sexta-feira, 26 de junho de 2020

Desnutrição (ou Jornal Nacional)




Cheguei a casa urrando de fome e com muita pressa, mas a história não se resume a isso. Havia saído para tentar caçar alguma coisa, fosse um trabalho que rendesse uns cobres, ou um animal que pudesse ser servido no jantar. Para meu desespero, moro numa cidade que já foi grandiosa, estragada por políticos corruptos, onde os animais que encontramos nas ruas não são recomendáveis para uma refeição.
Sabia que era grande a possibilidade de, no máximo, conseguir arranjar problemas. Não sou chinês para comer ratos, e nem queria imaginar se uma dessas dondocas noiadas mães-de-pet me vissem dando um teco ou uma porrada nos cornos de um gato ou de um cachorro vadio para me alimentar por, pelo menos, duas vezes. Pensei que poderia pedir dinheiro a uma delas para comprar um podrão na esquina, mas era melhor não, pois elas não dão refeições, ou dinheiro para comprá-las, a um adulto. Primeiramente, por não se importarem com humanos, independentemente de sua idade ou situação pessoal; e em segundo lugar porque já torrou todo o dinheiro, na maioria das vezes no veterinário, no pet shop e na compra do iPhone para tirar fotos dos filhos e colocar no seu Instagram e em páginas do tipo “mundo pet”. Fodam-se as mães-de-pet!
Cheguei a mendigar, mas a minha carranca mais assusta que inspira a solidariedade humana, o que torna essa tarefa um tormento.
Teimoso, segui por aí até conseguir que a funcionária boazinha de uma padaria ouvisse minhas lamúrias, e se apiedasse de mim. Disse que não poderia pagar por pãezinhos fresquinhos, pois aquela desgraça de peste chinesa, a tal Covid (ou covarde?) 19 havia desempregado todos de sua família, que naquele momento viviam graças ao subemprego dela, mas pediu que eu aguardasse, pois tentaria pegar um pão duro em meio aos que estavam no estoque para descarte. Eu sabia que ela mentia sobre o descarte, porque aquilo seria aproveitado para fazer farinha de rosca: reaproveitamento, valor agregado... Tudo isso faz parte do empreendedorismo, eu bem sei, e ainda mais num país de merda onde a merda da esquerda faz de tudo para vampirizar o empresário e escravizar a população. Sim, até um fodido como eu já ouviu falar dessas coisas.
Ela deu dois pães, e eu corri para casa. Havia gás na botija, pois aquilo que não se usa não acaba. Há tempos não saía comida dali, e não era por falta de dotes culinários.
Esquentei uma banda do pão na única boca do fogão que funcionava, para amolecer o alimento que poderia acabar de quebrar os cacos de dente que ainda possuía, caso tentasse mordê-lo a seco. Como não sou alcançado pelo pecado capital da soberba, agradeci a Deus pelo bendito pão torrado que aplacaria minha fome, e intercedi pela boa alma que a havia providenciado. Peguei uma colher de sopa cheia da manteiga que descansava sobre a mesa e esfreguei na banda do pão de sal, e mais uma, chegando a lambuzar os dedos que seguravam aquele santo pedaço de comida que salvaria a noite, aplacando a fome que me castigava desde o dia anterior, quando consegui salvar meio sanduíche na lixeira, onde um gordinho fresco o havia descartado.
Lambi os dedos, por óbvio, mas fazendo caretas. Não reunia condições de desperdiçar qualquer coisa que pudesse ser comida, mas, por Deus!, seria a última vez que comeria aquela pasta rançosa intragável, que jazia sobre a mesa há milênios, com um pouco de bolor nas bordas. Isso explicava a quantidade estúpida de manteiga, a qual certamente provocaria um enfarto na nutricionista solitária e meio coroa que eu havia comido por todo o inverno de 1994, em Petrópolis. Que fique claro: comido no sentido metafórico (e metadêntrico, se for o caso, na sequência).
Vou dormir, e tentar esquecer toda essa desgraça, e só uma coisa pode me confortar, além da minha fé: não há pesadelo que seja pior que essa realidade.
As coisas podem ser diferentes amanhã. É possível encontrar um rumo decente para minha vida, conseguir uma renda regular para fazer aquilo o que fazem as pessoas normais: pagar contas e boletos. Isso se meu estado e aparência famélicos permitirem que eu tenha condições de me apresentar para fazer algo, e efetivamente o consiga fazer. Há também a possibilidade de ser atropelado por algum altruísta que resolva expiar seus pecados me ajudando a recuperar o orgulho, para voltar a levar uma vida normal.
Tenha bons sonhos...

Boa noite!


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Não deixe para amanhã o que você pode fazer transanteontem



Ontem, dia 19/05/2020, no Rio de Janeiro, foi dia da votação do projeto de lei que permitiria ao seu governador autoritário, Wilson Wietzel, decretar lockdown pelo período que quisesse, e sempre que desejasse.
E é lógico que, uma vez aprovado, esse vírus comunista letal, gestado no (e sob as bênçãos do) STF, iria se disseminar rapidamente por todo o território nacional, confirmando, via Legislativo, as bizarrices ditatoriais dos respectivos Executivos.
Havia 100 pessoas (CEM!) na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para protestos.
Não adianta ficarmos em casa ministrando johrei, ou nas redes sociais, de longe, esperando que os outros se manifestem tomando tiro, porrada e bomba para assegurar nossa liberdade. Precisamos arrostar as autoridades que fazem sangrar as decantadas “instituições”.
Também não adianta esperarmos as FFAA, que estão há tempos empesteadas de comuno-socialistas e de positivistas (revolucionários, pois bem) que apenas sonham com sinecuras para aumentar o “soldo”.
E muito menos adianta ficarmos clamando por atitudes do Presidente Bonsomnário, que está de mãos amarradas, sofrendo ataques diuturnos de um establishment apodrecido, insaciável de poder e grana, que apenas espera do Presidente uma medida, mínima que seja, que possa ser usada como fundamento para apeá-lo do poder e o colocar numa cela ou forçar seu exílio.
Eu não fico mais em casa; dane-se a minha “abreugrafia”!
P.S.: Ah! A providência divina nos salvou mais uma vez. Você tem rezado por isso?

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

O Papa Francisco e o criminoso não arrependido



É necessário refletir e lembrar, antes de crucificar o Papa Francisco, que ele não é/foi o primeiro nem será o último da história a conferenciar com figuras abjetas no Vaticano. Quantos tiranos, assassinos, genocidas já não foram recebidos pelos Chefes desse Estado (sim, o Papa é também um Chefe de Estado), inclusive por questões protocolares, através dos tempos?
Há até alguns pontificados que envergonham o fiel católico, basta ver a história.
Um número expressivo de católicos (que os fiéis de outras religiões se ocupem com seus problemas, que não são poucos) possui a nítida impressão de se tratar de um pontificado claudicante – e pode haver verdade ou exagero nessa colocação –, mas o certo é que esse momento delicado está promovendo o maior engajamento do verdadeiro fiel da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Então, oremos pelo Papa Francisco.
Observe-se, porém, que a promessa de Jesus Cristo permanece, e as portas do inferno não prevaleceram (nem prevalecerão!) sobre a Igreja que Ele criou, ainda que volte a ser composta de 12 reunidos clandestinamente.
Ninguém pode negar, em sã consciência, o incômodo da visita do ex-presidente Lula; é um momento triste, até porque o criminoso há pouco disse que seu partido deve retornar "às bases", o que se materializa nas comunidades de base da Igreja Católica; e a recepção papal acaba servindo como chancela do Sumo Pontífice a essa fase de regresso ao berço do agora "Lulinha paz e espiritualidade".
Atenção! Até livro intitulado “Lula e espiritualidade – Oração, Meditação e Militância” está sendo lançado.
(Aliás, também é verdade que o meliante pediu aos comparsas para "investirem pesado" nas religiões cristãs protestantes; parece querer enfrentar os conservadores, obstáculos à concretização do plano de poder da esquerda véia-de-guerra.)
E não se pode esquecer de todo o simbolismo que envolve tal figura: com ajuda de companheiros que representam a "nata" da teologia da libertação (Boff, Betto...), criou-se a imagem do homem que cura; que olha pelos pobres; que é a salvação de todos... O próprio Messias encarnado.
A ideia materialista de recriação do Reino dos Céus aqui na Terra - e os males de todo esse projeto obscurantista -, que retira a transcendência e inocula nas massas ignaras a religião do Estado com seus santos e deuses (seja a que vertente revolucionária os envolvidos pertençam), deve ser imediatamente desmascarada; explicada, e em linguagem acessível, pelos pastores dos rebanhos cristãos, a todos esses fiéis fervorosos, "ávidos por cultuarem", e que, para não facilitar, foram vítimas da educação paulofreiriana.
Se deixar, eles serão desviados facilmente.
É uma bomba-relógio que pode explodir em (e as) nossas cabeças.
Orai, vigiai e agi.

Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Princesa




Acordo esgotado, trabalho cansado
Resistência extenuada nos dias arrastados
Talvez eu mereça...
Mas, no fim da noite, eu sei
Que vou chegar a casa e encontrar você
Vai mudar minha rotina
Dar um gás animal
Vestir a fantasia de princesa
Ou virar a heroína que ilumina
A minha vida; ficar acesa
Eu paro de imaginar, prefiro ver
Escrever poesias, ser o guia da minha própria guia
Quem veio ser meu norte
Quem traz sorte, mansidão
Cuida do meu coração
Com o maior dos remédios: amor.




Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escrever algumas coisas e, até certo ponto, um saudosista.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Hamburgueria



Era finzinho da década de 70, início da de 80 do século passado, e um boteco a poucos passos de minha casa foi transformado numa "hamburgueria".
Tratava-se de uma notícia alvissareira, uma novidade que mexeu com o povo do bairro.
A partir de então, travei uma batalha cruenta contra o desejo incontrolável de comer aquele acepipe, que ficava ainda mais delicioso aos olhos de uma criança/pré-adolescente da periferia.
Sim, amigos, falhei miseravelmente!
Ali e por todo o resto de minha vida, no tocante àquele disco de carne moída inserido num pão fofinho, que será acrescido de vários acompanhamentos, segundo a fome, a disposição e o gosto do consumidor.
E o que poderia eu pretender?
Se não consegui vencer a luta contra o hambúrguer do Carlinhos - era esse o nome daquele monstro sem sentimentos...
Eu dizia: "se não consegui vencer a luta contra o hambúrguer do Carlinhos...", como poderia encarar impérios como o do Bob's e o do palhaço?

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, é metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Colação de grau moderna



Chegara o baile de formatura de uma das faculdades em que me formei ao longo dessa porca vida. Dois amigos do “Desopila o fígado”, grupo do futebol da segunda-feira, que foram convidados por colegas formandos, ligaram-me antes de eu chegar ao clube onde festejaríamos, avisando que duas de minhas ex estavam por lá. Avisaram porque conheciam o gênio de minha esposa.
Minha esposa, aliás, apesar da antecedência com que soubera o dia e a hora do evento, não chegava nunca do circuito cabeleireiro-maquiador-manicure, para o qual se dirigira há mais de seis horas, junto a minhas filhas e sogra.
Cansado de esperar e de ser ignorado em ligações e mensagens enviadas pelas redes sociais disponíveis, e sabendo o risco de iniciar uma guerra, resolvi enfrentar e aguardá-las na festa, que havia começado há meia hora quando tomei a decisão de chamar um Uber – com o caminho a ser vencido, quem sabe daria tempo de tomar uma cerveja e de tirar uma selfie em frente a um banner idiota qualquer.
Convite entregue à conferente do cerimonial, abraços distribuídos aos Atrasildos que, como eu, chegavam àquela hora na celebração, entrei e a primeira impressão era a de uma festa estranha, com gente esquisita. Uma música horrorosa, luzes em profusão, um painel com imagens confusas passando a mil por hora, fumaça com cheirinho... Eu já era meio coroa perto daquela garotada, mas não seria um estraga-prazeres a reclamar.
Meio deslocado, finquei a bandeira num lugar afastado. Os camaradas do futebol, e os mais chegados do curso, estavam com suas famílias, e eu não me achava no direito de vampirizar os convites alheios, certamente extras que custaram uma pequena fortuna a quem os adquiriu e distribuiu.
O serviço de garçom era uma porcaria, mesmo para quem estava num lugar melhor posicionado, o que me levou, em determinado momento, a buscar o bar do clube. Comprei seis long necks que carreguei para o salão, mas elas sequer chegaram incólumes ao meu cantinho, pois alguns colegas de curso gentilmente me livraram do fardo de carregar aquele peso por mais tempo.
Fiquei conversando com alguns professores da faculdade  que foram convidados, e consegui interceptar umas garrafinhas de cerveja e vodca que eram imprudentemente distribuídas entre os celebrantes, já que se tratava de uma festa em que pessoas desconhecidas bebiam, e poderiam transformá-las em armas, em meio a uma confusão formada.
Foram poucas, e acabei voltando ao tal bar do clube, que já estava fechando. Peguei mais seis long necks e dessa vez enfiei-as numa sacola para disfarçar. Qual o quê! O tilintar das garrafas entregaram a carga preciosa quando o DJ deixou um vácuo de som no momento em que eu passava pelos mesmos colegas. Dessa vez, ao menos, consegui salvar duas, três com a que estava bebendo.
Voltei ao meu posto e logo vislumbrei Mariana, uma ex-namorada cuja presença não havia sido narrada por meus informantes. Era a terceira ex na festa; e Mariana, saudosa, e para minha tristeza, resolveu sentar praça ao meu lado. Bonita, cheirosa como sempre, a preferida entre todas antes de me apaixonar e casar com a megerinha que me havia tirado dela.
Essa circunstância, somada ao fato de eu ter ido sozinho à festa, seria suficiente para arranjar um problemão. Especialmente pela iminência da chegada de minha esposa. Dormir no sofá seria pinto.
Entornei as cervejas que restavam e perguntei se ela queria ir comigo ao bar da festa, para descolarmos umas bebidas. Ela foi, e no meio do caminho me apontou a sobrinha de minha esposa, que havia chegado mais cedo, e tinha pedido a Mariana para chamar minha atenção em sua direção. Por mímica, perguntei à mocinha se ela queria uma cerveja, pois estava indo ao bar para suprir o péssimo serviço. Ela pediu uma “pelo amor de Deus!” (O calor estava insuportável àquela altura.)
Ao me aventurar no balcão como um jovem bêbado com a cara cheia suplicando por mais mé, fui bem atendido pelo barman, a quem pedi três garrafinhas. Enquanto o rapaz voltava com elas, alguém que deveria ser o chefe, disse que eu não levaria as três garrafas: “Dê uma, que está muito bom!”
O rapaz entregou uma, guardou as outras duas no freezer atrás do balcão e saiu, muito sem graça, em direção ao banheiro. Como o local era de fácil acesso, imediatamente olhei o gerentão e, já me adiantando por trás do balcão, falei: “Uma garrafa é o caralho, bundão!”
Ele, lá do seu canto, carregando algo que parecia pesado, gritava histericamente o nome do barman: “Diego! Diego!”
Diego fingiu não ouvir, e eu ainda dei satisfação: “São para quatro pessoas; eu estou disposto a dividir uma com a minha esposa. Você quer o quê? O serviço está uma merda!”
Enquanto levava as garrafinhas, vigiado de longe por Mariana, o gerente partiu para cima de mim, com ares de quem ia me agredir, ao mesmo tempo em que chamava um segurança da festa.
Quando deu o bote nas garrafas da mão esquerda, chapuletei o fundo da que estava na mão direita no meio dos cornos, marcando aquela testa comprida com um decalque, como um sinal da besta; e ele foi a nocaute.
O negão de dois metros já estava ao meu lado, e me segurou enquanto eu me debatia mais que peixe fisgado e recolhido por pescador amador. Vieram mais dois seguranças e fui inteiramente neutralizado, enquanto o trouxa jazia lá no chão, balbuciando palavras desconexas e chamando pela mãe.
O pessoal da festa, meio sem acreditar, testemunhou que eu era um dos formandos e um homem absolutamente pacífico. Os seguranças perceberam que eu não estava embriagado e resolveram me soltar, mas o imbecil da testa tatuada havia se recuperado e não perdoou. Aproveitou que uns policiais militares estavam naquelas dependências, atendendo a um chamado sobre atos de vandalismo praticados por visitantes na área social do clube, e os chamou, informando a agressão GRATUITA (isso mesmo que o filho da puta falou) que havia sofrido por ter dito, amistosamente, que eu deveria aguardar o serviço dos garçons.
Ao externar a revolta dos justos, os policiais entenderam que eu estava alterado. Além disso, havia a prova da marca da besta gravada na testa da vítima (teatral)... Fui levado à delegacia.
Enquanto os policiais me conduziam pela entrada do clube, entre vaias para eles e aplausos para mim, minha esposa chegava, bem a tempo de me ver sair algemado da festa de formatura.
Foi o suficiente para me livrar dos problemas e das explicações pelo fato de ter ido sozinho à festa, sem esperar a trupe; e da presença involuntária de três ex na festa. Uma coincidência macabra. (Não cheguei a ver as outras duas. Ainda bem!)
Fui imediatamente perdoado, diante do relato de pessoas chegadas que, à sua moda, contaram o absurdo que haviam feito comigo; e após o B.O., ganhei um longo beijo na boca, que expressava nitidamente um “tamo junto”.
Grande dia!


