segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A dona de nome engraçado



Ela tinha vergonha do nome. Como queria trocá-lo na Justiça, juntava dinheiro para pagar ao advogado. Disseram que na Defensoria Pública era de graça (apesar da imensa carga de “impostos”, há quem ache que recebe “serviço grátis do Estado”), mas, nas vezes em que esteve lá, a experiência não foi boa. Ficava constrangida com a atitude do jovem ajudante da Defensora, que vinha com a pasta na mão, e começava a gritar, satisfeito:
- Dona Bucetildes! Dona Bucetildes!
Porque a gargalhada era geral, ela não ousava se identificar. Então, esperava que chamasse outra pessoa para sair de fininho, e voltar pra casa. Depois da terceira vez, desistiu.
Gostava de ser chamada de Tilde, e atendia até um "Matilde". Quando possível (ou necessário), dava o segundo nome: Felicidade. Bucetildes Felicidade Amaro era o nome de solteira, ao qual foi acrescentado o Pinto, do marido. O sobrenome, aliás, quase a fez desistir de casar; e no dia do casamento, na hora do compromisso, o Padre mal falava seu nome, ela respondia apressada:
- Aceito!
Jamais perdoou o pai por descontar nela a raiva que sentia da sua mãe, que fez da vida dele um inferno nas semanas que antecederam o parto. Chegando ao cartório, ele mandou o escrivão registrar o nome da filha igual ao que estava escrito no guardanapo que entregou.
Em verdade, parece que a gravidez alterava profundamente o psicológico de sua mãe, pois a segunda filha foi batizada como Popozilda. Essa, porém, não se importava. Ao contrário de Bucetildes, nome que só trazia desgosto, Popozilda era o nome artístico ideal para a promissora carreira de funkeira, a qual ela havia abraçado.
* * *
Enfim, uma sentença autorizou Bucetildes a trocar o nome. Mas, tão-logo efetivada a mudança em cartório, seu Pinto, o marido, faleceu. Nem puderam comemorar. Ela, então, resolveu mudar de cidade. Queria uma vida nova, com o nome novo que havia escolhido: Flamenguina.
Sim, Flamenguina! Sendo filha de quem era, não poderia, realmente, ter o gosto bem apurado. E isso quase levou a juíza a negar o pedido de alteração. Porém, como era adepta do politicamente correto, autorizou, alegando que “a mulher pode ser o que quiser”, e “gosto não se discute, no máximo se lamenta”.
A agora Flamenguina ainda era jovem, e possuía encantos. Não era assanhada e cavalona como Popozilda, mas contava com um belo corpo e um it natural. Recebia não raros elogios na rua, e o assédio de maridos infelizes, com suas mulheres infelizes, algumas até conhecidas.
* * *
Foi morar no subúrbio da capital de outro estado. Uma comunidade de certa forma tranquila. Tão logo chegou, começou a chamar a atenção dos pançudos e pinguços das redondezas. Mas as esposas, embora ciumentas, também se afeiçoaram a ela, com raras reações contrárias.
Aquela com quem possuía mais afinidade, e que acabou como uma espécie de conselheira, era a maior fofoqueira do bairro, e exatamente aquela que dizia que sua boca era um túmulo.
O tempo passou e, certo dia, num ataque de sincericídio, Flamenguina contou a Arminda – era como se chamava –, seu nome antigo. Arminda, por sua vez, chegou a perder o fôlego de tanto rir. No fim, ambas riram muito.
Mais adiante, a conselheira pediu uma quantia significativa de dinheiro emprestado, dando a certeza de pagar em poucos dias. Mas o acordo não foi cumprido, e Flamenguina foi deixada em palpos-de-aranha. Ela reclamou. Nada adiantou e ainda perdeu a amiga.
Para piorar, a partir de então, por onde passava, ouvia um zum-zum-zum, risinhos abafados. Não demorou muito, descobriu o motivo: uma desaforada e ciumenta, conhecida por apanhar do marido, fez um comentário em alto e bom tom sobre certa genitália ambulante, conhecida por todos do bairro.
Flamenguina foi conversar pessoalmente com Arminda, queria ouvir de sua boca se era capaz de tamanha falsidade. Sequer considerou o peculiar conceito de moral da “amiga”, que já a havia traído anteriormente.
Chegando à casa, tocou a campainha, e o neto endiabrado de Arminda, com seis anos, atendeu. Mal a deixou entrar, saiu correndo e gritando pelo corredor:
- Vovó, Vovó, é aquela moça com nome de xereca.
Uma voz lá de longe berrou:
- Menino desgraçado!
Engolindo grosso, foi embora. Triste, pensou em mudar de cidade novamente. Viu que tinha muito ainda que aprender com a vida, e que talvez devesse assumir que o nome era a sina da qual jamais se livraria.
Agora, porém, Flamenguina (ou Bucetildes) possuía algumas certezas: a sua beleza suscitava invejas; não deveria confiar tanto nas pessoas; e precisava, definitivamente, exercitar sua espiritualidade.


Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O conservador de escol




Luís Henrique Palhares de Albuquerque Leitão fazia questão de ser antecedido pelo título de Comendador, conquistado há anos, ao ser agraciado com a Medalha Tupinambá, maior comenda distribuída pelo Município de Araruama, na Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Sua família havia conhecido a riqueza, mas agora era decadente. Custava-lhe compreender a loucura de famílias tradicionais empobrecerem enquanto surgiam novos-ricos aos borbotões.
De ocupação incerta, um homem que ainda não havia chegado aos quarenta, fazia uso de linguajar por vezes erudito, por vezes empolado. Fumava charutos cubanos, bebericava vinhos e uísques refinados, e usava gravata borboleta, suspensório, bengala, relógio de bolso e pince-nez. Em alguns compromissos, um chapéu panamá completava o vestuário.
Dizia-se um conservador de estirpe, alguém com lastro para enfrentar um mundo moderno que, a seu ver, ia sendo tragado por questões de segunda linha, como discussões sobre a destruição sistemática da Cultura Ocidental por esquemas de poder global. Achava tudo isso um tédio, fruto de teorias da conspiração. Ora, pensava, bastaria impulsionar a economia, para a pujança financeira esmagar todos os problemas. Essa era a sua simples resposta ao “caos”.
Gostava de caminhar por seu bairro de classe média, e de empreender conversas com vizinhos e frequentadores, qualquer que fosse sua camada social. Considerava-se imerso em verdadeiros estudos sociológicos, os quais, um dia, pretendia ver compilados num livro de sabedoria popular. Embora fosse tratado com reservas, em razão da excentricidade da figura peculiar e de linguajar não usual, pensava que era em respeito a sua classe.
O interlocutor preferido era um faz-tudo bastante requisitado no bairro. Esperto e comunicativo, fazia desde compras de supermercados até limpeza de terrenos para seus fiéis clientes, e ainda tirava os sábados para lavar carros no decorrer do dia. O Comendador sentia uma necessidade irresistível de saber da vida alheia, e não se importava em atrapalhá-lo na execução dos serviços, nem se envergonhava pelo fato do rapaz saber que o seu carro era sempre limpo pelas mãos de outro lavador, que cobrava menos.
Certo dia, enquanto era interpelado sobre a mobília da casa de um coronel aposentado, que ficava no fim da rua principal, Miguel – era o nome do faz-tudo – fez um comentário atípico, sobre uma mocinha muito bonitinha que vinha pela calçada.
- Lá vem a galinhona que passa na mão de tudo que é noiado da rua de baixo. – Não gostava dela porque havia inventado várias histórias maldosas e contado para a caixa do mercadinho, em quem ele dava umas beliscadas vez em quando.
O Comendador cultivava certa afeição pela moça que fora alvo da ofensa e, chateado, disse ao rapaz:
- Não vos comporteis de forma leviana, e com esse ar empertigado, meu caro. A dama merece tratamento respeitoso.
Num misto de surpresa e aborrecimento, e desinteressado em traduzir o que havia acabado de ouvir, ele respondeu:
- O Sr. sempre fala assim, tão difícil, que imagino que tenha fodido muito quando era mais novo, hein, Comendador?
Enrubescido, o Comendador lançou um olhar estupefaciente enquanto emendava:
- Não tanto quanto desejei, nobre rapaz, mas andei por aí dando galopes em algumas potrancas, e me embaralhando com cabrochas.
- Eu quis dizer a paciência dos outros, Comendador - retrucou o outro.
De início, o silêncio; depois, o desespero. Com essa observação, acabrunhado, o Comendador titubeou por alguns segundos, que pareciam horas, e se retirou, dizendo que devia voltar para casa.
Ao chegar, dirigiu-se à sala de fumo (na realidade, o quartinho de empregada) do apartamento de dois quartos, para experimentar os Monte Cristo que ganhara do único primo abastado. Serviu-se de uma taça de xerez, e pôs-se a meditar sobre os jovens indelicados produzidos pelas escolas desses tempos de “ai meu Deus”.
Matutou por muito tempo, e concluiu, como sempre, que se a economia estivesse “bombando” (ele gostava do linguajar pós-moderno), jamais haveria conversas como essa. O mancebo mui provavelmente andava envolto em problemas, e certamente adotaria comportamento adequado diante do fidalgo se estivesse com os bolsos cheios de dinheiro, circunstância que, para esse último, transformava qualquer pessoa num ser humano de boa cepa como num passe de mágica, e livrava a sociedade de suas mazelas.
Fazendo roscas de fumaça, encerrou-se em seus pensamentos.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, até certo ponto, é um saudosista.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Inferno dantesco



