segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Hemp “et caterva” – drogas não!

Há uma discussão acirrada em nossa sociedade, que prega o fim da proibição do uso das drogas, sendo o carro chefe a liberação da maconha.
A Suprema Corte do país, que há tempos liberou a marcha da maconha – que no meu entendimento é apologia ao crime –, começou a votar recurso que discute a constitucionalidade do artigo 28 da Lei Antidrogas (Lei nº 11.343/2006). Segundo YAROSHEWSKY, o relator, Ministro Gilmar Mendes, votou pela liberação não só do consumo da “erva do capeta”, mas de todas as drogas hoje ilícitas 1:
No julgamento perante o Supremo Tribunal Federal do Recurso Extraordinário (RE 635.659) sobre a inconstitucionalidade do artigo 28 da Lei 11.343/2006 (posse para consumo de drogas ilícitas), em substancioso e bem fundamentado voto o relator, ministro Gilmar Mendes, decidiu pela inconstitucionalidade do referido artigo e, consequentemente, pela descriminalização da posse para consumo de drogas ilícitas, de todas as drogas e não apenas da “maconha”. Segundo o relator, “a criminalização da posse de drogas para uso pessoal conduz à ofensa à privacidade e à intimidade do usuário. Está-se a desrespeitar a decisão da pessoa de colocar em risco a própria saúde”.

Outros dois ministros que apresentaram seus votos (Luiz Edson Fachin e Luís Roberto Barroso) defenderam apenas a liberação da maconha. E com pedido de vistas, os autos foram conclusos ao Ministro Teori Zavascki 2.
Dentre os argumentos dos defensores da liberação estão as propriedades medicinais da maconha e o fato de que (segundo eles) a droga “não provoca grave alteração do humor”.
Os esquerdistas defendem a causa com unhas e dentes, pois sempre dispostos a promover pautas que alimentem o caos social, a “luta de classes” ou o racha mesmo da sociedade (com o motivo de dividir para conquistar). Mas há também os liberais e os libertários, para quem todos têm o direito de fazer escolhas, sejam elas boas ou ruins – os esquerdistas, logicamente, também defendem a liberdade, só que distorcem seu sentido, abordando-a de forma seletiva demais, segundo sua ideologia (não é para todos).
E como é sempre possível piorar, defensores da liberação de drogas utilizam a falácia do “argumentum ad hominem” para atacar a pessoa (e não as ideias) de quem se opõe à liberação, chamando de fundamentalista religioso e de outas baboseiras nesse sentido. Como se não o fossem os militantes da causa gay (do fundamentalismo jeanuiliano), da causa abortista, do movimento negro e do famoso “liberal-geral”, de Tim Maia (risos aqui). Aprofundando o tema, tais argumentos podem ser reduzidos, por exemplo, à filosofia gregduvivieriana, que abraça toda a agenda esquerdista, cujo pensador, logicamente, é incentivado pela verba pública através da Lei Rouanet e pelos serviços prestados a empresas estatais – não pega bem falar mal do patrão, não é mesmo?
Refutando os argumentos do lado sério, que acha que a questão é de liberdade, e que é possível o consumo responsável de drogas (inclusive dentro de casa), ouso dizer que estão equivocados.
Primeiramente, deve-se considerar que a liberação colocaria na legalidade organizações criminosas, como PCC, Comando Vermelho e outras, como as FARC, essa coincidentemente parceira do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outros partidos da esquerda nacional no Foro de São Paulo, entidade que visa a transformar a América Latina num bloco comunista. As FARC, aliás, já são laureadas nos livros de História autorizados pelo MEC, que alguns chamam nas redes sociais de Ministério da Educação Comunista.
De outro lado, temos que levar em conta que essas drogas causam sérios danos ao usuário, conforme denunciou com gravidade o Psiquiatra Valentim Gentil Filho 3: “Adolescente fumando maconha uma vez por semana aumenta em 310 por cento o risco de desenvolver esquizofrenia, que é uma doença incurável”.
Ou seja, o uso semanal dessa droga dita “fraca” e de propriedades medicinais é suficiente para causar danos irreversíveis.
Além disso, é mais que sabido que a maconha é a porta de entrada para drogas mais pesadas que, com o tempo, invariavelmente torna as pessoas incapazes de perceberem o grau de risco a que estão expostas. E aí cabe dizer que se as pessoas terão a saúde comprometida, alguém vai ter que pagar por isso, inclusive pelo longo caminho da recuperação da dependência química. E certamente não será o governo, que não paga nada para ninguém – só repassa o dinheiro expropriado do contribuinte. No caso daqueles que tenham plano de saúde, os gastos serão arcados/divididos com os demais clientes/segurados, através do cálculo atuarial que divide os prejuízos entre todos os aderentes. Ou seja, também no âmbito privado todos pagarão pelo exercício da liberdade de uns – e pagarão em dobro, já que também são contribuintes.
Mas há ainda a questão da família.
Não sei se por falta de convívio ou má fé mesmo, as pessoas não se dão conta de que se trata de uma doença contagiante, que machuca profundamente os familiares do usuário.
Quantas mães e avós choraram a perda de sua criança para o vício das drogas? Quantos pais se sentiram impotentes pela educação que tentaram dar, mas não foi assimilada? Quantos desses se culparam por precisarem trabalhar e por isso não deram atenção suficiente ao filho? Quantos sofreram ao ver o filho preso ou internado em clínicas de recuperação? Quantos foram agredidos por parentes viciados? Quantos jovens morreram por dívidas com o tráfico ou entraram para o “movimento” para ter acesso mais fácil às drogas? Quantos morreram simplesmente por serem parentes ou amigos de um viciado? Quantos abandonaram famílias, filhos, cônjuges e a própria vida?
A droga é um fator desagregador da família, e não é coincidência que alguns defendam sua liberação. Afinal, não é a família burguesa, constituída segundo a tradição judaico-cristã, o grande mal do mundo? O “inimigo a ser abatido”, segundo Karl Marx?
Finalmente, avanço ainda mais na questão humanitária – mas me referindo ao humanista “de verdade”, já que a palavra, que muitos arrogam para si como se fosse sua qualidade, foi deturpada e se transformou numa falácia (veja aí novamente o domínio da semântica para fins escusos).
Com o agravamento do vício, o usuário/dependente deixa de trabalhar, procura drogas mais baratas, que são mais viciantes (porque mais fortes) e de pior qualidade, e acaba mais rápido com sua saúde, transformando-se num verdadeiro farrapo humano, vivendo nas ruas, sujo, chapado, exposto a doenças e à violência. E como resposta, alguns generalizam e falam que o tabaco e a bebida alcoólica também deveriam ser proibidos porque são drogas – isso seria uma questão de justiça.
Ah, a justiça! Pelo que me lembre, nunca ouvi falar em alcoolândia ou em tabacolândia, mas já ouvi, e muito, falar em cracolândia, que recebe viciados em todas as drogas ilegais, e não só em crack. No mínimo, praticam a dependência cruzada. Inclusive, cabe aqui lembrar que o “incentivo” dado por prefeitos progressistas, com melhorias levadas a esses locais da morte e da degradação, ao contrário do que se prega, mostra o desprezo pelo ser humano.
Eu não posso concordar com isso. E embora demonstre claramente a preocupação com o próximo, pelo fato de ser cristão sou chamado de fundamentalista. Mas idiotas sempre existiram e sempre irão existir.
Entendo que a implantação, em nosso país, dessas medidas ditas progressistas” – que deram certo em países de primeiro mundo – deve esperar o momento a partir do qual consigamos adquirir a consciência e a educação comum ao povo de um país de primeiro mundo, ou seja, igualar a questão cultural com esses países. Até lá, não passa de utopia e/ou de má fé 4.
Diga não às drogas!

