segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A merda só fica pronta depois das seis



Uostergleysson ia ao banheiro, diária e pontualmente, às seis e trinta da manhã, para exercitar o intestino. Naquele dia, porém, precisava fazer um exame de sangue bem cedo, e acabou saindo de casa antes do horário do hábito - às 5h45 -, em jejum, rumo ao Centro da Cidade para encontrar o “vampiro”.
Ele até foi ao banheiro, sentou no bocão, e por quase dez minutos tentou dar uma aliviada, mas não conseguiu, por falta de material pronto.
Saiu de casa, pegou o coletivo, andou um tanto e chegou ao laboratório dentro do horário, sendo liberado pouco mais de sete da matina, quando foi procurar algo para o desjejum.
Enquanto entrava num local aparentemente limpo e saudável, sentiu um primeiro deslocamento de ar dentro da barriga. A nebulosa saiu de um ponto a outro como um raio e parou pertinho do escapamento. A violência com que aquilo ocorreu o deixou em estado de alerta, mas continuou fazendo o que tinha que fazer.
Só que, poucos segundos depois, sentiu-se novamente incomodado e, prevendo o que estava por acontecer, viu-se obrigado a usar o banheiro da lanchonete na qual já havia se sentado e tinha acabado de pedir uma coxinha e um suco, o que seria seu café da manhã.
Correu para a casinha e, lá chegando, não achou o vaso. Só havia um mictório de chapa de aço, daqueles compridos, desnivelados para escorrer o líquido, que pegam a parede de fora a fora, com o interior cheio de rodelas de limão e bolinhas de naftalina, um ralo ao final da parte mais baixa, que desemboca num cano de pvc exposto e depois some debaixo do assoalho, e que na parte superior há um cano furado, de onde pingam gotas de água para facilitar o descarte da ureia.
O segundo deslocamento de ar, mais violento, convenceu-o de que não havia como voltar; e fez o serviço ali mesmo, empesteando não apenas o cômodo já não muito cheiroso, mas todo o estabelecimento.
Não havia papel higiênico e ainda era muito cedo para o proprietário encher o depósito de toalhas de papel. Não restou outro jeito senão fazer a limpeza com a cueca zazá velha de guerra, que tombou heroica e definitivamente, lambrecada de bosta, dentro da lixeira. Pelo menos havia uma lixeira...
Ao proprietário não restou alternativa, senão expulsar da lanchonete o mau-freguês e, em seguida, chamar dona Semíramis, a faz-tudo (inclusive os salgados), para jogar pinho-sol no banheiro, trocando uma catinga por outra.
Saindo dali, Ostinho, hipocorístico pelo qual era chamado, cumprindo o programado, foi buscar um equipamento no conserto, imprescindível para bem cumprir o próximo contrato de trabalho, no dia seguinte. Ele era fotógrafo.
Lembrou que, pelo menos, havia marcado com a cliente às oito da manhã, e isso o fez sentir alívio, pois dava para ir ao banheiro em casa, no horário oficial.
Ao chegar à oficina, ouviu do técnico que o serviço só estaria pronto depois das seis, mas que ficasse tranquilo, porque a loja fecharia após esse horário.
Desolado por ter que voltar mais tarde da periferia em que morava, repetiu para si mesmo, com raiva, uma frase que invariavelmente lhe ocorria: “A merda só fica pronta depois das seis”.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.


Seu Nabiça


Seu Nabiça, mulato de pele clara, sorriso franco, óculos de aro grosso, cujo cocuruto fora abandonado pelos cabelos há tempos — enquanto os fios que persistiam nas laterais embranqueciam como o orvalho da madrugada —, costumava dizer que tinha um dos poucos nomes de homem que terminam com a letra “a” e não são oriundos da língua indígena, fato ainda mais raro que os terminados em “i” ou “ir”.
Trabalhava há quase 50 anos na Monteiro Petiscos & Lanchonete, casa especializada em servir pernil em porções ou em sanduíches com pão francês de fabricação própria, um sucesso absoluto, muito pedido com a tradicional cerveja estupidamente gelada.
Negócio de família, já estava na 4ª geração de proprietários, havendo falecido vários deles.
O início do comércio se dera há décadas, num dos inúmeros quiosques das principais avenidas da Capital, onde o Sr. Joaquim Monteiro, recém-egresso da terrinha, vendia comida, pinga e produtos variados. Levando a natural vida espartana do imigrante que deixa seu país com a roupa do corpo, ele só trouxe a mulher e os filhos para o Brasil quando teve uma folguinha; e logo depois, com a ajuda de todos, conseguiu comprar duas amplas lojas de esquina, num ponto movimentado da periferia.
Quando Nabiça foi contratado, quem estava no comando era o Sr. Nuno Monteiro, filho mais novo do patriarca. O portuga dizia que enxergou no menino mulatinho alguém com grande potencial e muita vontade de trabalhar. Além disso, não podia contar com os filhos do casamento com Lucrécia, demasiadamente novos para pegarem no batente.
A força de vontade do rapaz o encantou a ponto de amolecer seu coração, mas as ajudas frequentes, de início com presentes modestos, e que culminou, alguns anos depois, com a entrada da compra da tão sonhada casa própria, acabaram gerando um buchicho entre os habitués, já que a fama de pão duro que antecedia a pessoa do portuga ia longe. Diziam que Nabiça era seu filho bastardo, com a belíssima mulata Cecília, pernas grossas e bem torneadas, joelhos redondos, seios pequenos e rijos, ancas generosíssimas...
A fofoca já havia gerado muita briga e chateação, e o “animus necandi” que tomava conta da figura pacata de Nabiça fez com que os assuntos corressem apenas à boca miúda, entre os fuxiqueiros.
Os funcionários que passaram pela lanchonete admiravam o colega, e grande parte dos fregueses, e seus descendentes, que cresceram sendo servidos pelo seu Nabiça, sempre lhe foram afeiçoados — havia até quem esperasse o tempo que fosse necessário apenas para ser atendido por ele, dada a amabilidade com que tratava a todos.
Outros, porém, só faziam o pedido quando ele se afastava. Chamavam-no de porco, mas apenas “en petit comité”, por conta de certa peculiaridade que envolvia tal personagem.
É que sempre que ia pegar o papel para embrulhar o sanduíche de pernil do freguês, ele passava as pontas dos dedos naquela almofadinha molhada e “higiênica”, que trazemos guardada dentro da boca, para separar as folhas de papel: a língua. Logicamente, aqueles mesmos dedinhos lambidos seguravam o pão enquanto recheava o sanduíche seguinte.
Sempre que indagados sobre aquele patrimônio da empresa, os proprietários da ocasião afirmavam que Nabiça seria funcionário de seus netos, e que ele era o segredo do sucesso do negócio. Não era. A antiga forma de preparar o pernil, e também de outros tira-gostos de sucesso da empresa, só era conhecida pelos membros de família — a “fórmula da Coca-Cola” dos Monteiro.
O tempo passava e, um dia, Nabiça, que não era disso, saiu de férias. Várias e várias semanas se passaram e nada dele voltar.
Aos clientes que perguntavam se ele estava doente, ou se havia falecido, era dada sempre a mesma a resposta: “Está de férias”; e quando a desculpa parou de colar, foi dito que ele havia pedido a aposentadoria.
“Na verdade” — disse um dia o Sr. Nestor, um dos mais antigos (e fofoqueiros) frequentadores do estabelecimento, enquanto jogava dominó, tomava pinga, e lambia os dedos sujos de limão e da gordura dos pedaços de pernil que pegava com a mão —, “ele realmente se aposentou, mas ajuizou ação na Vara de Órfãos e Sucessões, pedindo exame de DNA e metade do atual patrimônio da família”.
Nabiça nada comentou sobre uma relação entre o Sr. Nuno Monteiro e Lucrécia, sua mãe, mas disse que não foi ao programa do Ratinho para preservar as pessoas que mais havia amado na vida.
Sobre os herdeiros, que todos os clientes jurariam de pés juntos que o tratavam como alguém da família, disse ele: “Não passam de fingidos exploradores”.

