terça-feira, 29 de junho de 2021

Uma rede de fezes

 

Fezinha, hipocorístico de Saquinho de Fezes, como era conhecido, tinha uma estranha mania de ter fé na vida.  NÃO! Sujeito peculiar, costumava intrometer-se em qualquer assunto discutido ao seu redor. Tomava a palavra mesmo sem lhe ser concedida e dava um show, prestando esclarecimentos definitivos, formulando conceitos científicos, inclusive , atacando teorias e desqualificando posições contrárias às suas. Enfim, brindava com sua opinião de especialista aos que quisessem ouvi-lo (ou não).

Por ser um homem do mundo, fazia questão de dividir sua sabedoria com todos, e não apenas com o seleto grupo que privava de maior intimidade. Com efeito, bastava uma rodinha formada e lá vinha ele, pisando manso, olhando para os lados, balançando a cabeça e dando sorrisos e tchauzinhos para o vazio, tal qual políticos e celebridades impopulares.

E chegava chegando...

Estávamos entre o fim da década de oitenta e o início da década de noventa do século passado; e informação não era algo encontrado com a facilidade de hoje. Não havia internet, smartphones, buscadores ou redes sociais, ferramentas que permitiriam desmenti-lo imediatamente. Pode-se dizer, com isso, que a parca tecnologia, ao fim e ao cabo, advogava em seu favor.

Após chegar ao grupo e fingir, por um minutinho, inteirar-se da conversa que já estava ouvindo há tempos PIMBA! , passava a expor aos interlocutores sua (pseudo)autoridade sobre temas (por ele) desconhecidos. Um papai sabe-tudo que espalhava a roda, gerando o anticlímax em conversas até então empolgadas, entabuladas por jovens não dinâmicos que muitas vezes puxavam um assunto apenas para contar uma anedota. Alguns iam embora, porque as explicações do maluco tomavam um tempão e gastavam a onda que a bebida dava nos amantes de Baco. E é importante salientar que as conversas, invariavelmente, ocorriam num trailer badalado à época. (Hoje é mais chique falar foodtruck.)

Como eu ia dizendo, lá vinha ele. Sobre a criminalidade, dizia: Acho que as leis do Direito Penal poderiam... ; sobre a qualidade da educação: Veja bem, as universidades formam... ; sobre o transporte público: Quer saber de quem é a culpa?  NÃO! É do olho gordo dos empresários, que...; sobre instrumentos musicais: O captador da Giannini Stratosonic é muito melhor que o da Golden Les Paul. Já as cravelhas...; sobre a existência de OVNIs: Perdi as esperanças de que os Estados Unidos liberem os extraterrestres capturados naquela nave espacial que caiu na Área 51. Fiquei sabendo, de fonte segura, que...; sobre a Autolatina: De cara, eu digo que a VolksWagen saiu perdendo, mas prefiro falar detalhadamente das diferenças dos motores do Apollo, do Verona, do Versailles, do Logus e do Pointer...

Na vida, porém, há limites que devem ser impostos; e como não poderia trair meu sangue latino, aos poucos fui ficando incomodado com aquelas interrupções non sense. Certo dia, depois de tomar umas geladas, alguém falou do cientista todo tortinho, que era fera na Física sim, não sabíamos seu nome de cor.

Ainda a certa distância daquela roda de conversa, Fezinha veio falando alto e já se adiantando: Veja só, esse cara é um...

Foi a gota dágua para que eu, um jovem meio inconsequente, e por vezes mal educado, disparasse em tom zombeteiro: — “Veja só é o cacete! Você vai falar que entende de Física Quântica? Vai se ferrar!

Em meio à gargalhada geral, ele murchou; e aproveitando o gancho, a galera perdeu os pudores e pegou no pé dele, colocando para fora o que há anos incomodava. Muitos ansiavam que alguém tomasse coragem e fizesse isso. E fui eu, que, de minha parte, confesso que cheguei a achar que tinha exagerado.

Os fatos, como foi dito, ocorreram há cerca de trinta e três anos, mas trata de algo extremamente atual, nesse mundo de ai, meu Deus!

Confira a timeline das suas contas nas redes sociais e veja se não encontra alguns Fezinhas por lá. São pessoas sem o mínimo conhecimento que invadem postagens alheias para emitir opiniões não solicitadas em temas variados. Para piorar, porque sempre é possível, há os que deturpam o conteúdo da mensagem por pura incapacidade de interpretar textos. (Antes, uma dica: certifique-se de que não é você quem age assim.)

Da minha parte, joinha mental para quem faz da sua conta um meu querido diário e a recheia de opiniões sobre os mais variados temas. Não ligo, não comento, não ofendo. Mas, por que Oh, Pai! Por quê? a ignorância ou a necessidade de se expressar impulsionam certas pessoas a opinarem nas postagens de outras que mal conhecem, para ofendê-las ou as criticar? E o fazem com gosto, todos os dias, todas as noites, todas as horas, todos os segundos, todas as madrugadas, momentos e manhãs...

Fezinha não era má pessoa, e por isso demorei tanto tempo para reagir. No fim, tudo ficou bem, ele não ficou bravo comigo, mas valeu a lição, pois o ritmo dessas intervenções diminuiu.

Na ocasião, havia o contato pessoal, presencial, que suscitava a ponderação sobre a indelicadeza de sacanear alguém na lata, mas hoje é diferente. Esse comportamento peculiar foi socializado e as redes sociais multiplicaram a quantidade de pessoas como o saudoso Fezinha; são polímatas da internet que não se constrangem ao dar pitacos sobre temas variados. Antes fossem como unicórnios, difíceis de encontrar.

Além disso, a realidade mudou, e agora é fácil rebater com autoridade, e de forma instantânea, as asneiras com que nos molestam. Mas há sempre um desgaste e a perda de tempo.

Eu, da minha parte, encaro esse mal pós-moderno da seguinte maneira: se alguém escreve tolices, despeja frustrações ou apresenta suas idiossincrasias em meus posts, não espero para constatar se é buona gente. Bloqueio sem culpa, para não ser grosseiro como fui um dia e evitar a fadiga. Depois, não comento com terceiros nem começo discussões a respeito do episódio em novas postagens. Estou envelhecendo, ando com pouca paciência e, além do dever de prudência — que deve ser observada principalmente nessa fase da vida em que tendemos a exercitar sem filtros a qualidade da franqueza —, sinto medo das transformações por que passa a nossa sociedade.