NOTAS
[1] Yarochewsky, Leonardo Isaac. Supremo deve descriminalizar porte e uso de todas as drogas. Revista Consultor Jurídico, 18/09/2015. Disponível em <http://www.conjur.com.br/2015-set-18/leonardo-yarochewsky-stf-descriminalizar-todas-drogas>. Acesso em 26/09/2015;
2 Conclusão em 24/09/2015. Supremo Tribunal Federal, RE 635.659/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno. Disponível em www.stf.jus.br;
3 Entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura (a partir de 31’52’’), exibida em 04/11/2013. Disponível em <http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/transmissao/valentim-gentil-filho-4#>. Acesso em 25/09/2015;
4 Recente notícia informa que uma plantação de maconha foi encontrada na região sudoeste de Londres, e a polícia inglesa, após afirmar que será destruída, iniciará as investigações para descobrir quem fez o plantio, já que até o momento não foi feita nenhuma prisão. Ou seja, num país de primeiro mundo é proibida a plantação: Polícia descobre “floresta de maconha” em Londres. G1, 26/09/2015. Disponível em http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/policia-descobre-floresta-de-maconha-em-londres.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1. Acesso em 26/09/2015.

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a articulista, ensaísta e cronista e, de certa forma, saudosista.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Rock romântico na casa dos mortos


 

Depois de sete anos de um namoro que começou na adolescência, Zé Carlos, enfim, estava sozinho.

Como seus amigos já estavam casados e se casando, e outros noivando, não o agradava ter ficado soltinho no mercado. Tinha perdido a pegada depois de tanto tempo.

Na época, a internet começava de forma incipiente — acesso por discagem, lento, uma fortuna o plano “ilimitado”... Mas, fechou o contrato e resolveu navegar.

Com o tempo, começou a entrar em salas de bate-papo; e um dia se aventurou numa especialmente frequentada por “adultos” — pornô mesmo.

Lá encontrou uma moça que, disse ela, morava perto de sua casa. Nickname Roberta. Um milagre. Gente boa, disse que as imagens na tela a incomodavam, e perguntou se era possível conversarem num outro ambiente.

Respondeu que sim, dizendo que poderiam entrar numa sala vazia e ficar no reservado, sem dar atenção para quem tentasse invadir o espaço. A essa altura já estava craque. Achou uma sala vazia. Entrou, voltou na antiga sala e informou onde ela deveria se dirigir.

Só que a internet... Ah, a internet!  Ela e seu santo acesso discado fizeram com que ele “caísse” logo após trocarem um oi no reservado.

Tentou acessar o mais rápido possível. Mas o mais rápido possível era o tempo de Deus.

Não encontrou mais a Roberta. De sala em sala, ia direto à letra “R” entre os nicks, e depois de entrar em várias sem sucesso, desistiu.

Na última delas, abaixo dos nicks com R, estava a Sunny. Puxou assunto. Deu certo. Ela era de Belo Horizonte, ele de Olaria, Rio de Janeiro.

Agora mais esperto, pediu o icq (I seek you), programa que permitia o contato direto instantâneo, não visual. Não queria perdê-la também. Conversaram muito naquele dia. E no outro, e no outro... Com o tempo, resolveram se encontrar pra valer, e totalmente às escuras, pois nenhum dos dois havia perguntado ao outro sobre a aparência física. Medo de ofender.

Na época não havia ainda o costume de (e nem um canal fácil para) inserir fotos na internet.

Mas era engraçado. Pretendiam se deslocar para outro estado da federação, e preferiam enfrentar a surpresa – para o bem ou para o mal – a perguntar sobre o aspecto físico. Criaram o primeiro tabu.

Tudo foi acertado quando ela disse que viajaria ao Rio a trabalho. Ele providenciou um hotel em lugar estratégico, para se encontrarem de forma a não enfrentarem grandes desgastes com o trânsito caótico.

Foi ao aeroporto buscá-la. Nervoso, pensava: Será que vou agradar? E se ela não me agradar? Deus!

Lá vinha ela, e naquele momento ele descobriu que já estava apaixonado antes de conhecê-la. Uma graça, simpática, mas esguia — e não dava chance de ele avançar no que interessava.

Após ela se instalar no hotel, seguiram para almoçar. Burro, escolheu uma churrascaria a rodízio. Encheu tanto a pança que não conseguia nem respirar. Ao menos tinha evitado o coração de frango com creme de alho.

Foram conversar numa praia. Com roupas leves, mas sem trajes de banho. Ela conhecia o Rio, ele não tinha a menor noção de como seria Belzonte.

O tempo parecia voar enquanto estavam juntos, e o sol começava a se pôr. Ele a deixou no hotel e foi para casa se arrumar, após convidá-la para assistir à apresentação de um amigo de infância que era músico, num projeto cultural patrocinado pela Prefeitura de Niterói.

Em casa, longe dela, o tempo parecia não passar. Dava meia-noite, mas não dava oito e quinze da noite, horário marcado.

Saiu. No caminho, enquanto pensava em como informar o local onde ficava o “espaço cultural”, falou amenidades — e tão logo se tocou, já havia chegado, num momento em que grupos de dança de comunidades carentes se apresentavam (funk carioca, hip hop, axé).

Ela achava tudo interessante, e ele explicava que o amigo era o “cara” da adolescência. Tocava em praias lotadas, abriu show de Celso Blues Boy... Ela prestava atenção e fingia conhecer o blueseiro de “fumando na escuridão”, aquele de quem nunca ouvira falar.

Em seguida, começou o show. Músicas inéditas, estilo underground. A formação era uma dupla acompanhada de uma bateria eletrônica, e o vocalista atacava:

- O homem que matou o capeeeetaaaaa...

O espaço, na realidade, ficava em frente ao cemitério. Pensava: Que porra de música era aquela? Em silêncio pedia uma ajuda divina.

Com os acordes sombrios e a voz gutural vindos daquele palco lúgubre, ele sentiu um frio na espinha – e achou que ela também.