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Uma pequena história de miséria intelectual e oportunismo




Naquele dia, o tempo amanheceu nublado, as chuvas pareciam um choro pelos últimos acontecimentos. Era como se a natureza traduzisse as emoções que tomavam conta da maioria da população.
O enésimo ditador da história, antigo líder stalinista, era reconduzido ao poder e, de imediato, imergia o país nos piores momentos de sua existência.
Voltou garantido pelas armas, nos braços de antigos aliados, saudosos dos favores do Estado, mas também com apoio da grande mídia, da Academia, de intelectuais (apenas os orgânicos haviam sobrado), de oportunistas recém-egressos na política e de antigos “adversários de mentirinha”, que sempre fingiram um antagonismo para desviar a atenção e impedir que uma verdadeira oposição se organizasse.
Embora defenestrada do poder por ter desarrumado o país, a esquerda mostrava força, provando que ainda era capaz de manipular a opinião pública e divulgar as ideias revolucionárias.
Uma aliança foi formada para conter os avanços e apear do poder o governo conservador eleito democraticamente, que trabalhou em benefício da população e mudou o paradigma político das últimas décadas, ao acabar com a corrupção, o desvio de dinheiro e o compadrio; e promover a meritocracia.
Enquanto isso, os traidores minavam a base de sustentação do governo, apesar da grande popularidade que o governante gozava no país “profundo”, que havia se organizado organicamente para conter a pouca-vergonha que dominava a política do país. E, infelizmente, conseguiram concluir a tarefa depois de quase 20 meses de ataques diuturnos a quem, num breve espaço de tempo, deu alento e esperança àquela população sofrida, e colocou o país rumo ao desenvolvimento, deixando pra trás as décadas em que amargou o atraso e os piores lugares nos indicadores socioeconômicos medidos por organismos internacionais.
Desde a campanha, era nítida a necessidade de um movimento conservador robusto, uma militância organizada que sustentasse o governo, e se opusesse à militância carnívora adversária (essa, paga). Foi a sua falta que permitiu que o líder conservador acabasse cercado de figuras de caráter duvidoso, com intenções totalmente desconhecidas, e que em pouco tempo se mostraram as piores possíveis.
Muitos buscavam poder e dinheiro, e aproveitaram a insatisfação geral com a política da época para, em peles de cordeiros, esconderem os corpos de lobos. Então, fingiram-se aliados do líder das pesquisas.
Entre os oportunistas estavam os (falsos) liberais, ávidos por ocupar o vácuo deixado pela velha política, mas personificando a própria incoerência: pregavam um Estado mínimo enquanto  promoviam a ocupação de cargos com o núcleo duro do seu grupo e também com amigos e amigos dos amigos. Para piorar, chegaram ao ponto de propor a criação de leis restritivas de liberdade, como uma que regulava opiniões em redes sociais.
Isso deveria ser divulgado desde seu surgimento no cenário político, pois já iniciaram sequestrando as manifestações de rua espontâneas, que pediam a destituição dos antigos governantes - diziam que foram "eles" que organizaram, "eles" que fizeram e aconteceram... e como se fruto de uma trama, quase de imediato assumiram um protagonismo inexistente, viabilizado pela imprensa parceira do antigo governo, que os alçou ao posto de oposição permitida.
A falta de uma organização dos conservadores não permitiu a difusão de análises mais profundas sobre os liberais quererem substituir os donos do poder (establishment), e não desinchar o Estado para o reconstruir, como haviam prometido em campanha.
Poucas vozes denunciavam a mentalidade revolucionária dos liberais, que os torna aliados de primeira hora de comunistas e socialistas. E foi por isso que, mal iniciado o governo conservador, seguiram sua sina, abandonando a base e deixando claro que só o apoiaram por falta de um candidato próprio, carismático, que pudesse guindá-los ao poder, e fosse capaz de enfrentar os profissionais da administração comunista anterior. Assim, com a autoestima atingindo os píncaros, acharam-se aptos a entrarem no jogo político, e então traíram o governo, que sucumbiu num impeachment de cartas marcadas, quase um “julgamento de Moscou”. Não lhes importava serem usados, nem servirem de ferramenta para aplainar o terreno da volta do regime autoritário que antes diziam combater. E desse modo contribuíram com a funesta retomada do poder pela esquerda.