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Dona Pontualina



Dona Pontualina era uma senhorinha direta e objetiva. O cabelo tingido de acaju formava uma aura redonda em torno de sua face ovalada, e cobria as orelhas de abano, embora deixasse de fora os lóbulos caídos. Seu nariz era adunco, mas não exagerado, e os olhos pequenos e próximos tinham a cor de azeviche. A boca miúda, sem carne, além dos dentinhos já escurecidos pelo tempo, guardava a língua comprida e ferina usada para desancar porteiros, feirantes, entregadores, caixas de banco e de supermercado, e a classe que a tirava do auto-atribuído estado de eterna serenidade: a dos condutores de veículos.
Contava com 69 anos, mas, já nesses tempos de longevidade do ser humano, aparentava oitenta e tantos. Algumas conhecidas de longa data diziam que, antes de virar a guardiã da verdade, da moral e dos bons costumes, ela havia sido levada da breca – e com boca-de-siri comentavam que o envelhecimento era resultado da sua vida desregrada. Ela negava, mesmo sem saber dos comentários maliciosos, ao recordar que o falecido, verdadeiro Don Juan, confessara que jamais conhecera mulher tão pura e santa.
A 2 meses de completar 70 anos, ligou para Cidinha e reclamou de umas tonturas que a incomodavam há semanas. A sobrinha emprestada, porque Dona Pontualina era prima de sua avó, fingia preocupação com a saúde dela, mas, em verdade, batalhava para ser beneficiária de seu testamento, pois a idosa não possuía herdeiros – diziam por aí que ela guardava a fortuna deixada pelo Coronel Antenor, o falecido marido: “Tia, a senhora precisa deixar um testamento contemplando as pessoas que ama, senão o dinheiro vai para o Estado”, fazia questão de lembrar ao menos uma vez por semana.
Cidinha ficou de marcar com uma médica amiga, um horário em dia próximo, e já na manhã seguinte ligou, avisando que dali a três dias, às 10h da manhã, a Drª Shirley, clínica geral, a atenderia em seu consultório improvisado num quarto da casa dos fundos, no terreno de seus pais, no Bairro Esmeralda, próximo à região chamada Cidade Nova.
A senhorinha, que morava no Centro Histórico, saiu de casa às 8h20, para tomar o ônibus que faria o trajeto em meia hora. Tinha problemas com horários – não suportava atrasos e achava normal chegar com muita antecedência aos locais em que seria recebida com hora marcada. É que, enquanto aguardava, aproveitava para atazanar os ouvidos do pobre coitado que estivesse na recepção, buscando antecipar o atendimento. Era sempre assim.
Tomou o ônibus às 8h32, e reclamou com o motorista que o horário de passar em seu ponto era 8h29. Disse que saíra cedo de casa para não precisar correr pela rua atrás da condução, feito uma destrambelhada, e que não podia perder aquela viagem, para chegar a tempo na médica. O motorista se desculpou meio entredentes, e partiu com o cavalo de aço rumo à parte nova da Cidade, local para onde haviam mudado o Fórum, o Ministério Público, a Prefeitura, as clínicas médicas e de estética, os maiores escritórios de advocacia e as demais empresas de certa relevância.
Não percorreu 3 quilômetros sossegada. Havia no itinerário uma rua com o asfalto completamente esburacado, e o ônibus começou a sacolejar. De imediato, ela já grunhiu alguma coisa, mas a gota d’água foi a entrada do “ermão” pedindo dinheiro para a obra realizada por sua Igreja – que não revelou o nome –, e do vendedor de salgados, dizendo: “É grosso, é gostoso, é quentinho. O meu bolinho”. A idosa não se aguentou e, revoltada, disparou: “É religioso querendo extorquir o crente; é salgadinho erótico; é porcaria de ônibus que chacoalha de um lado a outro...” Ao final, ainda soltou seu bordão: “Ih! Não estou gostando disso não!”.
No consultório, após entrevista preliminar, a médica denotando preocupação, requereu uma bateria de exames específicos, além de encaminhá-la a uma médica conhecida, especialista em oncologia.
De início, Dona Pontualina se assustou. Depois, pegando os dados da outra médica e os requerimentos dos exames, prometeu voltar com os resultados o mais rápido possível. Mas enquanto atravessava o quintal da Casa/Consultório para sair pela rua em frente à residência dos pais da médica, procurava se convencer de que não passava de labirintite, e que a “outra” devia estar louca ao pensar que ela pudesse estar acometida por uma doença daquelas, tão terrível que sequer ousava pronunciar o nome, e chamava de “doença rúim”, assim mesmo, com ênfase no “u”. Mais afastada do consultório, convenceu-se de que nada era urgente ou preocupante, como quis fazer parecer a médica iniciante. “Também, de uma amiga da Cidinha, o que eu deveria esperar?”, pensou o amargor em pessoa.
Na volta para casa pegou um táxi e, ao dobrar na primeira esquina, já começou a reclamar com o motorista do cheiro de peido e de cigarro barato no interior do veículo. Advertiu-o, dizendo que deveria comprar um “bom ar” se não quisesse matar um passageiro. Em seguida, pediu-lhe para acelerar o máximo possível ao seu destino, porque já estava com náuseas: “Ih! Não estou gostando disso não!”, falou.
Algumas semanas depois, como a tontura não dava descanso, e Dona Pontualina resolveu procurar outro médico, numa clínica chiquíssima, num prédio empombadão que ficava num centro comercial luxuoso, no Coração da Cidade Nova, na principal avenida do Bairro Leão Jardim. Era uma indicação de Nilcéia, a Ceinha, velha companheira de farras, que com o tempo também havia esquecido as agruras da vida-moça. “Vai lá que você vai gostar, e vai sair boazinha”, tinha ouvido da amiga na semana anterior. Ao telefone, soube que só havia horário para dali a 5 meses, e que não era costumeiro encaixar pacientes. Ela resolveu aguardar. Afinal, estava convicta da labirintite, e a dor fortíssima acabara se tornando sua companheira.