O momento não era romântico, mas decidiu que não iria perder mais tempo. Olhou em seus olhos azuis profundos e perguntou se podia beijá-la.

Ela fechou os olhos, abriu um sorriso sem mostrar os dentes e fez que sim com a cabeça.

Foi o primeiro de muitos. E eles ainda continuam se beijando.



Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, contista e cronista, além de saudosista

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Na casa dos playboys


Casquinha, um menino gordinho (mas arisco), passou boa parte das férias escolares de sua infância e pré-adolescência numa cidade do interior, visitando uns tios sem filhos que se aposentaram e abandonaram a cidade grande.

Numa das férias do meio de ano, ele teve que escrever um diário a pedido do professor de Língua Portuguesa; e foi exatamente naquele período de mais aventuras, porque estava mais entrosado com os meninos da vizinhança – e até com alguns adultos. Nas casas dessas pessoas, de grandes terrenos, sempre havia um campinho, fosse gramado ou de areia, onde ficava jogando futebol até o anoitecer.

Naquela temporada, junto de uns vizinhos, montou um “timaço” chamado Estrela, para disputar um torneio na casa de veraneio dos “meninos ricos”, na qual havia uma pequena quadra de futebol de salão.

Chegado o dia, cujos fatos não foram narrados (por motivos óbvios) no diário da escola, entraram pela frente da casa e após passarem ressabiados por uns três portões — nessa casa que até segurança tinha —, avistaram a quadra, onde logo começariam os jogos.

O Estrela era imbatível. Arrasou os adversários por 5x2 e 4x1, classificando-se em primeiro colocado do seu grupo para as semifinais, que seriam disputadas pelo cruzamento dos grupos: 1º do Grupo A vs. 2º do Grupo B, e 1º do Grupo B vs. 2º do Grupo A.

Então ficou: Estrela vs. Dínamo e Cosmos vs. Real.

Estrela passou fácil por 4x0 e ficou aguardando o outro jogo, onde o Cosmos, time dos donos da casa, passou apertado por 3x2, contando com um pênalti mal marcado e várias inversões de faltas e arremessos laterais.

André, o mais velho do grupo, avisou a Casquinha que eles não ganhariam o troféu — só havia um —, pois os donos da casa “não perdiam nunca”, e faziam qualquer coisa para isso. Para ter uma ideia, o sorteio havia sido direcionado, porque os meninos do time do Real eram mais chegados aos donos da casa. Tudo estava planejado para os times se enfrentarem na final. O Estrela era a zebra.

Casquinha questionou o porquê de André não ter avisado antes, e por qual motivo se conformava tão facilmente com aquilo. E o André falou que era a única diversão que tinham, o valor cobrado para participar era pouco e que “no fundo, no fundo” tinha a esperança de um dia ganhar, como poderia acontecer naquele ano.

Casquinha desconhecia esse tipo de comportamento bovino, pois na periferia onde morava ninguém podia dar moleza, senão virava chacota.

Começou o jogo e seu time era melhor. Mas, como esperado, colocaram propositalmente um rapaz frouxo para apitar, filho do dono do cartório da cidade e goleiro do Real. Era amigo dos meninos do Estrela, mas, “por questões comerciais”, mais amigo dos donos da casa.

Inversões de falta e de lateral iam sucedendo, quando um dos irmãos segurou casquinha enquanto o outro tomou a bola e fez o gol. 1x0 Cosmos. Reclamações, instabilidades... Mas não havia jeito... Saiu a bola. Os meninos nervosos. Estrela toma outro gol.

O mais novo dos irmãos tirou sarro com o Casquinha, e na primeira dividida entrou com tudo. Casquinha olhou, chamou o outro de veado e disse para ele se cuidar.

No lance seguinte, Casquinha faz boa jogada e entrega para o Ricardo fazer o gol do Estrela. 2x1, e faltava pouco para acabar.

Foi a gota d’água. Veio outra bola dividida e o playboyzinho foi dar um bico em Casquinha, mas não contava com um desvio fantástico e uma banda para completar. Casquinha se esquivou rapidamente e aproveitou que uma das pernas do otário estava no ar (após errar o chute) para passar a rasteira na de apoio — ele praticava judô e conhecia um pouco de defesa pessoal.

O playboy caiu igual fruta podre e o tempo fechou. O juiz, frouxo que só, apitou o fim de jogo.

Veio a turma do deixa disso, mas o nervosinho mandou uma empregada fechar o portão aos berros, e meio que rosnando e espumando disse que ia dar porrada em Casquinha.

Casquinha pediu que os colegas o largassem e foi para o meio da quadra chamando o mané pro pau. Disse que se era macho devia “cair dentro”, e parar com o fogo de palha...

Ao mesmo tempo, o irmão mais velho “botava pilha” no mais novo.

O segurança veio, abriu o portão e pediu para todos irem embora, enquanto segurava o playboyzinho, que começou a dar um showzinho à parte: — Me larga! Me larga!

Fazendo uma carranca para o zé ruela, Casquinha saiu cuspindo marimbondos, pois não ganhou o troféu. Estava tão furioso que ficou vários dias em frente à casa do playboy esperando que ele fosse lá fora acertar as contas, mas descobriu que o prego não podia sequer sair de casa, pois “era um mimadinho”. Com isso, virou o ídolo dos meninos daquele lugar; e turrão que só, nunca mais falou com os filhos do dono do cartório.

Só que aquele não foi um dia só derrotas. Ao entrar na rua da casa de sua tia, viu a irmã mais bonita de um dos colegas de time, na varanda de uma casa em construção. Ela seria o grande prêmio de consolação.

Seu irmão tinha saído correndo ao ver o portão aberto; e, esbaforido, foi logo contando o ocorrido.

Sabendo que Casquinha estava chateado, Nina deu um beijo apaixonado nele. Disse que era para não ficar mais triste... E ele não ficou.

Ele tinha 12 anos, ela estava comendo um pedaço de coco seco e já contava com 14...

(O menino foi embora feliz da vida, cuspindo os pedacinhos de coco que acidentalmente pararam em sua boca.)


Fernando Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, contista e cronista, além de saudosista

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Nova Ordem Mundial e a reengenharia social: já em prática no judiciário brasileiro?


O livro Poder global e religião universal, do Monsenhor Juan Claudio Sanahuja 1, é um estudo sobre o projeto de poder totalitário gerado e levado a cabo sob os auspícios da Organização das Nações Unidas (ONU), que atua em favor da subversão de valores éticos, políticos e religiosos para promover o surgimento de uma nova sociedade, que será regida por um novo sistema de valores 2 depois de efetivados os projetos de reengenharia social que vêm sendo propostos e implementados (mais rápido que se percebe) em vários países, em especial naqueles governados por grupos de viés esquerdista, sejam mais radicais, como africanos e da América Latina, ou light, como socialdemocratas europeus.
Insta salientar que a adesão das esquerdas ao pensamento globalista não é novidade, conforme já havia lembrado anteriormente 3, recorrendo à lição de SCRUTON 4, que
percebeu a adesão da esquerda à economia global e seus representantes após o suposto revés sofrido com o colapso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), afirmando que isso contribuiu para uma “sólida mudança de atitude”. Embora se referisse à Grã-Bretanha, o pensamento globalista adotado pode ser estendido aos demais países e movimentos de esquerda, independentemente de sua tonalidade de vermelho. Com efeito:
“Em vez de atacar o capitalismo global, o Partido Trabalhista passou a ser o seu mais fiel defensor, promovendo a economia ‘global’ contra os últimos vestígios de resistência nacional e escarnecendo os reacionários e os ‘Little Englanders’, que estavam dispostos a sacrificar uma promessa de crescimento econômico ainda maior em favor dos comprovados benefícios da soberania nacional, das tradições locais e do direito consuetudinário”.

De outro lado, antes que surja o argumento “fatality” de que isso é teoria da conspiração, sem o enfrentamento das questões postas – como se a simples afirmativa (de ser “teoria da conspiração”), posta de forma desarticulada, fosse irrefutável “per se” –, convém destacar que inúmeras referências e documentos embasam as informações e teses reveladas no bojo do livro. Mas a expressão merece reflexão por sua larga utilização e pelo conceito negativo que a acompanha, sendo crucial a manifestação de CARVALHO sobre tal argumento falacioso 5:
Não há, no jornalismo ou nos debates em geral, atitude mais indigna, mais abjeta e, no fundo, mais ridícula, do que tentar impugnar uma denúncia sob o pretexto de que ela é "teoria da conspiração" (...) a presunção de tudo explicar só pelos fatos mais visíveis e notórios é, francamente, de uma estupidez sem limites (...). A proibição de discutir seriamente um assunto importante faz com que dele se apossem charlatães, malucos e gozadores que (...) dejetam no mercado uma inesgotável subliteratura com presunções de “história secreta”, alimentando no público as fantasias mais extraordinárias e atravancando de detritos o caminho do estudioso sério que busque se orientar nessa selva selvaggia. É a profusão desses fenômenos que infunde na expressão “teoria da conspiração” uma carga pejorativa que o termo, por si, não comporta, fazendo dela uma vacina quase infalível contra a percepção de fatos genuínos e bem comprovados. (grifei)

Como se vê, a carga pejorativa atribuída à expressão “teoria da conspiração” a transforma em argumento infalível, “apto” a esvaziar/encerrar o debate sem que se emita um único pensamento articulado no enfrentamento do tema em discussão. É possível que haja aí a tentativa de conduzir à espiral do silêncio, técnica que pretende calar a voz dissonante, ainda que abundante em fundamento.
Voltando.
No tocante à implementação da reengenharia social, SANAHUJA faz uma grave acusação 6:
... os adultos saudáveis e produtivos são os únicos que terão lugar na nova sociedade, a sociedade da Nova Ordem Mundial (...) os únicos a ter direito a uma atenção médica de qualidade. Os doentes crônicos, os doentes terminais, os idosos e todos os que não sejam ou não possam chegar a ser produtivos estarão fora do sistema. (grifei)

Para dar ideia da veracidade dessas denúncias, uma circunstância desagradável envolvendo o tema do idoso foi gerada pela fala de Christine Lagarde, Presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), repercutindo o conteúdo de documento que faz parte do Informe sobre a Estabilidade Financeira Mundial, apresentado em setembro de 2014. Ela afirmou sem o menor constrangimento que as pessoas estão vivendo em demasiado; que o aumento da longevidade põe em risco a economia mundial; e que isso requer medidas urgentes 7. Em seguida, recomendou mudanças no sistema de gerenciamento dos planos de previdência, com a diminuição das pensões para gerar recursos e o aumento das contribuições e da idade para a aposentadoria, tudo em nome da estabilidade financeira. Por fim, acrescentou que caso isso não seja possível, os países devem cortar os benefícios concedidos, sendo acompanhada por Laura Kodres, diretora do Departamento de Mercados Monetários e de Capital do FMI, que alertou que “quanto mais tempo essas medidas forem ignoradas, mais difícil será de resolver8.
Por esse raciocínio, à medida que há o envelhecimento das populações, um percentual crescente de recursos vai sendo consumido, gerando pressão sobre os balanços públicos e privados. Sem contar o risco financeiro para os planos de previdência públicos e privados que oferecem prestações definidas de aposentadoria – considerados os cálculos atuariais, terão que pagar mais que o planejado porque as pessoas viverão mais que o esperado. Logo, isso explicaria a necessidade dessas medidas impopulares que coincidentemente sustentam as denúncias de SANAHUJA.
Na mesma toada, o ministro das Finanças do Japão, Sr. Taro Aso, de 72 anos, havia declarado em janeiro de 2013, durante uma reunião do Conselho Nacional de Reformas da Segurança Social, que “os idosos em estado terminal deviam ‘se apressar e morrer’ para poupar gastos do governo com a saúde pública” (grifei). Na ocasião, informou que não se submeteria a qualquer tipo de tratamento médico para prolongar sua vida; que não se sentiria bem sabendo que o tratamento seria pago pelo governo; e que, por isso, já havia recomendado a membros de sua família que não permitissem que fosse mantido vivo por aparelhos. Ele ainda teve fôlego para, “afetuosamente”, chamar os idosos que não conseguem se alimentar sozinhos de “pessoas tubo” e afirmar que o tratamento de um único paciente custa ao erário dezenas de milhões de yenes por mês. O detalhe é que a expectativa de vida no Japão, segundo dados de 2012, é de média de 86,7 anos entre as mulheres e média de 79,4 anos entre os homens 9.
No subtópico “o novo paradigma de saúde”, SANAHUJA esclarece que esse novo modelo foi projetado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) “e imposto aos países membros da ONU”. E enfatizando o que afirma, destaca a fala do Sr. Hiroshi Nakajima, diretor geral da OMS em 1992: “as diferenças biológicas e genéticas das pessoas podem limitar seu potencial de saúde, e a saúde é um pré-requisito para o pleno gozo dos demais direitos humanos”. E então, reconhecendo que a atual visão de direito à vida e à saúde é incompatível com os novos planos, vaticinou: “a ética judaico-cristã não poderá ser aplicada no futuro10.
Esse novo paradigma propõe claramente o descarte de seres humanos através do incentivo à eutanásia e ao aborto 11. Apenas os seres saudáveis e produtivos terão direito à atenção médica de qualidade, sendo jogados à margem do sistema os doentes crônicos/terminais e os idosos. Esses planos seguirão adiante até a eliminação da ética criada pela civilização ocidental. Como exemplos dessa prática, SANAHUJA aponta o Obamacare, sistema de saúde proposto pelo presidente dos Estados Unidos, que inclui 12:
a) o aborto sem restrições financiado com fundos públicos; b) a eutanásia disfarçada, por meio da limitação de consultas médicas, medicamentos e cuidados necessários para doentes crônicos, desde crianças com síndrome de Down até doentes de câncer, assim como para os idosos e veteranos de guerra; c) a negação do direito à objeção de consciência aos profissionais de saúde que não queiram envolver-se nessas práticas; d) um controle quase exclusivo por parte do governo quanto às apólices de seguro de saúde, criando um Comitê de saúde que pode tomar decisões sobre os pacientes e que atribui ao governo federal o poder de vigiar contas bancárias pessoais para averiguar os gastos em saúde de cada cidadão.