A tempestade que caiu na hora do rush da tarde impediu que Paranhos deixasse o escritório, onde chegava, todos os dias, britanicamente, às sete e meia da matina.

O trânsito não andava, as ruas do velho centro da cidade alagavam, e como nada poderia ser feito, aproveitou para adiantar tarefas do dia seguinte, já que desde a demissão de dois funcionários para contenção de despesas, estava sempre sobrecarregado de serviços.

Apesar disso, não estava infeliz, e muito menos engrossava o coro dos descontentes que adoravam demonizar o patrão. Afinal de contas, era outra crise econômica daquelas, e o cara conseguia manter a empresa de pé, mesmo com a enorme lista de tributos pagos mês a mês, e os clientes fugindo ou não pagando os serviços prestados. Dava, isso sim, graças a Deus por estar empregado e receber em dia.

Lá pelas oito e meia da noite, a situação melhorou um pouco, e ele resolveu puxar a carroça. Foi para o ponto, esperar o ônibus da única linha que atendia seu bairro, no subúrbio. Nos dias de aumento da demanda, táxis não rodavam no taxímetro, e os aplicativos também funcionavam “no tiro”, por conta da pesada tributação. Estava resignado, pois não podia pagar.

Chegou em casa às dez e trinta e cinco, todo molhado, e foi tomar banho. A mulher e a única filha, adolescente, haviam ido dormir, e sua janta estava servida num prato que estava envolto e amarrado por um pano, e pousava sobre a panela já com água, pronta para o banho-maria.

Sentiu que a resistência do chuveiro havia queimado outra vez, e não teve saída: tomou um banho “tcheco” gelado, xingando sua sorte internamente, com todos os nomes feios que conhecia, e anteviu uma gripe forte para os próximos dias.

Colocou a comida para esquentar e serviu-se de uma dose da pinga “da boa” que o vizinho havia trazido da roça, com muitas recomendações de “a melhor que já tomei na vida”.

Já estava quase cochilando sobre o prato de comida, quando a mulher levantou para ir ao banheiro, e deu-lhe um susto ao abrir despreocupadamente a porta empenada do quarto, cujo barulho se ouvia lá na esquina. Após as últimas garfadas, foi deitar. Antes de dormir, rezou Ave-Maria e Pai Nosso. Pediu pela saúde de seus sogros, da mulher e da filha, e pelas almas dos pais e da cunhada, morta dois meses antes.

Logo, logo adormeceu. E foi aí que tudo começou.

Primeiro, viu-se com a família no Polo Comercial da Cidade, uma grande avenida, no dia da parada gay, que não sabia que tinha sido programada. Para sair do meio da confusão, entrou numa pequena galeria de doze lojas, no máximo. Por seus cálculos, se pegasse a saída dos fundos, chegaria ao seu carro, que deixara num local afastado, para não pagar o estacionamento. Foi entrando.

Na vitrine da terceira loja, estavam expostos vários pênis de borracha, de todos os tamanhos, e um rapaz de sunga fio dental, bem na porta, conversava alto com o vendedor, dizendo que queria comprar um sapato de salto descomunal, porque o dele havia quebrado no desfile.

Ao passar com sua família, eles os olharam com cara de deboche, talvez pelo misto de vergonha e assombro estampado em seus rostos. Mas o pior estava no interior da loja: uma série de manequins com pênis salientes, vestidos por lingeries sexys e mínimas.

Após alguns passos, percebeu que algumas lojas estavam fechadas com anúncio de aluga-se.

Ao fundo, no lugar da saída, havia a porta de um Templo, com a imagem de um santo numa gruta bem ao lado. Respirou aliviado, e nem se deu ao trabalho de perguntar o que estaria fazendo, ali, uma Igreja Católica.

