quarta-feira, 14 de julho de 2021

O médico e o monstro advogado

  

Dr. João Miguel, um homem de posses, deu muito duro para construir seu patrimônio. Era encegueirado por dinheiro e, para aumentar ainda mais a fortuna amealhada, resolveu empreender esforços extras que, digamos, não eram muito recomendáveis, ao menos na forma em que procedeu. É necessário observar que, no curso de sua carreira laureada na Medicina, de tanto que aprontou fazendo esforços extras, teve que se ver com o fisco e até com a polícia. Por conta disso, viu-se obrigado a desembolsar boas somas de dinheiro, o que perturbou deveras sua paz de espírito.

Para seu desespero, então, não lhe restava alternativa senão constituir um profissional da categoria que costumava castigar com os piores adjetivos. Nas rodas de amigos, chamava os advogados de aves de rapina; de depenadores de primeira grandeza que, ao serem procurados por alguém necessitando de seus serviços, armavam o bote para tirar-lhe os últimos cobres — ou mesmo o couro —, mediante artifícios, malandragens e quejandos.

Cabem, aqui, parêntesis. É comum ouvir falas com tom de reprovação e de desprezo em desfavor da advocacia, categoria que, devemos admitir, abriga verdadeiros pavões, ególatras e desonestos. Mas não há motivo para generalizações, com desprezo à consideração sobre o indivíduo. Veja que esse tom quase nunca é destinado aos profissionais de outras áreas, certamente por se acreditar que elas atraem o gosto de virgens vestais, ou conferem a quem as pratica uma aura de santidade. Por outro lado — não podemos desprezar —, há quem possua uma imagem superestimada de si próprio, enquanto não passa de um arrogante, insensível e desonesto, nada devendo ao tão criticado advogado; e sendo até, por vezes, sua verdadeira alma gêmea.

Voltando ao Dr. João Miguel, ele jamais confessou aos amigos que, apesar da implicância com os causídicos, sempre buscou a ajuda de um para livrá-lo das implicações com o Judiciário por seu envolvimento em situações, digamos, questionáveis. E procurava os da pior espécie, pois acreditava que quem não possui escrúpulos está mais apto a lidar com as instituições públicas voltadas à persecução penal e fiscal. Com efeito, não foram poucas as vezes que frequentou os escritórios do submundo do crime, como costumava dizer, para se livrar de uma picona enorme prestes a ser enterrada em seu rabo.

No início, chegou a acreditar que o jurisconsulto retiraria a naba de dentro dele a troco de vinténs, pois profissão de prestígio era a dele. Com o tempo, porém, percebeu não haver nada mais afastado da realidade. A cobrança era conformada à situação apresentada, e daí vinha o seu queixume.

Analisando a “teoria do pilantra da história”, a triste realidade é a de que muito profissional é considerado desonesto exatamente em razão do tipo de cliente que o procura. Os verdadeiros honestos, devo concordar, são esquecidos ou dispensados para dar lugar àqueles que sabidamente possuem contatos e entrâncias facilitadas, participam de maracutaias, subornam servidores públicos e são “chegados” dos magistrados.

Enfim, em inúmeros casos, a mesma régua serve para medir o ofensor e o ofendido.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

O Espantalho do Condomínio

 

Robervaldo Georgian de Bragança já entrara na melhor idade. Contava com sessenta e oito anos, mas sua aparência era de oitenta e cinco. A família Bragança, da parte do pai, que se desconfiava ser da linhagem dos Imperadores, havia desembarcado no Novo Mundo, vinda de Portugal, à época da Colônia — ou extensão territorial do Reino na América, como queiram os adeptos das diferentes perspectivas históricas —, e fizera fortuna nos ciclos econômicos, inclusive explorando o comércio escravagista. A fortuna, porém, havia se dissipado nos tempos de seu avô, não chegando um mísero cobre até ele. Pelo lado da mãe veio a veia armênia, e a junção das raças lhe conferia uma carranca que causava agonia nos mais sensíveis.

Tinha olhos grandes e negros, boca larga, com pêlos à mostra nas orelhas de elefante e no nariz, provável herança dos avanços muçulmanos Península Ibérica adentro. Era conhecido por Espantalho do Condomínio porque não cortava os cabelos encarapinhados, que cresciam arrepiados como os cultivados pelos cantores sertanejos dos anos oitenta do século XX, mas armados, por sua consistência. Para perplexidade geral, porém, usava barba bem escanhoada.

O apartamento em que morava, ele ganhou num sorteio feito entre os operários que participaram das obras que levantaram os prédios do condomínio, generosidade do rico empreiteiro que patrocinou todas as etapas da construção, desde o projeto à entrega.

Perambulava pelas ruas da cidade o dia inteiro, com velocidade impressionante, portando um cajado — em verdade, um varão de pendurar cortinas encontrado numa das caçambas de lixo que tinha por costume revirar. Ele era desses, apesar de aparentemente não precisar, dada a vida espartana que levava, sem filhos ou até passarinho para dar alpiste; e o grosso dos gastos do apartamento era arcado por seu irmão e um amigo, que moravam com ele sem pagar aluguel. Aparentemente, possuía saúde de ferro e por isso não consumia a aposentadoria, que não era das piores, com os remédios que normalmente funcionam como ralos por onde escoa o dinheiro de velhinhas e de velhinhos aposentados e pensionistas.

Possuía uma boa cultura e esbanjava conhecimento devido à constante leitura de clássicos, mas também se rendia a toda sorte de “teorias da conspiração” — segundo a linguagem popular —, fossem provenientes de histórias verdadeiras ou realmente falaciosas. Como é sabido, conspiradores, tiranos, psicopatas e mentirosos chamam teoria da conspiração suas maquinações, o que assegura a ignorância do homem médio sobre fatos verídicos que não devem ser repercutidos.