Estavam convictos de que, se se esforçassem para arruinar os programas conservadores, ocupariam espaços no novo governo, e por isso propagaram narrativas de enfrentamento e ajudaram a sabotar as pautas da segurança, da economia e dos costumes; quando não votavam contra, retalhavam os projetos enviados pelo governo, ou criavam outros que contrariavam as promessas de campanha do governante. Não perceberam os valores em jogo, os mesmos que levaram as pessoas comuns a participarem do “levante conservador” que destituiu a esquerda do poder.
Ao mesmo tempo, convocavam comícios para desestabilizar o governo; e com discursos fortes, perseguiam os servidores públicos que caíram nas graças do povo ao ajudarem a mudar o estado de coisas e ao agirem como peças fundamentais no despertar do desejo de mudanças, enfrentando criminosos aliados do ditador, e ele próprio, partícipes de uma quadrilha que, enquanto dividia o povo (para melhor conquistá-lo), dividia também o butim.
Por essa razão, os membros da direita permitida foram corretamente pechados de Nova Esquerda.
Bancaram a aposta traindo o próprio eleitorado, que embarcou na campanha liberal convencido pelo discurso do individualismo, do empreendedorismo e do Estado mínimo.
Não se importaram com o fato de que o governo comunista promoveria achaques generalizados, através de um ordenamento jurídico estapafúrdio; nem com a evidente fuga de capitais, que atingiria em cheio a economia que mal se recuperava.
Demonstraram que, além dos comunistas e dos socialistas, os liberais também não se preocupavam com o país, mas com o poder – e o dinheiro e as regalias que ele proporciona.
* * *
Seguindo a cartilha, logo que empossado, o ditador agiu com rapidez e rigor; radicalizou e, com isso, evitou que a oposição se reorganizasse e oferecesse resistência ou, quiçá, tentasse voltar ao poder.
De um lado, tomava medidas para aprofundar a submissão da população – miséria moral, espiritual, social e material; e de outro, perseguia, prendia, torturava e matava os membros do governo deposto e seus simpatizantes. Aliás, a perseguição estatal aos apoiadores do líder destituído foi implacável – alguns empresários e a difusa militância, formada por meia dúzia de abnegados acusados de formarem uma “milícia” –, e já ocorria em pleno governo conservador, através dos burocratas das instituições públicas infestadas de radicais revolucionários, que rejeitavam a nova filosofia implantada no país.
E quando muitos acreditavam que o país andaria, porque os inimigos do governo haviam fugido, ou sido silenciados, ou estavam presos ou mortos, uma surpresa: os expurgos continuaram, e alcançaram os próprios liberais, antes anestesiados pela crença cega de que a economia funcionando pacifica a sociedade. Eles acreditavam que aproveitariam seu “know how” na geração de empregos e na produção de riquezas, porque entendiam serem necessárias para viabilizar os investimentos na área social, tão cara aos comunistas, que aproveitariam para promover as (falsas) propagandas de serviços públicos de qualidade oferecidos à população e da erradicação da pobreza.
Eles não haviam compreendido a brutalidade dos regimes ditatoriais, que propositalmente produzem a fome, a miséria e o desemprego, e mantêm a população sob o jugo para se eternizarem no poder, impondo o silêncio, o medo, gerando a incapacidade de revolta (até em pensamento), o pavor da acusação de traição ao Estado, a eterna desconfiança entre amigos e familiares...
Por fim, os expurgos alcançaram a população, que perecia diante da escassez provocada (dizia o governo) pelo capitalista inimigo opressor, e engrossada pela política de “bocas a menos a alimentar, gente de menos a controlar”. Então, além de fuzilamentos de supostos traidores do partido ou da nação, eram disseminadas práticas como o aborto e a eutanásia, para diminuir o número de pessoas improdutivas, como crianças, idosos e doentes, um estorvo para o governo.
Estabelecido o controle total, pôs-se em prática o plano comum em todo país dominado por uma estrutura ditatorial, onde o “Establishment”, a “Nomemklatura” e os “amigos do rei” vivem de forma diferenciada, num lugar em que a propaganda, inimiga da realidade, afirma: “todos são iguais”.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.