Na véspera da consulta, foi convencida pelo porteiro da noite – um jovem que fazia Dona Pontualina suspirar, mas “por dentro”, e com todo o respeito –, de que deveria pegar um 99-pop, que era baratinho e fazia o deslocamento rapidamente. Ele mesmo baixou o aplicativo no celular moderno que a fizera comprar uns meses antes, e disse para ela pedir a alguém disponível que chamasse um carro para ela quando fosse necessário, e a premiada foi a zeladora do prédio.
O primeiro que atendeu, era um jovem com aparência de funkeiro, e a dona disse que não entraria naquele carro. O segundo, um gordo todo suado, chegou com as janelas do carro arriadas, e foi rechaçado com a velocidade da luz. O terceiro, talvez para sorte dela, foi dispensado porque tinha os braços e o pescoço cobertos de tatuagens de caveiras e de palhaços: “Você não serve”, disse ela. Por fim, o quarto motorista, que não conseguiu localizar o prédio imediatamente, na rua mal sinalizada, foi aceito por sua aparência agradável. Ele, porém, não se livrou das broncas da Dona Pontualina, dadas assim que ela tomou assento no banco de trás: “O senhor não leu direito o endereço nesse negócio aí não, hein?”.
Ele pediu um desconto, porque era seu segundo dia de trabalho naquela atividade. Ela não descontou, e foi reclamando dali ao destino, dizendo que não gosta de entrar em qualquer carro não, que ele deveria pegar a Avenida Beira-Mar, que era a melhor avenida, porque ligava toda a Cidade (apesar de totalmente fora do percurso). Ele pegou o caminho solicitado, mas, por erro do aplicativo, levou-a ao Bairro Jardim Leonor, que era próximo ao Bairro Leão Jardim, também na Cidade Nova. Houve mais uma profusão de impropérios, até ela dizer: “Ih! Não estou gostando disso não!”
Ainda assim, chegou 42 minutos antes do horário da consulta; e logo após as formalidades do cartão do plano de saúde, iniciou as investidas para antecipar o atendimento, mas somente após a demorada consulta com a mulher e os filhos do Prefeito, é que o Dr. Carlos de Alencastro, jovem e bonito, oriundo de uma tradicional família de médicos dos ricos e dos figurões do Estado, convidou-a a entrar em seu consultório, para iniciar uma inquirição minuciosa. Ao final, disse que, para um melhor diagnóstico, ela precisaria se submeter a alguns exames, a serem realizados imediatamente em sua própria clínica, dada a possível gravidade do caso.
Enquanto esperava a chamada entre um exame e outro, foi se enturmando aqui e ali. Exaltou suas qualidades, acentuou os defeitos de suas vizinhas, que ninguém ali conhecia, e até confessou que vivia às turras com condutores de ônibus, de táxi, e até do tal 99-pop. A senhora que ouvia àquilo tudo, e que também gostava de falar das vidas alheias, disse que o melhor seria pegar um Uber. Dona Pontualina foi facilmente convencida, e em seguida cedeu seu celular para a neta da interlocutora baixar o aplicativo.
Após os exames, cujos resultados sairiam em poucos dias, pediu a uma das meninas da recepção que chamasse o Uber – pagamento em dinheiro, pois só confiava em Lourival, o porteiro da noite do edifício em que morava, para cadastrar seu cartão.
Já o primeiro motorista do Uber deu sorte, e foi contemplado com a contratação da velha ranzinza, que iniciou a viagem dizendo que não gosta de internet e que não entra em carro guiado por quem não lhe agrada: “Se não gosto da cara do sujeito que vem me buscar, mando embora na mesma hora. Nem quero saber.” Ele sorriu, e tocou o carro.
Ela continuou: “Moço, estou atrasada para fazer meu jantar, e quero que o senhor pegue o caminho que conheço, pela Avenida Beira-Mar.”
Ele tentou contra argumentar, dizendo que não conseguiria entregá-la com rapidez, pois aquele era o trajeto mais demorado: “Vamos experimentar o caminho que o aplicativo está indicando, e nós chegaremos mais rápido a essa hora.” Ela concordou para, apenas poucos minutos depois, passar a reclamar: “O Senhor está rodando por lugares que não conheço. Ih! Não estou gostando disso não!”
E não parou mais de reclamar, testando a paciência do rapaz.
Ao final do trajeto, deu 2 estrelas porque havia gostado dele no início, e não precisou cancelar a corrida nem chamar outros motoristas. Ele foi embora e percebeu sua nota baixar vertiginosamente, mas não reclamou, e pediu a Deus para dar paz àquela velhota.
Em alguns dias, os resultados dos exames ficaram prontos, e o Dr. Alencastro pediu à secretária para marcar urgentemente nova consulta com Dona Pontualina, pois sua desconfiança fora confirmada: ela possuía um meningioma, um tumor cerebral de tamanho considerável. Elas ligaram no exato momento em que a paciente, sentindo dores insuportáveis, pediu ao porteiro para chamar uma ambulância, e desmaiou em seguida, na recepção do seu prédio.
Õé-õé-õé-õé-õé-õé, veio rasgando o trânsito a ambulância da SAMU, guiada por Sérgio, jovem socorrista que acabara de perder a avó, e não queria ver outra velhinha morrendo. Ele, porém, não contava com o “fator-Pontualina”, que, tendo recobrado os sentidos, e para o espanto de ninguém, senão dos socorristas, disse que não havia gostado da cara deles, e requisitou o envio de outra unidade móvel.
Nem Cristo descendo à terra a teria convencido, embora não chegasse a ser necessário, pois tudo se resolveu em muito pouco tempo: Os socorristas foram deslocados para outra ocorrência, após reportarem a recusa da velhinha doente em ser atendida pela equipe, e mal a ambulância dobrava na segunda rua, com a sirene ligada e a todo vapor, Dona Pontualina, sentindo dores intensas, pôs um largo sorriso no rosto e deu o último suspiro. Para seu infortúnio, porém, ela agora seria derradeira e inapelavelmente transportada, mesmo que a contragosto, pelo serviço funerário.

P.S: A herança, Dona Pontualina já havia destinado integralmente, 3 anos antes, a Lourival, o porteiro da noite, num testamento deixado aos cuidados do Dr. Natanael Lucena, advogado e velho amigo da família.

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, um saudosista.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Quitutes de adolescentes



No fim de semana, eu e minha mulher trabalhamos num Encontro de Casais com Cristo, e em determinado momento conversávamos com os companheiros de equipe, recém-conhecidos, sobre os filhos, quem havia ficado para tomar conta deles... Coisas do gênero.
Dissemos que os nossos gêmeos estavam sozinhos, pois já sabem se cuidar – daqui a pouco estarão com 15 anos –, e então perguntaram se não iríamos a casa ao menos para preparar o almoço. Minha mulher disse que não seria necessário, e eu complementei, dizendo que a menina, desde novinha, havia aprendido a se virar na cozinha.
Certo dia, eu e a patroa fomos à feira-livre, em jejum. íamos comer uns pastéis por lá, mas, no meio do caminho, eu decidi comer, àquela hora da manhã, ovos caipiras estrelados, com gema mole, e um arroz fresquinho... E feito pela Dona Nininha, nossa filha.
A mulher, espantada, perguntou: “você sabe que ela nunca fez nada no fogão, certo?”
Eu disse que sabia disso, e também que ela, a mãe, começou a cozinhar bem pequenininha. Além disso, sabia de várias histórias de pessoas que, com pouca idade, haviam tomado conta de irmãos menores, inclusive aprontando mamadeiras, papinhas e comidas.
Ela ligou para casa e, com o coração na mão, ensinou à menina o que fazer. Como prêmio, o resultado ficou muito acima do esperado.
Ao relembrar o caso, pesaroso, comentei com o pessoal da equipe que hoje em dia ela quase não cozinha mais, e só faz o que lhe interessa. Falei também que sempre pedimos para nos surpreender ao chegarmos a casa, com algo gostoso prontinho para comermos, mas nunca surtiu efeito. E completei, dizendo que, para o pai e a mãe ela não faz, mas, certamente, no dia em que arranjar um namorado, vai providenciar, de bom grado, vários acepipes para o bandido...
Minha mãe dizia que a língua é o chicote do rabo. E é mesmo. Para nossa grata surpresa, após um fim de semana exaustivo, não é que havia um delicioso bolo de limão, feito para comermos quando retornássemos? Chegamos a postar a foto no zap da equipe, de tão satisfeitos com nossa menina. E olha que ela já havia preparado o almoço, deixando apenas a louça para o irmão lavar.
E por que resolvi contar tudo isso?
É porque me fez lembrar um fato ocorrido há muitas e muitas luas, que passei a narrar para minha esposa.
Era a década de 80.
Três amigos inseparáveis, que zanzavam por tudo quanto é canto, estavam na casa do mais velho, que exercia certa liderança, assistindo a filmes alugados numa locadora de fitas VHS. Sua casa era talvez a única daquele bairro de periferia em que existia um vídeo cassete.
No intervalo, todos desceram para tomar água, e deram de cara com um monte de tortas alemãs dispostas na geladeira, preparadas pela irmã dele para o namorado, que era conhecido dos três rapazes.
O generoso irmão passou a mão nas pequenas, e saiu distribuindo. O gordinho da turma (por Deus!), foi o único a perguntar se não ia dar merda. O anfitrião respondeu que não, argumentando que ela havia feito um monte para isso mesmo... Era só não tocar na “grandona”.
Foi a chave. Ninguém pensou duas vezes após a resposta – um migué danado que não convenceria a ninguém do júri.
E é lógico que deu merda.
Em meio às minhas elucubrações, minha mulher me interrompeu, com o cenho fechado, e bronqueou: “Siiimm! Ela, uma adolescente, com namorado, fez um monte de tortinhas para os amigos do irmão. Sei! Se fosse comigo...”
Tenho certeza que foi uma reprimenda preventiva, já pensando em vetar qualquer investida minha contra os acepipes que minha filha, no futuro, vier a preparar para o bandido, quer dizer, namorado.
É só não fazer tortinhas alemãs...

Fernando Peixoto
Advogado, niteroiense, metido a escritor e, até certo ponto, um saudosista.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

O assassino que deixava provas


Desde menino, Reinaldo sentia atração por garotos. “Eu nasci assim”, dizia.

Os trejeitos femininos saltavam aos olhos, junto a sua constituição física. Por conta disso, foi submetido à brutalidade de um pai que espancava mãe e filho, mas que praticava atos libidinosos com primos e amigos na juventude. Descontava sua vergonha no menino, e acusava a mãe de ser culpada pelo “menino ser assim”. Reinaldo ainda apanhava dos primos e dos vizinhos, principalmente após ser estuprado. Por sobrevivência, aprendeu a bater de volta; e ao perceber que tinha força, tomou gosto e passou a ser ele a escolher os eleitos que levariam socos e pontapés violentos.

Até no colégio vivia se estranhando com os colegas, apesar da quase totalidade não se importar com sua opção sexual. Era mais cruel com quem se negava a satisfazer sua libido; e embora estivesse se desenvolvendo fisicamente, não conseguia entender que não era agressão ou preconceito, negar-se a praticar sexo com ele, ou não reconhecer que o homossexual deve gozar de privilégios apenas por ser homossexual.

Ao entrar na faculdade de Direito, ainda se vestia com roupas masculinas, apesar da fala macia, que alterava radicalmente ao se exasperar. Aprendeu com os professores — que também eram magistrados — que quem detém o poder decidir determina o que é justiça, que os princípios jurídicos absorvem deformações ao gosto do freguês e que magistrados progressistas, sem obterem um único voto, impõem mudanças até de cunho civilizacional à sociedade. Ouviu deles, que são garantidos pela vitaliciedade, que estão livres para implementar as mudanças exigidas pela sociedade (como se a sociedade inteira, e não pequena parte dela, o pedisse), porque não devem satisfações a eleitores.

Estudou com afinco a ideologia de gênero através das disciplinas de ciências humanas, e não se incomodou com o fato de que as ciências biológicas são descartadas para explicar o sexo como construção social, e não um fenômeno natural. Com muita satisfação viu o poder constituído abraçar essa teoria e desprezar o direito individual de quem a entende anticientífica ou a ela se opõe por motivos pessoais ou de crença religiosa. Achava absurda a ideia de que alguém exigia saber o sexo biológico da pessoa com quem mantém laços afetivos. Reinaldo, a cada dia aumentava suas convicções, pautado em decisões judiciais baseadas no princípio da dignidade humana e no direito de personalidade, como a que admitiu a alteração do nome civil, cuja principal função é individualizar e identificar o ser humano nas relações sociais.

Ele estava de pleno acordo com a ideia de o desejo pessoal do homossexual sobrepujar o interesse público. E mais ainda: sabia que há regras e exceções, mas sabia também que quem decide o que é regra e o que é exceção, é quem possui o poder de decidir. E é por isso que defendia a urgência da ocupação de espaços-chaves, para solidificação das pautas progressistas na sociedade.

Ao conhecer a velha máxima dividir para conquistar, compreendeu por que alguns se esforçam para causar fissuras na sociedade através do discurso do nós contra eles, instigando a hostilidade de negros e índios contra brancos, e entre homens e mulheres, gays e héteros, ricos e pobres, veganos e carnívoros... Ficou indignado ao ouvir, numa palestra que os relatórios que afirmam que o Brasil é o país onde mais se matam homossexuais, mulheres e negros são falaciosos; e que, na realidade, é o lugar do mundo onde morrem mais pessoas assassinadas, mais que na guerra: acima de 60 mil homicídios por ano. Portanto, morrem mais homossexuais, mulheres e negros, e também mais heterossexuais, homens e brancos. Mas o que o tirou do sério foi ouvir que é falsa a perseguição a homossexuais no país, pois eles estão no Congresso, no Executivo, no Judiciário, na mídia, nas FFAA e na Academia, em suma, em todas as instituições. Mas ele entendia a necessidade de manter a farsa que viabiliza o discurso.

Pois bem. Naquele momento, só quem se submetesse à operação de mudança de sexo poderia alterar o nome e o sexo sem qualquer referência à situação de transexual no registro civil. Mas em seguida, as instituições reconheceram que os avanços eram insuficientes para promover a dignidade da pessoa humana, e atender às exigências de cada indivíduo em seu direito de personalidade. Então, primeiramente, através de decreto, foi estabelecida a adoção do nome social por travestis e transexuais, sem alterar os documentos oficiais. Depois, decisões das mais altas Cortes do Judiciário, com base nas mesmas normas jurídicas que fundamentavam a antiga regra geral da imutabilidade do nome, reconheceram a desnecessidade de ajuizar ação nem realizar operação de adequação sexual para alterar o nome e o sexo no registro civil, e proibiram qualquer remissão à expressão transexual, ao sexo biológico ou aos motivos que levaram à modificação do registro civil. Por fim, decisão de órgão administrativo ligado ao Judiciário, sem a anuência do Poder competente, o Legislativo, emitiu normativo determinando tais providências aos cartórios extrajudiciais.

Ainda na Universidade, conheceu o pessoal da área de Psicologia, e manteve relacionamentos afetivos com dois deles, de quem soube que alguns governantes tiranos haviam usado a Psicologia e a Psiquiatria para perseguir opositores, internando-os em manicômios, isolando-os com loucos de toda a espécie, ou enviando-os a campos de concentração ou gulags. Soube também de certa flexibilidade na elaboração de postulados dessas áreas fundamentais para a sedimentação da teoria de gênero no ordenamento jurídico, e entendeu por que não importavam os inúmeros casos de arrependimento posterior à cirurgia de mudança de sexo, que geravam, inclusive, suicídios. Esse efeito colateral não deveria, de forma alguma, aparecer nas estatísticas.

Depois de formado, Reinaldo passou a exibir as conquistas profissionais e seu talento, e a repetir o discurso da superioridade financeira e intelectual dos homossexuais, embora não dispensasse os favores conferidos pelo Estado às minorias – explorava o vitimismo no coletivo de negros homossexuais, onde atuava desde o tempo da graduação, para manipular a militância, servindo-se também dessa grande massa de manobra comumente manejada por políticos, intelectuais e outros líderes. Havia-se transformado naqueles benfeitores que, de forma fingida, tutelam as minorias com o objetivo de obter vantagens, mantendo-as cativas. Demonizava e desumanizava quem se opunha à ditadura do politicamente correto, abusando de termos como preconceituoso, homofóbico, fascista e nazista. Sabia que, com esse discurso, tornava o inimigo alguém execrável aos olhos da militância. Isso, para alguns, justificava a agressão ou até a remoção física desse adversário. Extremamente inteligente e arrogante, sua empatia era desajustada.

A forma de encarar sua homossexualidade ia modificando com o tempo, mas não queria mudar o sexo. Passou a se vestir como mulher e alterou a documentação, trocando o prenome por Renilda, e tirando o patronímico do pai, para assumir o de solteira da mãe. Guardava da mãe uma lembrança sobre a qual preferia não se aprofundar.

Também fez algumas aplicações de silicone e botox, e mais adiante, já mulher na documentação, foi aprovada em prova de admissão num escritório de advocacia de renome, de uma cidade grande de outro estado, e foi para lá de mala e cuia. Agradava-lhe o fato de ninguém conhecer sua vida pregressa. Já instalada, foi galgando postos rapidamente na empresa, pois, além de inteligente e esforçada, não tinha o menor pudor em atropelar quem se pusesse como obstáculo. Possuía admiradores, mas também desafetos.

Fora do trabalho, como mulher, porque assim se sentia, frequentava bares e boates para azarar rapazes e fazer sexo casual. Estranhamente, enquanto se apresentava como homem homossexual, mantinha relacionamentos com homens homossexuais. Mas ao virar a chave, como mulher, só buscava relações com homens heterossexuais. Ia para a cama apenas depois que o parceiro se embriagasse, ou usasse maconha ou cocaína; e agia como o personagem de M. Butterfly, de David Henry Hwang, ou aproveitava o apagamento ou a falta de freios morais do parceiro, já inebriado. Após a relação sexual, costumava inventar uma desculpa para dispensá-lo, com o objetivo de evitar surpresas ao fim do torpor. Apesar dos cuidados, mantinha sempre por perto um instrumento que a protegesse. Embora reprimisse, não havia perdido a agressividade.

Certa vez, porém, ela dormiu, e acordou, no dia seguinte, com o rapaz aos gritos, indignado por Renilda possuir um pênis, e ainda maior que o seu. Indagava o que teria acontecido: Fora dopado com Rohypnol, ou outra droga de efeito similar? Enrabado? Beijou a boca de outro homem?

Ela deu uma coça de porrete no infeliz, e só parou por medo dos vizinhos ouvirem os gritos. Enquanto o rapaz agonizava, inerte, esperou a hora mais conveniente para transportar aquele corpo todo moído até o porta-malas do carro, e deixá-lo, quase morto, num lixão da periferia. Foi encontrado por um miserável e, após recuperar-se, tamanha era a vergonha, que inventou que havia sido roubado e espancado por bandidos.

Ela submergiu. Passou a fazer sexo apenas com profissionais. Não porque temia repetir o que havia feito — ela percebeu que faria aquilo outras vezes. Só não queria ser interrompida antes da hora. Em pouco tempo, aceitou proposta de emprego em outro Estado, feita por uma advogada para quem, há tempos prestava serviços de correspondência em casos complexos. Foi-se.

Enquanto se dedicava fulltime ao novo emprego, conheceu Geraldo, jovem cristão ligado às formalidades da religião, com quem embalou um relacionamento. De início, conseguiu dominar a satiríase, fazendo-se de santa. Mas encarava a quebra da abstinência sexual dele como um jogo que queria vencer, o que não demorou a acontecer. Aos 3 meses de relacionamento, estava pronta para seduzir o rapaz, e preparou um clima favorável: um vestido bastante sensual, e um jantar à luz de velas, numa espécie de garçonnière que mantinha em lugar retirado. Fazia isso Para evitar passar por outro susto daqueles, e manter o sigilo, registrou o imóvel em seu antigo nome.

Após umas taças de vinho, Geraldo cedeu, para em seguida ser tomado por imenso espanto, ao notar o membro enrijecido de Renilda. Num acesso de fúria, empurrou-a, aos berros, perguntando por que fizera aquilo. Ela pegou a garrafa de champanha que estava sobre a mesa e a quebrou na cabeça de Geraldo, causando um corte profundo, de onde o sangue jorrava. Ele ficou zonzo, seu corpo emborcou já desmaiado. Nesse momento, ela enfiou-lhe várias vezes a parte afiada que segurava pelo gargalo. Nenhuma lágrima correu de seus olhos, não sofreu um minuto sequer. Notou apenas que suas mães continuavam firmes e que, estranhamente, aquilo não a surpreendia. Em seguida, começou a pensar em se livrar do cadáver e das provas, com a certeza de que a polícia não chegaria àquele lugar, nem a ligaria ao imóvel.

Usou um rolo de plástico estrategicamente guardado, para enrolar o cadáver. Levou-o ao carro e depois a um lugar ainda mais isolado, onde ateou fogo com gasolina. No dia seguinte, voltou ao local para destruir as arcadas dentárias e jogar o que sobrou num lago; e em outro lugar incendiou as roupas e a parca mobília do garçonnière, onde poderia ter respingado sangue. Lavou o cômodo com água sanitária e, vestida de homem, falando com voz grave, contratou um pedreiro para reformar o imóvel: mudar o piso e o rodapé, e pintar das paredes, que previamente havia lixado.

Voltou à vida rotineira, e esperou dois dias para ligar à família do namorado e perguntar por ele. Fingiu saudades e disse que ele estava sumido desde o jantar em sua casa. Logicamente, ligou várias vezes para o celular que jazia no fundo do lago.

Renilda foi investigada por não conseguir provar que Geraldo estivera em sua casa. Porém, como o cadáver não apareceu, e não foram encontradas evidências de crime, o rapaz foi engrossar a estatística dos desaparecidos. Sem corpo, sem crime.

Esse foi o start para uma mudança mais radical daquela vida sem laços de amizades fiéis e sem rastros deixados. Pretendia dar frescor àquela figura escondida dentro de si: fria, perversa, manipuladora, que não tinha família, não frequentava redes sociais, e costumava se infiltrar em grupos, associações e coletivos, apenas para manipular as pessoas que, em verdade, desprezava. Sim, era por puro interesse que interagia com as pessoas, fazendo-as se sentirem especiais, sempre dizendo o que queriam ouvir.

Embora insistisse em ser desejada como mulher por heterossexuais, percebeu a dificuldade de encontrar um que aceitasse sua condição de mulher com pênis, e resolveu iniciar o tratamento de transição para mudar o sexo. Não seria difícil, conhecia a estrutura de suporte à ideologia de gênero. Sabia ser quase impossível o contrário. Então, convocou grupos e participou de reuniões para iniciar a campanha de perseguição que o conselho profissional promoveu contra psicólogos que ofereciam terapias de reversão sexual. Lutou com a militância para impedir até que o tratamento, ofensivamente chamado de cura gay, fosse oferecido a homossexuais que buscavam ajuda para se livrar daquela condição e viver como heterossexuais, por se sentirem incomodados.

Não haveria a necessidade de se submeter a um tratamento hormonal severo, em razão da sua constituição física favorável.

O pênis foi retirado, e uma linda vagina, com desenhos e contornos perfeitos, foi esculpida em seu lugar. Renilda fez intervenções cirúrgicas no rosto e passou a usar um cabelão pintado de loiro, além da prótese colocada no bumbum.

Era outra pessoa. Culpava a sociedade, que não a aceitara como era, e a obrigara a tomar essa decisão. Negava-se a reconhecer que o fato de não gostar de se relacionar com homossexuais, e de que esconder que possuía um pênis, causavam a rejeição. Então, resolveu dar vazão, metódica e regularmente, ao ódio que sempre trouxe consigo. Enquanto uns relaxam na academia, e outros batem em sacos de pancada, ela queria matar.

Para zerar tudo, e não gerar desconfianças, pediu transferência para uma filial da empresa, numa cidade grande e distante. Era o quarto estado em que morava.

Resolveu escolher as vítimas sem nenhum padrão, e contar com as facilidades da ocasião. Usaria um expediente diabólico para dificultar as investigações: deixar mostras do seu DNA nas cenas dos crimes, pois os registros que poderiam ligá-la ao sexo biológico haviam sido apagados. Não deixaria digitais. Imitava um caso estudado na faculdade, de um serial killer que deixava provas de DNA de terceiros, recolhidos em lixos, nas ruas, e em casas e locais onde prestava serviços, e cuja prisão fora resultado de uma fatalidade. A polícia procuraria um homem, e ela passaria incólume pelas investigações. Não existia polícia científica, nem registros de seu DNA em arquivos públicos. Além disso, tinha conhecimento de que menos de 10% dos crimes praticados no país são solucionados pela polícia.

Em 5 anos, foram 30 mortos – uma vítima a cada dois meses. A referência era sua idade quando matou Geraldo, a primeira vítima: 31 anos. Na cena do crime, deixava fios descoloridos de seu cabelo, pelos do púbis e do nariz, saliva, cotonetes usados... Não deixou esperma porque não produzia mais. Não havia um padrão de vítima e nenhum padrão de método. Dentre eles, o líder religioso foi o que mais a divertiu. Possuía o mesmo ar de superioridade moral de Geraldo, mas não a sua ingenuidade. Soube o que estava acontecendo antes do fim, o que tornou essa experiência mais interessante para Renilda.

Encerrada a carreira criminosa, planejada em detalhes, preparou-se para arranjar alguém para estar ao seu lado pelo resto da vida. Não teria dificuldades em encontrar: era uma advogada vistosa e bem-sucedida. Beirava os 40 anos, seria fácil dizer que não poderia ter filhos, e que gostaria de adotar. Montou uma triste história de vida: foi abandonada e sofreu abusos; um casal de idosos cuidou dela e teve um final trágico, com câncer e parkinson; o homem com quem se casaria desapareceu sem deixar rastros, levando-a a viver para o trabalho; e mudara de estado para esquecer as perdas suportadas em sua triste vida. Calculou que não seria difícil dar vazão a todo o seu apreço por manipular as pessoas.

Assim o fez. Casou com Astolfo, e juntos adotaram as gêmeas Lucy e Luma, que sofreram um bocado nas mãos da mãe, que não sabia amar, enquanto cresciam. O pai, porém, as amava pelos dois.

O tempo passou, e ela levava a vida de casada do jeitinho que havia programado. Entretanto, em alguns momentos Astolfo a desarmava sem perceber, e ela precisava se lembrar que isso também fazia parte. Além disso, Lucy estava casada e engravidara; e Luma estava na Espanha, fazendo Doutorado.

Quando Renilda pensava que tudo estava resolvido, e que seria feliz para sempre, teve uma síncope e parou no hospital, onde foi atendida e realizou uma bateria de exames. Um sangramento estranho deixou uma marca no lençol do leito em que ela ficava deitada, enquanto aguardava os horários de fazer os exames e buscar os resultados. Preocupado, o médico, sob muitos protestos da paciente, empreendeu uma análise detida para, então, diagnosticar o problema: câncer de próstata.

  

Fernando César Borges Peixoto

Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

 


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A pergunta que não quer LACRAR...



Retirei o like de várias páginas da grande mídia, porque só recebia matérias com fofocas, feiquinius e distorção da verdade sobre Bolsonaro.

Tomei cuidado para separar os temas abaixo, e verificar que os veículos de (s) informação publicaram algo sobre, mas tudo deve ter ido parar num "limbo da redação", porque estão longe da divulgação ostensiva dada aos "problemas" com Carlos Bolsonaro, a propaganda do Banco do Brasil e o combate ao reconhecimento do país como polo de turismo gay:

a) A lei que criou a Empresa Simples de Crédito (SEC), sancionada por Bolsonaro, com o objetivo de tornar mais barato o crédito para os pequenos investidores (https://istoe.com.br/bolsonaro-sanciona-lei-de-criacao-da-empresa-simples-de-credito/);

b) O ato assinado por Bolsonaro para retirar o sigilo de operações de crédito que envolve recursos públicos (https://oglobo.globo.com/economia/bolsonaro-assina-ato-que-retira-sigilo-de-operacoes-de-credito-envolvendo-recursos-publicos-23623140);

c) A economia de mais de R$ 1 trilhão em 10 anos, com a proposta de reforma da previdência do governo Bolsonaro (https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7937428/proposta-de-reforma-da-previdencia-preve-economia-de-r-116-trilhao-em-10-anos);

d) A previsão de geração de 4,3 milhões de empregos até 2022, com a proposta de reforma da previdência do governo Bolsonaro (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2019/04/26/internas_economia,751710/reforma-pode-gerar-4-3-milhoes-de-empregos-ate-2022-diz-bolsonaro.shtml);

e) A criação do novo Cadastro Nacional de Pescadores, com vistas a identificar e extinguir fraudes praticadas no recebimento do seguro-defeso (https://noticias.r7.com/brasil/bolsonaro-anuncia-novo-cadastro-do-seguro-defeso-contra-fraude-18042019);


g) A Operação #PC27, deflagrada pelo Conselho Nacional de Chefes de Polícia Civil (CONCPC), que efetuou 3.381 prisões de foragidos da Justiça em todo o país, que praticaram crimes considerados graves, como homicídio, estupro de vulnerável, roubo majorado, receptação e tráfico de drogas, entre outros (https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2019/04/24/policia-civil-deflagra-operacao-nacional-para-cumprir-mandados-de-prisao.ghtml).


O mesmo vale para o Morning Show... E no caso do programa da rádio Jovem Pan, como foi questionado acima, a pergunta que não quer lacrar é: os temas não foram abordados no programa por que...

1) Não dá para lacrar em cima?

2) Impede o lançamento de dejetos pela militância anti-Bolsonaro?

3) 80% dos participantes do programa não possuem capacidade intelectual para participarem de debate sobre os temas?

Segue o jogo, Presidente.


Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, gosta de escrever e, de certa forma, é um saudosista.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O garçom do atendimento personalíssimo


Enquanto vários clientes chegavam à Praça de Alimentação, Eurípedes, se não mirava o olhar no infinito ou fingia ajeitar a meia do pé esquerdo, voltava ao balcão para perguntar algo nonsense à mocinha do caixa. Às vezes apontava clientes de longe aos colegas, e quando estavam próximos, chegava mesmo a se esquivar para não esbarrar-lhes o corpo e evitar fadiga. Para ser atendido por ele, era necessária muita sorte.

Dali a quatro meses estaria aposentado — cento e vinte e nove dias, para ser mais exato —, e negava o esforço para encher os bolsos do patrão. Não precisava mais daquilo, pensava. Como recebia um fixo, podia dispensar a gorjeta, ainda mais que a mulher estava bem colocada como merendeira numa escola estadual, e aos fins de semana fazia salgados, doces e bolos para festas, pelo Dhelmyra Mini-Buffet.

Há três anos no Galeto Arisco, sempre desviou chopes e petiscos para conhecidos que se aventuravam pelos lados do Centro Comercial em que dava expediente. Mas, em determinado momento, deu zebra, pois o patrão empregou um paraíba neurótico para fiscalizar e anotar os produtos que saíam da cozinha. No primeiro mês, não estava esperto e tomou uns quinhentos contos de prejuízo. Um absurdo! Eurípedes berrou. Berrou muito... E foi por isso que, no dia em que a galera da sinuca chegou em peso, pedindo chopes a “2 por 1” de forma desinibida, ele quase teve uma convulsão. Disse que havia sujado, e pediu para falarem baixo, pois poderia pegar uma justa causa já próximo à aposentadoria.

Em especial no ambiente de trabalho, era um resmungão mal-agradecido. Aprendera com um primo, dirigente de sindicato, que patrão é tudo ladrão e explorador, e que é dever do empregado “entrar na Justiça” toda vez que sair de uma empresa. O conselho, ele sempre seguira à risca.

Era contra dividir a gorjeta com a cambada da cozinha que votava em políticos “nazistas dos infernos”, saudosistas da ditadura fascista, que iriam entregar o país aos Estados Unidos e trazer de volta a pobreza. Sentia mal-estar ao pensar que não faria o primeiro voo de avião enquanto um vendido aos ianques estivesse no poder. E quando indagado o porquê de ainda não ter feito, respondia que demorava muito recuperar a economia para todos.

O patrão, que ele tanto odiava, também votava na direita; e sempre o recriminava pelos processos de reparação por danos morais que Eurípedes moveu contra dois (ex) antigos clientes do restaurante, acusando-os de racismo. Não o mandava embora por sentir um grande carinho pelo funcionário, que não sabia explicar.

Mas, na vida, nem tudo é flores, e esse cônscio senhor de seus direitos, não podia ver uma nota de um galo (ou uma onça) bobeando no caixa, que dava logo um perdido; sem contar as mercadorias que frequentemente desviava, numa operação casada com um vizinho que trabalhava perto do restaurante, e vinha de moto para pegar o produto do furto, devidamente acondicionado, e deixado num saco de lixo próximo à lixeira, para divisão posterior.

Certa vez, questionado por sua mulher, sobre não sentir vergonha de fazer isso, e por não se colocar no lugar dela, que era uma microempresária, respondeu o que aprendera com o primo: “estou agindo segundo a moral revolucionária, contra a moral burguesa. Se você é patroa, ponha as barbas de molho e não chore a expropriação”.

Infelizmente, esse é o retrato da inveja e do desprezo pelo empreendedor, que estão arraigados no sentimento do brasileiro.

Apesar do mau humor, os colegas de trabalho, muitas vezes vítimas de desconfiança injusta pelo sumiço de peças de queijo ou de salaminho que ele dava cabo, juntavam grana para a festa de despedida do Euri, como era carinhosamente chamado.

Um dia, porém, a filha do patrão, que depois de sair da faculdade se juntava à mãe para pegar no pesado, na cozinha do restaurante do pai, viu Eurípedes enfiar várias porções de franguinho, recém-preparadas pelos ajudantes de cozinha, num saco de lixo, e o seguiu até vê-lo colocar ao lado da lixeira, acenando para um motoqueiro que se aproximava. Com o coração na mão, por causa da aposentadoria iminente, o patrão se viu forçado a demiti-lo por justa causa.

A situação foi devidamente revertida na Justiça Laboral. O juiz reconheceu que o coitado teria até cometido falhas, mas apontou que o patrão não poderia despedi-lo naquele período da pré-aposentadoria, nem tê-lo constrangido no ambiente de trabalho.

Um dos fundamentos da decisão, uma pérola jurídica, foi a analogia à “Teoria da Lógica do Assalto”, da pensadora Márcia Tiburi. Eurípedes foi dispensado pelo patrão, que continuou pagando seu salário, mas para não ficar mal com a patroa, foi matar o tempo trabalhando em seu Mini-Buffet. A esposa precisou regularizar a empresa para contratá-lo — exigência dele —, porque até ali atuava na informalidade. Logicamente, isso a levou à falência pouco tempo depois, mas não foi sequer objeto de discussão.

O proprietário fechou o Galeto Arisco, e foi viver com a família nos Estados Unidos, aproveitando seu passaporte italiano.

Os antigos colegas de trabalho engrossaram a lista dos desempregados, e um deles chegou a ouvir de Euri que “isso é efeito do sistema porco do capitalismo”.

E ele ainda considerava que a justiça, enfim, havia sido feita em seu caso (!), pois recebeu uma boa verba indenizatória, fixada por Sua Excelência na sentença, a título do "constrangimento" sofrido. A decisão, aliás, sequer foi objeto de recurso, por falta de confiança do requerido nas instituições que, segundo juram, continuam funcionando.



Fernando César Borges Peixoto
Advogado, niteroiense, conservador, metido a escritor e, de certa forma, é um saudosista.