Tinha acesso à literatura produzida por sociedades secretas para fazer propaganda de suas atividades, mas também lia aquele tipo de livro que promete revelar o lado oculto dessas sociedades, sem que o escritor conheça patavinas de seus meandros. Some-se a isso o fato dele ter frequentado algumas reuniões da Rosa-Cruz e da Maçonaria, e o contato mantido com alguns "línguas soltas" que contrariavam as determinações ancestrais dessas ordens. Dessa miscelânea retirava sua suposta autoridade sobre os mais variados temas.

Gostava de política, religião e comportamento humano; e uma simples conversa com ele resultava numa profusão de informações encontradas e desencontradas, com potencial de aturdir o interlocutor. Acreditava-se que o mix de conhecimentos absorvidos o deixara louco. Ele, porém, tentava apenas interagir com pessoas mal informadas, grosseiras, deselegantes, insinceras, consumidoras assíduas de produtos da grande mídia e de best sellers expostos com destaque nas prateleiras das livrarias e nas listas de mais vendidos publicados em colunas especializadas — o tipo de gente cuja cota de leitura é a de um exemplar por ano (ou década), que gosta de falar sobre o que não conhece.

Alguns ainda hoje arriscam dizer que ele era evitado por questões ideológicas, já que era anti-esquerdista. A desculpa oficial, contudo, era a de que o tempo custa caro e deve ser bem administrado para oportunizar o descanso, a alimentação, o trabalho, os deslocamentos e o acesso às redes sociais. A Robervaldo, então, restava disputar o espaço destinado à aquisição de cultura, ou seja, nenhum.

Mas o homem era incansável; seu objetivo de vida era alertar a todos dos perigos das trevas que rondam nosso mundo, e não se dava por vencido. De tanto insistir em abordar os vizinhos, acabou por espantá-los (espantalhos!), o que os fez evitar encontros desviando o caminho, retornando ou dando desculpas como a pressa — essa, grande parte das vezes, uma verdade.

E o que fez o velhaco quando percebeu isso?

Passou a espreitá-los para, no momento oportuno, dar o bote e colocá-los em xeque. Apertava ou atrasava o passo para parear com a vítima, voltava com ela quando estava indo, abordava-a na garagem enquanto manobrava o carro... Chegou ao ponto de se esconder por trás das pilastras e das caçambas de lixo, ocasião em que aproveitava para revolver as sacolas e tirar algo de seu interesse.

A inconveniência das abordagens levou alguns condôminos a formalizarem reclamações perante o síndico, pedindo uma providência — não a cachaça, à qual o síndico era bastante chegado, mas a solução da situação.

Para cumprir a parte que lhe cabia, o alcaide condominial se dirigiu, com solenidade e obstinado a resolver a demanda, ao irmão e ao amigo do Sr. Espantalho. Os coabitantes ouviram as queixas, concordaram que isso requeria uma atitude firme e em seguida ameaçaram o pobre homem de interná-lo num hospício.

E o que fez nossa personagem principal diante dessa nova circunstância?

Astuto, riu às escâncaras e confidenciou-lhes que os esquerdistas negacionistas das ciências naturais haviam se enfileirado em campanha inglória para o fechamento dos sanatórios, e conseguiram o intento, colocando os loucos nas ruas para ajudar a causar o caos social, já que o lumpemproletariado passara a ser entendido como substituto da classe operária na função revolucionária.

Mas não podemos dizer que a reprimenda não surtiu efeito, pois as abordagens aos moradores do condomínio diminuíram.

A vida avançava mansa, mas inflexível, até que, num determinado dia ensolarado, o Sr. Espantalho adoeceu; e naquele momento não reunia forças sequer para tomar um táxi em direção ao hospital.

Um vizinho entrou em polvorosa ao se deparar com a ambulância da SAMU em frente ao condomínio, e começou a disparar inúmeras mensagens nos grupos de Whatsapp dos blocos para descobrir quem precisava de socorro. A investigação durou tempo considerável — se levarmos em conta a velocidade telemática — porque os três moradores do apartamento 505 do Bloco C eram avessos ao uso de smartphones e, por conta disso, não participavam de redes sociais.

Após a revelação, de repente, descobriu-se que a resistência ao Sr. Espantalho não era absoluta; ele era capaz de suscitar a piedade alheia. Até os condôminos mais empedernidos viraram a chave e passaram a sofrer com o doente — somatização geral. Elogios foram tecidos e pulularam desejos de pronta recuperação, além de promessas de orações e de terços em sua intenção. Chegaram a dizer que não esperavam a hora de poderem fazer uma visita para celebrar a melhora do querido vizinho e prestar-lhe solidariedade levando uma canjinha, uma rosca seca, um bolo fresquinho...

Ele jamais voltou para casa.

Três semanas depois, o Espantalho do Condomínio foi enterrado no cemitério Jardim da Saudade. Estavam presentes: o irmão, o amigo coabitante e dois mendigos, companheiros de longa data com quem ele costumava passar horas por dia conversando sobre temas variados, na esquina da Rua da Hipocrisia com a Rua da Falsidade.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista


terça-feira, 29 de junho de 2021

Uma rede de fezes

 

Fezinha, hipocorístico de Saquinho de Fezes, como era conhecido, tinha uma estranha mania de ter fé na vida.  NÃO! Sujeito peculiar, costumava intrometer-se em qualquer assunto discutido ao seu redor. Tomava a palavra mesmo sem lhe ser concedida e dava um show, prestando esclarecimentos definitivos, formulando conceitos científicos, inclusive , atacando teorias e desqualificando posições contrárias às suas. Enfim, brindava com sua opinião de especialista aos que quisessem ouvi-lo (ou não).

Por ser um homem do mundo, fazia questão de dividir sua sabedoria com todos, e não apenas com o seleto grupo que privava de maior intimidade. Com efeito, bastava uma rodinha formada e lá vinha ele, pisando manso, olhando para os lados, balançando a cabeça e dando sorrisos e tchauzinhos para o vazio, tal qual políticos e celebridades impopulares.

E chegava chegando...

Estávamos entre o fim da década de oitenta e o início da década de noventa do século passado; e informação não era algo encontrado com a facilidade de hoje. Não havia internet, smartphones, buscadores ou redes sociais, ferramentas que permitiriam desmenti-lo imediatamente. Pode-se dizer, com isso, que a parca tecnologia, ao fim e ao cabo, advogava em seu favor.

Após chegar ao grupo e fingir, por um minutinho, inteirar-se da conversa que já estava ouvindo há tempos PIMBA! , passava a expor aos interlocutores sua (pseudo)autoridade sobre temas (por ele) desconhecidos. Um papai sabe-tudo que espalhava a roda, gerando o anticlímax em conversas até então empolgadas, entabuladas por jovens não dinâmicos que muitas vezes puxavam um assunto apenas para contar uma anedota. Alguns iam embora, porque as explicações do maluco tomavam um tempão e gastavam a onda que a bebida dava nos amantes de Baco. E é importante salientar que as conversas, invariavelmente, ocorriam num trailer badalado à época. (Hoje é mais chique falar foodtruck.)

Como eu ia dizendo, lá vinha ele. Sobre a criminalidade, dizia: Acho que as leis do Direito Penal poderiam... ; sobre a qualidade da educação: Veja bem, as universidades formam... ; sobre o transporte público: Quer saber de quem é a culpa?  NÃO! É do olho gordo dos empresários, que...; sobre instrumentos musicais: O captador da Giannini Stratosonic é muito melhor que o da Golden Les Paul. Já as cravelhas...; sobre a existência de OVNIs: Perdi as esperanças de que os Estados Unidos liberem os extraterrestres capturados naquela nave espacial que caiu na Área 51. Fiquei sabendo, de fonte segura, que...; sobre a Autolatina: De cara, eu digo que a VolksWagen saiu perdendo, mas prefiro falar detalhadamente das diferenças dos motores do Apollo, do Verona, do Versailles, do Logus e do Pointer...

Na vida, porém, há limites que devem ser impostos; e como não poderia trair meu sangue latino, aos poucos fui ficando incomodado com aquelas interrupções non sense. Certo dia, depois de tomar umas geladas, alguém falou do cientista todo tortinho, que era fera na Física sim, não sabíamos seu nome de cor.

Ainda a certa distância daquela roda de conversa, Fezinha veio falando alto e já se adiantando: Veja só, esse cara é um...

Foi a gota dágua para que eu, um jovem meio inconsequente, e por vezes mal educado, disparasse em tom zombeteiro: — “Veja só é o cacete! Você vai falar que entende de Física Quântica? Vai se ferrar!

Em meio à gargalhada geral, ele murchou; e aproveitando o gancho, a galera perdeu os pudores e pegou no pé dele, colocando para fora o que há anos incomodava. Muitos ansiavam que alguém tomasse coragem e fizesse isso. E fui eu, que, de minha parte, confesso que cheguei a achar que tinha exagerado.

Os fatos, como foi dito, ocorreram há cerca de trinta e três anos, mas trata de algo extremamente atual, nesse mundo de ai, meu Deus!

Confira a timeline das suas contas nas redes sociais e veja se não encontra alguns Fezinhas por lá. São pessoas sem o mínimo conhecimento que invadem postagens alheias para emitir opiniões não solicitadas em temas variados. Para piorar, porque sempre é possível, há os que deturpam o conteúdo da mensagem por pura incapacidade de interpretar textos. (Antes, uma dica: certifique-se de que não é você quem age assim.)

Da minha parte, joinha mental para quem faz da sua conta um meu querido diário e a recheia de opiniões sobre os mais variados temas. Não ligo, não comento, não ofendo. Mas, por que Oh, Pai! Por quê? a ignorância ou a necessidade de se expressar impulsionam certas pessoas a opinarem nas postagens de outras que mal conhecem, para ofendê-las ou as criticar? E o fazem com gosto, todos os dias, todas as noites, todas as horas, todos os segundos, todas as madrugadas, momentos e manhãs...

Fezinha não era má pessoa, e por isso demorei tanto tempo para reagir. No fim, tudo ficou bem, ele não ficou bravo comigo, mas valeu a lição, pois o ritmo dessas intervenções diminuiu.

Na ocasião, havia o contato pessoal, presencial, que suscitava a ponderação sobre a indelicadeza de sacanear alguém na lata, mas hoje é diferente. Esse comportamento peculiar foi socializado e as redes sociais multiplicaram a quantidade de pessoas como o saudoso Fezinha; são polímatas da internet que não se constrangem ao dar pitacos sobre temas variados. Antes fossem como unicórnios, difíceis de encontrar.

Além disso, a realidade mudou, e agora é fácil rebater com autoridade, e de forma instantânea, as asneiras com que nos molestam. Mas há sempre um desgaste e a perda de tempo.

Eu, da minha parte, encaro esse mal pós-moderno da seguinte maneira: se alguém escreve tolices, despeja frustrações ou apresenta suas idiossincrasias em meus posts, não espero para constatar se é buona gente. Bloqueio sem culpa, para não ser grosseiro como fui um dia e evitar a fadiga. Depois, não comento com terceiros nem começo discussões a respeito do episódio em novas postagens. Estou envelhecendo, ando com pouca paciência e, além do dever de prudência — que deve ser observada principalmente nessa fase da vida em que tendemos a exercitar sem filtros a qualidade da franqueza —, sinto medo das transformações por que passa a nossa sociedade.