 

 

Fernando Peixoto

Advogado, pós-graduado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Teoria do Especialista

 

Terminado o ajantarado de domingo, era hora da digestão.

— Venha! Vamos à varanda tomar café; temos algo sério a palrear — disse Arnuvô Antunes.

— A coisa é grave? Fala de semblante sisudo, pai; seu tom insinua que eu aprontei algo que nem de longe passa por minha cabeça.

Para acalmar a cria, respondeu docemente:

— Nada disso, filho; a questão é bem outra, pois.

Olhava orgulhoso para aquele que, dia desses, precisamente há dezoito anos, era um bebezinho nascido com cara de joelho que em pouco tempo se tornara um pinga-fogo. Não imaginou que chegaria tão rapidamente à idade de abandonar as asas protetoras dos pais para encarar o mundo adulto.

— Sente-se! Vamos encerrar o mistério — disse ao puxar o assento.

Era tempo de conquistar a vaga na faculdade e hora da conversa aguardada ansiosamente há anos: um bota-fora da juventude de Marx Simplício Antunes — Simplinho, na intimidade —, no qual seria exposta a melhor forma de o rapaz evitar as dificuldades que o pai havia enfrentado. Pretendia concatenar as ideias discutidas nos últimos anos com o filho, sobre política, poder, dinheiro, futuro, formação acadêmica e profissional.

— Deixe-me recontar minha história com detalhes para uma reflexão sobre as exigências de uma trajetória vencedora, sem percalços nem sustos.

Corpulento e com cabeça pequena, o que causava incômoda desarmonia, Arnuvô possuía dedos gordos feito salsichas, barba rala e grisalha, era suarento e os pés chatos exigiam sapatos especiais. A voz era grave, e falava manso até nos momentos de tensão. Casou cedo com Cátia Mascarenhas, a Tita, mas, como ambos priorizaram o sucesso profissional, ele já não era moço quando o filho nasceu. Aposentara-se como magistrado numa das maiores Cortes de Justiça do país, no Distrito Federal, depois de iniciar a carreira no Tribunal de Justiça, cuja vaga abiscoitou através do quinto constitucional - introduzido no Governo Provisório de Getúlio Vargas, na Constituição de 1934 -, pelo prestígio alcançado no posto de Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Espírito Santo, que comandou por oito anos.

Seu pai, seu Joaquim, um comerciante descendente de portugueses, alcançou cedo a calvície; possuía traços árabes, rosto largo, bochechas grandes, e apresentava grandes tufos de pêlos nas narinas e nas orelhas. Era um daqueles homens que os norte-americanos chamam “self made man”. Na infância, vendeu cocadas, balas, mariolas e frutas; na juventude, deu expediente numa fábrica de tecidos até que, após juntar dinheiro com muito sacrifício, iniciou o pequeno armarinho no Parque Moscoso, Centro da capital. A empresa prosperou e Joaquim casou com Genara, uma italianona gorducha, fogosa, embora religiosa, que se vestia com recato e possuía mãos fortes, belas ancas e cabelos e olhos negros como azeviche. Com ela teve nove filhos, e não se soube de nenhum bastardo.

— Mamãe ajudou no que pôde; poupou cada centavo enquanto dava conta da educação dos filhos, cultivava uma baita horta e cuidava do galinheiro e do chiqueiro construídos no quintal da chácara. Os bichos, por sinal, alimentavam a família e ainda rendiam uns bons cobres, vendidos vivos ou abatidos.

Arnuvô foi o oitavo a nascer; por sorte, no período das vacas gordas, em que pôde gozar de regalias, pois Joaquim pôs os mais velhos no trabalho pesado para expandir os negócios, mas apiedou-se dos mais novos e exigiu deles apenas um curto período de plantão na loja, para tomarem gosto pelo trabalho. A essa altura, o espaço físico da empresa dobrara e outra loja havia sido inaugurada, funcionando no térreo de um sobrado da mesma rua, adquirido pelo patriarca, e onde os filhos iam viver amontoados à medida que casavam. No novo negócio, oferecia serviços de alfaiataria, venda de calçados e aluguel de roupas finas — esse último não sendo levado adiante, por ser algo para além do seu tempo. Graças à parcimônia de Joaquim, quando a expansão das cidades promoveu a fuga dos centros das capitais, e ocorreu a obsolescência daquela prática comercial, provocando o consequente fechamento das lojas, os filhos se encontravam bem remediados, embora nenhum deles tenha enriquecido, à exceção de Arnuvô.

Ademais, o velho tinha por princípio não cobrar nem dever favores, e por isso jamais lhe passou pela cabeça incomodar clientes e amigos influentes para solicitar uma sinecura onde encostar os rebentos.

— Sabe, filho — continuou —, fiz minha parte; não queria ser acomodado como seus tios, que não passaram de comerciantes medianos.

Arnuvô investiu muito na profissão, mas também soube usar, à revelia do pai, a consideração e o respeito que o velho gozava em meio à nata da sociedade. Pavimentou a carreira após advogar em regime austero na maior banca capixaba e, depois de experiente, levou os melhores clientes do antigo patrão e muitos dos empresários amigos de Joaquim para o escritório que abriu com um influente colega de faculdade.

— Eu consegui montar a maior banca do estado nos ramos do Direito Tributário e Comercial; e ganhei muito dinheiro.

E então explicou como alinhavou contatos nos meios jurídico, político e empresarial. Ele sabia a quem recorrer; e conhecia prepostos que recebiam dinheiro em nome das autoridades de cada ente público. Praticava tráfico de influência abertamente, patrocinava festas de servidores públicos, distribuía brindes no final do ano, ingressos de espetáculos concorridos e até viagens com hospedagem para locais paradisíacos, mas não tinha poder institucional; e precisava do poder para a roda girar ao seu derredor, pois os ventos poderiam mudar numa mudança política desastrosa.

Por isso passou a buscá-lo.

Entrou na Maçonaria e mexeu pauzinhos para assumir uma comissão da Ordem, instituição que usou para patrocinar ações do interesse de determinadas pessoas e grupos de influência. As coisas aconteceram: ganhou títulos honoríficos e acadêmicos, além de novos clientes, prestígio e muito mais respeito. Por fim, deixou de pagar pelos favores recebidos.

Em meio às elucubrações, dona Tita trouxe um bule de café recém passado, xícaras, açúcar, adoçante e o famoso bolo de Santa Maria, receita de gerações de sua família. Tinha nove anos a menos que o marido, seus cabelos eram castanhos, mantidos em volume para esconder as orelhas de abano; a boca miúda, os olhos ranços, com cílios enormes, e as sobrancelhas finas. Vaidosa, magrinha e arisca, amava maquiagem e jóias.

O marido regalou-lhe um sorriso manso e continuou com o filho:

— Quando fui empossado como Desembargador, deixei o escritório nas mãos do Fausto Miranda e mudei de categoria.

Agora as pessoas o procuravam, dispostas a entregar malas de dinheiro em troca de conselhos, como costumava dizer; e ele, para não sujar as mãos, indicava o antigo escritório: — A banca certa para patrocinar a causa —, dizia entre piscadelas aos jurisdicionados aflitos. E a mesada chegava limpinha, gorda; Miranda jamais fora infiel.

Arnuvô se mexeu na confortável cadeira e serviu uma xícara do café colhido, torrado e moído em sua fazenda.

— Eu empreguei sua mãe e alguns parentes de pessoas influentes em bons cargos em comissão, que foram mantidos nos sucessivos Governos — ninguém era demitido, ainda que mudassem gestores e ideologias; e fiz o mesmo em relação a admissões em cursos de pós-graduação das universidades públicas. 

Dessa vez pegou um naco de bolo, enfiou-o todo na boca e, após o engolir, perguntou ao filho, que estava aparentemente distraído:

— Agora, diga-me, o que você tem em mente?

O rapaz deu uma estremecida, arregalou os olhos e respondeu:

— Eu pretendo me formar em Direito e seguir a sua carreira. Seria muito justo, certo? O Fausto ofereceu uma vaga de Advogado Sênior e se dispôs a voltar ao nome inicial: Antunes & Miranda. Eu ainda poderia me dedicar ao lobby, frequentar mestrado sanduíche na Argentina, doutorado e pós-doutorado em Coimbra e Salamanca; assinar pareceres, conseguir vaga de professor na Federal e esperar o tempo passar até tomar posse num Tribunal qualquer pelo quinto. Esqueci alguma coisa?

Arnuvô intercedeu, descendo repetidamente as mãos espalmadas para baixo, como a indicar uma frenagem; e, apesar de mostrar inquietação, concordou que o serviço público no Brasil é promissor, pois o trabalho do intelectual orgânico é valorizado, mas advertiu que não foram apenas os gordos salários de magistrado que proporcionaram aquela vida abastada.

— Foi difícil amealhar um vultoso patrimônio; precisei correr riscos. — falou em tom pesaroso, confessando que a considerável soma depositada nas contas dele, da mulher e do filho, no país e no exterior, era fruto de arranjos nada republicanos; e aproveitou para alertar Simplinho sobre ser essencial que não esbanjasse com deleites juvenis.

— É bom manter as reservas, o futuro a Deus pertence.

— Não sou dado a gastanças, fique em paz! — disse ao orgulhoso pai.

— Acumule mais e providencie que só exista a mão de entrada, e nunca a de saída, em seu bolso. — advertiu o velho.

Arnuvô advogava que a solução para uma carreira promissora era a diversificação, o que lhe faltou por não ter sido bem instruído: angariar prestígio para estar na grande mídia e nos círculos da intelectualidade oficial. Assim, poderia alcançar o estrelato, dar entrevistas, palestrar e publicar livros, inclusive de áreas alheias a sua formação — multidisciplinariedade era a pedra filosofal —, pois os queridinhos do establishment podem abordar qualquer assunto, sem a menor ideia do que se trata, que ainda assim o público consome.

— E qual seria o caminho? — perguntou.

O filho balbuciou algo, mas Arnuvô, não querendo ser interrompido, adiantou-se e respondeu a pergunta retórica:

— Você tem que ser um especialista. Especialistas conquistam respeito fácil e são muito requisitados; estão sempre em evidência, são celebridades recebem convites para participar de audiências públicas, programas de rádio, TV e internet. São muito bem pagos para dar pitacos aqui e ali sobre todos os assuntos e quaisquer acontecimentos.

— Especialista! Nunca havia pensado nisso como profissão.

Um dos três gatos da casa passou ronronando e se arrastando na perna cabeluda de Arnuvô, que não suportava os felinos, mas admitia-os em casa em respeito a Tita.

Ele puxou a perna, fez um muxoxo e explicou:

— Requer mais titulação que capacidade. Por esse motivo, é importante não fazer apenas uma, mas duas faculdades — e simultaneamente —, como Direito e Ciências Políticas, para poupar tempo.

Disse que uma singularidade desses tempos é que as faculdades não exigem nada além da presença do aluno; a baixa cultura e o analfabetismo funcional andavam tão em voga que, para obter sucesso, bastaria ao aluno assumir os conceitos e as narrativas vigentes, mascarando uma postura crítica, que o diploma chegaria em mãos. Ademais, em qualquer faculdade de Humanas estudam-se, basicamente, os mesmos autores, como Karl Marx, Karl Popper, Herbert Marcuse, Michel Foucault e Zigmunt Bauman. Então, o tempo e o esforço dedicado a uma seria aproveitado na outra. E, para melhorar, o professor moderno salva qualquer aluno, inclusive o que se esforça para tirar nota baixa, mandando-o fazer uma tarefa em casa, trabalho que poderá ser encomendado até mesmo no rapaz que vende salgados na cantina da faculdade.

— Você não vai precisar dedicar muitas horas ao estudo. Poupe tempo, capacite-se nas orelhas dos livros de escritores mainstream. Dos clássicos da literatura universal, colha um ou dois capítulos e leia resenhas disponíveis na internet.

Pegou mais um pouco do café, que já começava a esfriar, e falou da importância de perambular com papéis e livros nas mãos, para afetar erudição.

— A aparência é tudo! — falou firmemente.

E falou também que o filho deveria adotar, ainda durante a formação, um tom professoral ao se dirigir aos colegas e aos demais interlocutores, pois isso impressiona e pode render frutos.

Ao tratar de temas que não dominasse, deveria falar de forma assertiva; e não se sentir constrangido ao se contradizer no curso da exposição de ideias, pois os ouvintes nunca percebem. E se perceberem, dificilmente terão coragem de o admoestar. Além disso, não seria demasiado apresentar soluções teóricas para temas sensíveis, sem se preocupar em provar a viabilidade de sua execução, pois é mais importante ter uma opinião que ter conteúdo; e opinião sobre tudo...

— Você deve conhecer as notícias dos grandes jornais e os temas discutidos pelos medalhões. Seus posicionamentos devem se conformar ao discurso corrente, mas afirme que são pessoais e que algumas figuras conhecidas concordam com você, embora a abordagem deles seja confusa.

Arnuvô estava empolgado.

— Use a palavra ciência aqui e ali, para dar sustança as suas teorias. A palavra ciência impressiona, e é repetida por onze em cada dez idiotas. Qualquer teoria abstrata se torna realidade para um público ignorante quando, ao final, há a afirmação de que aquilo é ciência.

— É verdade, pai. Qualquer político semiletrado fala em ciência, inclusive usando o termo fora do contexto.

 — Sim... São os que falam do que não sabem, como eu disse. Outra coisa: nunca deixe de participar de debates com intelectuais prestigiados pelo grande público; e jamais seja-lhes hostil.

Agora Arnuvô suava, e de tanto que suava, tinha a respiração dificultada; e a voz saía rouca:

— Frequentando o círculo correto, você será chamado para dar palestras em empresas e instituições públicas e privadas; viajará por conta dos anfitriões, receberá gordos cachês; nessas viagens patrocinadas poderá se encontrar no estrangeiro com quem queira lhe pagar propinas; venderá os livros que escrever pela propaganda gratuita dos fóruns em que participa e dos puxa-sacos. E para ter uma produção bibliográfica volumosa, basta adequar a escrita de obras estrangeiras ao vernáculo, com uma ou outra citação em língua estrangeira, ou tratar de assuntos de forma rasa com pompa de alta cultura. Se o tema estiver em voga, escreva um livro de poucas páginas e peça ao editor para fazer parecer mais volumoso. Não se preocupe, serão best sellers.

Dessa vez, o gato caolho, o mais detestado, deu o ar da graça e levou uma bicuda de Arnuvô. Novo pedaço de bolo enfiado inteiro na boca, seguido de um glup-glup no café morno. Tornou ao bate-papo:

—Sei que não será difícil para você, sua educação foi planejada para forjar uma trajetória vencedora. Não atenda às más influências, despreze os resquícios da ascensão do fascismo e do populismo de extrema-direita que assolaram o mundo e o país em tempos recentes.

E pela enésima vez falou da odisseia que tinha sido a escolha da escola em que fariam sua matrícula. Ele e dona Tita olharam com lupa as instituições burguesas disponíveis´: a mais festejada era menos eficiente que a fama; a religiosa (Deus nos livre!) estava fora de questão; a terceira formava profissionais de exatas, o que não os apetecia. Optaram pela que era voltada a moldar líderes.

— Essa percepção é ouro puro, poucos pais se dão conta disso. Eu e sua mãe fomos muito perspicazes — falou enquanto comemorava com um soco no ar.

Aconselhou Simplinho a, em seu tempo, fazer o mesmo pelos filhos, os seus netos; e lembrou da importância de tomar as rédeas da educação das crianças, impedindo que levassem a vida que ele, Simplinho, forçosamente pregaria da boca para fora, como liberação de drogas, antirracismo, lesbianismo, gayzismo, ecologismo, misticismo... Isso era para as famílias alheias; sua preocupação seria garantir o equilíbrio entre os extremos.

— A sua família, construa e mantenha no formato tradicional. É impossível manter a harmonia no caos. Perante a sociedade, combata o reacionarismo e o conservadorismo, pregue o dever de não abrir concessões aos limites castradores impostos por nossa civilização ocidental. Porém, jamais os renegue em sua vida privada. Viva-os, filho! Sequer questione.

Na sequência, serviu-se de mais café e quase cuspiu, pois já estava intragável. Puxou um lenço de linho bordado com suas iniciais e passou no rosto e na boca; e só agora pôde observar que o vento parara de soprar e o calor tomava conta do ambiente.

Arnuvô fitou o infinito como a buscar mais argumentos e prosseguiu, afirmando que o segredo do sucesso era usar a linguagem jovial dos influenciadores digitais, dos artistas ou de outros profissionais que arregimentavam jovens e adolescentes.

— Comunique-se como aquele paspalho que imita foca; — falou — seja o cara legal que os jovens amam e os velhos infantilizados que abundam em nossa sociedade admiram. São pessoas totalmente desprovidas de conteúdo e facilmente manipuláveis; telas brancas em que podemos reproduzir aquilo o que quisermos, tanto no corpo quanto na mente.

Não, cioso leitor, a essa altura não perdemos o exemplar pater familias para o mundo delirante dos confusos mentais; ele apenas sugeriu de forma mais incisiva o tipo de comportamento que leva ao sucesso.

Ele voltou à carga afirmando que seria útil fazer e estreitar amizade com jornalistas e blogueiros para, através deles, ocupar espaços na mídia, replicar seus artigos e promover seu trabalho.

Também era apropriado apoiar instituições civis voltadas para as causas progressistas. Mais importante, ainda, seria criar sua própria ONG para receber dinheiro grosso de milionários e de fundações globalistas. Por fim, e em suma, sua meta de vida deveria ser alcançar o status de influenciador editor da sociedade; ser considerado em seu métier — não precisava sê-lo efetivamente — como filósofo, jurista, humanista, cientista político e escritor. O que é um baita pedigree.

— Você não vai precisar possuir o poder diretamente; com o poder, o dinheiro chega, chega grosso, mas também chega vigiado pela oposição e por inimigos. Empenhe-se em influenciar um número considerável de pessoas poderosas, seja generoso com eles e eles abrirão muitas portas. — e enquanto lamentava que no seu tempo as instituições eram muito imbricadas, arrematou: — Quer mais poder que isso?

— Pai, será que consigo realizar essa façanha? Nessa minha curta vida, eu segui seus conselhos preliminares, fiz amizades importantes e frequentei gente bem nascida, mas, olhando o que foi falado aqui, resta sopesar o quão difícil é ser especialista.

— Você consegue. Seja modesto ao se aprofundar no campo da intelectualidade, saber demais encurta os horizontes. Defenda ideias de forma conveniente ao pensamento dominante, e aperfeiçoe-se no manejo das palavras. Sinalize virtudes em qualquer tempo e lugar, evite conflitos e comunique-se de forma simples com os que possuem poder e dinheiro. Por fim, use linguajar difícil para impressionar tolos e intelectuais. Esse é o caminho. Agora vamos assistir ao jogo da seleção; e chega de café, — Argh! — precisamos dormir cedo. 

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista

 

 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A calva

  

Há uma calva alva esperando

para atravessar na faixa

Mas, a guarda, ninguém baixa

Ela se demora, e enquanto o sol brilha

A calva sua e também brilha como sol

Ao refletir seus raios

 

A calva não se dá por vencida

E estende a mão como manda o figurino

Daí vem o motorista inconsequente

  um caminhão e quase a atropela

Babaca!

Se sua mãe o visse e ouvisse  

o que pensariamotorista?

Xingada sem dó nem piedade,

pelo moço gordo que atravessava do lado oposto

 

Ah, a calva! A calva alva...

 

De repente, o motoqueiro, à toda,

  despenca da calçada acelerando

E quase lhe arranca um membro

É como se estivesse num enduro — o

  jogo é duro

Igual ao chão beijado após o desvio

  tresloucado

E depois de caído, com o corpo

  retesado

O capacete retirado; vai ralhar, 

  sem calma, com a calva:

— O que você faz na rua, 

  atrapalhando o trânsito?

Eu sou motoqueiro, faço entregas 

  vapt-vupt

Não tenho tempo para atrasos

E isso isenta minha responsabilidade

A culpa é sua, a culpa é sua,

Da calva que sua; e brilha como o sol.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Alcebíades, o porteiro


Alcebíades Junqueira era um senhorzinho extremamente simpático e aparentemente possuía mais idade que aquela registrada em seu documento de identidade. Baixinho, pele clara, olhos azuis profundos, lábios finos, nariz pequeno, tinta acaju nos cabelos — rareados em razão das entradas que denunciavam uma semi-calvície —, era risonho e daqueles que cumprimentam até as sombras para mostrar-se boa gente. Sua maior característica, porém, era negativa: a estranha mania de meter o bedelho naquilo que não lhe dizia respeito. A curiosidade era maior que a prudência e, não raramente, permitia-se espionar a vida privada de vizinhos, de parentes, de amigos e também de condôminos do Edifício Corporate Master, onde era porteiro. Seu campo de pesquisa, além do diz-que-diz rotineiro, envolvia correspondências e mercadorias alheias recebidas na portaria; e não foram poucas as vezes em que foi flagrado pela câmera de vigilância, aproveitando os momentos de pouco movimento para investigar pacotes e envelopes, chegando até a vasculhar o conteúdo das notas fiscais de produtos.

Sua aposentaria viria em alguns anos, mas contava ansiosamente cada dia abatido. Já estava fichado no condomínio há tempos, primeiro nos serviços gerais e, depois, como porteiro, posto alcançado cerca de dois anos antes de Epitácio de Oliveira comprar uma sala no prédio e passar a dar expediente por lá.

Outro comportamento inconveniente era o costume de ir ao prédio nos dias de folga sem ser solicitado; e não foram poucas as advertências recebidas, pois havia o receio de implicações trabalhistas no futuro. Alcebíades se justificava dizendo que ia acompanhar mudanças ou obras, mas aparecia mesmo sem finalidade específica — uma faxineira informou que a mulher e a filha o tratavam mal em casa, e ele arranjava desculpas para sair. Como não bebia nem jogava, bom cristão que era, ora ia à Igreja, ora ao prédio comercial, sempre vazio nos fins de semana, fazer sabe-se lá Deus o quê.

Sobre Epitácio, ninguém sabia qual realmente era sua ocupação — um e outro diziam que era advogado, contador ou despachante —, e seu Alcebíades, em quem aumentava a comichão de oxiúros quando a curiosidade apertava, ainda atiçava a curiosidade dos frequentadores do prédio. Seu tormento era ver chegarem caixas e envelopes de variados formatos, dia sim, outro também, mas nunca um cliente procurando Epitácio; e de tão incomodado, passou a se empenhar mais para descobrir o conteúdo das entregas enviadas a esse condômino, sendo indiscreto ao ponto de balançar e apalpar as correspondências e os pacotes na frente de outras pessoas. Era uma questão de honra.

Epitácio era um homem pequeno, forte, de sobrancelhas grossas e de semblante sisudo; de poucas palavras, era cordial e muito habilidoso no trato com as pessoas, embora não dado a intimidades para manter curiosos a boa distância e, com isso, impedir inquirições sobre sua vida privada.

Um belo dia, ao chegar de supetão na portaria, flagrou o porteiro investigando um pacote endereçado a sua esposa, que fornecia aquele logradouro para envio de encomendas e de correspondências. Alcebíades mal disfarçou seu constrangimento e sequer conseguiu se justificar. Epitácio foi incisivo ao pedir que aquilo não se repetisse; disse que ele não era a versão masculina da Miss Marple — personagem de Ágatha Christie que resolvia mistérios —, que aquilo não era a conduta de um profissional e que, além de tudo, a curiosidade matou o gato.

Alcebíades deu um sorriso sem graça e disse que aquilo não tornaria a se repetir; e tudo ficou como dantes, como gostaria de saber o leitor.

Não muito tempo depois, com a falta de interesse geral, Epitácio foi convidado a compor a comissão de obras de uma reforma grande que ocorreria no Condomínio, e aceitou muito a contragosto. Como teve que comparecer muitas vezes no prédio fora do horário de expediente, e precisava avisar à central para evitar o deslocamento de seguranças e a ativação do forte alarme que soava em razão de movimentos na recepção, acabou angariando a simpatia dos funcionários que monitoravam o prédio; e com seu jeito bastante peculiar, acabou conseguindo tirar deles declarações informais acerca das atividades indiscretas do porteiro, com a promessa de não revelar quem havia dado as informações. Instruíram-no a formalizar um pedido de investigação para entrega de vídeos e, assim, constatar as atitudes inoportunas do porteiro, para evitar represálias da empresa. Epitácio os tranquilizou, e pediu para que não comentassem com mais ninguém, pois exporia o problema ao Síndico, à Administração e ao Conselho para chegarem a uma solução pouco traumática. Disse que planejava interceder em favor do funcionário, muito bem quisto por todos, para que lhe fosse dada apenas uma advertência.

E cumpriu o prometido.

Foram requeridas as gravações e, apesar do destempero do Conselheiro Marcelo, uma massoterapeuta, e do filho do síndico (que surtou quando o pai lhe contou os detalhes — diziam que ele exercia atividades suspeitas), que queriam a demissão do porteiro, o desfecho não poderia ser melhor. Logicamente, tomou a precaução de mostrar que o porteiro investigava volumes de todas as unidades, e não apenas as suas. Mas Alcebíades, porque era de sua natureza, voltou a pecar, e os monitores avisaram novamente a Epitácio. Dessa vez, porém, ele não requereu gravações e retransmitiu diretamente os fatos a quem de direito; a fonte, contudo, — e como era de se esperar — não informou.

Epitácio tomara o cuidado de espalhar essas notícias a várias pessoas pelo fato de ser um criminoso de alta periculosidade, daqueles que mudam para um local distante de onde viviam anteriormente, para criar uma nova persona. Era envolvido com o tráfico de drogas e de pessoas, com sequestros, homicídios e grande parte dos crimes tipificados na legislação brasileira, e só comprou a sala após se certificar da pequena movimentação de pessoas no edifício; via ali um local ideal para viver com uma fachada de legalidade. E tomou o cuidado de, antes de operar suas atividades, encomendar inúmeros produtos na internet para que essa atividade contínua de chegada de produtos não chamasse a atenção no momento em que passasse a receber material comprometedor, e não poderia permitir que um curioso desmiolado atrapalhasse seus negócios. Com efeito, ele se cercou de cuidados para que muitos soubessem das indiscrições do porteiro a fim de retirar de si a desconfiança de que teria dado cabo do indivíduo; e não deu outra, como você já deve ter deduzido.

Certo dia chuvoso, utilizando uma motocicleta, capacete, macacão emborrachado e carregando uma caixa de aplicativo de entrega de alimentos, Epitácio esperou Alcebíades no meio do trajeto utilizado para retornar a sua casa. Ele nem precisou estudar muito os hábitos do porteiro, um homem que mantinha severamente a rotina: chovesse ou fizesse sol, ele ia de casa para o trabalho e voltava pelo mesmo caminho. Sempre; e sempre carregando consigo um guarda-chuva ou uma capa longa, para se proteger em caso de chuva repentina.

Para chegar a sua casa, era necessário entrar na Comunidade Santa Rita, que dava acesso mais rápido à comunidade onde residia, a Favela da Panela; e foi assim que Epitácio esperou-o passar num local estratégico. Aproveitando a pouca luminosidade e a inexistência de cobertura de câmeras no local, pôs-se repentinamente de pé em frente à bicicleta e, enquanto o freio era acionado, cortou a garganta de Alcebíades com rara maestria.

O corpo foi deixado no local em que a vizinhança depositava lixo, entulhos de obras e galhos de árvores cortadas à revelia do Estado. Foi descoberto no dia seguinte, ao amanhecer, por um catador não cooperativado; e sua boca estava cheia de formigas.

 

Fernando Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A minha democracia é melhor que a sua: aceite e fique quieto

  

As últimas notícias dão conta de que Zuckerblergh começou a mover as patinhas e a colocar seu exército progressista para se imiscuir nas próximas eleições presidenciais do Brasil. Após ajustar os termos de uso do xap-app, para ter amplo acesso às relações privadas de seus usuários,  agora surgiu com um novo modelo de algoritmos para refrear o conteúdo político discutido no fakebook. A fase experimental contempla o Brasil, a Índia (que desenvolve promissora parceria com o Brasil de Bolsonaro) e o país do ditador Duterte.

A decisão vem logo em seguida à revelação da biógrafa da deputada Nancy Pelosi, na revista Time, de que milionários americanos se aliaram às Big Tech, aos sindicalistas, à imprensa e aos adversários de Trump do Partido Republicano (aos Democratas nem é preciso dizer) para "promover a democracia" (que custa caro) e inviabilizar a reeleição do Presidente dos Estados Unidos da América, usurpando o poder na mão grande. (Ela contou isso como se fosse um grande feito, não demonstrando um pingo de vergonha.)

Essa casta formada por debilóides e psicopatas acha mesmo que é iluminada e que possui o dever de editar a sociedade para que seus membros não exerçam o poder de escolha de seus representantes e o faça de forma "equivocada". Não é preciso dizer que nosso establishment está batendo palminhas e arfando com a possibilidade de que isso aconteça por aqui, para melar a reeleição do Presidente do Brasil.

E por que devemos dar importância a tudo isso?

Essa atitude antidemocrática dos sedizentes democratas está ligada a uma ideologia, e para sua implementação é necessária a dominação, a submissão total dos povos (especialmente a espontânea dos histéricos), o que só será possível por meio da política.

É urgente a tomada do poder por autoridades locais simpatizantes, parceiros, vendidos ou puxa-sacos para viabilizar o deslocamento do comando a um governo central, como a ONU, abrindo mão da soberania. (Veja-se o protagonismo da OMS, que se desdizia a cada dia, na direção das medidas a serem tomadas durante a pandemia do vírus chinês - Covid-19 -, mas continuava como Norte da salvação das pessoas desse planeta; vejam-se os argumentos utilizados para aprovação do BRexit.)

E a dominação completa não pode prescindir do conhecimento de dados do cidadão, o que se dará sem maiores aborrecimentos através das Big Techs, que armazenam inúmeras informações dos usuários, incluindo locais que frente, onde está, números de telefone, de documentos e de contrabandista, contatos, parentes, fotos e itens que comprou ou pretende comprar. Some-se a isso a completa digitalização do dinheiro (no Brasil, ocorrerá via pix). Esses dados podem ser utilizados para o bem e para o mal. Hoffmanstall dizia que cada acontece... Então, dê uma olhada no filme A Rede (desaparecimento digital do indivíduo), na série Black Mirror (episódio da avaliação social dos indivíduos) e a Bíblia (sobre o número dos indivíduos). Veja se algumas coisas já não aconteceram (CPF e seguro social), estão acontecendo (cartão social na China), ou vai acontecer (fim da circulação de dinheiro em espécie).

Tudo gira em torno da política, pois é em seu âmbito que está o poder; é através dela que é possível obrigar às pessoas a, p.ex., usar máscaras e a tomar vacina ineficazes, a deixar de exercer seu ofício, a não frequentar o Templo, com flagrante violação dos direitos à liberdade de expressão, de ir e vir, de culto e até de intimidade.

Apenas alguém inserido na escala oligofrênica é incapaz de perceber a importância da política a ditar os rumos de nossas vidas ou não consegue perceber o conluio entre metacapitalistas (que engessaram a mão invisível), autoridades inescrupulosas, a academia e a mídia mainstream para apascentar as ovelhas e fazer a transição ocorrer de forma pacífica.

A decisão mais correta que tomei nos últimos temos foi a de abandonar as redes sociais, o que venho fazendo, e aprender a viver sem elas. De muitas delas, aliás, eu jamais gostei (ou não me adaptei).

Por enquanto, sigo acompanhando plataforma de áudios e vídeos para escutar músicas é colher notícias de canais que AINDA não foram extintos apenas pelo fato de defenderem o cristianismo e o conservadorismo. Quem defende ideias diferente das que circulam como discurso oficial e permitido não possui sequer o direito de existir

Andei pensando em participar de grupos de estudos e de think-thanks voltados para esses temas, inclusive, mas a cada dia que passa experimento o isolamento inexorável de uma vida de estudos. Isso não me atinge, que fique claro, pois já sabia o preço a ser pago pela defesa do "idem velle, idem nolle".

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, metido a escrever algumas coisas e, até certo ponto, um saudosista.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Pandem-Hister-IA


“Lucrécia morreu!”, repetia Ermengarda a cada segundo, lamentando a partida da última das três gatas que lhe faziam companhia há tanto tempo que, para melhor situar o período, tinha que relembrar o ano de partida do seu querido Astolfo (o devotado marido) para a morada do Senhor (se assim Ele quis).

“Primeiro morreu Tirana. Depois, Bombinha. Agora, Lucrécia”, disse, para depois emendar, em prantos: “Lucrécia morreu! Não quero mais saber de felinos. Um dia estão aqui, olhando pra gente com cara de nojo e só se aproximando na hora da comida e do cafuné, e no outro estão ali, estirados, inertes, mortinhos da Silva”. Ela não afirmou que não teria mais animais de estimação, falou de felinos. Logo, era de se esperar que em pouco tempo adotaria cãezinhos, canários ou até uma tartaruga, para, nesse caso, não mais experimentar o dissabor de presenciar a morte do pet.

Esse caso tinha ocorrido há cerca de cinco anos, e Ermengarda há havia superado a dor. No período, havia rejeitado as várias espécies de bichos com que as pessoas chegadas tentaram presenteá-la, com vistas à superação do luto – ela preferiu trocar os cuidados com os animais pela participação em várias pastorais da sua Igreja, Católica, cujos compromissos a ocupavam nos sete dias da semana. Queria cuidar da alma, da sua e das alheias, e promover a caridade. Mas se metia em tudo; e chamava todos às falas. Sempre que possível, ou seja, todo o tempo, reclamava de um e de outro, e encerrava dizendo: “É para o bem da Comunidade. Se eu não for assim, quem há de ser?”

Era a personificação da Teoria Crítica dos ideólogos da Escola de Frankfurt, tão conhecida no meio acadêmico e nos círculos do marxismo cultural, ao qual dedicara seus estudos e sua militância fervorosamente até concluir com honras o curso de Sociologia. E não parou por aí, pois continuou a vida de intelectual orgânica no exercício de um cargo comissionado numa Secretaria Municipal (que ocupou por décadas), até a data em que deu entrada na aposentadoria, aposentadoria essa que pouco pôde curtir ao lado de Astolfo, o marido vinte anos mais velho, que tinha enviuvado pouco tempo antes de entabularem o namoro que acabou num casamento épico, celebrado por um padre amigo, da Teologia da Libertação. Aquela paixão avassaladora que se concretizou no Altar de Cristo fora fruto do empenho de Ermengarda, que, danadinha e meio riponga, conquistou Astolfo com a sua versão do ipicilone – “muito superior ao de Tieta do Agreste”, diziam alguns colegas de faculdade.

Voltando à atualidade, sua vida na Igreja era chamar a atenção alheia, destruindo em palavras secas as ideias e as ações dos fiéis que porventura se entregassem ao serviço: “Coisinha, não coloque santinhos nem terços na Capela, eu já conversei com o Padre e ele me autorizou a evitar isso”; “Esse menino?! Você lê (ou canta) muito mal, devia dar espaço a outros que tenham o dom”; “Fulano, vê se capricha na canjica esse ano, porque a que você trouxe na festa do Padroeiro do ano passado... Deus nos livre e guarde!”

Assim seguia a árdua caminhada de Ermengarda rumo à morada celeste. Sofriam mais os membros dos grupos que ela coordenava, mas não negava os “toques fraternos” aos demais membros da Paróquia. Não respeitava autoridade ou independência de uma equipe sequer – mexia na escala do dia para acomodar algum chegado que quisesse servir de última hora numa Missa Solene sem avisar ao coordenador ou à pessoa substituída; retirava flores do altar se não gostasse da espécie; não admitia a realização de nada que não tivesse sido informado antecipadamente; admoestava os Ministros da Eucaristia e da Palavra, músicos, coroinhas e até os cerimoniários, que deviam satisfações apenas ao Padre Jean-Baptiste Yozemah, um gordinho bochechudo e bonachão que chegava à melhor idade e era muito querido na Diocese. O Padre vivia fugindo dela, pois suas orelhas ferviam todas as vezes que ela o imprensava para reclamar de alguma equipe ou membro da comunidade, em especial quando “dava o serviço”, à sua maneira, de cada um dos inscritos para a confissão semanal, cujos horários eram marcados na Secretaria da Paróquia; e não se retirava enquanto não falasse tudo de todos. O padre, em algumas circunstâncias, argumentava que as coisas funcionavam razoavelmente bem na Matriz e nas demais comunidades da Paróquia, mas ela o lembrava que era fruto da entrega dela, Ermengarda, ao serviço da Igreja. Ele bem que acabava concordando em seus pensamentos, achando que a instabilidade causada era mais facilmente contornável, um prejuízo menor que ter que nomear várias pessoas e administrá-las na operação dos serviços paroquianos. Em algumas ocasiões, quando ela extrapolava no palavrório, ao final do rosário de observações e de maledicências tecidas sobre a vida alheia, o padre prescrevia uma penitência quilométrica. Ao receber a incumbência de executar os inúmeros Pais-Nossos e Aves-Marias prescritos, ela murmurava, aturdida e de certa forma passada, que não estava confessando seus pecados. Mas ela era obediente e não ousava questionar o sacerdote que afiançava abertamente sua administração autoritária. Nessas ocasiões, ele contra-murmurava, dizendo que era impossível que ela tivesse cometido, no curso dos dias, atos e pensamentos mais pecaminosos que aqueles relatados sobre a vida alheia.