Vindo para a realidade brasileira, o que me levou a escrever esse artigo foi a notícia de que a 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5R) autorizou a Caixa Econômica Federal (CEF) a negar a contratação de determinada modalidade de seguro de vida a idosos com mais de 70 anos 13.
Consta da notícia que, após afirmar que o tribunal prestigiou a autonomia de vontade da seguradora em seu direito de “selecionar os riscos que entende seguráveis”, o advogado da CEF afirmou que a decisão:
Também merece aplauso por reconhecer que esta seleção passa necessariamente por exame da pessoa do segurado, seus hábitos, estado de saúde, sexo e idade, não sendo este fator de seleção e individualização, por si só, fator de discriminação contratual. Ao contrário, é a essência da própria atividade securitária e comutatividade contratual. (grifei)

Vamos aos fatos.
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou Ação Civil Pública (ACP) objetivando que a Caixa Seguradora S.A. se abstivesse de incluir cláusulas abusivas que restringissem a contratação do seguro de vida “Caixa Seguro Amparo” por idosos de mais de 70 anos, por ferir os princípios da dignidade da pessoa humana e da não discriminação.
Porém, o julgado, aprovado à unanimidade, destacou que não há empecilho à limitação da idade para contratar seguro de vida em grupo, não existindo discriminação contra o idoso nem abusividade da cláusula que restringe o grupo de seguráveis. Segundo o voto condutor 14, que adotou parecer do MPF na 2ª instância, a limitação de idade é cabível e resulta da própria natureza do negócio; e a proposta da seguradora era clara quanto à limitação de idade. Ademais, o prêmio é fixado com base em cálculos atuariais, que consideram a probabilidade de ocorrerem os riscos aos quais os contratantes podem se submeter, e fatores como estado de saúde e idade etc. E como quem ultrapassa os 70 anos está mais exposto a riscos de doenças e mais próximo da morte, não é correto constranger os outros segurados do plano em grupo a pagarem valores mais altos em razão do desequilíbrio causado pela inclusão de pessoas cuja situação de risco é mais agravada, ainda mais porque poderiam aderir a outras modalidades individuais de plano, adaptáveis à sua realidade, disponibilizadas pela empresa.
Daí, a Turma concluiu pela faculdade de contratar em razão do princípio da legalidade 15 e da inexistência de norma a impor à seguradora o dever compulsório de contratar, independentemente do perfil do consumidor, até porque norma técnica da SUSEP admite que determinada seguradora não aceite “... segurado acima de determinada idade, da mesma forma que outra pode desejar não aceitar segurados que possuem profissões de maior risco, como, por exemplo, vigilantes ou motoboys. Nos dois casos as seguradoras estariam apenas trabalhando para adequar suas carteiras ao direcionamento definido pela alta administração da empresa16.
Cabe, porém, questionar a decisão, que dá resposta generalizada sem abordar as várias situações distintas de segurados, mormente em relação ao período de tempo em que foi mantida a relação contratual. Foi feita a justiça, mesmo em se tratando de um contrato aleatório? Por que com 69 anos o contrato pode ser firmado e não com 70 anos? Por que não estabelecer um aumento escalonado de forma razoável, como se faz nos contratos de planos e seguros de saúde?
Segurados a partir dos 60 anos deveriam ver respeitado o decênio preconizado no Estatuto do Idoso para o plano de saúde, já que o plano de saúde é regulado pela Lei nº 9.656/1998, que o STJ aplica por analogia nos julgados sobre seguro de vida 17. Simplesmente negar caracteriza um ato discriminatório.
Vale acrescentar que pesquisa recente do IBGE, divulgada em dezembro de 2014, apurou que a expectativa de vida do brasileiro passou para 74,9 anos 18. Então, se for para negar direitos, que o seja a partir do fim da expectativa de vida, o que quer dizer que até esse dia de vida deveria ser assegurado ao idoso o direito de contratar o seguro de vida. Ao menos seria mais coerente.
Há também recente artigo publicado no portal JusNavigandi, que informa que o TRF-4R, conformando entendimento anterior, negou a um portador de neoplasia maligna que iniciou o tratamento em hospital particular o direito de postular o medicamento perante o Sistema único de Saúde (SUS) 19, conforme é possível verificar no seguinte trecho da decisão 20:
a Rede de Atenção Oncológica está formada por estabelecimentos de saúde habilitados como Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) ou como Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACON). Os hospitais habilitados como UNACON ou CACON devem oferecer assistência especializada ao paciente com câncer, atuando no diagnóstico e tratamento. Essa assistência abrange sete modalidades integradas: diagnóstico, cirurgia oncológica, radioterapia, quimioterapia (oncologia clínica, hematologia e oncologia pediátrica), medidas de suporte, reabilitação e cuidados paliativos. Em casos de medicamento para neoplasia, não se submetendo, o postulante, a tratamento perante um CACON ou UNACON, inviável que exija destes apenas o fornecimento do medicamento.