 

 

Fernando Peixoto

Advogado, pós-graduado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Teoria do Especialista

 

Terminado o ajantarado de domingo, era hora da digestão.

— Venha! Vamos à varanda tomar café; temos algo sério a palrear — disse Arnuvô Antunes.

— A coisa é grave? Fala de semblante sisudo, pai; seu tom insinua que eu aprontei algo que nem de longe passa por minha cabeça.

Para acalmar a cria, respondeu docemente:

— Nada disso, filho; a questão é bem outra, pois.

Olhava orgulhoso para aquele que, dia desses, precisamente há dezoito anos, era um bebezinho nascido com cara de joelho que em pouco tempo se tornara um pinga-fogo. Não imaginou que chegaria tão rapidamente à idade de abandonar as asas protetoras dos pais para encarar o mundo adulto.

— Sente-se! Vamos encerrar o mistério — disse ao puxar o assento.

Era tempo de conquistar a vaga na faculdade e hora da conversa aguardada ansiosamente há anos: um bota-fora da juventude de Marx Simplício Antunes — Simplinho, na intimidade —, no qual seria exposta a melhor forma de o rapaz evitar as dificuldades que o pai havia enfrentado. Pretendia concatenar as ideias discutidas nos últimos anos com o filho, sobre política, poder, dinheiro, futuro, formação acadêmica e profissional.

— Deixe-me recontar minha história com detalhes para uma reflexão sobre as exigências de uma trajetória vencedora, sem percalços nem sustos.

Corpulento e com cabeça pequena, o que causava incômoda desarmonia, Arnuvô possuía dedos gordos feito salsichas, barba rala e grisalha, era suarento e os pés chatos exigiam sapatos especiais. A voz era grave, e falava manso até nos momentos de tensão. Casou cedo com Cátia Mascarenhas, a Tita, mas, como ambos priorizaram o sucesso profissional, ele já não era moço quando o filho nasceu. Aposentara-se como magistrado numa das maiores Cortes de Justiça do país, no Distrito Federal, depois de iniciar a carreira no Tribunal de Justiça, cuja vaga abiscoitou através do quinto constitucional - introduzido no Governo Provisório de Getúlio Vargas, na Constituição de 1934 -, pelo prestígio alcançado no posto de Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Espírito Santo, que comandou por oito anos.

Seu pai, seu Joaquim, um comerciante descendente de portugueses, alcançou cedo a calvície; possuía traços árabes, rosto largo, bochechas grandes, e apresentava grandes tufos de pêlos nas narinas e nas orelhas. Era um daqueles homens que os norte-americanos chamam “self made man”. Na infância, vendeu cocadas, balas, mariolas e frutas; na juventude, deu expediente numa fábrica de tecidos até que, após juntar dinheiro com muito sacrifício, iniciou o pequeno armarinho no Parque Moscoso, Centro da capital. A empresa prosperou e Joaquim casou com Genara, uma italianona gorducha, fogosa, embora religiosa, que se vestia com recato e possuía mãos fortes, belas ancas e cabelos e olhos negros como azeviche. Com ela teve nove filhos, e não se soube de nenhum bastardo.

— Mamãe ajudou no que pôde; poupou cada centavo enquanto dava conta da educação dos filhos, cultivava uma baita horta e cuidava do galinheiro e do chiqueiro construídos no quintal da chácara. Os bichos, por sinal, alimentavam a família e ainda rendiam uns bons cobres, vendidos vivos ou abatidos.

Arnuvô foi o oitavo a nascer; por sorte, no período das vacas gordas, em que pôde gozar de regalias, pois Joaquim pôs os mais velhos no trabalho pesado para expandir os negócios, mas apiedou-se dos mais novos e exigiu deles apenas um curto período de plantão na loja, para tomarem gosto pelo trabalho. A essa altura, o espaço físico da empresa dobrara e outra loja havia sido inaugurada, funcionando no térreo de um sobrado da mesma rua, adquirido pelo patriarca, e onde os filhos iam viver amontoados à medida que casavam. No novo negócio, oferecia serviços de alfaiataria, venda de calçados e aluguel de roupas finas — esse último não sendo levado adiante, por ser algo para além do seu tempo. Graças à parcimônia de Joaquim, quando a expansão das cidades promoveu a fuga dos centros das capitais, e ocorreu a obsolescência daquela prática comercial, provocando o consequente fechamento das lojas, os filhos se encontravam bem remediados, embora nenhum deles tenha enriquecido, à exceção de Arnuvô.

Ademais, o velho tinha por princípio não cobrar nem dever favores, e por isso jamais lhe passou pela cabeça incomodar clientes e amigos influentes para solicitar uma sinecura onde encostar os rebentos.

— Sabe, filho — continuou —, fiz minha parte; não queria ser acomodado como seus tios, que não passaram de comerciantes medianos.

Arnuvô investiu muito na profissão, mas também soube usar, à revelia do pai, a consideração e o respeito que o velho gozava em meio à nata da sociedade. Pavimentou a carreira após advogar em regime austero na maior banca capixaba e, depois de experiente, levou os melhores clientes do antigo patrão e muitos dos empresários amigos de Joaquim para o escritório que abriu com um influente colega de faculdade.

— Eu consegui montar a maior banca do estado nos ramos do Direito Tributário e Comercial; e ganhei muito dinheiro.