Entrou com a família, e viu cabritos, pessoas dançando – com roupas semelhantes às usadas na parada gay –, luzes de boate e algumas imagens de deuses hindus... Ficou chocado. Conseguiu alcançar um altar lateral, onde havia várias velas acesas e outras por acender, por quem fosse fazer pedido ou oração. Acendeu uma e pediu a Deus que perdoasse a si e a todas as criaturas que viviam em pecado. Em seguida, fechou os olhos por alguns segundos. Agora, a luz era fraca, e sua atenção foi chamada para olhar um homem que estava lá adiante, num palco iluminado, falando como se fizesse uma homilia.

Com a aparência de Jesus Cristo no Santo Sudário, estava vestido como as pessoas se vestiam em Seu tempo. Porém, ele pregava uma nova religião, suas palavras apontavam o caminho de um ecumenismo que faria surgir a religião universal, um misto de elementos de todas as religiões, em que se pregaria o respeito a tudo e a todos, conferindo idêntico valor aos homens, aos animais e à natureza, e que se prestaria culto, em pé de igualdade, ao Deus-Pai e à Mãe-Terra.

Perguntou quem seria o sujeito, e alguém de olhos vidrados esboçou um nome impronunciável. Disse que era o novo Messias, que havia abandonado uma vida de abundâncias para levar palavras de amor, paz e fraternidade a todos os povos. Os devotos estavam num transe coletivo, falavam em línguas estranhas, viravam os olhos...

Naquele momento, Paranhos viu que borrifadores espalhados por todo o recinto, que era grande, espirravam um líquido de cheiro estranho. Ele puxou mulher e filha pelos braços, e juntos saíram pela porta lateral, que dava num corredor que, enfim, alcançava a rua onde havia deixado o carro. Duas pistas precisavam ser vencidas, e ele foi à frente, para trazer o carro mais para perto. Estava tudo muito deserto por ali, e quando começou a manobrar o carro, sua esposa bateu no vidro, pedindo para entrar.

Perguntou pela menina, e ela respondeu que a havia deixado no parquinho, se divertindo. Quis voltar, mas ela disse para seguirem direto pra casa, porque havia algo urgente a fazer. Ele seguiu em frente e, chegando a casa, foi vencido por um sono irresistível. De repente, acordou e começou a procurar a filha, sem achar. Passou, então, a gritar pela mulher, perguntando da menina. Desespero total.

Agora ele realmente acordava, assustadíssimo, do sonho em que estava sonhando, e constatou que seus gritos jamais seriam ouvidos, pois a chuva e o banho gelado lhe presentearam, antecipadamente, com uma afonia e uma tosse de cachorro.

Eram quatro e meia da manhã. Esticou as mãos para o lado, e sentiu que a mulher estava ali, dormindo. Levantou, e conferiu que a filha estava na cama. Voltou ao seu quarto, e ajoelhou ao lado da cama, pedindo a Deus que salvasse suas almas. Havia descido ao inferno e voltado.



Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, até certo ponto, é um saudosista.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Smith Silva




Smith, sobrenome Silva, chamado de Shit por muitos, era um microempresário moralmente fracassado que, há pelo menos 10 anos, participava da “Academia da Birita”, grupo de 30 pessoas que se reunia às quartas e aos sábados para beber, comer, e jogar cartas e conversa fora. Dela participavam professores, empresários de todos os portes, profissionais liberais, servidores públicos, poetas e boêmios. O local de encontro era um boteco bem localizado e frequentado, plantado no coração do bairro mais nobre da cidade.
As vagas eram bastante disputadas, e seus membros só saíam no caixão. E se só se saía no caixão, evidentemente, ninguém arredava o pé de lá. Mas, infelizmente, eram amigos de boteco, local que, embora sugira um aparente catalizador de amizades, há também muita falsidade. Parte dos membros era de desajustados, que lançavam impropérios e faziam críticas pesadas contra “acadêmicos” ausentes. Às vezes o faziam na presença mesmo. Eram os “peregrinos”, que, pulando de grupelho em grupelho, pregavam maledicências de uns contra os outros, e de outros contra uns.
Nitidamente, os mais infelizes ocupavam a vida a falar de dinheiro, e invejavam e difamavam os que haviam obtido sucesso, sem, contudo, poupar outras pessoas. Uns chegavam a tomar por ofensa pessoal o fato de alguém ser financeiramente melhor sucedido.
Mas quem mais provocava suas frustações e seu desprezo, eram os que não haviam enriquecido e mesmo assim viviam felizes. Principalmente, porque, desses cidadãos de segunda classe, não era possível obter quaisquer vantagens. Questionavam-se, afinal: como alguém pode ostentar tamanha felicidade, tal estado de espírito, sem dinheiro no bolso ou no banco?
Naquele dia, Smith procurava Timóteo, que havia lhe pedido para conseguir o cartão de apresentação de Felício, um contador que frequentava o mesmo local, e com quem tivera um entrevero semanas antes.
Não era um pedido, mas uma ordem. E embora Smith soubesse que Timóteo iria prejudicar Felício, usando a influência e o prestígio de que gozava perante pessoas influentes, que participavam de uma sociedade secreta da qual era membro prestigiado. Aliás, tais figuras não se fariam de rogadas para vasculhar a vida e entregar informações confidenciais de qualquer pobre diabo, para atender a interesses escusos de confrades.
O microempresário simplesmente não se importava com a sorte de Felício, já que esse pobre coitado lhe provocava uma inveja figadal e silenciosa. Ademais, não poderia deixar de ser útil a Timóteo, pois não se menosprezava a gratidão de alguém de tamanha envergadura.
A desavença entre Timóteo e Felício havia alcançado os campos político, filosófico e comportamental, e Timóteo não se conformava em perder um debate, ainda porque o opositor reunia um arcabouço intelectual muito superior. Isso era inaceitável.
Feito o serviço, Smith se emocionou ao receber um abraço “afetuoso” de tamanduá. Pediu uma pinga, espremeu meia rodela de limão, lambeu uma pitada generosa de sal, e se recolheu em pensamentos que atormentavam sua vida desinfeliz, como a esposa insatisfeita, os filhos que não o suportavam, os amigos que não se importavam. A única coisa que o consolava era lembrar o valor de suas economias, que já estavam na casa dos milhões.


Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Um causo no interior



Naquela época, Dr. Tomás beirava os cinquenta anos. Não era um homem bonito, nem feio. Estava na melhor forma física de sua vida, fruto de uma operNaquela época, Dr. Tomás beirava os cinquenta anos. Não era um homem bonito, nem feio. Estava na melhor forma física de sua vida, fruto de uma operação bariátrica bem-sucedida; e sua carreira o permitia ter acesso a certos prazeres da vida.

Estava no interior para acompanhar o sobrinho de um grande cliente, intimado para uma audiência no Judiciário.

A população do Município, na maior parte, era formada de descendentes de italianos e de alemães que traziam a preservação das tradições muito presente, como era possível verificar, inclusive, na arquitetura dos prédios.

Não havia chegado cedo o suficiente para o almoço, e resolveu lanchar. Como não havia lanchonetes por ali, recorreu a um botequim que lhe pareceu limpo e confiável.

Foi direto à estufa sobre o balcão, para ver o que lhe esperava.

A proprietária o atendeu, e foi logo dizendo que o “serve selfice” havia sido recolhido, mas se ofereceu para fritar uns pastéis ou até um bife, se fosse necessário.

Ele não quis incomodar, e perguntou sobre o enroladinho de salsicha que estava ali, dando sopa. Pela aparência, era “de hooooje”, mas surpreendentemente o sabor não era ruim. Comeu dois, acompanhados de uma coca de garrafa de vidro.

Agora o estabelecimento estava vazio. Os dois fregueses remanescentes do almoço deram a última lapada na pinga que degustavam, assim que o estranho adentrou o recinto. Um papudinho chamou o outro e foram embora. Era normal que, àquela hora, o pessoal da cana estivesse descansando para se preparar para o “turno da noite”.

Ela puxou assunto com o freguês. Era uma jovem senhora, não muito bonita, mas bastante comunicativa, como deve ser mesmo todo comerciante.

Tomás havia saído de seu estado natal, Rio de Janeiro, há muito, mas pensou na diferença daquela comerciante para os Manoéis e Joaquins dos botecos da Baixada Fluminense — grossos iguais a pentelho de barrão, como diria o comediante cearense Mução.

Ele, que pensava ter perdido o sotaque, achou engraçado quando ela afirmou que ele não era dali. Também não atinou para o fato de que, numa cidade pequena, todo mundo se conhece.

Respondeu com uma afirmativa, e o papo avançou, até que ele dissesse que era do Rio, mais precisamente de Belford Roxo, um lugar de muita violência, que talvez fosse difícil para ela imaginar.

Ela surpreendeu ao dizer:

- O senhor é que pensa. O interior está ficando perigoso.

A TV estava ligada, noticiando em plantão um atentado terrorista contra um candidato à Presidência da República, único do espectro da direita política em trinta anos de abertura no país. Havia uma forte comoção. 