Com efeito, a legislação submete o doente portador de neoplasia maligna a realizar o tratamento oncológico na rede pública (SUS) se quiser receber o medicamento necessário. Segundo a Portaria nº 876/2013, do Ministério da Saúde, que regulamenta a Lei nº 12.732/2012, que trata do primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada, o Ministério da Saúde irá “garantir o financiamento para o tratamento do câncer, nos moldes das pactuações vigentes, de acordo com as suas responsabilidades” (artigo 8º, inciso II). Todavia, o cliente que faz o tratamento em instituição privada não irá receber o remédio indispensável a sua recuperação, nem fará jus à tutela jurisdicional que assegure tal garantia.
Algo muito importante a ser considerado é que a presidente Dilma Roussef e seu antecessor, Lula da Silva, acometidos de problemas oncológicos, foram se submeter a tratamento em rede privada, no melhor hospital do país, tudo custeado pelo povo brasileiro.
Atitudes como as apontadas acima servem para demonstrar que a criação do Estatuto do Idoso e a previsão e extensão de “direitos humanos” do idoso no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) em todas as suas versões não passam de balela.
Devemos estar cientes de que direitos humanos é expressão que soa melíflua nas bocas progressistas, mas sem perder a noção de que não existem investidas para a sua efetiva concretização, mormente nos níveis das promessas. Com efeito, trata-se de coisa de camaleão, que com a cabeça diz que sim, e com o rabo diz que não, pois a saúde, a previdência e as atividades e garantias reconhecidas aos idosos (como ao resto da população) são vergonhosamente negligenciadas pelo próprio Estado, que a bem da verdade só encara o cumprimento do “pacto” pela parte de contribuintes e de empresas.
Nessa toada, GARSCHAGEN 21 atenta para um péssimo costume do político brasileiro, de elaborar “projetos” visando à criação e à majoração de tributos para estabelecer benesses e fomentar direitos básicos em favor da população, mas que, na realidade, jamais se realiza, e serve apenas para aumentar a arrecadação, já que o Estado possui um famigerado apetite e segue em contínuo inchaço:
Perante uma sociedade sob pressão, e deslocando o diálogo para os seus próprios termos, os membros do governo criam armadilhas para justificar as próprias decisões políticas, aparentemente benéficas para o povo, mas que, na verdade, os favorecem. Não será surpresa, portanto, o mau resultado produzido pela aplicação de ideias maléficas.
Isso acontece quando os políticos dizem que é preciso aumentar ou criar mais impostos para melhorar ou ampliar os serviços públicos (saúde, ensino etc.). Dessa forma, evitam a discussão sobre o papel do governo, sobre a moralidade dos tributos, sobre o volume da cobrança atual, sobre a impossibilidade de um poder político cumprir tais promessas em larga escala.
O debate é, assim, direcionado ao percentual de aumento e ao que o governo pode e deve fazer, não ao que é relevante, ou seja, aquilo que o governo não deve fazer e o que não devemos compulsoriamente financiar. No fim, somos ludibriados para que seja preservada a situação legal em que somos obrigados a pagar mais por aquilo que decididamente não recebemos, nem receberemos (saúde, ensino, segurança, aposentadoria etc.).

Ou seja, o Estado sempre que se encontra descapitalizado manda a conta para a população, ao argumento de que proporcionará melhorias que jamais serão sentidas.
Finalmente, para refletir sobre a questão da velhice e da doença nessa nova sociedade pensada para atender à nova ordem mundial, vale à pena recorrer a um clássico futurista, que narra uma distopia.
Em certo trecho do livro Admirável Mundo Novo 22, de Aldous Huxley, o Diretor de Incubação e Condicionamento (D.I.C.) se dirigiu a estudantes que dali a um tempo iriam trabalhar no Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central, para informar como eram as coisas antes e depois de “Sua Fordeza”, o visionário que idealizara aquele mundo novo. Contou da necessidade de destruir museus e monumentos históricos, do esquecimento forçado de intelectuais como Shakespeare e do fim do cristianismo. Falou das vantagens de uma educação verdadeiramente científica; e ainda informou que no passado pessoas bebiam e usavam morfina e cocaína, que causavam efeitos ruins. Então, “dois mil farmacologistas e bioquímicos foram subvencionados pelo Estado” para criar a droga perfeita, a “soma”, que ajudou a assegurar a estabilidade da sociedade e não causava mal-estar. Também lembrou que mesmo diante de tantos avanços, faltava “vencer a velhice”, o que foi alcançado com a utilização de várias drogas e técnicas: “hormônios gonadais, a transfusão de sangue jovem, os sais de magnésio...” –, até que “todos os estigmas fisiológicos da velhice foram suprimidos. E com eles, naturalmente... (...). Com eles, todas as peculiaridades mentais do velho. O caráter permanece constante por toda a vida”. Ao final, comparou a vida passada com a atual 23:
- No trabalho, nas diversões – aos sessenta anos, nossas forças e nossos gostos são o que eram aos dezessete. Os velhos nos tristes dias de outrora, renunciavam, retiravam-se, dedicavam-se à religião, passavam o tempo lendo e pensando – pensando!
(...)
- Atualmente, tal é o progresso, os velhos trabalham, os velhos copulam, os velhos não têm um instante, um momento de ócio para furtar ao prazer, nem um minuto para se sentarem a pensar – ou se, alguma vez, por um acaso infeliz, um abismo de tempo se abrir na substância sólida de suas distrações, sempre haverá o soma, o delicioso soma...

Como se vê, pensar era evitado, e qualquer “distração” que levasse alguém a se inquietar com aquele vida robótica (inclusive para questionar o sistema) seria reparada com a utilização da droga.
Para entender bem a denúncia de Huxley, alguém muito bem informado em sua época, veja o diálogo entre os personagens Bernard e Lenina, ao se encontrarem num lugar cujos habitantes viviam fora do “mundo novo”, e por isso eram chamados selvagens 24:
- Oh! – Ela agarrou-se no braço de Bernard. - Olhe!
Um índio quase nu descia muito vagarosamente a escadinha do terraço do primeiro andar de uma casa ali perto – um degrau após o outro, com a cautela trêmula da extrema velhice. Seu rosto estava encarquilhado e negro como uma máscara de obsidiana. A boca, sem dentes, era chupada. Nos cantos dos lábios, e de cada lado do queixo, luziam alguns pêlos espetados, quase brancos contra a pele escura. Os cabelos compridos, não trançados, caíam-lhe em madeixas grisalhas pelo rosto. O corpo era curvado e tão magro que parecia não ter quase mais carne sobre os ossos. Muito devagar ele descia, parando em cada degrau antes de arriscar outro passo.
- O que é que ele tem? - sussurrou Lenina. Estava com os olhos arregalados de horror e espanto.
- Ele é velho, simplesmente - respondeu Bernard, com toda a indiferença que lhe foi possível aparentar. Estava também sobressaltado, mas fez um esforço para se mostrar imperturbável.
- Velho? - repetiu ela. - Mas o Diretor é velho, e há uma porção de gente que é velha, e no entanto não são assim.
- É porque não deixamos que fiquem assim. Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente.
Por isso, sem dúvida, eles não têm esse aspecto. Em parte – acrescentou – também porque a maioria morre antes de atingir a idade daquele velho. A juventude quase intata até os sessenta anos, e depois, zás! O fim. (grifei)

Para concluir, é possível perceber que tanto realidade quanto ficção caminham de encontro à adoção de uma civilização “perfeita”: saudável, apascentada, feliz, produtiva e jovem. E isso, certamente, vai para a conta de alguém, pois há políticos e fanáticos envolvidos. Aliás, há o ser humano envolvido.
Num primeiro momento é forte a vontade de tratar um tema tão perturbador como teoria da conspiração. É mais fácil, prático. Pensar o contrário leva a considerar que muita gente, há muitos anos, está mancomunada num propósito de alienação e domínio do homem, algo perigoso e surreal – e muita gente sente preguiça só em pensar nisso. Contudo, teimosamente as evidências estão aí. E não só HUXLEY, mas também George Orwell, no livro 1984, há tempos denunciaram. Há vários Comitês, Painéis e medidas no âmbito global, intragovernamental e doméstico que teimosamente insistem em caminhar “pari passu” com essas denúncias, como as feitas por SANAHUJA.
No plano real, palpável, apesar de tanto se falar em direitos humanos, vemos que muitas resoluções e decisões são no sentido de desprestigiar os idosos e os doentes, bem como evitar o nascimento de “pessoas indesejadas” (geralmente filhos de pobres). O discurso torna-se vazio ante a realidade cortante da negativa de direitos que não deveriam ser sonegados, ainda mais com justificativas tão absurdas. É triste ver autoridades de organismos internacionais com intensões escusas lançando mão de discursos tão discriminatórios, contando com o endosso de autoridades locais, como o ministro japonês ou julgadores brasileiros, acompanhados de nossos legisladores, que, entre tantas ações menores, lançam pegadinhas para negar o tratamento de doenças tão sérias e cruéis.
Também é importante salientar que enquanto a medicina e talvez a farmacologia avançam para dar mais qualidade de vida e longevidade ao ser humano, os governos parecem fazer de tudo no sentido contrário. O número de pessoas que apresentam doenças degenerativas é enorme. O câncer se transformou numa doença tão banal que ninguém teme dizer seu nome, como faziam os antigos ao chamá-lo de “doença ruim”. Em recente entrevista, Lair Ribeiro, médico cardiologista e nutrólogo, afirmou os males causados, com a bênção estatal, pelo brometo contido no pão francês, pelo cloro contido na água de beber e das piscinas e pela exposição da população ao flúor nas pastas de dente, além de lembrar que 5 nutrientes importantíssimos faltam aos brasileiros: Vitamina D, Iodo, Cálcio, Ômega 3 e Magnésio 25.
Cadê a preocupação das autoridades e dos profissionais da saúde ligados ao Estado? Um trabalho bem feito poderia prevenir muitos males, mas parece que não é desejado.
A agenda vai sendo tocada. Firme e forte, vão sendo retirados aos poucos os direitos através de subterfúgios como aquele do tratamento de câncer. Com efeito, com a adoção de práticas progressistas que advogam o dinamismo do Direito, não raro encontramos soluções que vão transformando o conteúdo e o sentido de leis para invariavelmente prejudicar, ora tirando dinheiro do contribuinte para assegurar direitos que nunca chegarão, ora para impor e cobrar o cumprimento de requisitos criados com a finalidade de exclusão, criando dificuldades para vender (mas não entregar) facilidades. Tudo isso não sem contar com o auxílio luxuoso do Judiciário e do Ministério Público.
Quem viver verá! E desde já deve pedir ao seu poder superior que o garanta com saúde e produtivo, inclusive na velhice, para não ser “expelido” pelo sistema.

Notas
1 Sanahuja, Juan Claudio. Poder global e religião universal. Campinas: Ecclesiae, 2012;
2 Atualmente diz-se que tais valores são determinados pela civilização ocidental (ou cultura judaico-cristã, ou eurocêntrica);
3 PEIXOTO, Fernando César Borges. Comentário sobre o domínio da semântica como instrumento revolucionário. Disponível em <http://fernandopeixoto-es.blogspot.com.br/2015/08/comentario-sobre-o-dominio-da-semantica.html>. Acesso em 27/08/2015;
4 SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015, p. 31;
5 Carvalho, Olavo de. Falsos segredos. Diário do Comércio, 14/01/2010. Disponível em <http://www.olavodecarvalho.org/semana/100114dc.html>. Acesso em 28/07/2015;
6 SANAHUJA, Juan Claudio. Ob. cit., p. 32;
7 O FMI propón recortar as pensións polo envellecemento da poboación. Fundación para la Defesa de los Consumidores. Santiago de Compostela (Galícia/ES), 12/04/2015. Disponível em <http://fundeco.info/fundeco/content/view/4705/>. Acesso em 21/07/2015;
8 VICESA, Daniel. Los ancianos viven demasiado y es un riesgo para la economía global, hay que hacer algo ya. Disponível em <http://victoriadelaluzsazo.blogspot.com.br/2014/09/christine-lagarde-fmi-los-ancianos.html>. Acesso em 13/07/2015;
9 Ministro japonês de 72 anos diz que idosos devem se “apressar e morrer”. Globo.com, 22/01/2013. Disponível em <http://oglobo.globo.com/mundo/ministro-japones-de-72-anos-diz-que-idosos-devem-se-apressar-morrer-7365724>. Acesso em 21/07/2015;
10 SANAHUJA, Juan Claudio. Ob. cit., Capítulo 2: Os novos paradigmas éticos, Título II: O novo paradigma de saúde, págs. 32-34;
11 No caso do aborto, esse descarte é mascarado como resposta à questão do filho indesejado ou com problemas na saúde física ou mental;
12 SANAHUJA, Juan Claudio. Ob. cit., págs. 33-34;
13 Rover, Tadeu. Seguradora pode limitar contrato de seguro pelo critério de idade. Revista Consultor Jurídico de 21/03/2015. Disponível em <http://www.conjur.com.br/2015-mar-21/seguradora-limitar-contrato-seguro-criterio-idade>. Acesso em 07/07/2015;
14 TRF-5R, APELREEX 0003102-45.2012.4.05.8500/SE, 1ª Turma, Rel. Des. Fed. Manoel de Oliveira Erhardt;
15 Artigo 5º, inciso II, da CF/1988: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”;
16 Artigo 64, §2º, da Portaria nº 302/2005: “Caso a sociedade seguradora não tenha interesse em renovar a apólice, deverá comunicar aos segurados e ao estipulante mediante aviso prévio de, no mínimo, sessenta dias que antecedam o final de vigência da apólice”;
17 Como exemplo: REsp 1.376.550/RS, Rel. Min. Moura Ribeiro, 3ª Turma, DJe de 12/05/2015; e AgRg no REsp 1.327.491/RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, 3ª Turma, DJe de 28/11/2014;
18 Expectativa de vida dos brasileiros sobe para 74,9 anos, de acordo com IBGE. Portal Brasil, 01/12/2014. Disponível em <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2014/12/expectativa-de-vida-dos-brasileiros-sobe-para-74-9-anos-de-acordo-com-ibge>. Acesso em 13/07/2015;
19 Rocha, Thiago dos Santos. Paciente oncológico que operou em hospital particular tem direito a medicações pelo SUS? Disponível em <http://jus.com.br/artigos/38076/paciente-oncologico-que-operou-em-hospital-particular-tem-direito-a-medicacoes-pelo-sus?utm_source=boletim-diario&utm_medium=newsletter&utm_content=titulo&utm_campaign=boletim-diario_2015-08-04#>. Acesso em 06/08/2015;
20 TRF-4, Apel. Cível 5070356-06.2012.404.7100/RS, Rel. Des. Federal Vivian Josete Pantaleão Caminha, 4ª Turma, DJE de 02/07/2014;
21 GARSCHAGEN, Bruno. Pare de acreditar no governo... Rio de Janeiro: Record, 2015, págs; 65-66;
22 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 5. ed. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979, págs. 9-36. Disponível em http://livrosdamara.pbwiki.com.br. Acesso em 21/02/2015;
23 HUXLEY, Aldous. Ob. cit., p. 36;
24 HUXLEY, Aldous. Ob. cit., p. 66;

25  Entrevistando o Dr. Lair Ribeiro – Os alimentos que fazem bem e mal para a saúde. Horizonte Revelado, 24/06/2014. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=-ovy7ZoRTyM>. Acesso em 28/07/2015.