E então explicou como alinhavou contatos nos meios jurídico, político e empresarial. Ele sabia a quem recorrer; e conhecia prepostos que recebiam dinheiro em nome das autoridades de cada ente público. Praticava tráfico de influência abertamente, patrocinava festas de servidores públicos, distribuía brindes no final do ano, ingressos de espetáculos concorridos e até viagens com hospedagem para locais paradisíacos, mas não tinha poder institucional; e precisava do poder para a roda girar ao seu derredor, pois os ventos poderiam mudar numa mudança política desastrosa.

Por isso passou a buscá-lo.

Entrou na Maçonaria e mexeu pauzinhos para assumir uma comissão da Ordem, instituição que usou para patrocinar ações do interesse de determinadas pessoas e grupos de influência. As coisas aconteceram: ganhou títulos honoríficos e acadêmicos, além de novos clientes, prestígio e muito mais respeito. Por fim, deixou de pagar pelos favores recebidos.

Em meio às elucubrações, dona Tita trouxe um bule de café recém passado, xícaras, açúcar, adoçante e o famoso bolo de Santa Maria, receita de gerações de sua família. Tinha nove anos a menos que o marido, seus cabelos eram castanhos, mantidos em volume para esconder as orelhas de abano; a boca miúda, os olhos ranços, com cílios enormes, e as sobrancelhas finas. Vaidosa, magrinha e arisca, amava maquiagem e jóias.

O marido regalou-lhe um sorriso manso e continuou com o filho:

— Quando fui empossado como Desembargador, deixei o escritório nas mãos do Fausto Miranda e mudei de categoria.

Agora as pessoas o procuravam, dispostas a entregar malas de dinheiro em troca de conselhos, como costumava dizer; e ele, para não sujar as mãos, indicava o antigo escritório: — A banca certa para patrocinar a causa —, dizia entre piscadelas aos jurisdicionados aflitos. E a mesada chegava limpinha, gorda; Miranda jamais fora infiel.

Arnuvô se mexeu na confortável cadeira e serviu uma xícara do café colhido, torrado e moído em sua fazenda.

— Eu empreguei sua mãe e alguns parentes de pessoas influentes em bons cargos em comissão, que foram mantidos nos sucessivos Governos — ninguém era demitido, ainda que mudassem gestores e ideologias; e fiz o mesmo em relação a admissões em cursos de pós-graduação das universidades públicas. 

Dessa vez pegou um naco de bolo, enfiou-o todo na boca e, após o engolir, perguntou ao filho, que estava aparentemente distraído:

— Agora, diga-me, o que você tem em mente?

O rapaz deu uma estremecida, arregalou os olhos e respondeu:

— Eu pretendo me formar em Direito e seguir a sua carreira. Seria muito justo, certo? O Fausto ofereceu uma vaga de Advogado Sênior e se dispôs a voltar ao nome inicial: Antunes & Miranda. Eu ainda poderia me dedicar ao lobby, frequentar mestrado sanduíche na Argentina, doutorado e pós-doutorado em Coimbra e Salamanca; assinar pareceres, conseguir vaga de professor na Federal e esperar o tempo passar até tomar posse num Tribunal qualquer pelo quinto. Esqueci alguma coisa?

Arnuvô intercedeu, descendo repetidamente as mãos espalmadas para baixo, como a indicar uma frenagem; e, apesar de mostrar inquietação, concordou que o serviço público no Brasil é promissor, pois o trabalho do intelectual orgânico é valorizado, mas advertiu que não foram apenas os gordos salários de magistrado que proporcionaram aquela vida abastada.

— Foi difícil amealhar um vultoso patrimônio; precisei correr riscos. — falou em tom pesaroso, confessando que a considerável soma depositada nas contas dele, da mulher e do filho, no país e no exterior, era fruto de arranjos nada republicanos; e aproveitou para alertar Simplinho sobre ser essencial que não esbanjasse com deleites juvenis.

— É bom manter as reservas, o futuro a Deus pertence.

— Não sou dado a gastanças, fique em paz! — disse ao orgulhoso pai.

— Acumule mais e providencie que só exista a mão de entrada, e nunca a de saída, em seu bolso. — advertiu o velho.

Arnuvô advogava que a solução para uma carreira promissora era a diversificação, o que lhe faltou por não ter sido bem instruído: angariar prestígio para estar na grande mídia e nos círculos da intelectualidade oficial. Assim, poderia alcançar o estrelato, dar entrevistas, palestrar e publicar livros, inclusive de áreas alheias a sua formação — multidisciplinariedade era a pedra filosofal —, pois os queridinhos do establishment podem abordar qualquer assunto, sem a menor ideia do que se trata, que ainda assim o público consome.

— E qual seria o caminho? — perguntou.

O filho balbuciou algo, mas Arnuvô, não querendo ser interrompido, adiantou-se e respondeu a pergunta retórica:

— Você tem que ser um especialista. Especialistas conquistam respeito fácil e são muito requisitados; estão sempre em evidência, são celebridades recebem convites para participar de audiências públicas, programas de rádio, TV e internet. São muito bem pagos para dar pitacos aqui e ali sobre todos os assuntos e quaisquer acontecimentos.

— Especialista! Nunca havia pensado nisso como profissão.

Um dos três gatos da casa passou ronronando e se arrastando na perna cabeluda de Arnuvô, que não suportava os felinos, mas admitia-os em casa em respeito a Tita.

Ele puxou a perna, fez um muxoxo e explicou:

— Requer mais titulação que capacidade. Por esse motivo, é importante não fazer apenas uma, mas duas faculdades — e simultaneamente —, como Direito e Ciências Políticas, para poupar tempo.

Disse que uma singularidade desses tempos é que as faculdades não exigem nada além da presença do aluno; a baixa cultura e o analfabetismo funcional andavam tão em voga que, para obter sucesso, bastaria ao aluno assumir os conceitos e as narrativas vigentes, mascarando uma postura crítica, que o diploma chegaria em mãos. Ademais, em qualquer faculdade de Humanas estudam-se, basicamente, os mesmos autores, como Karl Marx, Karl Popper, Herbert Marcuse, Michel Foucault e Zigmunt Bauman. Então, o tempo e o esforço dedicado a uma seria aproveitado na outra. E, para melhorar, o professor moderno salva qualquer aluno, inclusive o que se esforça para tirar nota baixa, mandando-o fazer uma tarefa em casa, trabalho que poderá ser encomendado até mesmo no rapaz que vende salgados na cantina da faculdade.

— Você não vai precisar dedicar muitas horas ao estudo. Poupe tempo, capacite-se nas orelhas dos livros de escritores mainstream. Dos clássicos da literatura universal, colha um ou dois capítulos e leia resenhas disponíveis na internet.

Pegou mais um pouco do café, que já começava a esfriar, e falou da importância de perambular com papéis e livros nas mãos, para afetar erudição.

— A aparência é tudo! — falou firmemente.

E falou também que o filho deveria adotar, ainda durante a formação, um tom professoral ao se dirigir aos colegas e aos demais interlocutores, pois isso impressiona e pode render frutos.

Ao tratar de temas que não dominasse, deveria falar de forma assertiva; e não se sentir constrangido ao se contradizer no curso da exposição de ideias, pois os ouvintes nunca percebem. E se perceberem, dificilmente terão coragem de o admoestar. Além disso, não seria demasiado apresentar soluções teóricas para temas sensíveis, sem se preocupar em provar a viabilidade de sua execução, pois é mais importante ter uma opinião que ter conteúdo; e opinião sobre tudo...

— Você deve conhecer as notícias dos grandes jornais e os temas discutidos pelos medalhões. Seus posicionamentos devem se conformar ao discurso corrente, mas afirme que são pessoais e que algumas figuras conhecidas concordam com você, embora a abordagem deles seja confusa.

Arnuvô estava empolgado.

— Use a palavra ciência aqui e ali, para dar sustança as suas teorias. A palavra ciência impressiona, e é repetida por onze em cada dez idiotas. Qualquer teoria abstrata se torna realidade para um público ignorante quando, ao final, há a afirmação de que aquilo é ciência.

— É verdade, pai. Qualquer político semiletrado fala em ciência, inclusive usando o termo fora do contexto.

 — Sim... São os que falam do que não sabem, como eu disse. Outra coisa: nunca deixe de participar de debates com intelectuais prestigiados pelo grande público; e jamais seja-lhes hostil.

Agora Arnuvô suava, e de tanto que suava, tinha a respiração dificultada; e a voz saía rouca:

— Frequentando o círculo correto, você será chamado para dar palestras em empresas e instituições públicas e privadas; viajará por conta dos anfitriões, receberá gordos cachês; nessas viagens patrocinadas poderá se encontrar no estrangeiro com quem queira lhe pagar propinas; venderá os livros que escrever pela propaganda gratuita dos fóruns em que participa e dos puxa-sacos. E para ter uma produção bibliográfica volumosa, basta adequar a escrita de obras estrangeiras ao vernáculo, com uma ou outra citação em língua estrangeira, ou tratar de assuntos de forma rasa com pompa de alta cultura. Se o tema estiver em voga, escreva um livro de poucas páginas e peça ao editor para fazer parecer mais volumoso. Não se preocupe, serão best sellers.

Dessa vez, o gato caolho, o mais detestado, deu o ar da graça e levou uma bicuda de Arnuvô. Novo pedaço de bolo enfiado inteiro na boca, seguido de um glup-glup no café morno. Tornou ao bate-papo:

—Sei que não será difícil para você, sua educação foi planejada para forjar uma trajetória vencedora. Não atenda às más influências, despreze os resquícios da ascensão do fascismo e do populismo de extrema-direita que assolaram o mundo e o país em tempos recentes.

E pela enésima vez falou da odisseia que tinha sido a escolha da escola em que fariam sua matrícula. Ele e dona Tita olharam com lupa as instituições burguesas disponíveis´: a mais festejada era menos eficiente que a fama; a religiosa (Deus nos livre!) estava fora de questão; a terceira formava profissionais de exatas, o que não os apetecia. Optaram pela que era voltada a moldar líderes.

— Essa percepção é ouro puro, poucos pais se dão conta disso. Eu e sua mãe fomos muito perspicazes — falou enquanto comemorava com um soco no ar.

Aconselhou Simplinho a, em seu tempo, fazer o mesmo pelos filhos, os seus netos; e lembrou da importância de tomar as rédeas da educação das crianças, impedindo que levassem a vida que ele, Simplinho, forçosamente pregaria da boca para fora, como liberação de drogas, antirracismo, lesbianismo, gayzismo, ecologismo, misticismo... Isso era para as famílias alheias; sua preocupação seria garantir o equilíbrio entre os extremos.

— A sua família, construa e mantenha no formato tradicional. É impossível manter a harmonia no caos. Perante a sociedade, combata o reacionarismo e o conservadorismo, pregue o dever de não abrir concessões aos limites castradores impostos por nossa civilização ocidental. Porém, jamais os renegue em sua vida privada. Viva-os, filho! Sequer questione.

Na sequência, serviu-se de mais café e quase cuspiu, pois já estava intragável. Puxou um lenço de linho bordado com suas iniciais e passou no rosto e na boca; e só agora pôde observar que o vento parara de soprar e o calor tomava conta do ambiente.

Arnuvô fitou o infinito como a buscar mais argumentos e prosseguiu, afirmando que o segredo do sucesso era usar a linguagem jovial dos influenciadores digitais, dos artistas ou de outros profissionais que arregimentavam jovens e adolescentes.