Chegou o dia, porém, em que algumas senhoras piedosas do Grupo de Oração, que intercediam pela salvação de Ermengarda em suas orações pessoais – ao alvedrio dela, logicamente –, e que presenciaram seu sofrimento no velório de Lucrécia, resolveram comprar um cãozinho para presentear a governanta da Casa do Senhor. Pela primeira vez impuseram à autoritária senhora a tarefa de aceitar o mimo – um pug que ela acabou recebendo com sentimentos contraditórios: felicidade e angústia. (Tinha tanto que fazer pela Igreja, como conciliar com aquela distração tão fofinha?)

Ultrapassada a sensação inicial, logo começaram os afagos e os gritinhos de felicidade diante das primeiras gracinhas do, agora batizado, Pitoco. E nos dias que seguiram, a postura da varoa começou a mudar e já não se fazia tão presente nos compromissos paroquianos. Após autoconceder-se uma espécie de licença-maternidade, dedicava o tempo livre à compra de roupinhas, acessórios e comidas de cães, e aproveitava para levar Pitoco ao veterinário para consultas, exames e tomar banhos e vacinas. A comunidade seguia aliviada e os membros das pastorais agora podiam servir sem as interferências que os tiravam da Graça do Pai.

Esse evento ocorreu pouco tempo antes da fraudemia e dos lockdowns supervenientes à propaganda histérica que envolveu a peste viral chinesa. E logo no início Ermengarda tentou exercer o comando através das redes sociais, mas isso lhe rendeu bloqueios e unfollows por parte dos fiéis mais rebeldes. E esse comportamento só não gerou um cataclismo porque o fechamento da Igreja e o encerramento de reuniões físicas contribuíram, por outro lado, para uma maior aproximação entre mãe (de pet) e filho (o pet). O presente talvez tenha salvado sua vida, ao menos no aspecto mental. (Será? Eu não apostaria muitas fichas nisso.)

Zelosa com a saúde de Pitoco, ela dedicava grande parte dos seus dias a navegar pela internet vasculhando sobre doenças, remédios e vacinas, e descobriu que as vacinas dos animais tinham em sua composição uma substância que combatia o coronavírus. (“Até os cães tomavam vacina contra o coronavírus”, pensou. “Pitoco está a salvo”.)

Essa descoberta, por outro lado, inspirou-a a mirar os canhões contra o Presidente à época, Jair Bolsonaro, a quem chamou de fascista, obscurantista, terraplanista, negacionista que atacava a ciência e desacreditava as vacinas que milagrosamente haviam sido criadas em tempo recorde por anjos cientistas que Deus enviara à Terra. Ela não via qualquer problema em aplicar vacinas antes do ciclo de estudos completos para apurar sua eficácia, pois aquela era uma situação emergencial.

Com o tempo houve o “relaxamento” do confinamento com algumas restrições, mas houve. Como o canto do cisne, Ermengarda chegava à Missa com duas horas de antecedência para não deixar de assisti-la em razão do número máximo da assembleia ser atingido. Tomava um verdadeiro banho de álcool em gel e fazia questão de operar o termômetro para medir a temperatura dos fiéis que iam chegando à assistência. Ordenava a todos que se sentassem afastados e cumprissem as regras de distanciamento, ainda que fossem da mesma família.

Quando soube do tratamento precoce, por um sobrinho distante que mandou um zap, ficou extremamente animada, mas ao descobrir que Bolsonaro havia indicado um dos remédios enterrou o assunto, pois a TV, os jornais e as agências de checagem diziam que era mentira e entrevistavam especialistas que condenavam a indicação e o uso desses remédios. Em seguida, ainda mais influenciada pela grande mídia, começou a acusar de assassino quem ousasse falar do tratamento precoce. “Vocês não ouviram o Átila Armarinho? Ele tem um canal no Youtube e é doutor intitulado... Ele não divulga feiquinius como o gabinete do ódio e os bolsominions”.

Quando os primeiros lotes de vacina chegaram, tentou mover céus e terras para tomar sua dose, mas não conseguiu. (Outros histéricos e desesperados tinham contatos melhores, parece.) Ela não mudou sua postura mesmo depois de informada que uma vacina não servia para idosos, outra que possuía apenas 50% de eficácia, ou aquela que estava causando trombose e matando velhinhos na Europa. “É tudo mentira”, gritava, “não passou nada disso no Jornal da Globo”. Sequer a tentativa das farmacêuticas de fugirem da responsabilidade dos danos causados por possíveis efeitos colaterais provocados pelas vacinas foi suficiente para convencê-la: “É a Anvisa e aquele monstro do Ministro da Saúde que querem ver o povo morrendo. Quem manda é o genocida”.

O desespero tomou conta de todo o seu ser e, decidida, lá se foi a buscar uma forma de tomar a vacina Vanguard Plus, de uso exclusivo de pets. Não faria mal, pois vários remédios de animais foram usados por humanos no curso da história, pensou. Então, subornou o atendente da clínica Petcionário, que depois de fazer um charminho acabou aplicando duas ampolas, “porque em humanos a dose precisa ser reforçada por causa do peso” (ele disse). “Daqui a dois meses a senhora volta para tomar outras duas, mas ninguém pode saber, viu?”

Cumpriu o prometido: não contou a ninguém que agora estava imunizada, deixando de submeter ao escrutínio de amigos e de conhecidos, o que, em certa medida, negava-lhes a salvação. Afinal, se a vacina-pet iria funcionar para ela, por que não funcionaria para os demais também, ora, pois? Ela também não contou a uns conhecidos da Secretaria de Saúde Estadual, inclusive para não comprometer o anjo da clínica que havia vendido e aplicado as vacinas.

Com o passar do tempo, sofreu algumas mudanças no corpo. Sentia formigamentos, palpitações, lacrimejamento e sudorese intermitente; e, ao mesmo tempo em que melhoraram o olfato e a audição, sentiu uma queda da capacidade de visão e dor nas juntas. As idas à Igreja diminuíram novamente, e a participação nas redes sociais foi rareando até chegar o dia em que Ermengarda brindou as pessoas com a ausência definitiva.

O mesmo grupo de senhoras pias, então, passou a visitá-la com frequência, e as irmãs em Cristo perceberam que, com o curso do tempo, certa decrepitude tomava, paulatinamente, conta do seu corpo, transformando aquela outrora ativa e altiva mulher saudável numa idosa sem energia e entusiasmo.

Os dias seguiram nessa toada até chegar aquele em que, ao tocarem a campainha, as senhoras ouviram, vindo de dentro do apartamento, o latido de Pitoco e, logo em seguida, um au-au no timbre da voz de Ermengarda.

 

 

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista