segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Sonhos não se controlam




Aquela vez em que estivemos em casa de mi mamá,
Eu não quis constrangê-las ao beijar suas faces
Estava celebrando a vida,
Homenageando suas belezas, agradecendo por suas presenças, finalmente, físicas


Quando sofri pela ausência dela, eu não as quis entristecer
Apenas externei que sentia falta de quem sempre esteve  ali, num cantinho, nos últimos tempos
E é muito difícil para mim, d’estar naquele lugar
E encarar com naturalidade a dura realidade


Achei que o destino – ou o acaso – havia-as enviado
Para me ajudarem a esquecer, encarar melhor
Mas, mesmo não passando de um sonho – e era realmente isso
Eu consegui estragar tudo, como sempre faço onde me meto.
Foi o que entendi dos seus agravos.


Peço as devidas escusas, inclusive pela trilha sonora que impingi: “Bananeira mangará”
E prometo que, doravante, vou manter a amizade à distância,
E, ainda que não possa controlar o enredo daquilo que vou sonhar
Prometo acordar no exato momento em que puder vir a deixar alguém sem chão ou lugar
Porque nunca gostei de ser incompreendido.


Vejam bem: Eu conheço suas inteligências, li seus textos, sei o que estudam – ou dizem estudar –,
Mas não conheço as suas neuroses ou histerias.
E por isso meio que encerro aqui, embora não sendo peremptório,
Pois reconheço a dificuldade de continuar o mesmo d’antes
Até porque o incidente evidenciou o mal que faz estar enfurnado nessa “irreal life”
Não faz sentido dedicar tanto tempo a ela, uma rota de fuga da dura realidade.


Continuarei deixando papos-firmes, coraçõezinhos e ha-has, mas com baixíssima frequência.
Comentarei o mínimo, e apenas quando logar,
E depois de responder “meus seguidores”.
Saio para cuidar de mim, sem entrar para a história.
Vou apenas suprir minha ausência em minha vida e,
Em especial, atentar para quem ainda está aqui, em carne, osso e espírito.



Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista.

Os 3 porkim – uma fábula moderna




Insíncero, Dramático e Peidor, descendentes de personagens que, em algum lugar, em algum momento, passaram por maus bocados com um certo Lobo, viviam agora juntos, cada qual com sua própria família, num prédio moderno, urbano, muito bem construído, com sapatas e tudo.

Infelizmente (para eles!), tinham que conviver com outras famílias, de outros bichos, com quem nem sempre mantinham boa relação, pois gostavam de fazer articulações e subjugar a vizinhança a seus caprichos.

Quando uma família de cães mudou para um dos apartamentos – Sr. e Sra. Poodle, e seu filhotinho, o Poodinho –, como de praxe, o trio, hábil em fingir amizades para angariar simpatia e votos nas assembleias, foi dar boas vindas aos recém-chegados. Um levou ração, outro fez orações, e o terceiro presenteou o filhote com um osso de borracha.

Enquanto se congraçavam tomando cerveja, comendo tira-gostos veganos e acendendo incensos; os Porkim, sem deixar a bola cair, aproveitaram o clima para queimar o filme do Bode Velho da Cobertura e da Maritaca do 1º andar.

Os cães até tentaram manter um relacionamento amigável com os renegados, mas, com o tempo, perceberam que suas personalidades se adequavam mais às dos Porkim. Para ajudar, o azedume do velho Bode e a cantoria incômoda da Maritaca acabaram afastando de vez o casal de fifis, falsos que dói e donos de uma frescura que só a natureza da raça explica.

Os outros moradores do edifício AB Farm eram: o Sr. Pinscher, do 3º andar, um vida lôka metido a fashion, que não fedia nem cheirava, assim como o Seu Robalo, que vivia com a mãe, no 301; os jovens do 2º andar, Cervo, do 201 e Barrão, do 203, seguiam todas as recomendações dos Porkim, igual à Dona Foca, do 101, e a Srta. Marreca, do 204, duas solteironas amargas, uma velha e outra nova, que não suportavam o Bode, sua esposa – a Cabra –, e seus Cabritinhos. Havia, ainda, duas repúblicas de estudantes: no 102 moravam Galinhas e Pombos, e o 303 era dividido entre Gatos e Pavões. Os estudantes não se relacionavam com os demais condôminos.

Como é comum nas grandes cidades, formavam uma maioria de solitários, isolados das famílias e dos amigos, que conviviam intimamente com samambaias e pets. E os encontros esporádicos com esses amigáveis vizinhos, para deitarem falação sobre a vida alheia, dava-lhes a falsa sensação de ainda viverem em sociedade.

O desgaste da relação o Sr. Bode aumentou quando os Porkim marcaram uma assembleia para destituir a síndica, Dona Garça, que havia sido eleita pela providência divina, retirando deles o império de décadas. Além disso, ela não permitia que filhotes jogassem bola na garagem, nem que os conspiradores guardassem suas motocicletas num canto onde atrapalhariam a saída de outros condôminos, que eles consideravam “menos importantes”.

O Bode, indignado e avesso a maracutaias, mostrou o absurdo pretendido, mas eles contavam com o reforço da retórica do Sr. Poodle e os votos das marionetes. Foi voto vencido, com Dona Garça e Srta. Maritaca.

A partir desse dia, os Porkim e o Sr. Poodle desciam todas as noites para encontrarem meios de dificultar a convivência do desafeto, e levá-lo a se mudar de lá.

Por conversarem no escuro, ficaram conhecidos pelos moradores dos prédios vizinhos como Turma do Pacto das Catacumbas, mini-vingança do Bode, que criou o apelido como forma de protesto, em alusão aos comunistas do Clero Católico que, pretendendo implodir a Igreja tal como concebida através dos séculos, se reuniram em segredo, no curso de dois Sínodos realizados no Vaticano. Com eles pareciam por serem seres rastejantes que viviam nas sombras até alcançarem o poder.

Inventaram inúmeras reformas, jogaram o valor da taxa condominial lá em cima, e alguns realmente tiveram que sair, principalmente, o Velho Bode, cujos negócios iam mal e era o provedor da maior família do condomínio. Ele vendeu a unidade quando foi aprovada uma grande obra, que fez aumentar a taxa em 200%, e lá se foi, recomeçar a vida num bairro da periferia.

Bateu os sapatos ao sair, para sequer levar a poeira daquele lugar, e nem soube que contrataram a Lupus Malus Construções para reformar o prédio, cujo dono era descendente de você-sabe-quem.

Tempos depois, ouviu-se no noticiário que uma tragédia se abatera no Edifício AB Farm.

No lugar de reforçarem as estruturas e repaginar o edifício, como contratado, o empreiteiro e sua equipe literalmente puseram o prédio abaixo. Fecharam as saídas, derrubaram as portas das unidades e, em seguida, chacinaram os moradores, passando um a um no garfo, para depois baterem em retirada.

Pesaroso, o Bode chamou sua família para juntos rezaram por aquelas almas, e aproveitou a história para ensinar uma lição aos filhos.

Diferentemente do que ocorreu com os antepassados do trio de porquinhos, a moradia com estrutura sólida não adiantou dessa vez. Ninguém soprou, o prédio ruiu por dentro (que ironia!). Não havia ali ninguém sensato. Os líderes, vaidosos, orgulhosos e politiqueiros, não reuniam capacidade intelectual suficiente para perceberem que levavam todos à morte.

O Sr. Lupus Malus não foi punido, como era de se esperar, porque as leis locais eram progressistas, frouxas.

Na época, falava-se muito em desencarceramento, e a ação criminal foi distribuída ao Juiz competente, o mais graduado do Tribunal Aquático, o Sr. Bagre, um pulha odiado por todos porque não punia os das classes mais abastadas, mas brindava com sua severidade os menos assistidos.

Pouco tempo passou, e a sociedade nem lembrava mais disso.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

O fiscal das redes




Malaquias de Oxóssi dos Santos – essa a grafia de seu nome de batismo – é impiedoso nas redes sociais. Não deixa passar uma postagem de um webamigo (ou webinimigo, não importa) em que não veja, do alto do seu QI-87, “métrica e rima”, notícia atualizada ou texto compreensível e/ou agradável. E lá vai ele deixar seu imprescindível comentário.

Nesses tempos de mudanças de paradigmas no campo da política, diz que pertence à ala da direita soft, também dita limpinha (ou light), e da qual também fazem parte a galera do Clube do Livro, alguns youtubers e poucos comediantes. Na verdade, é o pessoal conhecido como a Nova Esquerda brasileira.

Versado nas obras de Mises, Rothbart, Ayn Rand, e nos textos e teorias do Luciano Ayan, considera seus conservadores preferidos o João Pereira Coutinho e o Luiz Felipe Pondé.

Jamais curte as postagens da gente comum que lê diariamente, tintim por tintim, buscando alguma irregularidade, embora aproveite as ideias como suas, nos comentários que faz nas postagens de perfis famosinhos, aos quais dedica todos os seus likes.

Invariavelmente, nas postagens dos não-famosinhos, deixa comentários irônicos; mas o problema começa mesmo quando, segundo seus critérios, encontra imperdoáveis deslizes.

Esse é o Malaquias...

Notícia antiga?

Tome-lhe uma traulitada pela displicência.

Shitpost?

Se não compreende, “fodace”, diz que é feiquinius.

E se esbarra numa crítica a seus companheiros de viagem liberais, aumenta o tom nas críticas, postando textão, arranjando quizila, dando bronca e puxão de orelha, enfiando dedo no olho, chamando de “burro fofoqueiro”, de “mariquinha”, e até xingando à vera.

Já em sua grandiosa timeline, não há nada além de fotos de paisagens, propagandas de seu negócio e os dois livros que lê por ano, em PDF, a maioria fornecida pelo Instituto Liberal.

No texto de apresentação do perfil, Malaquias escreveu: “Não falo de minha vida porque o povo é doido, questiona tudo e procura treta”, dando a entender que tem mais o que fazer, a ficar tretando na internet, em sua timeline.

Li isso antes de bloqueá-lo, e pensei: “Eu, hein! Parece que tá lôko nas drogas”.


Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A merda só fica pronta depois das seis



Uostergleysson ia ao banheiro, diária e pontualmente, às seis e trinta da manhã, para exercitar o intestino. Naquele dia, porém, precisava fazer um exame de sangue bem cedo, e acabou saindo de casa antes do horário do hábito - às 5h45 -, em jejum, rumo ao Centro da Cidade para encontrar o “vampiro”.
Ele até foi ao banheiro, sentou no bocão, e por quase dez minutos tentou dar uma aliviada, mas não conseguiu, por falta de material pronto.
Saiu de casa, pegou o coletivo, andou um tanto e chegou ao laboratório dentro do horário, sendo liberado pouco mais de sete da matina, quando foi procurar algo para o desjejum.
Enquanto entrava num local aparentemente limpo e saudável, sentiu um primeiro deslocamento de ar dentro da barriga. A nebulosa saiu de um ponto a outro como um raio e parou pertinho do escapamento. A violência com que aquilo ocorreu o deixou em estado de alerta, mas continuou fazendo o que tinha que fazer.
Só que, poucos segundos depois, sentiu-se novamente incomodado e, prevendo o que estava por acontecer, viu-se obrigado a usar o banheiro da lanchonete na qual já havia se sentado e tinha acabado de pedir uma coxinha e um suco, o que seria seu café da manhã.
Correu para a casinha e, lá chegando, não achou o vaso. Só havia um mictório de chapa de aço, daqueles compridos, desnivelados para escorrer o líquido, que pegam a parede de fora a fora, com o interior cheio de rodelas de limão e bolinhas de naftalina, um ralo ao final da parte mais baixa, que desemboca num cano de pvc exposto e depois some debaixo do assoalho, e que na parte superior há um cano furado, de onde pingam gotas de água para facilitar o descarte da ureia.
O segundo deslocamento de ar, mais violento, convenceu-o de que não havia como voltar; e fez o serviço ali mesmo, empesteando não apenas o cômodo já não muito cheiroso, mas todo o estabelecimento.
Não havia papel higiênico e ainda era muito cedo para o proprietário encher o depósito de toalhas de papel. Não restou outro jeito senão fazer a limpeza com a cueca zazá velha de guerra, que tombou heroica e definitivamente, lambrecada de bosta, dentro da lixeira. Pelo menos havia uma lixeira...
Ao proprietário não restou alternativa, senão expulsar da lanchonete o mau-freguês e, em seguida, chamar dona Semíramis, a faz-tudo (inclusive os salgados), para jogar pinho-sol no banheiro, trocando uma catinga por outra.
Saindo dali, Ostinho, hipocorístico pelo qual era chamado, cumprindo o programado, foi buscar um equipamento no conserto, imprescindível para bem cumprir o próximo contrato de trabalho, no dia seguinte. Ele era fotógrafo.
Lembrou que, pelo menos, havia marcado com a cliente às oito da manhã, e isso o fez sentir alívio, pois dava para ir ao banheiro em casa, no horário oficial.
Ao chegar à oficina, ouviu do técnico que o serviço só estaria pronto depois das seis, mas que ficasse tranquilo, porque a loja fecharia após esse horário.
Desolado por ter que voltar mais tarde da periferia em que morava, repetiu para si mesmo, com raiva, uma frase que invariavelmente lhe ocorria: “A merda só fica pronta depois das seis”.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.


Seu Nabiça


Seu Nabiça, mulato de pele clara, sorriso franco, óculos de aro grosso, cujo cocuruto fora abandonado pelos cabelos há tempos — enquanto os fios que persistiam nas laterais embranqueciam como o orvalho da madrugada —, costumava dizer que tinha um dos poucos nomes de homem que terminam com a letra “a” e não são oriundos da língua indígena, fato ainda mais raro que os terminados em “i” ou “ir”.
Trabalhava há quase 50 anos na Monteiro Petiscos & Lanchonete, casa especializada em servir pernil em porções ou em sanduíches com pão francês de fabricação própria, um sucesso absoluto, muito pedido com a tradicional cerveja estupidamente gelada.
Negócio de família, já estava na 4ª geração de proprietários, havendo falecido vários deles.
O início do comércio se dera há décadas, num dos inúmeros quiosques das principais avenidas da Capital, onde o Sr. Joaquim Monteiro, recém-egresso da terrinha, vendia comida, pinga e produtos variados. Levando a natural vida espartana do imigrante que deixa seu país com a roupa do corpo, ele só trouxe a mulher e os filhos para o Brasil quando teve uma folguinha; e logo depois, com a ajuda de todos, conseguiu comprar duas amplas lojas de esquina, num ponto movimentado da periferia.
Quando Nabiça foi contratado, quem estava no comando era o Sr. Nuno Monteiro, filho mais novo do patriarca. O portuga dizia que enxergou no menino mulatinho alguém com grande potencial e muita vontade de trabalhar. Além disso, não podia contar com os filhos do casamento com Lucrécia, demasiadamente novos para pegarem no batente.
A força de vontade do rapaz o encantou a ponto de amolecer seu coração, mas as ajudas frequentes, de início com presentes modestos, e que culminou, alguns anos depois, com a entrada da compra da tão sonhada casa própria, acabaram gerando um buchicho entre os habitués, já que a fama de pão duro que antecedia a pessoa do portuga ia longe. Diziam que Nabiça era seu filho bastardo, com a belíssima mulata Cecília, pernas grossas e bem torneadas, joelhos redondos, seios pequenos e rijos, ancas generosíssimas...
A fofoca já havia gerado muita briga e chateação, e o “animus necandi” que tomava conta da figura pacata de Nabiça fez com que os assuntos corressem apenas à boca miúda, entre os fuxiqueiros.
Os funcionários que passaram pela lanchonete admiravam o colega, e grande parte dos fregueses, e seus descendentes, que cresceram sendo servidos pelo seu Nabiça, sempre lhe foram afeiçoados — havia até quem esperasse o tempo que fosse necessário apenas para ser atendido por ele, dada a amabilidade com que tratava a todos.
Outros, porém, só faziam o pedido quando ele se afastava. Chamavam-no de porco, mas apenas “en petit comité”, por conta de certa peculiaridade que envolvia tal personagem.
É que sempre que ia pegar o papel para embrulhar o sanduíche de pernil do freguês, ele passava as pontas dos dedos naquela almofadinha molhada e “higiênica”, que trazemos guardada dentro da boca, para separar as folhas de papel: a língua. Logicamente, aqueles mesmos dedinhos lambidos seguravam o pão enquanto recheava o sanduíche seguinte.
Sempre que indagados sobre aquele patrimônio da empresa, os proprietários da ocasião afirmavam que Nabiça seria funcionário de seus netos, e que ele era o segredo do sucesso do negócio. Não era. A antiga forma de preparar o pernil, e também de outros tira-gostos de sucesso da empresa, só era conhecida pelos membros de família — a “fórmula da Coca-Cola” dos Monteiro.
O tempo passava e, um dia, Nabiça, que não era disso, saiu de férias. Várias e várias semanas se passaram e nada dele voltar.
Aos clientes que perguntavam se ele estava doente, ou se havia falecido, era dada sempre a mesma a resposta: “Está de férias”; e quando a desculpa parou de colar, foi dito que ele havia pedido a aposentadoria.
“Na verdade” — disse um dia o Sr. Nestor, um dos mais antigos (e fofoqueiros) frequentadores do estabelecimento, enquanto jogava dominó, tomava pinga, e lambia os dedos sujos de limão e da gordura dos pedaços de pernil que pegava com a mão —, “ele realmente se aposentou, mas ajuizou ação na Vara de Órfãos e Sucessões, pedindo exame de DNA e metade do atual patrimônio da família”.
Nabiça nada comentou sobre uma relação entre o Sr. Nuno Monteiro e Lucrécia, sua mãe, mas disse que não foi ao programa do Ratinho para preservar as pessoas que mais havia amado na vida.
Sobre os herdeiros, que todos os clientes jurariam de pés juntos que o tratavam como alguém da família, disse ele: “Não passam de fingidos exploradores”.

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Dona Pontualina



Dona Pontualina era uma senhorinha direta e objetiva. O cabelo tingido de acaju formava uma aura redonda em torno de sua face ovalada, e cobria as orelhas de abano, embora deixasse de fora os lóbulos caídos. Seu nariz era adunco, mas não exagerado, e os olhos pequenos e próximos tinham a cor de azeviche. A boca miúda, sem carne, além dos dentinhos já escurecidos pelo tempo, guardava a língua comprida e ferina usada para desancar porteiros, feirantes, entregadores, caixas de banco e de supermercado, e a classe que a tirava do auto-atribuído estado de eterna serenidade: a dos condutores de veículos.
Contava com 69 anos, mas, já nesses tempos de longevidade do ser humano, aparentava oitenta e tantos. Algumas conhecidas de longa data diziam que, antes de virar a guardiã da verdade, da moral e dos bons costumes, ela havia sido levada da breca – e com boca-de-siri comentavam que o envelhecimento era resultado da sua vida desregrada. Ela negava, mesmo sem saber dos comentários maliciosos, ao recordar que o falecido, verdadeiro Don Juan, confessara que jamais conhecera mulher tão pura e santa.
A 2 meses de completar 70 anos, ligou para Cidinha e reclamou de umas tonturas que a incomodavam há semanas. A sobrinha emprestada, porque Dona Pontualina era prima de sua avó, fingia preocupação com a saúde dela, mas, em verdade, batalhava para ser beneficiária de seu testamento, pois a idosa não possuía herdeiros – diziam por aí que ela guardava a fortuna deixada pelo Coronel Antenor, o falecido marido: “Tia, a senhora precisa deixar um testamento contemplando as pessoas que ama, senão o dinheiro vai para o Estado”, fazia questão de lembrar ao menos uma vez por semana.
Cidinha ficou de marcar com uma médica amiga, um horário em dia próximo, e já na manhã seguinte ligou, avisando que dali a três dias, às 10h da manhã, a Drª Shirley, clínica geral, a atenderia em seu consultório improvisado num quarto da casa dos fundos, no terreno de seus pais, no Bairro Esmeralda, próximo à região chamada Cidade Nova.
A senhorinha, que morava no Centro Histórico, saiu de casa às 8h20, para tomar o ônibus que faria o trajeto em meia hora. Tinha problemas com horários – não suportava atrasos e achava normal chegar com muita antecedência aos locais em que seria recebida com hora marcada. É que, enquanto aguardava, aproveitava para atazanar os ouvidos do pobre coitado que estivesse na recepção, buscando antecipar o atendimento. Era sempre assim.
Tomou o ônibus às 8h32, e reclamou com o motorista que o horário de passar em seu ponto era 8h29. Disse que saíra cedo de casa para não precisar correr pela rua atrás da condução, feito uma destrambelhada, e que não podia perder aquela viagem, para chegar a tempo na médica. O motorista se desculpou meio entredentes, e partiu com o cavalo de aço rumo à parte nova da Cidade, local para onde haviam mudado o Fórum, o Ministério Público, a Prefeitura, as clínicas médicas e de estética, os maiores escritórios de advocacia e as demais empresas de certa relevância.
Não percorreu 3 quilômetros sossegada. Havia no itinerário uma rua com o asfalto completamente esburacado, e o ônibus começou a sacolejar. De imediato, ela já grunhiu alguma coisa, mas a gota d’água foi a entrada do “ermão” pedindo dinheiro para a obra realizada por sua Igreja – que não revelou o nome –, e do vendedor de salgados, dizendo: “É grosso, é gostoso, é quentinho. O meu bolinho”. A idosa não se aguentou e, revoltada, disparou: “É religioso querendo extorquir o crente; é salgadinho erótico; é porcaria de ônibus que chacoalha de um lado a outro...” Ao final, ainda soltou seu bordão: “Ih! Não estou gostando disso não!”.
No consultório, após entrevista preliminar, a médica denotando preocupação, requereu uma bateria de exames específicos, além de encaminhá-la a uma médica conhecida, especialista em oncologia.
De início, Dona Pontualina se assustou. Depois, pegando os dados da outra médica e os requerimentos dos exames, prometeu voltar com os resultados o mais rápido possível. Mas enquanto atravessava o quintal da Casa/Consultório para sair pela rua em frente à residência dos pais da médica, procurava se convencer de que não passava de labirintite, e que a “outra” devia estar louca ao pensar que ela pudesse estar acometida por uma doença daquelas, tão terrível que sequer ousava pronunciar o nome, e chamava de “doença rúim”, assim mesmo, com ênfase no “u”. Mais afastada do consultório, convenceu-se de que nada era urgente ou preocupante, como quis fazer parecer a médica iniciante. “Também, de uma amiga da Cidinha, o que eu deveria esperar?”, pensou o amargor em pessoa.
Na volta para casa pegou um táxi e, ao dobrar na primeira esquina, já começou a reclamar com o motorista do cheiro de peido e de cigarro barato no interior do veículo. Advertiu-o, dizendo que deveria comprar um “bom ar” se não quisesse matar um passageiro. Em seguida, pediu-lhe para acelerar o máximo possível ao seu destino, porque já estava com náuseas: “Ih! Não estou gostando disso não!”, falou.
Algumas semanas depois, como a tontura não dava descanso, e Dona Pontualina resolveu procurar outro médico, numa clínica chiquíssima, num prédio empombadão que ficava num centro comercial luxuoso, no Coração da Cidade Nova, na principal avenida do Bairro Leão Jardim. Era uma indicação de Nilcéia, a Ceinha, velha companheira de farras, que com o tempo também havia esquecido as agruras da vida-moça. “Vai lá que você vai gostar, e vai sair boazinha”, tinha ouvido da amiga na semana anterior. Ao telefone, soube que só havia horário para dali a 5 meses, e que não era costumeiro encaixar pacientes. Ela resolveu aguardar. Afinal, estava convicta da labirintite, e a dor fortíssima acabara se tornando sua companheira.
Na véspera da consulta, foi convencida pelo porteiro da noite – um jovem que fazia Dona Pontualina suspirar, mas “por dentro”, e com todo o respeito –, de que deveria pegar um 99-pop, que era baratinho e fazia o deslocamento rapidamente. Ele mesmo baixou o aplicativo no celular moderno que a fizera comprar uns meses antes, e disse para ela pedir a alguém disponível que chamasse um carro para ela quando fosse necessário, e a premiada foi a zeladora do prédio.
O primeiro que atendeu, era um jovem com aparência de funkeiro, e a dona disse que não entraria naquele carro. O segundo, um gordo todo suado, chegou com as janelas do carro arriadas, e foi rechaçado com a velocidade da luz. O terceiro, talvez para sorte dela, foi dispensado porque tinha os braços e o pescoço cobertos de tatuagens de caveiras e de palhaços: “Você não serve”, disse ela. Por fim, o quarto motorista, que não conseguiu localizar o prédio imediatamente, na rua mal sinalizada, foi aceito por sua aparência agradável. Ele, porém, não se livrou das broncas da Dona Pontualina, dadas assim que ela tomou assento no banco de trás: “O senhor não leu direito o endereço nesse negócio aí não, hein?”.
Ele pediu um desconto, porque era seu segundo dia de trabalho naquela atividade. Ela não descontou, e foi reclamando dali ao destino, dizendo que não gosta de entrar em qualquer carro não, que ele deveria pegar a Avenida Beira-Mar, que era a melhor avenida, porque ligava toda a Cidade (apesar de totalmente fora do percurso). Ele pegou o caminho solicitado, mas, por erro do aplicativo, levou-a ao Bairro Jardim Leonor, que era próximo ao Bairro Leão Jardim, também na Cidade Nova. Houve mais uma profusão de impropérios, até ela dizer: “Ih! Não estou gostando disso não!”
Ainda assim, chegou 42 minutos antes do horário da consulta; e logo após as formalidades do cartão do plano de saúde, iniciou as investidas para antecipar o atendimento, mas somente após a demorada consulta com a mulher e os filhos do Prefeito, é que o Dr. Carlos de Alencastro, jovem e bonito, oriundo de uma tradicional família de médicos dos ricos e dos figurões do Estado, convidou-a a entrar em seu consultório, para iniciar uma inquirição minuciosa. Ao final, disse que, para um melhor diagnóstico, ela precisaria se submeter a alguns exames, a serem realizados imediatamente em sua própria clínica, dada a possível gravidade do caso.
Enquanto esperava a chamada entre um exame e outro, foi se enturmando aqui e ali. Exaltou suas qualidades, acentuou os defeitos de suas vizinhas, que ninguém ali conhecia, e até confessou que vivia às turras com condutores de ônibus, de táxi, e até do tal 99-pop. A senhora que ouvia àquilo tudo, e que também gostava de falar das vidas alheias, disse que o melhor seria pegar um Uber. Dona Pontualina foi facilmente convencida, e em seguida cedeu seu celular para a neta da interlocutora baixar o aplicativo.
Após os exames, cujos resultados sairiam em poucos dias, pediu a uma das meninas da recepção que chamasse o Uber – pagamento em dinheiro, pois só confiava em Lourival, o porteiro da noite do edifício em que morava, para cadastrar seu cartão.
Já o primeiro motorista do Uber deu sorte, e foi contemplado com a contratação da velha ranzinza, que iniciou a viagem dizendo que não gosta de internet e que não entra em carro guiado por quem não lhe agrada: “Se não gosto da cara do sujeito que vem me buscar, mando embora na mesma hora. Nem quero saber.” Ele sorriu, e tocou o carro.
Ela continuou: “Moço, estou atrasada para fazer meu jantar, e quero que o senhor pegue o caminho que conheço, pela Avenida Beira-Mar.”
Ele tentou contra argumentar, dizendo que não conseguiria entregá-la com rapidez, pois aquele era o trajeto mais demorado: “Vamos experimentar o caminho que o aplicativo está indicando, e nós chegaremos mais rápido a essa hora.” Ela concordou para, apenas poucos minutos depois, passar a reclamar: “O Senhor está rodando por lugares que não conheço. Ih! Não estou gostando disso não!”
E não parou mais de reclamar, testando a paciência do rapaz.
Ao final do trajeto, deu 2 estrelas porque havia gostado dele no início, e não precisou cancelar a corrida nem chamar outros motoristas. Ele foi embora e percebeu sua nota baixar vertiginosamente, mas não reclamou, e pediu a Deus para dar paz àquela velhota.
Em alguns dias, os resultados dos exames ficaram prontos, e o Dr. Alencastro pediu à secretária para marcar urgentemente nova consulta com Dona Pontualina, pois sua desconfiança fora confirmada: ela possuía um meningioma, um tumor cerebral de tamanho considerável. Elas ligaram no exato momento em que a paciente, sentindo dores insuportáveis, pediu ao porteiro para chamar uma ambulância, e desmaiou em seguida, na recepção do seu prédio.
Õé-õé-õé-õé-õé-õé, veio rasgando o trânsito a ambulância da SAMU, guiada por Sérgio, jovem socorrista que acabara de perder a avó, e não queria ver outra velhinha morrendo. Ele, porém, não contava com o “fator-Pontualina”, que, tendo recobrado os sentidos, e para o espanto de ninguém, senão dos socorristas, disse que não havia gostado da cara deles, e requisitou o envio de outra unidade móvel.
Nem Cristo descendo à terra a teria convencido, embora não chegasse a ser necessário, pois tudo se resolveu em muito pouco tempo: Os socorristas foram deslocados para outra ocorrência, após reportarem a recusa da velhinha doente em ser atendida pela equipe, e mal a ambulância dobrava na segunda rua, com a sirene ligada e a todo vapor, Dona Pontualina, sentindo dores intensas, pôs um largo sorriso no rosto e deu o último suspiro. Para seu infortúnio, porém, ela agora seria derradeira e inapelavelmente transportada, mesmo que a contragosto, pelo serviço funerário.

P.S: A herança, Dona Pontualina já havia destinado integralmente, 3 anos antes, a Lourival, o porteiro da noite, num testamento deixado aos cuidados do Dr. Natanael Lucena, advogado e velho amigo da família.

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Quitutes de adolescentes



No fim de semana, eu e minha mulher trabalhamos num Encontro de Casais com Cristo, e em determinado momento conversávamos com os companheiros de equipe, recém-conhecidos, sobre os filhos, quem havia ficado para tomar conta deles... Coisas do gênero.
Dissemos que os nossos gêmeos estavam sozinhos, pois já sabem se cuidar – daqui a pouco estarão com 15 anos –, e então perguntaram se não iríamos a casa ao menos para preparar o almoço. Minha mulher disse que não seria necessário, e eu complementei, dizendo que a menina, desde novinha, havia aprendido a se virar na cozinha.
Certo dia, eu e a patroa fomos à feira-livre, em jejum. íamos comer uns pastéis por lá, mas, no meio do caminho, eu decidi comer, àquela hora da manhã, ovos caipiras estrelados, com gema mole, e um arroz fresquinho... E feito pela Dona Nininha, nossa filha.
A mulher, espantada, perguntou: “você sabe que ela nunca fez nada no fogão, certo?”
Eu disse que sabia disso, e também que ela, a mãe, começou a cozinhar bem pequenininha. Além disso, sabia de várias histórias de pessoas que, com pouca idade, haviam tomado conta de irmãos menores, inclusive aprontando mamadeiras, papinhas e comidas.
Ela ligou para casa e, com o coração na mão, ensinou à menina o que fazer. Como prêmio, o resultado ficou muito acima do esperado.
Ao relembrar o caso, pesaroso, comentei com o pessoal da equipe que hoje em dia ela quase não cozinha mais, e só faz o que lhe interessa. Falei também que sempre pedimos para nos surpreender ao chegarmos a casa, com algo gostoso prontinho para comermos, mas nunca surtiu efeito. E completei, dizendo que, para o pai e a mãe ela não faz, mas, certamente, no dia em que arranjar um namorado, vai providenciar, de bom grado, vários acepipes para o bandido...
Minha mãe dizia que a língua é o chicote do rabo. E é mesmo. Para nossa grata surpresa, após um fim de semana exaustivo, não é que havia um delicioso bolo de limão, feito para comermos quando retornássemos? Chegamos a postar a foto no zap da equipe, de tão satisfeitos com nossa menina. E olha que ela já havia preparado o almoço, deixando apenas a louça para o irmão lavar.
E por que resolvi contar tudo isso?
É porque me fez lembrar um fato ocorrido há muitas e muitas luas, que passei a narrar para minha esposa.
Era a década de 80.
Três amigos inseparáveis, que zanzavam por tudo quanto é canto, estavam na casa do mais velho, que exercia certa liderança, assistindo a filmes alugados numa locadora de fitas VHS. Sua casa era talvez a única daquele bairro de periferia em que existia um vídeo cassete.
No intervalo, todos desceram para tomar água, e deram de cara com um monte de tortas alemãs dispostas na geladeira, preparadas pela irmã dele para o namorado, que era conhecido dos três rapazes.
O generoso irmão passou a mão nas pequenas, e saiu distribuindo. O gordinho da turma (por Deus!), foi o único a perguntar se não ia dar merda. O anfitrião respondeu que não, argumentando que ela havia feito um monte para isso mesmo... Era só não tocar na “grandona”.
Foi a chave. Ninguém pensou duas vezes após a resposta – um migué danado que não convenceria a ninguém do júri.
E é lógico que deu merda.
Em meio às minhas elucubrações, minha mulher me interrompeu, com o cenho fechado, e bronqueou: “Siiimm! Ela, uma adolescente, com namorado, fez um monte de tortinhas para os amigos do irmão. Sei! Se fosse comigo...”
Tenho certeza que foi uma reprimenda preventiva, já pensando em vetar qualquer investida minha contra os acepipes que minha filha, no futuro, vier a preparar para o bandido, quer dizer, namorado.
É só não fazer tortinhas alemãs...

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor e, até certo ponto, um saudosista.