Ele insistiu, dizendo que, pelo menos, aquele tipo de violência não existia por aquelas bandas, mas ela respondeu:

- Ahã! Dia desses, um carro sinistro estava rodando a cidade, vidros tão escuros, não se via nada lá dentro. De repente, uns bandidos saltaram e assaltaram a Farmácia. Deram um tirambaço na moça que não conseguia abrir a caixa registradora. Todo mundo ouviu. Foi uma correria desgraçada por isso aí tudo. Só dois policiais no plantão, e o senhor  acha que eles colocaram a cabecinha de fora? De noite, eles nem saem. Fica tudo lá no posto, quietinho, com o cuzinho apertadinho, fingindo que num tem ninguém lá... – e fechou o indicador e o polegar da mão direita até não poder mais, de forma que, realmente, não poderia passar nem vento.

De repente, surgiu o marido, até então em silêncio, do fundo do bar. Carregava um prato com uma montanha de comida, já destroçada pela metade. Deu um trupicão ao bater com a sandália havaiana numa falha do piso, e por pouco não saiu da cena tão rápido quanto entrou, para ganhar a rua arrastando o banjo no chão.

Dizia ele, momentos antes de ter que se equilibrar:

- Ô, mulher! Cê tá conversando esse assunto com quem?

Tomás entendia o porquê de não haver mais comida do “serve selfice”. Tudo parecia estar no prato do comerciante, que ficara espantado ao constatar que a voz desconhecida era mesmo de alguém que ele jamais havia visto.

O clima ficou esquisito, todos estavam, àquela altura, constrangidos, e foi a deixa para o advogado pagar a conta, cumprimentar o casal e ganhar a rua.

E lá se foi, gargalhando gostosamente até chegar ao Fórum, certo de que contaria aquela história para aos netos que esperava um dia ter. E foi o que fez, anos depois, rindo como se tudo estivesse acontecendo de novo.



Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.



terça-feira, 3 de abril de 2018

A ligação



Ele acorda assustado, com a respiração ofegante, sentindo palpitações... Pouco havia passado das três horas da madrugada.
Começa a recobrar a razão e a se situar no tempo e no espaço. Então, dá conta de que havia tido um pesadelo: um telefone tocava insistentemente, com o som daquelas campainhas antigas (triiiiiimmmmm... triiiiiimmmmm...), e quando ele atendia, do outro lado, uma voz de palhaço lhe dizia: - Eu vou te matar.
Ele percebe que no filme que passava na TV – que costumava deixar ligada quando ia se deitar para dormir –, tocava um telefone insistentemente, e a chamada era idêntica à que ouvira no sonho.
Ele dá um sorrisinho, e levanta para ir ao banheiro. Bexiga cheia, a cachoeira não para. Parou.
Resolve pegar um copo com água, e enquanto atravessa o comprido corredor em direção à cozinha, ouve o telefone tocar: triiiiiimmmmm... triiiiiimmmmm...
Ainda sonolento, ele se encaminha para atender, mas no meio do caminho lembra que o telefone de sua casa é sem fio, e o som da campainha é completamente diferente. Mesmo assim, ele se encaminha para atender.
Seis da manhã. Sua esposa acorda, vê que ele não está na cama e lembra que não há alternativa senão levantar para fazer o café da manhã.
Ao chegar à sala, ela encontra o corpo dele caído ao lado do telefone. Sofrera um infarto fulminante.


segunda-feira, 26 de março de 2018

O Mecanismo – crítica ligeira da 1ª temporada

 

(I) Motivação

ATENÇÃO! Pode conter spoiler. Não leia se não quiser saber de fatos da série que retrata a Operação Lava Jato.

Meu interesse em tratar da série “O Mecanismo” vem do assombro de ver/ouvir pessoas misturando ficção e realidade na análise de fatos cotidianos. Quem nunca ouviu que a vida imita a arte com algo como: “é igual à novela; o traficante possui mais consciência social que o dono da fábrica”; ou “é igual à novela; a menina ama o namorado e outro rapaz. Se o namorado gosta dela, tem que aceitar dividir”.

Através de engenharia social, a mídia (e não só ela) manipulou por anos e anos um público sem outras opções de diversão, transformando seu agir e seu pensar, promovendo mudanças comportamentais tão profundas que muitos já não enxergam os absurdos e as contradições que cometem e defendem.

A cada dia são apresentados e incentivados comportamentos e tendências contrários aos valores fundamentais da nossa civilização, e pouca gente nota. Foi assim com a legalização do divórcio, a mundanização do sagrado pela teologia da libertação, a ridicularização do cristianismo, o “casamento” entre gays, o sistema de cotas, a ideologia de gênero, o direito à identidade social... Já estão quase conseguindo aprovar o homicídio de crianças no ventre materno (aborto) e estão nos preparando para aceitar (e depois também impor, como nas situações citadas) o estupro de vulneráveis (pedofilia) e o incesto. Esses temas já entraram no radar, foram deslocados do "setor de assuntos sequer consideráveis para discussões acerca de costume e doença. O próximo passo será a imposição da aceitação, sob pena de persecução penal e punição. É isso o que está previsto na Janela de Overton (ou janela do discurso).

Mas, e o seriado?

É preciso esclarecer algumas coisas antes de continuar essa breve análise. Peço paciência àquele que queira me acompanhar.

Padilha dá sempre um jeito de inserir sua visão utópica de mundo nos filmes em que trata da dinâmica do povo brasileiro (só assisti a esses, sorry!).

Em Tropa de Elite, vemos jovens viciados pacíficos que defendem a liberação de drogas e advogam sobre a conscientização social de criminosos, que são benfeitores das favelas; já do lado das milícias, elas são formadas por policiais da ativa e da reserva, que apenas praticam violência e exploram os moradores das localidades em que reinam. Não os trata como são: criminosos, assim como os traficantes.

O policial honesto é violento, desrespeita as leis que protegem a integridade física alheia (tortura, homicídio etc.), enquanto o deputado consciente e humanista de esquerda, que (tá certo - ele admite -, fuma a inofensiva maconha de forma recreativa, mas) põe sua vida em risco para defender presos, é quem abala as estruturas do “sistema” – embora esse sistema sempre se reorganize.

Dá para perceber a diferença no enfoque? Dá para perceber a similitude com aquilo o que se pensa de Marcelo Freixo, o político queridinho da esquerda caviar?

 

(II)

O seriado da Netflix estreou causando rebuliço nas redes sociais, desagradando a pessoas de posicionamento político à esquerda e à “direita”. O protagonista, Selton Melo, no The Noite de Danilo Gentile, chegou a afirmar que o enredo puxa a brasa para ambos os lados, o que pode ser o motivo das reclamações.

Entretanto, àqueles que vão assistir, aconselho que tenham duas coisas em mente. A primeira é que, embora nomes, datas e fatos estejam muito próximos da realidade política recente de nosso país, é uma obra ficcional, baseada no livro de Vladimir Netto sobre a Operação Lava Jato. Importante saber que Vladimir Netto é filho de Míriam Leitão, a Amélia que lutou junto aos terroristas que tentaram instaurar uma ditadura do proletariado no Brasil nas décadas de sessenta e setenta do século XX.

A segunda, é que o Padilha é um esquerdista talentoso. Ao falar isso, quero lembrar que, antes de talentoso, ele é esquerdista; e como todo esquerdista, ele manipula e desinforma enquanto mescla verdades e mentiras.

(III)

Não é difícil perceber que o seriado adotou a narrativa da esquerda, e utiliza a linguagem da esquerda. Vejamos:

1) Janete foi reeleita “presidenta” da república derrotando o candidato Lúcio Lemes, que pertence a um partido de “direita”. Sim, o PSDB é tratado como partido de direita – nada mais clichê;

2) O “vice-presidento”, Samuel Thames, trama com Lúcio Lemes um “golpe” para a tomar o poder e conter a operação que pode expor o esquema (“mecanismo”) de corrupção que vai atingir os donos do poder, toda a cúpula da política nacional, que está presente nos mais variados partidos;

3) Janete se nega a utilizar a máquina do governo para abafar a operação policial;

4) O ato de “bater panela” quando corruptos petistas apareciam em rede nacional foi tratado com menosprezo;

5) Afirma-se que a corrupção independe de ideologia – é ambidestra, praticada pela direita e pela esquerda. Isso é verdade na medida em que políticos considerados de direita (considerados!) também tinham um preço. Mas não é verdade fazer essa equivalência em meio à narrativa do maior esquema de corrupção já existente no mundo, ampliado de forma incomensurável no período do lulo-petismo (incluam-se os mandatos de Dilma). A série repete o estelionato intelectual praticado por um “pensador” da esquerda que relativiza os crimes ao dizer que quem fura a fila do pão é tão corrupto quanto quem desvia bilhões de reais de dinheiro público e apresenta a conta para a sociedade pagar.

 

(IV)

O enredo trata das “instituições podres”, do “sistema” que se retroalimenta e é impossível ser parado porque independentemente da ideologia política em vigência ele irá funcionar... Já ouvimos isso da boca do capitão Nascimento, ouvimos agora do delegado Marco Ruffo. Ah! Ambos enfrentam sérios problemas com as esposas, em razão da entrega à função que desempenham. A ficção de Padilha insiste em afirmar que quem exerce cargos de chefia nas polícias, e com tendências a virarem heróis, é uma pessoa  infeliz e violenta.

Agora trato da queimadinha de filme no Juiz e nos membros do Ministério Público e da polícia.

6) A polícia abriga um agente desequilibrado que usa o aparato policial para perseguir, abusando de ilegalidades, um desafeto seu. Mais tarde, seus colegas também cometerão irregularidades ao permitirem que ele se imiscua no meio policial após ter sido aposentado. Há, ainda, policiais relapsos, como retratam as cenas que envolvem a campanha de vigilância do doleiro e a busca e apreensão no escritório do diretor da Petrobrasil;

7) Os membros do Ministério Público são retratados como ingênuos, facilmente manipuláveis, e indefesos diante de gente importante e profissional. Há uma guerra de egos entre a Delegada e um Procurador da República retratado como vaidoso e individualista, que apresenta desde acusações de sabotagem involuntária das investigações até ceninhas de afetação durante uma entrevista, na qual um quer sobressair em relação ao outro;

8) O Juiz Paulo Rigo, da 1ª Instância, responsável pela operação, é retratado como um homem que faz sexo de meias e é extremamente vaidoso, a ponto de alterar a assinatura a partir de uma abordagem na rua, quando alguém pede um autógrafo (seu primeiro) numa edição de jornal.

 

(V) – Encerrando as impressões sobre a 1ª temporada

9) O Dr. Mário Garcez Britto, o “Mago” (ou “Bruxo”), é alguém com cacife para costurar um acordo que salve a pele de empreiteiros e políticos. O fato de ter sido Ministro da Justiça de Lula é comentado, mas não explorado. O que importa é que ele atua para livrar o empresariado da cadeia, essa gente inescrupulosa, que corrompe políticos há décadas. Foram mostradas reuniões do grupo dos empreiteiros, mas nenhuma entre políticos tratando da divisão do butim conquistado com os contratos fraudados. Cadê a análise da participação desses políticos nesse esquema? 

OBS.: A personagem representa Márcio Thomaz Bastos (o “God”), advogado criminalista e ex-Ministro da Justiça que deixou a fortuna de 393 milhões de reais a serem divididos entre seus herdeiros. O homem que participou do “governo do povo” de Lula pertencia à elite do país, a mesma elite que Lula trata como inimiga sua e do “povo”, e contraditoriamente alimenta com dinheiro público para criar campeõs nacionais e com quem mantém relações negociais. Não houve qualquer referência a isso também.

10) Enquanto o “Mago” alinhavava um acordo com o chefe do Ministério Público Federal em Brasília, os advogados das empreiteiras se reuniam com os procuradores de Curitiba para propor um acordo e encerrar a operação. Um dos advogados diz algo como: É um acordo para "zerar" a corrupção, como é feito nos Estados Unidos. As empresas pagam, comprometem-se a não cometer novos crimes e tudo fica bem. Ninguém é preso.

Particularmente, eu acho difícil que um acordo que envolva crime de corrupção nos EEUU livre alguém de puxar uma cana, mas...

Padilha vive agora nesses mesmos EEUU que critica, o que chega a ser engraçado. Apesar de bastante simpático ao partido de Freixo - que prega o desarmamento da população, ruas iluminadas e bandidos fora das prisões como forma de combater a criminalidade e a violência -, após sofrer com violência no Rio de Janeiro ele se mudou para onde as leis e o Judiciário são mais rígidos.

De outro lado, “acordo para zerar a corrupção, como nos EEUU” é uma nova generalização tipicamente esquerdista: o grau de nocividade de cada crime isoladamente é desconsiderado. A corrupção é palavra avulsa, sem  sentido quando não se personaliza as figuras do corruptor e do corrompido. Na prática, torna mais fácil livrar a cara do criminoso “amigo”. Causa-se, com isso, o mesmo efeito que as bandeiras: “precisamos combater a impunidade  /violência”, “precisamos lutar pela paz / liberdade / igualdade”...

Mas não é em todo lugar do mundo que as coisas funcionam assim, com essa percepção de generalização. Nem em algumas de nossas instituições, em que algumas situações individuais, dependendo de quem está envolvido, cria uma solução individual.

 

Pense!


 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, pós-graduado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.