Referências
CARVALHO, Olavo de. Falsos segredos. Diário do Comércio, 14/01/2010. Disponível em <http://www.olavodecarvalho.org/semana/100114dc.html>. Acesso em 28/07/2015.
GARSCHAGEN, Bruno. Pare de acreditar no governo... Rio de Janeiro: Record, 2015.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 5. ed. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979. Disponível em http://livrosdamara.pbwiki.com.br. Acesso em 21/02/2015.
PEIXOTO, Fernando César Borges. Comentário sobre o domínio da semântica como instrumento revolucionário. Disponível em <http://fernandopeixoto-es.blogspot.com.br/2015/08/comentario-sobre-o-dominio-da-semantica.html>. Acesso em 27/08/2015.
SANAHUJA, Juan Claudio. Poder global e religião universal. Campinas: Ecclesiae, 2012.


SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, especialista em Direito Público pela Faculdade de Direito de Vila Velha e em Direito Civil e Processual Civil pela Faculdade Cândido Mendes de Vitória.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Cinema com a miss


Finalmente, Tonny Doido conseguiu marcar um cineminha com Miss Pancake, uma das meninas da escola, numa época em que a divisão se dava por séries, e não por anos. No lugar de ensino fundamental, médio e superior, havia o 1º grau, dividido em primário e ginásio, o 2º grau e o 3º grau (faculdade).
Sessão das três da tarde...
Naquele dia, ele almoçou antes do meio dia. Viu as roupas de “bagagem” que estavam limpas. Não sabia se ia com a camisa da Giló ou da Hot Stick, acompanhando a calça carpinteiro da Company e tênis Cantão 4. Não queria ser chamado de arigó ou “mal arrumado” novamente, como fizeram os playboys da Moreira César, em Icaraí, na última vez que batera pernas por aquelas paragens.
Olhou a carteira. O dinheiro dava para as passagens, as duas entradas, a pipoca, o refri e sobrava para a caixinha de Mentex. Nada mais.
Marcaram em frente ao Cinema Central, às duas e meia, para conversarem um pouco antes de começar o filme.
No caminho, uma menina lindinha estava no mesmo ônibus, sentada um pouco mais à frente, do outro lado do corredor. Cabelinho louro, encaracolado, parecia uma carneirinha. Já haviam se esbarrado em algum lugar, mas não lembrava onde. Provavelmente em alguma “festa americana” em que deve ter entupido as fuças de batida de pêssego, cerveja barata e vinho de garrafão, comido uns pastéis queimados e sacanagem (petiscos servidos num “palito de dente”), e ouvido Raul e Legião, com os caras mais velhos no fim tocando Leãozinho e Beto Guedes para ficarem com as minas.
Começou a caminhar do ponto final do ônibus em direção ao cinema, e notou que ela, a carneirinha, estava ao seu lado.
Atravessou a Rio Branco e ela também. Passaram pela lanchonete, atravessaram a Rua da Conceição e pronto. Um monte de gente em frente ao cinema. Chegaram às duas e vinte e dois, oito minutos antes do horário marcado.
Buscou com os olhos, ficou na ponta dos pés para ver se encontrava a Miss Pancake, e nada.
A carneirinha, a seu lado, fazia o mesmo, como que repetindo seus passos.
Minutos depois, ficou na ponta dos pés novamente, enfurnou-se no meio do povo e... nada (de novo!).
Não sabia se comprava as entradas.
Nervoso, olhava para o lado; andava de um canto a outro, por toda a extensão do cinema indo até à esquina próxima aos Correios. Nada!
A fila para entrar começava a se formar. O local já apresentava certa organização. Abriram-se as portas do Cinema. Saiu uma renca de gente, enquanto outra leva começava a entrar.
Ele perguntou na bilheteria se ainda havia ingressos e obteve sim como resposta. O velhinho míope informou ainda que a galeria não estava cheia.
A frente do cinema ficou vazia. Faltavam dez para as três e apenas Tonny Doido e a carneirinha estavam na calçada, enquanto casais e avulsos esporádicos entravam já sem a confusão. Cruzaram o olhar pela primeira vez. Trocaram um sorriso sem graça, de canto de boca, envergonhados.
Resolveu comprar os ingressos. Sabia que o dinheiro ia fazer falta, mas não podia arriscar, porque depois das três não seriam vendidos mais para aquela sessão.
Olhou de novo a carneirinha. Vestido branco, corpo queimado de sol, marca de biquíni aparecendo. Linda. Preferia tê-la convidado no lugar da Miss Pancake. Pelo menos era pontual.
Faltavam cinco para as três.
Ambos caminhavam de um lado a outro no lado de fora do cinema, em passos apertados, e se cruzavam no meio.
Ele resolveu arriscar o início de uma conversa, para matar o tempo:
- Levamos um bolo.
Ela assentiu com a cabeça:
— Parece que sim. E o filme é tão interessante. Rock Estrela. Adoro Léo Jayme.
— Eu também. Comprei o LP. Não tem essa música, mas é muito bom.
Ela falou que não tinha o LP — era mais "papo" de menino comprar essas coisas.
A conversa animou. Seu plano de fazer o tempo passar dava certo. E aí ele pensou se deveria convidá-la para entrarem juntos. Era estranho, mas faltavam dois minutos para as três.
E aí, convido ou não convido? Remoía em sua cabeça de adolescente.
Ainda conversavam quando resolveu dar a última olhada para os lados do ponto de ônibus.
Lá vinha a Miss Pancake: passos desleixados, bem devagar, com uma marra que não lhe convinha.
Ele olhou para o lado e falou:
- Acho que não vou levar mais bolo. A gente se vê por aí?
- Sim. Bom filme. Vou para a Mesbla ou andar pelas galerias de Icaraí. Não vou entrar sozinha no cinema.
Talvez ela não tivesse dinheiro, e contava com o da sua companhia para pagar a entrada. Mas, de seu lado, Tonny não tinha dinheiro para pagar mais uma, infelizmente. Teria feito de bom grado.
- Então, tá. Tchau.
- Tchau.
Caminhou apressado para a roleta e apresentou as entradas. Eram três e um, e já se encaixava na roleta, ainda sozinho. Voltou um pouco, colocou a cabeça de fora, estendeu o bração e fez assim com a mão para Miss Pancake apressar o passo.
Deu a última olhada na carneirinha que se afastava, com passos de gazela.
Eles nunca mais se viram.


Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor, ensaísta, contista e cronista, além de saudosista