— Comunique-se como aquele paspalho que imita foca; — falou — seja o cara legal que os jovens amam e os velhos infantilizados que abundam em nossa sociedade admiram. São pessoas totalmente desprovidas de conteúdo e facilmente manipuláveis; telas brancas em que podemos reproduzir aquilo o que quisermos, tanto no corpo quanto na mente.

Não, cioso leitor, a essa altura não perdemos o exemplar pater familias para o mundo delirante dos confusos mentais; ele apenas sugeriu de forma mais incisiva o tipo de comportamento que leva ao sucesso.

Ele voltou à carga afirmando que seria útil fazer e estreitar amizade com jornalistas e blogueiros para, através deles, ocupar espaços na mídia, replicar seus artigos e promover seu trabalho.

Também era apropriado apoiar instituições civis voltadas para as causas progressistas. Mais importante, ainda, seria criar sua própria ONG para receber dinheiro grosso de milionários e de fundações globalistas. Por fim, e em suma, sua meta de vida deveria ser alcançar o status de influenciador editor da sociedade; ser considerado em seu métier — não precisava sê-lo efetivamente — como filósofo, jurista, humanista, cientista político e escritor. O que é um baita pedigree.

— Você não vai precisar possuir o poder diretamente; com o poder, o dinheiro chega, chega grosso, mas também chega vigiado pela oposição e por inimigos. Empenhe-se em influenciar um número considerável de pessoas poderosas, seja generoso com eles e eles abrirão muitas portas. — e enquanto lamentava que no seu tempo as instituições eram muito imbricadas, arrematou: — Quer mais poder que isso?

— Pai, será que consigo realizar essa façanha? Nessa minha curta vida, eu segui seus conselhos preliminares, fiz amizades importantes e frequentei gente bem nascida, mas, olhando o que foi falado aqui, resta sopesar o quão difícil é ser especialista.

— Você consegue. Seja modesto ao se aprofundar no campo da intelectualidade, saber demais encurta os horizontes. Defenda ideias de forma conveniente ao pensamento dominante, e aperfeiçoe-se no manejo das palavras. Sinalize virtudes em qualquer tempo e lugar, evite conflitos e comunique-se de forma simples com os que possuem poder e dinheiro. Por fim, use linguajar difícil para impressionar tolos e intelectuais. Esse é o caminho. Agora vamos assistir ao jogo da seleção; e chega de café, — Argh! — precisamos dormir cedo. 

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

 

 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A calva

  

Há uma calva alva esperando

para atravessar na faixa

Mas, a guarda, ninguém baixa

Ela se demora, e enquanto o sol brilha

A calva sua e também brilha como sol

Ao refletir seus raios

 

A calva não se dá por vencida

E estende a mão como manda o figurino

Daí vem o motorista inconsequente

  um caminhão e quase a atropela

Babaca!

Se sua mãe o visse e ouvisse  

o que pensariamotorista?

Xingada sem dó nem piedade,

pelo moço gordo que atravessava do lado oposto

 

Ah, a calva! A calva alva...

 

De repente, o motoqueiro, à toda,

  despenca da calçada acelerando

E quase lhe arranca um membro

É como se estivesse num enduro — o

  jogo é duro

Igual ao chão beijado após o desvio

  tresloucado

E depois de caído, com o corpo

  retesado

O capacete retirado; vai ralhar, 

  sem calma, com a calva:

— O que você faz na rua, 

  atrapalhando o trânsito?

Eu sou motoqueiro, faço entregas 

  vapt-vupt

Não tenho tempo para atrasos

E isso isenta minha responsabilidade

A culpa é sua, a culpa é sua,

Da calva que sua; e brilha como o sol.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Alcebíades, o porteiro


Alcebíades Junqueira era um senhorzinho extremamente simpático e aparentemente possuía mais idade que aquela registrada em seu documento de identidade. Baixinho, pele clara, olhos azuis profundos, lábios finos, nariz pequeno, tinta acaju nos cabelos — rareados em razão das entradas que denunciavam uma semi-calvície —, era risonho e daqueles que cumprimentam até as sombras para mostrar-se boa gente. Sua maior característica, porém, era negativa: a estranha mania de meter o bedelho naquilo que não lhe dizia respeito. A curiosidade era maior que a prudência e, não raramente, permitia-se espionar a vida privada de vizinhos, de parentes, de amigos e também de condôminos do Edifício Corporate Master, onde era porteiro. Seu campo de pesquisa, além do diz-que-diz rotineiro, envolvia correspondências e mercadorias alheias recebidas na portaria; e não foram poucas as vezes em que foi flagrado pela câmera de vigilância, aproveitando os momentos de pouco movimento para investigar pacotes e envelopes, chegando até a vasculhar o conteúdo das notas fiscais de produtos.

Sua aposentaria viria em alguns anos, mas contava ansiosamente cada dia abatido. Já estava fichado no condomínio há tempos, primeiro nos serviços gerais e, depois, como porteiro, posto alcançado cerca de dois anos antes de Epitácio de Oliveira comprar uma sala no prédio e passar a dar expediente por lá.

Outro comportamento inconveniente era o costume de ir ao prédio nos dias de folga sem ser solicitado; e não foram poucas as advertências recebidas, pois havia o receio de implicações trabalhistas no futuro. Alcebíades se justificava dizendo que ia acompanhar mudanças ou obras, mas aparecia mesmo sem finalidade específica — uma faxineira informou que a mulher e a filha o tratavam mal em casa, e ele arranjava desculpas para sair. Como não bebia nem jogava, bom cristão que era, ora ia à Igreja, ora ao prédio comercial, sempre vazio nos fins de semana, fazer sabe-se lá Deus o quê.

Sobre Epitácio, ninguém sabia qual realmente era sua ocupação — um e outro diziam que era advogado, contador ou despachante —, e seu Alcebíades, em quem aumentava a comichão de oxiúros quando a curiosidade apertava, ainda atiçava a curiosidade dos frequentadores do prédio. Seu tormento era ver chegarem caixas e envelopes de variados formatos, dia sim, outro também, mas nunca um cliente procurando Epitácio; e de tão incomodado, passou a se empenhar mais para descobrir o conteúdo das entregas enviadas a esse condômino, sendo indiscreto ao ponto de balançar e apalpar as correspondências e os pacotes na frente de outras pessoas. Era uma questão de honra.

Epitácio era um homem pequeno, forte, de sobrancelhas grossas e de semblante sisudo; de poucas palavras, era cordial e muito habilidoso no trato com as pessoas, embora não dado a intimidades para manter curiosos a boa distância e, com isso, impedir inquirições sobre sua vida privada.

Um belo dia, ao chegar de supetão na portaria, flagrou o porteiro investigando um pacote endereçado a sua esposa, que fornecia aquele logradouro para envio de encomendas e de correspondências. Alcebíades mal disfarçou seu constrangimento e sequer conseguiu se justificar. Epitácio foi incisivo ao pedir que aquilo não se repetisse; disse que ele não era a versão masculina da Miss Marple — personagem de Ágatha Christie que resolvia mistérios —, que aquilo não era a conduta de um profissional e que, além de tudo, a curiosidade matou o gato.

Alcebíades deu um sorriso sem graça e disse que aquilo não tornaria a se repetir; e tudo ficou como dantes, como gostaria de saber o leitor.

Não muito tempo depois, com a falta de interesse geral, Epitácio foi convidado a compor a comissão de obras de uma reforma grande que ocorreria no Condomínio, e aceitou muito a contragosto. Como teve que comparecer muitas vezes no prédio fora do horário de expediente, e precisava avisar à central para evitar o deslocamento de seguranças e a ativação do forte alarme que soava em razão de movimentos na recepção, acabou angariando a simpatia dos funcionários que monitoravam o prédio; e com seu jeito bastante peculiar, acabou conseguindo tirar deles declarações informais acerca das atividades indiscretas do porteiro, com a promessa de não revelar quem havia dado as informações. Instruíram-no a formalizar um pedido de investigação para entrega de vídeos e, assim, constatar as atitudes inoportunas do porteiro, para evitar represálias da empresa. Epitácio os tranquilizou, e pediu para que não comentassem com mais ninguém, pois exporia o problema ao Síndico, à Administração e ao Conselho para chegarem a uma solução pouco traumática. Disse que planejava interceder em favor do funcionário, muito bem quisto por todos, para que lhe fosse dada apenas uma advertência.

E cumpriu o prometido.

Foram requeridas as gravações e, apesar do destempero do Conselheiro Marcelo, uma massoterapeuta, e do filho do síndico (que surtou quando o pai lhe contou os detalhes — diziam que ele exercia atividades suspeitas), que queriam a demissão do porteiro, o desfecho não poderia ser melhor. Logicamente, tomou a precaução de mostrar que o porteiro investigava volumes de todas as unidades, e não apenas as suas. Mas Alcebíades, porque era de sua natureza, voltou a pecar, e os monitores avisaram novamente a Epitácio. Dessa vez, porém, ele não requereu gravações e retransmitiu diretamente os fatos a quem de direito; a fonte, contudo, — e como era de se esperar — não informou.

Epitácio tomara o cuidado de espalhar essas notícias a várias pessoas pelo fato de ser um criminoso de alta periculosidade, daqueles que mudam para um local distante de onde viviam anteriormente, para criar uma nova persona. Era envolvido com o tráfico de drogas e de pessoas, com sequestros, homicídios e grande parte dos crimes tipificados na legislação brasileira, e só comprou a sala após se certificar da pequena movimentação de pessoas no edifício; via ali um local ideal para viver com uma fachada de legalidade. E tomou o cuidado de, antes de operar suas atividades, encomendar inúmeros produtos na internet para que essa atividade contínua de chegada de produtos não chamasse a atenção no momento em que passasse a receber material comprometedor, e não poderia permitir que um curioso desmiolado atrapalhasse seus negócios. Com efeito, ele se cercou de cuidados para que muitos soubessem das indiscrições do porteiro a fim de retirar de si a desconfiança de que teria dado cabo do indivíduo; e não deu outra, como você já deve ter deduzido.

Certo dia chuvoso, utilizando uma motocicleta, capacete, macacão emborrachado e carregando uma caixa de aplicativo de entrega de alimentos, Epitácio esperou Alcebíades no meio do trajeto utilizado para retornar a sua casa. Ele nem precisou estudar muito os hábitos do porteiro, um homem que mantinha severamente a rotina: chovesse ou fizesse sol, ele ia de casa para o trabalho e voltava pelo mesmo caminho. Sempre; e sempre carregando consigo um guarda-chuva ou uma capa longa, para se proteger em caso de chuva repentina.

Para chegar a sua casa, era necessário entrar na Comunidade Santa Rita, que dava acesso mais rápido à comunidade onde residia, a Favela da Panela; e foi assim que Epitácio esperou-o passar num local estratégico. Aproveitando a pouca luminosidade e a inexistência de cobertura de câmeras no local, pôs-se repentinamente de pé em frente à bicicleta e, enquanto o freio era acionado, cortou a garganta de Alcebíades com rara maestria.

O corpo foi deixado no local em que a vizinhança depositava lixo, entulhos de obras e galhos de árvores cortadas à revelia do Estado. Foi descoberto no dia seguinte, ao amanhecer, por um catador não cooperativado; e sua boca estava cheia de formigas.

 

Fernando Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista