No blog, que a minha filha ajudou a criar, pretendo apresentar crônicas, contos, poesias, fábulas, ensaios e artigos sobre política, economia, Direito, história, educação, sociedade, relações humanas, experiências pessoais e ficção.
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
A dona de nome engraçado
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
O conservador de escol
Num misto de surpresa e aborrecimento, e desinteressado em traduzir o que havia acabado de ouvir, ele respondeu:
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
Inferno dantesco
O trânsito não andava, as ruas do
velho centro da cidade alagavam, e como nada poderia ser feito, aproveitou para
adiantar tarefas do dia seguinte, já que desde a demissão de dois funcionários
para contenção de despesas, estava sempre sobrecarregado de serviços.
Apesar disso, não estava infeliz, e
muito menos engrossava o coro dos descontentes que adoravam demonizar o patrão.
Afinal de contas, era outra crise econômica daquelas, e o cara conseguia manter
a empresa de pé, mesmo com a enorme lista de tributos pagos mês a mês, e os
clientes fugindo ou não pagando os serviços prestados. Dava, isso sim, graças a
Deus por estar empregado e receber em dia.
Lá pelas oito e meia da noite, a
situação melhorou um pouco, e ele resolveu puxar a carroça. Foi para o ponto,
esperar o ônibus da única linha que atendia seu bairro, no subúrbio. Nos dias
de aumento da demanda, táxis não rodavam no taxímetro, e os aplicativos também
funcionavam “no tiro”, por conta da pesada tributação. Estava resignado, pois
não podia pagar.
Chegou em casa às dez e trinta e
cinco, todo molhado, e foi tomar banho. A mulher e a única filha, adolescente,
haviam ido dormir, e sua janta estava servida num prato que estava envolto e
amarrado por um pano, e pousava sobre a panela já com água, pronta para o
banho-maria.
Sentiu que a resistência do chuveiro
havia queimado outra vez, e não teve saída: tomou um banho “tcheco” gelado,
xingando sua sorte internamente, com todos os nomes feios que conhecia, e
anteviu uma gripe forte para os próximos dias.
Colocou a comida para esquentar e
serviu-se de uma dose da pinga “da boa” que o vizinho havia trazido da roça,
com muitas recomendações de “a melhor que já tomei na vida”.
Já estava quase cochilando sobre o
prato de comida, quando a mulher levantou para ir ao banheiro, e deu-lhe um
susto ao abrir despreocupadamente a porta empenada do quarto, cujo barulho se
ouvia lá na esquina. Após as últimas garfadas, foi deitar. Antes de dormir,
rezou Ave-Maria e Pai Nosso. Pediu pela saúde de seus sogros, da mulher e da
filha, e pelas almas dos pais e da cunhada, morta dois meses antes.
Logo, logo adormeceu. E foi aí que
tudo começou.
Primeiro, viu-se com a família no
Polo Comercial da Cidade, uma grande avenida, no dia da parada gay, que não
sabia que tinha sido programada. Para sair do meio da confusão, entrou numa
pequena galeria de doze lojas, no máximo. Por seus cálculos, se pegasse a saída
dos fundos, chegaria ao seu carro, que deixara num local afastado, para não
pagar o estacionamento. Foi entrando.
Na vitrine da terceira loja, estavam
expostos vários pênis de borracha, de todos os tamanhos, e um rapaz de sunga
fio dental, bem na porta, conversava alto com o vendedor, dizendo que queria
comprar um sapato de salto descomunal, porque o dele havia quebrado no desfile.
Ao passar com sua família, eles os
olharam com cara de deboche, talvez pelo misto de vergonha e assombro estampado
em seus rostos. Mas o pior estava no interior da loja: uma série de manequins
com pênis salientes, vestidos por lingeries sexys e mínimas.
Após alguns passos, percebeu que
algumas lojas estavam fechadas com anúncio de aluga-se.
Ao fundo, no lugar da saída, havia a
porta de um Templo, com a imagem de um santo numa gruta bem ao lado. Respirou
aliviado, e nem se deu ao trabalho de perguntar o que estaria fazendo, ali, uma
Igreja Católica.
Entrou com a família, e viu cabritos,
pessoas dançando – com roupas semelhantes às usadas na parada gay –, luzes de
boate e algumas imagens de deuses hindus... Ficou chocado. Conseguiu alcançar
um altar lateral, onde havia várias velas acesas e outras por acender, por quem
fosse fazer pedido ou oração. Acendeu uma e pediu a Deus que perdoasse a si e a
todas as criaturas que viviam em pecado. Em seguida, fechou os olhos por alguns
segundos. Agora, a luz era fraca, e sua atenção foi chamada para olhar um homem
que estava lá adiante, num palco iluminado, falando como se fizesse uma
homilia.
Com a aparência de Jesus Cristo no
Santo Sudário, estava vestido como as pessoas se vestiam em Seu tempo. Porém,
ele pregava uma nova religião, suas palavras apontavam o caminho de um
ecumenismo que faria surgir a religião universal, um misto de elementos de
todas as religiões, em que se pregaria o respeito a tudo e a todos, conferindo
idêntico valor aos homens, aos animais e à natureza, e que se prestaria culto,
em pé de igualdade, ao Deus-Pai e à Mãe-Terra.
Perguntou quem seria o sujeito, e
alguém de olhos vidrados esboçou um nome impronunciável. Disse que era o novo
Messias, que havia abandonado uma vida de abundâncias para levar palavras de
amor, paz e fraternidade a todos os povos. Os devotos estavam num transe
coletivo, falavam em línguas estranhas, viravam os olhos...
Naquele momento, Paranhos viu que
borrifadores espalhados por todo o recinto, que era grande, espirravam um
líquido de cheiro estranho. Ele puxou mulher e filha pelos braços, e juntos
saíram pela porta lateral, que dava num corredor que, enfim, alcançava a rua
onde havia deixado o carro. Duas pistas precisavam ser vencidas, e ele foi à
frente, para trazer o carro mais para perto. Estava tudo muito deserto por ali,
e quando começou a manobrar o carro, sua esposa bateu no vidro, pedindo para
entrar.
Perguntou pela menina, e ela
respondeu que a havia deixado no parquinho, se divertindo. Quis voltar, mas ela
disse para seguirem direto pra casa, porque havia algo urgente a fazer. Ele
seguiu em frente e, chegando a casa, foi vencido por um sono irresistível. De
repente, acordou e começou a procurar a filha, sem achar. Passou, então, a
gritar pela mulher, perguntando da menina. Desespero total.
Agora ele realmente acordava,
assustadíssimo, do sonho em que estava sonhando, e constatou que seus gritos
jamais seriam ouvidos, pois a chuva e o banho gelado lhe presentearam,
antecipadamente, com uma afonia e uma tosse de cachorro.
Eram quatro e meia da manhã. Esticou
as mãos para o lado, e sentiu que a mulher estava ali, dormindo. Levantou, e
conferiu que a filha estava na cama. Voltou ao seu quarto, e ajoelhou ao lado
da cama, pedindo a Deus que salvasse suas almas. Havia descido ao inferno e
voltado.
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Smith Silva
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Um causo no interior
Estava no interior para acompanhar o
sobrinho de um grande cliente, intimado para uma audiência no Judiciário.
A população do Município, na maior
parte, era formada de descendentes de italianos e de alemães que traziam a
preservação das tradições muito presente, como era possível verificar,
inclusive, na arquitetura dos prédios.
Não havia chegado cedo o suficiente
para o almoço, e resolveu lanchar. Como não havia lanchonetes por ali, recorreu
a um botequim que lhe pareceu limpo e confiável.
Foi direto à estufa sobre o balcão,
para ver o que lhe esperava.
A proprietária o atendeu, e foi logo
dizendo que o “serve selfice” havia sido recolhido, mas se ofereceu para fritar
uns pastéis ou até um bife, se fosse necessário.
Ele não quis incomodar, e perguntou
sobre o enroladinho de salsicha que estava ali, dando sopa. Pela aparência, era
“de hooooje”, mas surpreendentemente o sabor não era ruim. Comeu dois,
acompanhados de uma coca de garrafa de vidro.
Agora o estabelecimento estava vazio.
Os dois fregueses remanescentes do almoço deram a última lapada na pinga que
degustavam, assim que o estranho adentrou o recinto. Um papudinho chamou o
outro e foram embora. Era normal que, àquela hora, o pessoal da cana estivesse
descansando para se preparar para o “turno da noite”.
Ela puxou assunto com o freguês. Era
uma jovem senhora, não muito bonita, mas bastante comunicativa, como deve ser
mesmo todo comerciante.
Tomás havia saído de seu estado
natal, Rio de Janeiro, há muito, mas pensou na diferença daquela comerciante
para os Manoéis e Joaquins dos botecos da Baixada Fluminense — grossos iguais a
pentelho de barrão, como diria o comediante cearense Mução.
