair Bolsonaro, a quem chamou de fascista, obscurantista, terraplanista, negacionista que atacava a ciência e desacreditava as vacinas que milagrosamente haviam sido criadas em tempo recorde por anjos cientistas que Deus enviara à Terra. Ela não via qualquer problema em aplicar vacinas antes do ciclo de estudos completos para apurar sua eficácia, pois aquela era uma situação emergencial.

Com o tempo houve o “relaxamento” do confinamento com algumas restrições, mas houve. Como o canto do cisne, Ermengarda chegava à Missa com duas horas de antecedência para não deixar de assisti-la em razão do número máximo da assembleia ser atingido. Tomava um verdadeiro banho de álcool em gel e fazia questão de operar o termômetro para medir a temperatura dos fiéis que iam chegando à assistência. Ordenava a todos que se sentassem afastados e cumprissem as regras de distanciamento, ainda que fossem da mesma família.

Quando soube do tratamento precoce, por um sobrinho distante que mandou um zap, ficou extremamente animada, mas ao descobrir que Bolsonaro havia indicado um dos remédios enterrou o assunto, pois a TV, os jornais e as agências de checagem diziam que era mentira e entrevistavam especialistas que condenavam a indicação e o uso desses remédios. Em seguida, ainda mais influenciada pela grande mídia, começou a acusar de assassino quem ousasse falar do tratamento precoce. “Vocês não ouviram o Átila Armarinho? Ele tem um canal no Youtube e é doutor intitulado... Ele não divulga feiquinius como o gabinete do ódio e os bolsominions”.

Quando os primeiros lotes de vacina chegaram, tentou mover céus e terras para tomar sua dose, mas não conseguiu. (Outros histéricos e desesperados tinham contatos melhores, parece.) Ela não mudou sua postura mesmo depois de informada que uma vacina não servia para idosos, outra que possuía apenas 50% de eficácia, ou aquela que estava causando trombose e matando velhinhos na Europa. “É tudo mentira”, gritava, “não passou nada disso no Jornal da Globo”. Sequer a tentativa das farmacêuticas de fugirem da responsabilidade dos danos causados por possíveis efeitos colaterais provocados pelas vacinas foi suficiente para convencê-la: “É a Anvisa e aquele monstro do Ministro da Saúde que querem ver o povo morrendo. Quem manda é o genocida”.

O desespero tomou conta de todo o seu ser e, decidida, lá se foi a buscar uma forma de tomar a vacina Vanguard Plus, de uso exclusivo de pets. Não faria mal, pois vários remédios de animais foram usados por humanos no curso da história, pensou. Então, subornou o atendente da clínica Petcionário, que depois de fazer um charminho acabou aplicando duas ampolas, “porque em humanos a dose precisa ser reforçada por causa do peso” (ele disse). “Daqui a dois meses a senhora volta para tomar outras duas, mas ninguém pode saber, viu?”

Cumpriu o prometido: não contou a ninguém que agora estava imunizada, deixando de submeter ao escrutínio de amigos e de conhecidos, o que, em certa medida, negava-lhes a salvação. Afinal, se a vacina-pet iria funcionar para ela, por que não funcionaria para os demais também, ora, pois? Ela também não contou a uns conhecidos da Secretaria de Saúde Estadual, inclusive para não comprometer o anjo da clínica que havia vendido e aplicado as vacinas.

Com o passar do tempo, sofreu algumas mudanças no corpo. Sentia formigamentos, palpitações, lacrimejamento e sudorese intermitente; e, ao mesmo tempo em que melhoraram o olfato e a audição, sentiu uma queda da capacidade de visão e dor nas juntas. As idas à Igreja diminuíram novamente, e a participação nas redes sociais foi rareando até chegar o dia em que Ermengarda brindou as pessoas com a ausência definitiva.

O mesmo grupo de senhoras pias, então, passou a visitá-la com frequência, e as irmãs em Cristo perceberam que, com o curso do tempo, certa decrepitude tomava, paulatinamente, conta do seu corpo, transformando aquela outrora ativa e altiva mulher saudável numa idosa sem energia e entusiasmo.

Os dias seguiram nessa toada até chegar aquele em que, ao tocarem a campainha, as senhoras ouviram, vindo de dentro do apartamento, o latido de Pitoco e, logo em seguida, um au-au no timbre da voz de Ermengarda.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Faroeste barroco, o excesso de ornamentos e a liberdade das formas para ferrar um povo

   

O pior que pode acontecer a um povo civilizado

É ver no poder ideólogos, militantes mascarados

Ditos homens de honra e mulheres guerreiras

Tanta baboseira...

 

Errado é o certo; e a perseguição é covarde

Calam as vozes, tiram as liberdades

Perseguem criminosamente os contrários

Desumanizam os que chamam de adversários

 

Os criminosos tomam as ruas, e gente honesta é sitiada

A polícia castrada, difamada, dizimada

Com a chancela dessa casta iluminadE

Que não gosta de gente e diz amar a humanidade

 

Soltam homicida, estuprador e traficante

Mas tocam o terror com velhinho manifestante

Que vai às ruas defender a Constituição

Pedir respeito ao resultado da eleição

 

Aprofundam a propaganda nefasta de um vírus letal

Para impor goela abaixo a Nova Ordem Mundial

Geram a fase do caos, assustam todo mundo

Por dinheiro, pagam pau para um império imundo

 

Não há negacionismo, mas o coviRd mata menos

Que certos vírus considerados males pequenos

A finalidade é o controle social

Dar o grande reset, Quarta Revolução Industrial

 

O projeto implementado desde longa data

Foi interrompido pelo povo, que deu um basta!

Isso gerou a ira dessa casta democrata

Santos iluministas, gente caricata

 

Especialistas saem dos esgotos

E defendem qualquer argumento escroto

Chutam números, pesquisas são inventadas

É a revolta de quem perdeu a luta armada

 

Bandidólatras fingem não haver democídio, pedofilia, infanticídio

Catastrofistas semiletrados caôs, com dipRoma de dotô

Sentam à mesa com autoridades oligofrênicas

Pela defesa da ideologia anti-higiênica

 

Movidos por inveja, cobiça e ódio

Um pior que o outro na busca pelo melhor lugar no pódio

Centenas ou milhares de mortos, não importa

É pela causa, por uma ideologia torta

 

Liberam as drogas e todos vão se entorpecer

Vedam as armas pra quem quer se defender

Conservadores assassinos, acuados merecem ser

Devem assistir calados às sacanagens do Poder

 

Discurso de ódio, fake news

Apontam falsários imbecis

Se hoje o mote é a ditadura sanitária

Antes foi o clima e a agropecuária

 

Pregam respeito às instituições

Sob pena de prisão por suspeitíssimas decisões

Não se pode criticar os progressistas

Quem o fizer vai ficar na pista

 

Dividir para conquistar

Deseducar e manipular

O fim das famílias e do cristianismo

Desejar boa morte ao adepto do conservadorismo

 

Proibir o culto, perseguir os lúcidos

É a ditadura dos cúpidos

Que trancam o povo em casa, compram sem licitação

Cortina de fumaça que esconde a corrupção

 

Quem reclama é nazista, fascista,

Obscurantista, terraplanista

Adulteram o significante e o significado

Enquanto mentem que são livres de pecados

 

Deus me livre dividir a visão de mundo

Com Lênin, Stálin, Che Guevara – o imundo,

Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Fidel Castro

Genocidas que apagam os rastros

 

Ter a vida pautada por ideias vazias

Oprimido por adeptos da tirania

Que pregam um futuro melhor

Enquanto pavimentam o caminho com o terror

 

Muita gente morreu e vai morrer

Pra dar boa vida aos que estão no Poder

Deus me livre aderir a globalismo, positivismo,

Comunismo, socialismo, cientificismo

Prefiro os dons da fé, da esperança e da caridade

Amar o ser humano, e não a humanidade.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

 


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Era uma vez no Natal...


 

Lucas voltava de mais um Natal passado na casa dos pais, dirigindo pela longa estrada que tinha a percorrer. Anoitecera há pouco tempo. Era dia 25 de dezembro e o Deus-menino ainda se aquecia na manjedoura. Como de praxe, haviam sido três dias angustiantes, decorrência da instabilidade no relacionamento entre seus parentes, cujas personalidades marcantes e intransigentes o tiravam de seu centro. Não conseguia conviver com aquela terrível mania de discutirem assuntos que não dominavam com a total certeza e autoridade que só os idiotas possuem. Porém, reconhecia que contribuía com os conflitos ao entrar nas discussões e ao revelar com aspereza sua total impaciência com as ignorâncias e os comentários sobre a vida alheia. Além disso, em nada favorecia sua irritante mania de corrigir os erros de português dos interlocutores. Ele sabia que esse clima influenciava o desinteresse dos filhos em estreitar relacionamentos e construir uma história com os avós, os tios e os primos.