Ele, que pensava ter perdido o
sotaque, achou engraçado quando ela afirmou que ele não era dali. Também não
atinou para o fato de que, numa cidade pequena, todo mundo se conhece.
Respondeu com uma afirmativa, e o
papo avançou, até que ele dissesse que era do Rio, mais precisamente de Belford
Roxo, um lugar de muita violência, que talvez fosse difícil para ela imaginar.
Ela surpreendeu ao dizer:
- O senhor é que pensa. O interior
está ficando perigoso.
A TV estava ligada, noticiando em
plantão um atentado terrorista contra um candidato à Presidência da República,
único do espectro da direita política em trinta anos de abertura no país. Havia
uma forte comoção.
Ele insistiu, dizendo que, pelo
menos, aquele tipo de violência não existia por aquelas bandas, mas ela
respondeu:
- Ahã! Dia desses, um carro sinistro
estava rodando a cidade, vidros tão escuros, não se via nada lá dentro. De
repente, uns bandidos saltaram e assaltaram a Farmácia. Deram um tirambaço na
moça que não conseguia abrir a caixa registradora. Todo mundo ouviu. Foi uma
correria desgraçada por isso aí tudo. Só dois policiais no plantão, e o
senhor acha que eles colocaram a cabecinha de fora? De noite, eles nem
saem. Fica tudo lá no posto, quietinho, com o cuzinho apertadinho, fingindo que
num tem ninguém lá... – e fechou o indicador e o polegar da mão direita até não
poder mais, de forma que, realmente, não poderia passar nem vento.
De repente, surgiu o marido, até
então em silêncio, do fundo do bar. Carregava um prato com uma montanha de
comida, já destroçada pela metade. Deu um trupicão ao bater com a sandália
havaiana numa falha do piso, e por pouco não saiu da cena tão rápido quanto
entrou, para ganhar a rua arrastando o banjo no chão.
Dizia ele, momentos antes de ter que
se equilibrar:
- Ô, mulher! Cê tá conversando esse
assunto com quem?
Tomás entendia o porquê de não
haver mais comida do “serve selfice”. Tudo parecia estar no prato do
comerciante, que ficara espantado ao constatar que a voz desconhecida era mesmo
de alguém que ele jamais havia visto.
O clima ficou esquisito, todos
estavam, àquela altura, constrangidos, e foi a deixa para o advogado pagar a
conta, cumprimentar o casal e ganhar a rua.
E lá se foi, gargalhando gostosamente
até chegar ao Fórum, certo de que contaria aquela história para aos netos que
esperava um dia ter. E foi o que fez, anos depois, rindo como se tudo estivesse
acontecendo de novo.
terça-feira, 3 de abril de 2018
A ligação
segunda-feira, 26 de março de 2018
O Mecanismo – crítica ligeira da 1ª temporada
(I) Motivação
ATENÇÃO! Pode
conter spoiler. Não leia se não quiser saber de fatos da série que retrata a
Operação Lava Jato.
Meu interesse em
tratar da série “O Mecanismo” vem do assombro de ver/ouvir pessoas misturando
ficção e realidade na análise de fatos cotidianos. Quem nunca ouviu que a vida
imita a arte com algo como: “é igual à novela; o traficante possui mais consciência social que o dono
da fábrica”; ou “é igual à novela; a menina ama o namorado e outro rapaz. Se o
namorado gosta dela, tem que aceitar dividir”.
Através de engenharia
social, a mídia (e não só ela) manipulou por anos e anos um público sem outras
opções de diversão, transformando seu agir e seu pensar, promovendo
mudanças comportamentais tão
profundas que muitos já não enxergam os absurdos e as contradições que cometem
e defendem.
A cada dia são
apresentados e incentivados comportamentos e tendências contrários aos valores
fundamentais da nossa civilização, e pouca gente nota. Foi assim com a
legalização do divórcio, a mundanização do sagrado pela teologia da libertação,
a ridicularização do cristianismo, o “casamento” entre gays, o sistema de
cotas, a ideologia de gênero, o direito à identidade social... Já estão quase
conseguindo aprovar o homicídio de crianças no ventre materno (aborto) e estão
nos preparando para aceitar (e depois também impor, como nas situações citadas) o estupro de vulneráveis
(pedofilia) e o incesto. Esses temas já entraram no radar, foram deslocados do
"setor de assuntos sequer consideráveis para discussões acerca de costume
e doença. O próximo passo será a imposição da aceitação, sob pena de persecução
penal e punição. É isso o que está previsto na Janela de Overton (ou janela do
discurso).
Mas, e o seriado?
É preciso esclarecer
algumas coisas antes de continuar essa breve análise. Peço paciência àquele que
queira me acompanhar.
Padilha dá sempre um
jeito de inserir sua visão utópica de mundo nos filmes em que trata da dinâmica
do povo brasileiro (só assisti a esses, sorry!).
Em Tropa de Elite,
vemos jovens viciados pacíficos que defendem a liberação de drogas e advogam
sobre a conscientização social de criminosos, que são benfeitores das favelas;
já do lado das milícias, elas são formadas por policiais da ativa e da reserva,
que apenas praticam violência e exploram os moradores das localidades em que
reinam. Não os trata como são: criminosos, assim como os traficantes.
O policial honesto é
violento, desrespeita as leis que protegem a integridade física alheia
(tortura, homicídio etc.), enquanto o deputado consciente e humanista de
esquerda, que (tá certo - ele admite -, fuma a inofensiva maconha de forma
recreativa, mas) põe sua vida em risco para defender presos, é quem abala as
estruturas do “sistema” – embora esse sistema sempre se reorganize.
Dá para perceber a
diferença no enfoque? Dá para perceber a similitude com aquilo o que se pensa
de Marcelo Freixo, o político queridinho da esquerda caviar?
(II)
O seriado da Netflix
estreou causando rebuliço nas redes sociais, desagradando a pessoas de
posicionamento político à esquerda e à “direita”. O protagonista, Selton Melo,
no The Noite de Danilo Gentile, chegou a afirmar que o enredo puxa a brasa para
ambos os lados, o que pode ser o motivo das reclamações.
Entretanto, àqueles
que vão assistir, aconselho que tenham duas coisas em mente. A primeira é que,
embora nomes, datas e fatos estejam muito próximos da realidade política
recente de nosso país, é uma obra ficcional, baseada no livro de Vladimir Netto
sobre a Operação Lava Jato. Importante saber que Vladimir Netto é filho de
Míriam Leitão, a Amélia que lutou junto aos terroristas que tentaram instaurar
uma ditadura do proletariado no Brasil nas décadas de sessenta e setenta do
século XX.
A segunda, é que o
Padilha é um esquerdista talentoso. Ao falar isso, quero lembrar que, antes de
talentoso, ele é esquerdista; e como todo esquerdista, ele manipula e
desinforma enquanto mescla verdades e mentiras.
(III)
Não é difícil
perceber que o seriado adotou a narrativa da esquerda, e utiliza a linguagem da
esquerda. Vejamos:
1) Janete foi
reeleita “presidenta” da república derrotando o candidato Lúcio Lemes, que
pertence a um partido de “direita”. Sim, o PSDB é tratado como partido de
direita – nada mais clichê;
2) O
“vice-presidento”, Samuel Thames, trama com Lúcio Lemes um “golpe” para a tomar
o poder e conter a operação que pode expor o esquema (“mecanismo”) de corrupção
que vai atingir os donos do poder, toda a cúpula da política nacional, que está
presente nos mais variados partidos;
3) Janete se nega
a utilizar a máquina do governo para abafar a operação policial;
4) O ato de “bater
panela” quando corruptos petistas apareciam em rede nacional foi tratado com
menosprezo;
5) Afirma-se
que a corrupção independe
de ideologia – é ambidestra, praticada pela direita e pela esquerda. Isso é
verdade na medida em que políticos considerados de direita (considerados!)
também tinham um preço. Mas não é verdade fazer essa equivalência em meio à
narrativa do maior esquema de corrupção já existente no mundo, ampliado de
forma incomensurável no período do lulo-petismo (incluam-se os mandatos de
Dilma). A série repete o estelionato intelectual praticado por um “pensador” da
esquerda que relativiza os crimes ao dizer que quem fura a fila do pão é tão
corrupto quanto quem desvia bilhões de reais de dinheiro público e apresenta a
conta para a sociedade pagar.
(IV)
O enredo trata das
“instituições podres”, do “sistema” que se retroalimenta e é impossível ser
parado porque independentemente da ideologia política em vigência ele irá
funcionar... Já ouvimos isso da boca do capitão Nascimento, ouvimos agora do
delegado Marco Ruffo. Ah! Ambos enfrentam sérios problemas com as esposas, em
razão da entrega à função que desempenham. A ficção de Padilha insiste em
afirmar que quem exerce cargos de chefia nas polícias, e com tendências a
virarem heróis, é uma pessoa infeliz e violenta.
Agora trato da
queimadinha de filme no Juiz e nos membros do Ministério Público e da polícia.
6) A polícia
abriga um agente desequilibrado que usa o aparato policial para perseguir,
abusando de ilegalidades, um desafeto seu. Mais tarde, seus colegas também
cometerão irregularidades ao permitirem que ele se imiscua no meio policial
após ter sido aposentado. Há, ainda, policiais relapsos, como retratam as cenas
que envolvem a campanha de vigilância do doleiro e a busca e apreensão no
escritório do diretor da Petrobrasil;
7) Os membros do
Ministério Público são retratados como ingênuos, facilmente manipuláveis, e
indefesos diante de gente importante e profissional. Há uma guerra de egos
entre a Delegada e um Procurador da República retratado como vaidoso e
individualista, que apresenta desde acusações de sabotagem involuntária das
investigações até ceninhas de afetação durante uma entrevista, na qual um quer
sobressair em relação ao outro;
8) O Juiz Paulo
Rigo, da 1ª Instância, responsável pela operação, é retratado como um homem que
faz sexo de meias e é extremamente vaidoso, a ponto de alterar a assinatura a
partir de uma abordagem na rua, quando alguém pede um autógrafo (seu primeiro)
numa edição de jornal.
(V) – Encerrando as
impressões sobre a 1ª temporada
9) O Dr. Mário Garcez Britto, o “Mago” (ou “Bruxo”), é alguém com cacife para costurar um
acordo que salve a pele de empreiteiros e políticos. O fato de ter sido
Ministro da Justiça de Lula é comentado, mas não explorado. O que importa é que
ele atua para livrar o empresariado da cadeia, essa gente inescrupulosa, que
corrompe políticos há décadas. Foram mostradas reuniões do grupo dos
empreiteiros, mas nenhuma entre políticos tratando da divisão do butim
conquistado com os contratos fraudados. Cadê a análise da participação desses
políticos nesse esquema?
OBS.: A personagem
representa Márcio Thomaz Bastos (o “God”), advogado criminalista e ex-Ministro
da Justiça que deixou a fortuna de 393 milhões de reais a serem divididos entre
seus herdeiros. O homem que participou do “governo do povo” de Lula pertencia à
elite do país, a mesma elite que Lula trata como inimiga sua e do “povo”, e
contraditoriamente alimenta com dinheiro público para criar campeõs nacionais e
com quem mantém relações negociais. Não houve qualquer referência a isso
também.
10) Enquanto o
“Mago” alinhavava um acordo com o chefe do Ministério Público Federal em Brasília, os advogados das
empreiteiras se reuniam com os procuradores de Curitiba para propor um acordo e
encerrar a operação. Um dos advogados diz algo como: É um acordo para
"zerar" a corrupção, como é feito nos Estados Unidos. As empresas
pagam, comprometem-se a não cometer novos crimes e tudo fica bem. Ninguém é
preso.
Particularmente, eu
acho difícil que um acordo que envolva crime de corrupção nos EEUU livre alguém de
puxar uma cana, mas...
Padilha vive agora
nesses mesmos EEUU que critica, o que chega a ser engraçado. Apesar de bastante
simpático ao partido de Freixo - que prega o desarmamento da população, ruas
iluminadas e bandidos fora das prisões como forma de combater a criminalidade e
a violência -,
após sofrer com violência no Rio de Janeiro ele se mudou para onde as leis
e o Judiciário são mais rígidos.
De
outro lado, “acordo para zerar a corrupção, como nos EEUU” é uma nova
generalização tipicamente esquerdista: o grau de nocividade de cada crime
isoladamente é desconsiderado. A corrupção é palavra avulsa, sem sentido
quando não se personaliza as figuras do corruptor e do corrompido. Na prática,
torna mais fácil livrar a cara do criminoso “amigo”. Causa-se, com isso, o
mesmo efeito que as bandeiras: “precisamos combater a impunidade
/violência”, “precisamos lutar pela paz / liberdade / igualdade”...
Mas
não é em todo lugar do mundo que as coisas funcionam assim, com essa percepção
de generalização. Nem em algumas de nossas instituições, em que algumas
situações individuais, dependendo de quem está envolvido, cria uma solução
individual.
Pense!
Fernando César Borges Peixoto
Advogado, pós-graduado, niteroiense, gosta de
escrever e, de certa forma, é um saudosista.