Sempre que saía de lá prometia a si próprio que seria a última vez que voltaria àquele ambiente hostil, mas ao fim de cada ano superava o desconforto da viagem anterior e voltava. Vivia em outro estado há anos e sentia saudades da família e dos amigos, o que aumentava quando refletia sobre a aproximação da velhice. Lamentava a iminente chegada do inevitável fim da jornada para aqueles que o ajudaram a formar seu caráter e com quem havia dividido momentos especiais, e por isso ia encontrá-los ao fim de cada ano, mesmo que por poucos dias e à custa da exposição à beligerância familiar constante. Era como se expiasse o distanciamento territorial imposto voluntariamente e que lhe roubava a convivência entre os seus.

Ainda estava envolto em seus pensamentos quando sentiu que o motor do carro enguiçou num local bastante ermo; a total escuridão era cortada apenas pelos potentes faróis da SUV, que permaneciam milagrosamente acesos. Por sorte estava numa descida e pôde aproveitar o embalo para não ficar por ali mesmo, conseguindo respirar aliviado ao notar uma forte luz despontando para além da curva que temia não contornar caso o volante travasse.

A potente claridade vinha de um posto de combustíveis que não fora prenunciado por placas e do qual não se recordava – talvez tivesse sido construído depois das recentes reformas da estrada, pensou.

Há anos passava por aquele trecho e todas as viagens eram meticulosamente planejadas para evitar parar em pontos desconhecidos. A situação emergencial, entretanto, forçava-o a isso. Estacionou perto de uma das bombas, agradeceu a Deus e informou à família que o carro apresentava um problema. Disse para esticarem as pernas, fazerem um pipizinho e tomarem café enquanto ele esperava o carro esfriar, conferia os pneus e o óleo do motor e enchia o tanque de combustível.

A mulher e os meninos ficaram boquiabertos ao se depararem com um banheiro limpíssimo e uma lanchonete de ótima aparência, que expunha produtos apetitosos e deliciosos, como perceberam ao experimentar alguns, que foram servidos pelo frentista. Não havia clientes, nem carros, nem caminhões estacionados no posto, mas a preocupação em retornar à estrada era tanta que não repararam a situação inusitada: um posto novo sem clientes, com apenas um funcionário cuidando das bombas, da limpeza, do caixa e da lanchonete impecável.

O carro não funcionou – o fornecimento interno de energia estava interrompido –, mas Lucas os acalmou dizendo que tudo seria resolvido, pois o carro era novo. Viu que não havia sinal de celular e perguntou ao sorridente e prestativo faz tudo do posto se ele não teria um telefone de onde pudesse acionar a seguradora. Seu nome era Expedito, e ele entregou um telefone sem fio alertando que funcionava, mas que teria que insistir para conseguir linha. Ele forneceu as coordenadas do posto para informação de quem os fosse buscar e disse que poderiam ficar o tempo que fosse necessário, pois o local era seguro; e ainda ofereceu um dormitório para pernoitarem, mas Lucas rechaçou a gentileza, agradeceu e disse ao rapaz para não se incomodar. Realmente, Lucas precisou discar inúmeras vezes até conseguir falar com o call center do seguro. O atendente informou que enviaria um reboque, que o tempo de espera seria de noventa minutos e que o carro seria levado a uma oficina autorizada duas cidades adiante, enquanto Lucas e a família seriam hospedados no Hotel Ágape.

Em vinte minutos o guincho chegou e Expedito se despediu entregando um panfleto do Posto Paraíso. Nele estava escrito: “Creia! Você pode fazer a diferença e mudar para melhor a sua vida e a de seus irmãos”.

Lucas viajou na cabine do reboque e a família dentro do carro. Enquanto a SUV era deixada na calçada da oficina, porque o segurança havia sido dispensado, um carro os aguardava para levá-los ao hotel. E apesar de estarem no interior, no meio de um feriado, foram muito bem acolhidos ao chegarem ao hotel. Depois de instalados em seus quartos desceram para jantar, e ao retornarem Lucas pôs o celular para despertar às 6h 30min e disse que todos iriam com ele à oficina para retomarem a estrada imediatamente após a entrega do carro. O problema haveria de ser coisa pouca....

O Sr. Judas Tadeu, o motorista que os conduziu ao hotel na noite anterior, já esperava para levá-los à oficina, onde após infindável espera foram informados pelo gerente que o conserto não poderia ser realizado em menos de quinze dias porque a peça da injeção de combustível que apresentava defeito teria que vir de outro estado. Ele informou também que a seguradora ainda não havia autorizado o serviço. Apesar de confuso, Lucas não ficou inerte. Decidiu rebocar o carro para uma autorizada em sua cidade, cuja distância dali era menor que a já percorrida desde a casa dos pais. Buscou o contato da Cidade de Deus Reboques e do agradável guincheiro da noite anterior, Miguel Angel, mas ninguém conhecia empresa ou sujeito com esses nomes em nenhuma das cinco cidades do vale em que se encontravam. Daí ligou para o call center do seguro e ficou sabendo que não constava registro seu da noite anterior. Achou muito estranho, mas não queria perder tempo e imediatamente ligou para o único serviço de reboque da região, que haviam lhe fornecido. Agora ouvia do Sr. Nezinho que não poderia atendê-lo porque o motor do seu guincho havia pifado. Parecia o “Dia da Marmota”, mas Lucas não se deu por vencido. Ligou para pedir ajuda ao corretor de seguros e combinou em despachar o carro para a cidade onde vivia, através da empresa que o corretor indicou. Fez contato e deixou acertado que o carro seria entregue pelo gerente da oficina.

Feito isso resolveu dar azo a algo que vinha lhe atravessando o pensamento durante aquela manhã angustiante e avisou a Vivi, sua mulher, e aos filhos que voltariam dali mesmo para passar o Réveillon com os parentes. Com efeito, desde o início da manhã, ao acordar, não sabia o motivo, vinha pensando em cada sofrimento experimentado no curso de sua vida e se sentiu um homem afortunado. Estava feliz por não ter sofrido um sério acidente na noite anterior que pusesse fim à família que havia formado e dedicado ao seu Deus Uno e Trino; e estava feliz também porque apesar de ter perdido o controle do carro em local ermo, o que colocou sua família em posição de vulnerabilidade e exposta a toda sorte de ataques criminosos, nada de ruim acontecera. Melhor ainda, só havia encontrado pessoas generosas a partir dali.

Então, retornava à casa dos pais convicto de que a partir dali começariam uma relação diferente, queria celebrar o Réveillon em família, pedir perdão, convencer os mais renitentes, ser cristão, ser Igreja, ser família, mostrar que era possível refazer os laços, reaver valores perdidos... Com o apoio da mulher e dos filhos alugou um carro numa locadora estabelecida na maior das cidades locais e seguiu viagem. Antes, porém, quis voltar ao Posto Paraíso para recompensar Expedito, mas não o encontrou nem o posto. Lembrou-se da curva, passou por ela e nada foi visto. Seguiu um pouco adiante, retornou e dirigiu de volta com extrema atenção, mas fracassou novamente. Fez novo retorno e nada. Era por ali, tinha certeza, mas o local radiante e providencial da noite anterior parecia não mais existir. Num povoado adiante perguntou a transeuntes sobre o posto desaparecido, “um bastante iluminado, com banheiro e lanchonete limpíssimos e que serve produtos de primeira linha”. Alguns sorriam da descrição e diziam que também gostariam de saber onde fica, pois postos de beira de estrada possuem banheiros imundos e vendem comidas péssimas. Em razão do tempo e do espaço a percorrer ele desistiu, mas temporariamente, pois tinha a intenção de fazer novas buscas na volta.

O retorno inesperado surpreendeu os que se encontravam na casa dos seus pais, lugar onde os parentes costumavam se reunir no mês de dezembro. A recepção não foi calorosa, mas não houve desconforto; e com o passar das horas e dos dias as coisas se acalmaram, tornando a estadia bastante agradável. Lucas participava das resenhas, interagia sem se indispor e se retirava apenas para fumar cachimbo e “pôr as coisas em ordem”, momento em que refletia sobre os acontecimentos daquele fim de ano. Os filhos, aproveitando o armistício, agora se misturavam com os parentes, e Vivi não se continha de felicidade.

No dia do festejo, faltando poucos minutos para dar meia noite, ele pediu a palavra e disse que leria um texto. Fez um ligeiro preâmbulo, lembrou aos parentes que estava ali despido de qualquer vaidade, mágoa ou remorso, tirou um pedaço de papel do bolso e passou a ler seu conteúdo:

“Prezados,

Nesse fim de ano, eu e meu núcleo familiar tivemos uma experiência que podemos dizer sobrenatural. Passamos por uma situação inicialmente aflitiva, mas muito valorosa ao final. Num momento em que todas as circunstâncias obravam para nos deixar abatidos e com muito medo, a solicitude alheia nos fez esquecer as adversidades. Nosso carro sofreu uma pane no meio do nada e por pura sorte o conduzi até um posto de gasolina onde recebi ajuda e ficamos em segurança. Porém, o local parece não existir. Sim, alguns podem pensar que foi alucinação coletiva, mas não o encontramos em nosso retorno, apesar de insistirmos bastante. Além disso, o seguro afirma que não entrei em contato e parece que a empresa e o funcionário que rebocaram o carro também não existem — e eu nem procurei notícias do hotel onde pernoitamos ou do chofer que nos levou da oficina para o hotel e vice-versa. Espero muito reencontrar aquelas pessoas para recompensá-las de alguma forma, e espero também estender e multiplicar essa caridade a todo aquele que vier a atravessar as nossas vidas.

Eu gostaria de relembrar o clima tenso e pesado da noite de Natal, celebração que deveria trazer muito mais felicidade que a virada de ano, pois nessa data comemoramos o dia no qual o Verbo se fez carne para habitar entre nós e cumprir a Palavra; Ele veio sofrer por nós para perdoar nossos pecados apenas pelo fato de nos amar infinitamente com todos os nossos defeitos e pediu em troca apenas que O amássemos acima de todas as coisas e que também amássemos nossos semelhantes na mesma medida em que amamos a nós próprios.

Peço, nessa reflexão, que todos vocês guardem com carinho a noite de Natal, que deixem as trocas de presentes, a árvore e o Papai Noel em segundo plano e rezem na intenção de Jesus, pedindo que o Seu amor transforme em carne os corações petrificados pelas mazelas desse mundo egoísta. Lembrem que a expressão “festas de fim de ano” é o eufemismo criado para tirar Jesus e a cristandade do foco do Natal e para colocar a praia, as yemanjices e os shows de fogos de artifícios e de cantores como símbolos do Réveillon, enquanto na verdade deveríamos comemorar a chegada do fim de mais um Ano do Senhor. Tudo isso promove o distanciamento das famílias e das amizades. Façam o contrário. Reúnam-se alegre e voluntariamente para contar causos, rezar, celebrar o nascimento de Jesus, preservar a tradição dos ancestrais e passá-la à descendência. Procurem quem lhes causou mágoas e o perdoem; ouçam com paciência o que os desagrada, reconheçam os próprios erros e exponham seus pontos de vista com sabedoria. Espero que Deus os desarme do desejo de vingança e da necessidade de mostrar superioridade sobre as pessoas. Quero deixar claro que já venho promovendo em meu íntimo as mudanças que lhes peço.

Vou me comprometer a estar aqui com vocês pelo resto de minha vida ao menos no fim ano, e dizer que farei o possível para vir sempre que as circunstâncias me permitirem. Deixo também o desejo de que os encontros familiares continuem acontecendo mesmo após a minha partida para a vida eterna.

Agradeço profundamente o convívio desses últimos dias e a atenção dispensada; e, por fim, peço com firmeza na fé que Deus abençoe a todos”.

 

As palavras ecoaram em todos os cantos da enorme casa e nos corações dos que estavam naquela reunião. O Réveillon foi comemorado com certa solenidade e de forma mais fraternal que de costume, passando longe do fiasco vivido no Natal. (Logo no Natal...) Foram feitas orações e ouvidas músicas civilizadas no volume apropriado. Ninguém assistiu à queima dos fogos televisivos que dispersam os celebrantes.

As personagens daquela história e o Posto Paraíso nunca mais foram vistos por Lucas ou Vivi, pelos filhos, genro, nora e netos, apesar de todos ficarem em estado de alerta nas vezes em que passavam pelo local nas viagens para a cidade de nascimento do patriarca. E como era possível supor, o hotel Ágape também não existia, como foi possível constatar em algumas incursões na cidade.

Lucas guardou consigo até à morte o cartão entregue por Expedito. Ele creu, mudou a sua vida e fez a diferença. Muita coisa boa aconteceu depois daquilo, inúmeras reconciliações foram celebradas até a definitiva recuperação do espírito natalino e da tradição cultuada por seus antepassados antes mesmo das primeiras gerações que chegaram ao país. A alegria das reuniões era contagiante e os momentos de tristeza só ocorriam nas revelações de graves doenças ou nos casos de falecimento, mas até aí havia a presença maciça dos familiares para dar encorajamento ou para o último adeus, coisa que inexistia antes.

Os encontros continuaram até à geração dos netos de Lucas, e só deixaram de acontecer quando os parentes perderam o contato por terem se espalhado pelo país e pelo planeta. A tradição, porém, eles levaram consigo.

 

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista

 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Era um quarto ermo

  

Era um quarto ermo, sujo, de onde ele quase nunca saía para ver o mundo exterior.

Como um prisioneiro, recebia a ração diária por uma abertura na porta, sem contatos.

Adotara a antiga prática de penicos nos quartos

para evitar o boi, o buraco no chão das prisões comuns onde se alivia o marginal.

Um dia abriu a janela, espantou a total escuridão. Surpreso com as cores, venceu a solidão

E naquela epifania matinal redescobriu o frescor

 

Mudança imprevista de humor...

Via tête-à-tête os pássaros que tanto escutara de longe em seu mundo sombrio

e dos quais sequer lembrava o formato, nem discernia o cantar ou pio.

Aos corrupios, vislumbrou um lindo campo pela frente,

com flores exuberantes de formatos diferentes

Era a natureza que agora admirava, sem se submeter como escravo, sem lhe preocupar o pudor.

 

Mudara repentinamente; agora sentia uma felicidade que não conhecera nem saberia descrever

Já não suportava mais o fedor do seu canto, nem comer feito bandido

Precisava interagir, tentar reaver o tempo perdido

Mesmo sendo, em verdade, o tempo, irrecuperável; queria medir o incomensurável

Desejava aprender e compartilhar com quem confessasse querer

 

Naquele dia, o que era sóbrio se foi...

Chegaram as cores, as luzes;

descobriu suas raízes, conheceu amores.

Antes, quando tudo escureceu, carregou mil cruzes

Não pôde recuperar o que não se recupera, mas abandonou a longa fila de espera

e foi feliz como nunca dantes havia sido, mudou o homem que vivia aturdido.

O que lhe restou de vida, viveu...

Sem mais sentir todas as dores, sem que lhe preocupasse o depois.

 


Fernando Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Considerações genéricas sobre os membros da instituição democrática que “rompeu com o povo”

 

A composição do STF vigente ao fim do Governo Temer desassossega qualquer sujeito capaz de entender o cenário político fora do viés esquerdista globalista, pois os atuais juristas da Corte, escorados numa falsa e/ou exagerada percepção das próprias capacidades e limites, não se abstêm de provocar fissuras no poder e na sociedade, e deixam claro que não aceitaram o resultado das urnas na eleição presidencial de 2018 e que farão de tudo para o vencedor não levar.

A coisa não ia muito bem, mas bastou desconfiarem de que alguns ministros estariam sendo investigados por crimes supostamente praticados por eles ou por pessoas próximas 1, que usaram a pressão dos eleitores que pediam ao Presidente da República para dar um basta nos crimes contra a Administração Pública, praticados por agentes públicos e privados, que os juristas adotaram um modelo peculiar de democracia. Daí a afronta à Constituição Federal (socialista) que deveriam guardar.

Forçando uma suposta confusão entre suas personalidades e a instituição à qual deveriam servir, mas que na realidade usam para se "lambuzarem do banquete farto do poder" 2, criam subterfúgios que teoricamente embasariam a perseguição de certa casta de críticos seus. Assim, pregam que antidemocratas “atacam” a instituição ao pedirem o impeachment de seus membros através do slogan “fora STF”, o que não passa do direito de manifestação de brasileiros descontentes que criticam os atos reprováveis que viraram rotina na Corte, praticados por cada um dos membros, juntos ou alternadamente 3. Ninguém quer a destruição de uma Corte essencial à real democracia.

Abusam do poder inerente ao cargo que ocupam, causam instabilidades políticas e jurídicas, e minam as relações institucionais, invadindo a competência do Chefe de Governo; perseguindo apoiadores do Presidente da República e membros de confiança do governo federal; e impedindo o cumprimento de promessas de campanha no campo cultural e da segurança pública. Vale até deixar criminosos agirem com total liberdade de atuação para sabotar a repressão à criminalidade esperada pelos eleitores. E é dessa forma que atuam como os mais reles militantes político-partidários, ora seguindo o fluxo nos governos progressistas que apoiam, ora limitando as ações de um governo legitimamente constituído, por ser opositor da esquerda globalista que tanto admiram.

A ordem é não permitir que Bolsonaro faça um bom governo, e todos os esforços seguem nesse sentido, sejam eles permitidos ou não em nosso ordenamento jurídico. Mas ainda assim falham, o que parece enfurê-los diante da sedimentação do “novo normal” submetido à população: fim dos casos de corrupção; realização de promessas de campanha (desde que o STF e o Congresso permitam, logicamente); finalização de obras iniciadas há décadas, em respeito ao contribuinte; ações efetivas de combate à pobreza (dá-se linha e anzol e se ensina a pescar); e aplicação da real política econômica liberal.

Os viciados no poder não imaginaram que a circulação de ideias e de notícias nas redes sociais, não manipuladas pela grande mídia (a "oficial"), mostraria com tanta evidência a terrível face dos que fingem “lutar por um Brasil melhor e contra as desigualdades”; nem se passou por suas cabeças vazias que isso culminaria na eleição de Bolsonaro. Passado o susto, o Judiciário, o braço do establishment 4 que detém a caneta (a arma poderosa que reprime quem verdadeiramente respeita o ordenamento jurídico), através da sua mais alta Corte, assumiu um protagonismo vexatório, para agir arbitrária e autoritariamente. Com vistas a censurar abertamente os terríveis conservadores, que expuseram as vísceras pútridas da esquerda globalista, e denunciaram com rara desenvoltura e conhecimento seu “modus operandi”, instaurou-se, no Congresso, sob os auspícios do STF, uma CPMI para cassar direitos de criadores e repetidores de memes (insinuações jocosas a respeito de pessoas ou fatos, que viralizam nas redes sociais), e dois inquéritos no STF, um para apurar disseminadores de fake news (que nada mais é do que a verdade que não circula na grande mídia, e que favoreça Bolsonaro) e outro sobre supostas “manifestações antidemocráticas” (por manifestantes pró-Bolsonaro, nas quais se respeita a Polícia e não se depreda o patrimônio público e privado). Essa última excrescência foi apelidada de “inquérito do fim do mundo”.

As ações afrontam a Constituição Federal, e foram despudoradamente criadas para perseguir conservadores apoiadores de Bolsonaro e, ao fim e ao cabo, criar até mesmo um factóide que permita cassar seu cargo da forma que for possível. As violações não vão parar até que consigam conter a continuidade dessa onda de mudanças (que não acontece apenas no Brasil). Assim, os semideuses vão se antecipando na criação de teorias mirabolantes (que só convencem pessoas com algum grau de déficit cognitivo).

Uma delas foi cogitar a punição dos apoiadores do governo que não escondem sua fé, através da criação de um embuste chamado “abuso do poder religioso nas eleições”. (Logicamente, é proibido falar do “abuso do poder identitário”, meio de manipulação que os progressistas usam para fragmentar a sociedade, mas que é aceitável por ser ferramenta dos adeptos do espectro político autorizado.)

Há também a fala débil do ministro que disse que os votos da maioria não podem criar uma ditadura sobre as minorias, e o Judiciário intervir através da “competência contra-majoritária” 5. No Brasil, porém, há na realidade uma ditadura da minoria, o establishment, que oprime a maioria conservadora do Brasil, e impede que o plano de campanha vencedor nas urnas seja implementado. E é essa ditadura da minoria que usa redatores da sociedade (veja o grau de autoritarismo dessa fala) 6 para reescrever o conceito de democracia, ajustando-o a suas conveniências e a seus intestinos.

Outra excrescência é a alegação de que a população brasileira é incapaz de participar das decisões que irão definir os rumos da nação, por não saber votar. É assim que vão forjando um fundamento que justifique a interferência na política, nos outros Poderes, e quiçá altere a forma de fazer a eleição no futuro, criando uma espécie de voto qualificado, tudo para dar continuidade à alteração de nossa matriz civilizacional por outra “mais apropriada”. Afinal, são eles porta-vozes da ciência.

Contudo, é risível que esses alienados se autodenominem iluministas ao mesmo tempo em que frequentam feiticeiros, curandeiros e pajés (7-8), e reverberarem a voz de um adivinho doutorado em qualquer coisa, como Átila Iamarino, que tirou números de sua cabeça de jerico para causar pânico generalizado numa população histérica, no período trevoso da hoje apelidada fraudemia. Além disso, a maioria desses iluministas foi nomeada por Lula da Silva e Dilma Roussef, dois semoventes cujos quocientes de inteligência parecem transitar entre os valores que estabelecem os graus da tríade oligofrênica (debilidade, imbecilidade e idiotia). Que força da natureza teria tornado tais estereótipos do brasileiro (que não passariam pelo crivo estabelecido pelos célebres juristas) momentaneamente capazes de realizarem escolhas desse jaez, nomeando suas excelências para o STF?

Ora, ao aceitarem os cargos oferecidos por Lula e Dilma, essas sumidades, com mentalidades temperadas com “pitadas de psicopatia” 9, apenas provaram que a ignorância das pessoas lhes soa irrelevante, importando apenas o lado em que elas estão. Assim, louváveis serão os atos de incapazes adeptos da ideologia progressista.

Esse iluminismo caboclo autoatribuído não se resume à crítica de alguns juristas à incapacidade intelectual do povão; há a clara intenção de empurrar os conservadores, que ainda são maioria na população, de volta à espiral do silêncio (e sem descartar o uso de ações violentas). Por essa razão se gabam dos títulos acadêmicos que possuem e cobram dos outros uma equivalência, como se um pedaço de papel tivesse a capacidade de tornar alguém um sábio (pior ainda no Brasil, que frequenta posições vexatórias nos índices mundiais que medem a qualidade do ensino); chamam quem não é da patota de cristãos radicais, ultradireitistas, fascistas, autoritários, ditadores, retrógrados, pensadores das trevas, terraplanistas... A qualificação de quem não come no mesmo cocho é sempre colocada no superlativo. (Esse povo cansa, viu?)

Mas há algo que nem sequer de longe lhes ocorre. A corrupção da inteligência promovida para colocar abaixo a Civilização Ocidental foi tão profunda que eles não perceberam que são igualmente vítimas, e sequer sabem que a simples obediência à organização mundial (como internacional socialista e internacional globalista) e a repetição de teorias dos grandes pensadores revisores da teoria marxistas no campo das Humanas não confere sabedoria a ninguém, nem notável saber jurídico.

Ora, malícia e capacidade intelectual não se confundem. Por outro lado, a repetição de ideias alheias para sedimentar um pensamento único os enquadra como pessoas que sofreram a chamada “colonização do pensamento” ensinada por Paulo Freire, já que mostram que foram adestrados por um mestre a repetirem como papagaios, ou micos, um conhecimento anterior sem permitir a troca de experiência com os alunos.

Não está fácil para o brasileiro se livrar da influência incisiva e tão funesta dessa classe de entojados, repetidores de teorias alheias e mal intencionadas, que se acham o suprassumo da inteligência, sem perceber a aridez e a fragilidade do que falam, escrevem e pensam. Os anos que estarão à frente do poder, transformando as normas a seu bel prazer, ate a aposentadoria, e o conhecimento de que não serão punidos por seus atos (alguns criminosos, inclusive), deveria nos deixar sem esperanças, mas o brasileiro é conservador e a esperança é uma de suas armas.

Estejamos alertas, prontos e capacitados.


1 Ministros do STF queriam saber se eram alvo da Lava Jato. Os Pingos nos Is: 18/09/2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=_pZPiJ_EoUY&fbclid=IwAR3DcYac97ilz--xmmlYesm5Pxl0kP6zab937xbPfv-AOmyscwaDE6prA5Q;

2 Frase da então Senadora Heloísa Helena, por Alagoas, ao romper com o Partido dos Trabalhadores ainda no primeiro mandato de Lula da Silva na Presidência da República (Disponível em https://www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/texto/354617);

3 Curiosamente, suas excelências não se importam com manifestantes sedizentes democratas da esquerda globalista, como os psolistas, que vão às ruas pedir o “fim da Polícia Militar”, também uma instituição. Estados registram protestos contra bloqueio de verbas na educação. UOL: São Paulo, Brasília, Rio e Curitiba, 30/05/2019. Disponível em https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/05/30/protestos-bloqueio-de-verbas-educacao-pelo-pais.htm;

4 O establishment é a elite social, política e econômica de um país, e compreende as esferas pública e privada;

5 Bocchini, Bruno. Alexandre de Moraes diz que papel do STF é evitar ditadura da maioria. Agência Brasil: São Paulo, 12/11/2018. Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2018-11/alexandre-de-moraes-diz-que-papel-do-stf-e-evitar-ditadura-da-maioria;

6 Supremo e Judiciário atuam como "editores" do país, diz Dias Toffoli. Conjur, 28/07/2020. Disponível em https://www.conjur.com.br/2020-jul-28/dias-toffoli-stf-nao-abandonar-combate-fake-news;

7 Segundo a Coluna do Estadão, “pelo menos cinco dos onze ministros da Corte [STF] já se consultaram com João de Deus: Toffoli e Mendes, além de Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Rosa Weber”. Ferreira, Lara. STF pode impedir João de Deus de atuar como médium. Metro, 27/12/2018. Disponível em https://www.metro1.com.br/noticias/justica/66329,stf-pode-impedir-joao-de-deus-de-atuar-como-medium;

8 Indígenas fazem pajelança para Alexandre de Moraes em seu gabinete. São Paulo: Folha de São Paulo, 05/10/2017. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/10/1924818-indigenas-fazem-pajelanca-para-moraes-em-seu-escritorio.shtml;

9 Em bate-boca no STF, Barroso chama Gilmar Mendes de “pessoa horrível” com “pitadas de psicopatia”. Portal Terra, 21/03/2018. Disponível em https://www.terra.com.br/noticias/brasil/em-bate-boca-no-stf-barroso-chama-gilmar-mendes-de-pessoa-horrivel-com-pitadas-de-psicopatia,7a348ae0b016cd043a33ed4dcd35ae476gjespqc.html.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.